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Em busca da memória perdida: os efeitos de sentido em Memento

4 O FILME MEMENTO

4.2 Em busca da memória perdida: os efeitos de sentido em Memento

O filme Memento, lançando no ano de 2000, é baseado no conto “Memento Mori” e, como tal, preserva grande parte de sua obra base, mas adaptando-a para a linguagem cinematográfica. Escrito e dirigido por Christopher Nolan, o filme se propõe a ser uma espécie de quebra-cabeça a ser montado pelo espectador. Lembramos aqui o fazer interpretativo, com o papel do enunciatário também na qualidade de sujeito da enunciação. Ao analisar o filme, enquanto texto e discurso, tendo como ponto de referência o protagonista, procuramos identificar os principais elementos do filme.

Partindo para a análise, o texto fílmico apresenta duas ordens narrativas opostas pelas cores: uma colorida e outra em preto e branco. Esta está disposta de forma linear e aquela com a cronologia invertida. Então, o filme segue intercalando as sequências45 que passam de um ponto de vista objetivo (preto e branco) para o subjetivo (colorido).

45 “Uma série de tomadas (cenas) ligadas por continuidade. A denominação para cena em cinema” (ANCINE,

Figura 6 – Esquema narrativo do filme Memento.

Fonte: Elaborada pela autora.

Na figura acima, as sequências estão numeradas de acordo com sua ordem na narrativa fílmica. Vale ressaltar que esta é uma mera ilustração de como a narrativa está disposta e não apresenta o número exato de cenas que contém o longa. O filme apresenta vinte e duas sequências em cores e vinte e duas sequências em preto e branco que são montadas de forma intercalada. Na vigésima segunda sequência em preto e branco, há um sincretismo com a sequência em cores, que poderia ser numerada como a vigésima terceira sequência em cores que segue até os créditos do filme. Destarte, o filme tem início com uma cena46 colorida em que vemos, de trás para frente, o protagonista, Leonard Shelby, matar alguém. Esse alguém é Teddy. A cena se dá no seguinte conjunto de tomadas47: plano de detalhe48 de uma fotografia

Polaroid com a imagem de um homem morto que é segurada e sacudida por alguém enquanto

a imagem começa a sumir até o ponto em que a fotografia fica completamente branca. Desse

46“Unidade dramática do roteiro, seção contínua de ação, dentro de uma mesma localização. Seqüência dramática

com unidade de lugar e tempo, que pode ser "coberta" de vários ângulos no momento da filmagem. Cada um desses ângulos pode ser chamado de plano ou tomada” (ANCINE, 2008, p. 26).

47“Filmagem contínua de cada segmento específico da ação do filme” (Ibid., p. 66).

48“Mostra apenas um detalhe, como, por exemplo, os olhos do ator, dominando praticamente todo o quadro” (Ibid.,

ponto, a fotografia é levada de volta para a máquina que a suga para dentro e dispara seu flash. A câmera cinematográfica foca no sangue da vítima que se esvai num movimento vertical oposto, como se o líquido estivesse subindo pelo chão, depois mostra o projétil no chão e um par de óculos sujo de sangue. A arma se descola do chão e volta para a mão de Leonard, que se abaixa em um movimento de aproximação ao corpo do morto. Assim, todos os objetos focados pela câmera retornam a seus lugares de origem: o projétil retorna para a arma, o par de óculos retorna para o rosto do homem morto, assim como seu sangue, e a arma dispara enquanto está apontada para a cabeça do homem (que depois saberemos que se chama Teddy) que grita e um breve fade out49 corta para a próxima cena. E assim finaliza a primeira cena de Memento que é exibida de forma regressiva.

O início de Memento, uma espécie de prólogo que se diferencia do restante do filme, tem a função de indicar que o filme seguirá na ordem inversa e pode ser considerado bastante simbólico. Temos certos elementos cujos papéis são de sugerir algo para o espectador. São símbolos dramáticos. Alguns desses elementos são: a bala no chão, os óculos sujos de sangue, a Polaroid, a aliança na mão de Leonard, os dois arranhões em seu rosto, o sangue que, num plano vertical, sobe, além de focar na parte de trás da cabeça de Teddy, e é finalizada com um breve fade out no momento em que a arma é disparada.

Como pontua Marcel Martin (2003), a câmera é um instrumento capaz de dominar o tempo, podendo tanto acelerar, quanto retardar, inverter ou deter o movimento. Assim, no início do filme, o diretor faz a inversão do tempo e do movimento, que acontecem desde o momento em que Leonard atira em Teddy, seguindo para o momento em que ele fotografa o morto com uma máquina Polaroid e a imagem surge no papel. No filme, esta cena inicia com a Polaroid se apagando e termina em um breve fade out do momento do tiro. Esta inversão tem o objetivo de mostrar ao espectador que o longa seguirá, não com a imagem invertida como acontece na cena de abertura, mas com a cronologia invertida, ou seja, com a ordem dos eventos retrocedendo. Outro detalhe a ser ressaltado é o fato de que a cena invertida inicial está em cores, o que quer dizer que somente as cenas em cores estão dispostas de forma cronologicamente invertida.

Figura 7 – Início de Memento: cena cronologicamente invertida.

Fonte: Filme Memento (2000).

Depois de um breve fade in50 , a sequência em preto e branco inicia em primeiríssimo plano com a câmera focando, em perfil, a boca de Leonard e deslocando-se, em um movimento vertical para cima, até a linha dos olhos dele, corta para a sua mão pegando uma chave em plano de detalhe e corta para o seu rosto em close-up (plano de detalhe). Vemos planos de ambientação em que partes do quarto de hotel em que Leonard está são mostradas. Depois, um plano conjunto51 em plongée52 enquadrando, de forma inclinada, o protagonista que, adquirindo um significado psicológico, revela um pouco da confusão mental de Leonard sentado na cama tentando se situar sobre o lugar onde está. Além disso, esse plano também indica a solidão do protagonista.

50“O surgir da imagem a partir de uma tela escura ou clara, que gradualmente atinge a sua intensidade normal de

luz” (ANCINE, 2008, p. 38).

51“Plano um pouco mais fechado do que o plano geral” (ANCINE, 2008, p. 52).

52A plongée é um ângulo de filmagem “(filmada de cima para baixo) tende, com efeito, a apequenar o indivíduo,

a esmagá-lo moralmente, rebaixando-o ao nível do chão, fazendo dele objeto preso a um determinismo insuperável, um joguete da fatalidade” (MARTIN, 2003, p. 41).

Enquanto a cena segue, o espectador ouve a voz de Leonard em voice off53, ou seja, vemos o protagonista, mas a sua boca não se movimenta. Esta técnica é utilizada para criar a ilusão de uma segunda pessoa, mas que na verdade é a voz do próprio personagem, uma espécie de voz mental. As cenas em preto e branco são utilizadas para o espectador entender a condição de Leonard e também foram planejadas para serem semelhantes a um documentário em que um narrador assume a voz. Dessa forma, o filme continua alternando as duas linhas narrativas, em cores e em preto e branco, até que as duas se encontrem no final do filme e se tornem uma só. Os actantes/atores são: Leonard Shelby (Guy Pearce), Natalie (Carrie-Anne Moss), Teddy (Joe Pantoliano), Burt (Mark Boone, Junior), Catherine Shelby (Jorja Fox), Sammy Jankis (Stephen Tobolowsky), Sra. Jankis (Harriet Sanson Harris), Dodd (Callum Keith Rennie) e Jimmy Grantz (Larry Holden).

As categorias de pessoa, espaço e tempo são projeções da enunciação no enunciado, ou seja, são do domínio do discurso. Para Christian Metz (2007, p. 33-34), “o que delimita um discurso em relação ao resto do mundo, e o que ao mesmo tempo o opõe ao mundo ‘real’, é que um discurso é necessariamente proferido por alguém [...]; é, pelo contrário, uma das características do mundo não ser proferido por ninguém”. O discurso pode ser entendido como um enunciado ou como um texto.

Segundo Benveniste (1988), o homem se constitui como sujeito na linguagem e pela linguagem, uma vez que só a linguagem funda o conceito de ego. A categoria de pessoa é responsável por enunciar um espaço e um tempo e estes organizam-se em torno do sujeito. Assim, a debreagem e a embreagem são, respectivamente, mecanismos de instauração e restauração do simulacro do sujeito, do espaço e do tempo.

Nas cenas da linha narrativa em preto e branco temos uma enunciação-enunciada, em que um eu (Leonard) fala para um tu em voice off, ou seja, uma voz mental é sobreposta à imagem. Assim, temos uma debreagem enunciativa que se inicia com a seguinte fala: “Então, onde está você? Você está em um quarto de motel. Você acorda e está num quarto de motel. Aqui está a chave. Talvez esteja aqui pela primeira vez, mas... talvez esteja a mais ou menos uma semana, três meses. É bem difícil dizer. Eu não sei”. É preciso ressaltar que o sujeito inicia essa passagem com o pronome pessoal você, mas continua com o eu. O você é utilizado quando o sujeito da enunciação se refere a ele mesmo, como se sua personalidade fosse duplicada. O sujeito da enunciação enunciada é apresentado em um quarto, sentado em uma cama,

53“A voz em off tem um papel considerável no cinema. Pode ser utilizada na terceira pessoa, quando o locutor não

participa da ação [...], ou na primeira pessoa, quando o comentário é de um personagem da ação [...]” (Ibid., p. 185-186).

aparentemente confuso e sozinho. Assim, esse sujeito, Leonard, acorda e observa esse espaço tentando se situar. Temos aí a projeção de um eu/aqui/agora. “Com a desembreagem criam-se, ao mesmo tempo, o sujeito, o tempo e o espaço da enunciação e a representação actancial/actorial, espacial e temporal do enunciado. A enunciação explora, na desembreagem, as categorias da pessoa, do espaço e do tempo” (BARROS, 2002, p. 73). Com a primeira cena em preto e branco são instaurados o sujeito, o espaço e o tempo da enunciação do texto fílmico. O narrador, em primeira pessoa, é o próprio personagem da cena. Mas essa projeção do sujeito no tempo presente somente pode ser entendida enquanto presente se analisada apenas em relação às sequências em preto e branco. Quando comparadas às sequências em cores, o tempo se torna passado, pois o que é apresentado nas imagens em preto e branco se situa em uma relação de anterioridade ao que é apresentado nas cenas em cores.

Nas cenas coloridas, também temos uma representação de um presente no enunciado. O cinema privilegia ações no presente. Mas o presente aqui projetado vai se tornando passado na medida em que corre para trás. Analisando cada cena como uma totalidade, teremos uma debreagem enunciativa, pois também temos a projeção de um eu/aqui/agora. Podemos afirmar isso porque em vários momentos do filme a câmera foca o rosto de Leonard em primeiríssimo plano (close-up), em primeiro plano em um ângulo frontal ou a câmera segue no ombro do sujeito. Nesses planos é possível ver bem as expressões do sujeito. Além disso, tudo é observado do ponto de vista de Leonard, mesmo quando outros personagens ou actantes compartilham o mesmo espaço que ele. Assim, a debreagem enunciativa cria o efeito de subjetividade.

O mais intrigante é que em alguns momentos do discurso o sujeito cria um outro: Sammy Jankis. A esse outro são atribuídas semelhanças e diferenças com relação ao próprio sujeito. Uma dessas semelhanças é que os dois possuem amnésia anterógrada. Mas outras semelhanças são mascaradas pelo sujeito do discurso. Já as diferenças são exaltadas. O sujeito do enunciado se põe sempre em posição de superioridade em relação a Sammy Jankis. Leonard se mostra diferente, melhor, tem um sistema, tem uma motivação, características que faltaram a Sammy Jankis e o levaram à inutilidade. Leonard teria descoberto uma forma de continuar sua vida e de não ser enganado: é disciplinado, é autocondicionado, tem uma grande motivação e um objetivo, a vingança. Porém, com o desenvolvimento da trama, percebemos que Leonard manipula a si mesmo e que a narrativa que ele atribui a Sammy pode ser, na verdade, algo que aconteceu ao próprio Leonard Shelby e que, por motivos de autopreservação, ele esqueceu ou transferiu a um outro. Dessa forma, o ele (Sammy Jankis) pode ser o próprio sujeito do enunciado neutralizado pelo uso do pronome em terceira pessoa do singular e pelo investimento

de uma outra identidade. Nesse caso, temos uma embreagem actancial. “A embreagem actancial diz respeito à neutralização na categoria de pessoa” (FIORIN, 1995b, p. 29). O ele (Sammy Jankis) neutraliza o eu (Leonard Shelby). Sammy Jankis e sua história são fundamentais para o entendimento da condição de Leonard, e a história de Sammy também funciona como uma lição para Leonard, algo que deve ser evitado, por isso Leonard carrega em seu corpo a tatuagem: “Lembre-se de Sammy Jankis”. Um memento importante para a constituição da personalidade do sujeito do discurso. E por que não pensar que essa frase (“Lembre-se de Sammy Jankis”) também pode significar lembre-se de quem você é? Temos aqui uma ambiguidade. Sammy é uma figura que pode remeter a vários temas dentro do discurso fílmico.

Quando se trata de ponto de vista, Barros (2002) diz que há três aspectos a considerar: a delegação da voz, a organização do saber e a relação entre os papéis do discurso e da narrativa. Investigando estes aspectos no filme Memento, verificamos que, no primeiro aspecto, temos discursos narrados em primeira pessoa. Ou seja, “o enunciador pode construir o discurso como uma metonímia ou como uma metáfora da enunciação” (FIORIN, 1996, 103). Quanto ao saber, acreditamos que há um impasse em relação a isso na obra, uma vez que o enunciador é ambíguo e não deixa claro se sua condição é algo real ou se é uma fuga da realidade, assim como também não podemos afirmar que a mulher de Leonard morreu no ataque ou se morreu de overdose de insulina provocada pelo próprio Leonard. Quanto ao narrador, tanto nas cenas em preto e branco quanto nas coloridas, ele está em sincretismo com o actante narrativo, ou seja, o narrador exerce o papel de personagem principal da narrativa fílmica. Segundo Greimas e Courtés, isso se explica porque narrador e narratário são “actantes da enunciação enunciada, são eles sujeitos diretamente delegados do enunciador e do enunciatário, e podem encontrar-se em sincretismo com um dos actantes do enunciado (ou da narração), tal como o sujeito do fazer pragmático ou sujeito cognitivo, por exemplo” (2016, p. 327). No filme em questão, o narrador intervém a todo instante na narrativa, pois ele é um actante/ator ou sujeito do fazer.

No filme estão presentes várias figuras que representam temas diversos. John G. é um significante associado ao significado assassino. A busca por John G. revela o caráter obsessivo de um sujeito que cria um outro antagônico que também tem a função de completar a ele mesmo. Esse outro virtualizado se atualiza conforme a necessidade ou vontade de Leonard. Assim, Teddy (John Edward Gammell) se torna John G. e é assassinado, da mesma forma que Jimmy Grantz.

John G. é o nome do suposto assassino da esposa de Leonard e também o suposto responsável pelo ferimento em sua cabeça, o que causou a amnésia anterógrada. Mas a real

existência dessa pessoa é algo questionável dentro do filme. Primeiro, John G. é um nome bastante comum e que abre um leque de possibilidades de suspeitos. Segundo, na tatuagem que fala sobre o terceiro fato, temos o nome “John” tatuado com uma fonte específica e em baixo temos “ou James”, tatuado com uma fonte diferente, como se tivesse sido feita por um amador ou pelo próprio Leonard, o que denota que esta pode ter sido adicionada posteriormente. Figura 8 – Tatuagem "John G. estuprou e assassinou minha mulher"

Fonte: Filme Memento (2000).

A alternância e inserção de nomes mostra que não importa quem o assassino realmente é e também mostra que Leonard manipula a si próprio. John G. é um significante que pode ser preenchido por diferentes significados. Um exemplo disso é o personagem Teddy, que se chama na verdade John Edward Gammell e por isso pôde ser adicionado à lista de supostos assassinos, mas não somente por ter esse nome, ele passou a ser procurado por Leonard após ameaçar a sua história contando-lhe a verdade. Além de Teddy, Jimmy (diminutivo de James) Grantz, o homem assassinado por Leonard no fim do longa, também passa a ser considerado John G. Com a evolução da narrativa, vemos que John G. é uma espécie de duplo de Leonard, o inverso de Leonard, uma externalização de seus atributos negativos.

Sammy Jankis também é um nome constantemente retomado na narrativa fílmica. Marcado em Leonard através de uma tatuagem que diz: “Lembre-se de Sammy Jankis”, ele é um lembrete sobre o que Shelby deve evitar se tornar. Leonard, apesar de relatar sofrer da

mesma condição de Sammy, se considera superior por seguir um sistema que tem por base o condicionamento. Segundo Leonard, Sammy não era organizado, escrevia muitas coisas e se confundia.

Leonard conta, em voice off durante o flashback relacionado a Sammy, que era investigador de uma companhia de seguros quando conheceu Sammy. Ele investigava pedidos de indenização e, por isso, tinha que identificar possíveis mentiras. Sammuel R. Jankis era um contador que, após um acidente de carro com a esposa, teve a memória comprometida pela perda da memória recente. Com isso, Sammy perde a memória depois de alguns minutos e por isso é impossibilitado de trabalhar. O que fez Leonard desconfiar da veracidade da condição de Sammy foi o fato de que ele não conseguia acompanhar coisas simples, mas podia fazer coisas complicadas, desde que tivesse aprendido antes do acidente.

Figura 9 – Sammy Jankis e sua esposa.

Fonte: Filme Memento (2000).

Toda vez que via Sammy, Leonard captava um leve “olhar de reconhecimento”, mas Sammy negava conhecê-lo. Desconfiado, Leonard pede mais exames. Com o resultado dos testes, o problema de Sammy foi considerado psicológico e não físico e ele não pôde receber a indenização. Porém, o laudo da investigação de Leonard não foi justo e teve graves consequências para a esposa de Sammy. Para o senhor Jankis, o condicionamento não funcionou. Ao duvidar da doença de seu marido, a senhora Jenkis resolve tirar a prova. Como Sammy sempre foi o responsável por aplicar-lhe insulina, a senhora Jenkis faz com que ele

aplique a dose mais de uma vez. Com isso, ela esperava que Sammy não tivesse coragem de continuar o fingimento, pois poderia matá-la. Mas Sammy, sem parecer perceber, continua a aplicar a insulina até provocar um coma em sua mulher e, consequentemente, a sua morte. Com isso, Sammy é internado em um hospital psiquiátrico.

A insistência de Leonard em contar a história de Sammy Jankis e de se afirmar diferente e superior a ele por causa de seu sistema pode revelar uma fuga da verdade por parte de Leonard. Em momentos do filme, percebemos que Leonard e Sammy podem ser a mesma pessoa. No final do filme, Teddy revela a Leonard que o verdadeiro Sammy era um charlatão e que a história que Leonard conta constantemente teria sido vivida por ele. Então, Leonard estaria supostamente se manipulando para tentar fugir da realidade e da culpa por ter sido o causador da morte acidental de sua mulher. Em alguns momentos do filme é possível ver, rapidamente em frames54, a imagem de Leonard no mesmo hospital, na mesma posição e com as mesmas roupas de Sammy. O flashback de Leonard aplicando insulina em sua esposa, sendo justaposta à imagem de Leonard apenas beliscando o local onde anteriormente estava colocando a seringa (Figura 22) também revela a capacidade de criar lembranças que nunca existiram, ou substituir as que existiram por outras. Tais imagens nos levam a pensar que algumas lembranças de Leonard podem ser apenas construções de sua imaginação.

A vingança é um tema que remete a algo desejado pelo sujeito do filme. Mas a motivação para tal é dúbia, sendo a própria vingança uma motivação para a existência de Leonard. Sob pretexto de vingar a morte da mulher, nosso protagonista embarca em uma narrativa criada por ele mesmo. Por diversas vezes na narrativa fílmica, a vingança é evocada e justificada. Para conseguir concretizar esse desejo de alcançar o objeto vingança, Leonard aceita o pacto de manipulação estabelecido entre ele e ele mesmo, e também é manipulado por outros actantes/atores, tais como Natalie e Teddy. Porém, pelo caráter cíclico que a narrativa demonstra ter no final, vemos que o processo é mais importante que o fim e que esse processo sempre vai se repetir, variando somente o objeto da vingança.

A vingança é uma isotopia que também é um tema. Motivado pelo desejo de vingança, Leonard busca, a qualquer custo, encontrar John G. para vingar a morte de sua esposa. Como estado motivado por uma passionalidade, a vingança é o motor da vida de Leonard. Aliás, ela é um prazer ligado ao futuro, mas, para Leonard, também tem uma grande ligação com o presente, uma vez que ela é o que dá sentido à sua vida.

A memória também é um tema constante na narrativa fílmica. Posicionada na dêixes negativa, a memória é considerada enganadora. Ao longo de todo o filme, flashbacks são usados para transmitir esse caráter dúbio da memória.