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Foucault (2013a) ressalta que cada momento histórico possui condicionantes que lhe permitem assim ser. Dessa forma, mais do que procurar “a verdade”, procuro as vontades de verdade vigentes em cada período e as suas transformações sociodiscursivas, de forma a restituir o caráter de acontecimento do discurso e suspender a soberania do significante (FOUCAULT, 2013a). Além disso, busco compreender as relações entre saber e poder que constituem esses regimes (FOUCAULT, 2014b) em nível macro, bem como compreender a dinâmica dos dispositivos de poder (FOUCAULT, 2013b) em nível micro.

Foucault (2014b, p. 283) nos alerta sobre:

[...] não perguntar porque alguns querem dominar, o que procuram e qual é sua estratégia global, mas como funcionam as coisas ao nível do processo de sujeição ou dos processos contínuos e ininterruptos que sujeitam os corpos, dirigem os gestos, regem os comportamentos etc. Em outras palavras, ao invés de perguntar como o soberano aparece no topo, tentar saber como foram constituídos, pouco a pouco, progressivamente, realmente e materialmente os súditos, a partir da multiplicidade dos corpos, das forças, das energias, das matérias, dos desejos, dos pensamentos etc.

Dreyfus e Rabinow (2013)11descrevem a tarefa do genealogista como destruidor de verdades

imutáveis, da primazia da origem, das doutrinas de desenvolvimento e progresso em um ambiente permeado de sujeição, dominação e luta − ou seja, de relações de poder. Sobre tal ambiente, Díaz (2012) corrobora os autores afirmando que o enfrentamento é, propriamente, o lugar.Ele exemplifica algumas emergências em meio a esses enfrentamentos, como o surgimento da diferenciação de valores na dominação de homens sobre homens ou da ideia de liberdade na dominação de uma classe sobre outra. Dessa forma, a genealogia não tenta nada menos do que fazer uma história de algumas interpretações que surgem de lutas, partindo da premissa de que o devir da humanidade é um conjunto de interpretações (FOUCAULT, 2010) sem origem, sem essência e sem ligação direta entre natureza e linguagem.

Peters (2000) reconhece que o movimento intelectual conhecido como “pós-estruturalismo”, do qual Foucault é reconhecido como expoente, não é coeso e mantém convergências e

inovações teóricas em relação ao estruturalismo. Apesar de manter a crítica ao sujeito humanista autônomo, o pós-estruturalismo diverge da corrente anterior quanto à importância que concede à história. Se o estruturalismo buscou apagá-la, o pós-estruturalismo a renovou. Não uma História (com H maiúsculo), mas uma entre diversas possibilidades de interpretações da história. Não contínua e evolutiva, mas uma história de transformações e descontinuidades (PETERS, 2000). Uma história de acidentes (FOUCAULT, 2014b).

Destarte, uma genealogia

busca descontinuidades ali onde desenvolvimentos contínuos foram encontrados. Ela busca recorrências e jogo ali onde progresso e seriedade foram encontrados. Ela recorda o passado da humanidade para desmascarar os hinos solenes do progresso. A genealogia evita a busca da profundidade. Ela busca a superfície dos acontecimentos, os mínimos detalhes, as menores mudanças e os contornos sutis (DREYFUS; RABINOW, 2013, p. 142).

Díaz (2012) considera que existem alguns princípios necessários aos empreendimentos genealógicos: a descontinuidade, a especificidade e a exterioridade. O primeiro abandona a ideia de discurso oculto que deveríamos libertar, pautando o discurso como práticas que se cruzam. Percebo aqui o abandono da noção de ideologia tão cara a várias abordagens de análise de discurso de influência marxista.

O segundo princípio está ligado à desmistificação da adequação natural entre as palavras e as coisas (DÍAZ, 2012), pois a natureza das coisas não cria interpretações primeiras: quanto mais interpretarmos, mais encontraremos outras interpretações criadas por outras pessoas, e não um sentido fixo de um texto ou do mundo (DREYFUS; RABINOW, 2013). A concepção do discurso como violência às coisas é que quebra essa ideia de naturalidade.

O terceiro princípio é a orientação para nos dirigirmos ao aparecimento do discurso e de suas condições externas, e não ao seu interior oculto contido nas palavras. Limites, regularidades e séries aleatórias são alguns elementos desses condicionantes (DÍAZ, 2012).

Os três princípios especificados são usados na análise dos discursos como acontecimentos. São unidos no esforço de compreender como os discursos foram formados, dando ênfase ao papel dos sistemas de coação e à identificação das séries de enunciados, cada qual com sua norma específica, além das condições de aparecimento, crescimento e variação (DÍAZ, 2012). Se pensarmos o discurso como “elemento que confere materialidade e plasticidade às relações

de poder” (PEREIRA, 2014, p. 16), podemos analisá-lo enquanto prática social que constitui e é constituído pelos efeitos de verdade.

Dessa forma, reconhecendo-me fora do mainstream dos Estudos Organizacionais, percebo esta pesquisa como um instrumento de luta: no nível ontológico, na busca de discussões filosóficas sobre a realidade, buscando uma ontologia histórica – a partir de documentos, de dados empíricos, de acontecimentos – e antirrealista (PETERS, 2000; DÍAZ, 2012); no nível epistemológico, adoto uma postura antifundacionista ao criticar o cientificismo das ciências humanas que credita ao conhecimento da tarefa de representar, fiel e objetivamente, a realidade (PETERS, 2000), na busca de uma ciência menos business e mais social e de um conhecimento menos aplicado e mais histórico; no nível metodológico, na busca do fortalecimento da abordagem qualitativa perante as consagradas abordagens quantitativas, acreditando que tal escolha emerge de um campo de luta que busca legitimar o conhecimento verdadeiro e o falso (FOUCAULT, 2010); no nível teórico-empírico12, na busca de uma interdisciplinaridade dos saberes e de uma compreensão deste nível como um processo, com um movimento reflexivo entre teórico e empírico, que enseja não uma teoria global, mas uma caixa de ferramentas, na qual se construa uma lógica própria às relações de poder e às lutas subjacentes (FOUCAULT, 2010); e no nível social, na busca de possibilitar a discussão do poder, da dominação e da resistência e do modo como se configuram as sujeições no contexto organizacional específico da LEGO, objeto de estudo desta pesquisa.

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