2. As Concepções Político-Ideológicas do Sindicalismo
5.3. Em Busca de um Sindicalismo Emancipatório
A grande dificuldade intrínseca aos movimentos operários com viés combativo situa-se em consitua-seguir demonstrar que situa-seus posicionamentos radicais não estariam superados pelo mundo do trabalho, confirmando que ainda possuem um lugar próprio dentro das relações laborais, e mais, que estariam dotados de força para enfrentar as concepções neoliberais. A realidade conjuntural nos demonstra um outro panorama.
O presidente Luis Inácio Lula da Silva, assim preconizou:
“Não temos o direito de continuar a fazer o mesmo tipo de sindicalismo que fazíamos há 20 ou 30 anos. É preciso que cada um de nós repense o papel que o movimento sindical tem, para que tenha credibilidade junto aos trabalhadores. Os dirigentes sindicais precisam adotar uma atitude política, não de filiação a partidos, mas que tome consciência de que muitas coisas que acontecem no mundo do trabalho são decididas fora do mundo do trabalho.”104
Tais palavras denotam um novo formato de sindicalismo que já encontra eco no mundo globalizado, passando a ser sentido com maior intensidade dentro do cenário nacional.
103 FILHO, Wilson Ramos. O fim do poder normativo e a arbitragem. São Paulo: LTR, 1999. p.88
104 SILVA, Luiz Inácio Lula da. Conforme PASTORE, José. As mudanças no mundo do trabalho:leituras de sociologia do trabalho. São Paulo: LTr, 2006. pág. 151.
Tal circunstância indica a passagem para uma nova etapa no mundo das relações sindicais, que será marcada pela sua emancipação social e que não estará restrita ao chão das fábricas, mas que possa oferecer respostas para além daquele ambiente.
Fazemos esta menção, porquanto o movimento operário, em boa parte de sua história, mostrou sua força com a adoção de medidas organizativas oriundas do interior das fábricas;
entretanto, esse poder de mobilização acabara mostrando-se relativizado fora das fábricas, onde, freqüentemente, houve uma tendência de os trabalhadores de novamente acabarem dispersos novamente.
Portanto, quando nos referimos a um sindicalismo de cariz emancipatório, o objetivo buscado situa-se na tentativa de adequar as ações do movimento operário fora dos limites da empresa, já como forma de despertar a conscientização geral não somente dos trabalhadores, mas de todas as pessoas para a necessidade de reunião de esforços e defesa de um só ideário, estabelecendo um único discurso.
Neste sentido, para alcançar a superação do momento de dificuldade será necessária a adoção de ações que sejam capazes de atender não só aos interesses dos trabalhadores alocados no interior das fábricas com políticas de trabalho, mas que possam também dar cabo aos problemas da própria sociedade. Isto se dará com uma política de ações sociais que ofereçam senão respostas, ao menos resistência às investidas do pensamento neoliberal. Será importante que o movimento operário promova a discussão de questões de relevância para toda a sociedade e que apresente soluções concretas. Assim, poderíamos citar ações que permeiam a vida em sociedade como um todo, inclusive, aqueles que estão excluídos do sistema, tais como os desempregados; ações voltadas para o meio ambiente, questões relacionadas a empregabilidade dos jovens e idosos, enfim, temas de grande relevância e interesse geral.
Não há dúvidas da importância do retorno do sindicalismo para dentro das fábricas, mas, sobretudo, que os movimentos associativos consigam ultrapassar os limites setoriais da fábrica, promovendo o diálogo e fomentando a sociedade que constitui parte inerente do movimento operário a participar mais ativamente dos grandes debates. Por certo, esta atitude será uma importante ferramenta de reaproximação na luta contra a devassa neoliberal de um Estado de bem estar social.
Elísio Estanque preceitua:
“Só o discurso crítico pode promover a ação emancipatória, mas ao mesmo tempo a crítica radical, para ter condições de objetivação, tem que procurar a exploração imaginária de novas possibilidades, tornando-se assim porta-voz de algo radicalmente melhor. Algo que, em face da atual crise de alternativas, pode ser considerada uma espécie de utopia que, paradoxalmente, se assume como antiutopia. Uma utopia para superar o pensamento desacreditante e a subjetividade conformista que gira à sua volta -, capaz de abrir novos horizontes de expectativas e possibilidades e criar a vontade de lutar por alternativas.”105
Agindo desta forma, por certo teremos um novo sindicalismo que começará a despontar dentro do cenário nacional. Tal atitude já vem sendo implementada pelos movimentos operários da Europa, e imaginamos que isso acabe sendo uma conseqüência natural em nosso meio.
O movimento operário será fortalecido por meio da difusão irrestrita perante a sociedade em geral de ações compatíveis, que possam propagar mais intensamente o momento de exclusão a nós imposto pelo capitalismo. E será por intermédio desse trabalho de busca de coesão e de equilíbrio de ações que ocorrerá a emancipação do movimento operário.
Sua participação deverá ultrapassar os locais de trabalho, modificando suas raízes conceituais, de modo a não se valer somente das condutas combativas, alcançando um espectro ainda maior de concentração dentro do mundo das relações sociais, voltados para
105 ESTANQUE, Elizio. A reinvenção do sindicalismo e os novos desafios emancipatórios: do despotismo local à mobilização global apud SANTOS, Boaventura de Sousa (organizador). Trabalhar o mundo: os caminhos do novo internacionalismo operário. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. pág.360.
uma discussão que caminha para além do individualismo fabril, promovendo a integração com a sociedade.
Elízio define esse novo sindicalismo:
“O novo sindicalismo aqui proposto exige, entre outras, as seguintes combinações: ações de luta no interior da força de trabalho com ações em redor do trabalho assalariado; exigências de melhores salários e condições de trabalho com maior controle sobre o processo produtivo, os investimentos, as novas tecnologias, a relocalização, a subcontratação e as políticas educativas e de educação; luta contra os métodos autoritários e tecnocráticos de controle com alianças junto de outros setores, movimentos e comunidades não sindicalizadas; diálogo e cooperação com outras forças e movimentos democráticos não classistas ou pluriclassistas, recusando ao mesmo tempo ser- ou subordinar-se a- qualquer vanguarda ou poder soberano.”106 (Watermam, 2000 apud Elizio Estanque)
O novo sindicalismo deve ultrapassar o sentido corporativo, verticalizado, como uma forma de alcançar a solidariedade entre o mundo do trabalho, não se limitando a defender interesses das classes que representam, até como uma forma de estratégia de luta. Aliás, este será o tema abordado abaixo, indicando que, somente a partir da ação estrutural em conjunto com os demais órgãos associativos dentro da sociedade conseguiremos alcançar a emancipação desse novo sindicalismo.
Dentro do cenário nacional, apesar de estarmos diante de uma fase embrionária dessa transição do sindicalismo, alguns passos importantes estão sendo dados pelas Centrais Sindicais que, não só participam dos processos negociais dentro das fábricas, mas já realizam ações que têm como objetivo aproximar a sociedade, promovendo a união de todos como forma de lutar contra os ideários neoliberais.
A alusão feita para a busca de junção de forças torna-se essencial, uma vez que grande parte do próprio movimento operário tem agido de modo contrário, individualizando suas ações, corroborando um pensamento separatista, que somente visa a atender anseios estreitos.
106 ESTANQUE, Elizio. A reinvenção do sindicalismo e os novos desafios emancipatórios: do despotismo local à mobilização global apud SANTOS, Boaventura de Sousa (organizador). Trabalhar o mundo: os caminhos do novo internacionalismo operário. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. pág.363.
Não há razões para que existam adversidades entre os próprios trabalhadores, conforme vem se acentuando nas relações laborais. Será preciso compreender que não se pode fazer distinção entre este ou aquele tipo de trabalho, e mais, conforme mencionamos mesmo aqueles que não estão inseridos no mercado de trabalho, devem participar desse processo de reconquista de condições mínimas de sobrevivência.
Diante dos primeiros sinais de cooperação, demonstrando uma visão mais abrangente dos problemas e comungando esforços com outras entidades, trataremos abaixo da necessidade da existência da solidariedade entre as organizações associativas como um todo, objetivando reconquistar a força de atuação do movimento operário.