POLÍTICAS PÚBLICAS DE CULTURA E DESENVOLVIMENTO: PONTOS E CONTRAPONTOS
2. Políticas culturais
2.2 Em busca de objetivos
Alguns autores que estudam políticas culturais não se preocupam tanto em conceituá-las, mas preferem o caminho de fazer uma espécie de orientações de como elas deveriam ser, deixando implícitos estilos, ideologias e visões acerca de seus objetivos. Alexandre Melo afirma que os obstáculos para quem se destina a pesquisar políticas culturais são muitos, complexos e diversificados em sua natureza, observando que até mesmo na definição de objetivos das políticas culturais encontram-se muitas dificuldades:
Um problema em que as clivagens políticas e ideológicas se cruzam com os simples jogos de linguagem e que por isso servem freqüentemente para alimentar discussões equivocadas em que uma insuficiente classificação de noções permite arrastar polêmicas cujo verdadeiro alcance e conteúdo acaba por não chegar a ser perceptível. (MELO, 1997, p.1)
De certo, muitos fatores terminam influenciando a criação de uma política cultural, seus estilos e objetivos. Questões sociais, culturais, as relações políticas nas diversas esferas (federal, governamental e municipal) bem como o limite de recursos que estão à disposição, são alguns dos fatores que determinarão a construção das metas e objetivos das ações de determinada política cultural. Além desses fatores, como bem orienta Calabre (2009, p.264), a definição de suas metas deve ser feita a partir de duas delimitações: dos atores sociais envolvidos (públicos ou agentes realizadores) e das interfaces e transversalidades de cada uma das ações que dão vida a uma política.
Outro ponto importante referente à natureza das políticas culturais é sua transversalidade, na medida em que elas geram entrelaçamentos entre as
diversas áreas da atuação governamental – econômica, saúde, educação, patrimônio, dentre outras –, alcançando uma amplitude que ultrapassa as necessidades imediatas da cultura, além de estimular a inovação:
Os objetivos de tal política devem ser não só satisfazer as necessidades culturais, mas também despertar novos desejos, construir, reconstruir, transformar ou consolidar novos cenários culturais, em uma sociedade cada vez mais voltada para o reconhecimento e a garantia do direito e da diversidade culturais. (CALABRE, 2010, p.9)
Feijó não faz uma série de metas ou objetivos de uma política cultural, mas faz uma significativa reflexão geral sobre o “para que” uma política cultural pública deve existir: “é para diminuir os limites que deve haver uma política cultural, não para reforçá-los” (1983, p. 33). A reflexão que o autor faz ao longo da sua obra termina funcionando como “pensamento-base” para a construção de objetivos de uma política cultural. Algumas de suas máximas comprovam isso, como: “Não se pode confundir cultura a serviço da política com política a serviço da cultura” (idem, p.9); “A política cultural deve ser não no sentido de enquadrar o criador cultural, mas no de contribuir para a sua consciência” (idem, p.32); e faz uma crítica sobre o destino da política cultural brasileira: “E mais: para o povo, só folclore. Para os intelectuais: verbas oficiais para o aceitável (num mecenato clientelista) e censura para o inaceitável” (p.67-68).
Rubiano, apoiado em Carvalho, segue a idéia geral defendida por Feijó, para o qual a política cultural deve ser democrática e integrada, deixar claro que tal política deve ter como objetivo o estreitamento de mundo mediante “experiências estéticas”, buscando apoios institucionais que minimizem as tendências monopólicas e garantem a liberdade e autonomia criativa de todos os cidadãos. Ou seja, a política cultural é para integrar, garantir a pluralidade e o exercício da democracia:
Los âmbitos de lo legítimo, culturalmente hablando, cada vez son más borrosos. (...) Las políticas culturales, en un verdadero sentido plural — es decir, que reconozcan que no hay uma sola concepción legítima de la cultura (ni
culta, ni popular, ni masiva, pues las versiones populistas del culturalismo terminaron por deslegitimar a la llamada cultura culta, al demostrar que su propuesta de pluralidades sólo una falsa pretensión) —, deben buscar arreglos institucionales que contrarresten tendências monopólicas y aseguren la libertad y autonomía creativa, que subdividan los circuitos culturales débileso sin rentabilidad y que impulse circuitos públicos controlados por órganos autónomos, descentralizados y representativos que visibilicen los intereses diversos de los ciudadanos. (RUBIANO, 2006, p.130).3
Em uma explanação pertinente, prática e objetiva, Reis (2007, p.143- 169) atribui à política cultural os seguintes objetivos, considerados por ela como os mais freqüentes e relevantes, atentando para o fato de que eles são interdependentes de outras políticas públicas (econômica, social, educacional, de turismo e das relações exteriores): a) diversidade cultural; b) democracia cultural e inclusão; c) cultura e identidades; d) regeneração geográfica e qualidade de vida; e) cultura e imagem nacional. Partindo da argumentação dessa autora, podemos concluir que as políticas culturais dependem de outras políticas públicas, sendo necessária a integração entre elas para que os objetivos da política cultural sejam alcançados.
Para Barbosa e Araújo (2010), “a intenção ou o objetivo das políticas culturais se relacionam com a democracia política e social (p.14). Eles associam direitos culturais com a democracia e com a ampliação dos canais de participação e exercício da política (idem). Os mesmos pesquisadores afirmam que os elementos comuns das políticas culturais realizadas pelo governo federal são a garantia dos direitos culturais e a construção da democracia cultural.
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3 As áreas do legítimo, culturalmente falando, são cada vez mais imprecisas. (...) As
políticas culturais, em um verdadeiro sentido plural – quer dizer, que reconhece que não há uma só concepção legítima da cultura (nem culta, nem popular, nem massiva, pois as versões populistas do culturalismo terminaram por deslegitimar a chamada cultura culta, ao demonstrar que sua proposta de pluralidade era somente uma falsa pretensão) –, devem buscar arranjos institucionais que contrariem tendências monopólicas e assegurem a liberdade e autonomia criativa, que subdividam os circuitos culturais fracos e sem rentabilidade e que promove circuitos públicos controlados por órgãos autônomos, descentralizados e representativos, que visibilizem os interesses diversos dos cidadãos. (RUBIANO, 2006, p.130).
Percebe-se que a questão da democracia enquanto direito à participação em atividades culturais diversas, do direito a criar e da oportunidade de difundir a cultura é bastante forte nos objetivos das políticas culturais. É como se a maior intenção de todas fosse justamente dar “voz e vez” ao cidadão comum, sendo levado em consideração o seu potencial de participação e de contribuição nas tomadas de decisões, sendo o mesmo um portador de idéias, ainda que existam outras forças maiores que, muito provavelmente, serão responsáveis pelas decisões finais.