4. Práticas e Representações dos guardas municipais no trânsito de São Gonçalo
4.5. Respeito e autoridade: a multa e a arma
4.5.1. Em busca de uma legitimidade
Em agosto de 2014, foi sancionada a lei nº 13022, denominada Estatuto Geral das Guardas Municipais. Como já descrevi, essa lei procura complementar o parágrafo oitavo do artigo 144 da Constituição, instituindo normas gerais de atuação para a instituição. Além das competências, essa norma também discorre sobre as regras de criação, os princípios, a capacitação, as prerrogativas, a representatividade, o controle e as exigências para ser um guarda. O segundo artigo do Estatuto institui: “Incumbe às guardas municipais, instituições de caráter civil, uniformizadas e armadas conforme previsto em lei, a função de proteção municipal preventiva, ressalvadas as competências da União, dos Estados e do Distrito Federal” (Brasil, 2014, art.2).
Em meio aos diversos efeitos dessa nova regulamentação83, um dos mais destacados entre os guardas municipais de São Gonçalo foi a discussão a respeito da necessidade do porte de arma de fogo para a instituição. Esse debate, contudo, não surgiu agora. Como foi enfatizado, ele já está presente desde 1988, quando o texto constitucional instituiu aos municípios a faculdade de criar Guardas Municipais. Já foi salientando que essa parte da Constituição é ambígua e vaga, já que não define, com precisão, qual é o papel dos municípios, nem, portanto, das Guardas Municipais nas políticas de Segurança Pública (Miranda, Mouzinho e Mello, 2003; Vargas e Oliveira Junior, 2010; Mello, 2011).
83 Uns dos aspectos importantes dessa lei é que ela estabelece a necessidade e a obrigação de haver um plano de cargos e salários para seus agentes. A Guarda Municipal de São Gonçalo não possuía, até o momento em que a pesquisa foi concluída, um plano de cargos. Isso era algo que os guardas reclamavam muito, já que as colocações consideradas como superiores na hierarquia institucional eram os “cargos de confiança”.
127 Sem possuir um papel claramente definido, essas instituições não têm clareza, também, sobre quais instrumentos devem utilizar no decorrer de sua atuação profissional. Até meados dos anos de 1990, a Guarda Municipal de São Gonçalo tinha o porte de arma, e, conforme me disseram agentes então ligados à instituição, as funções dos guardas não estavam centradas no trânsito e, sim, na proteção dos prédios públicos.
A posição dos guardas municipais a respeito do porte de arma de fogo pela instituição não é unânime. Alguns agentes acreditam que, se a Guarda se armar, eles correm mais riscos de serem mortos por “bandidos”, já que muitos guardas convivem diariamente com “traficantes” nas “comunidades” em que moram. Além disso, também “poderiam ser confundidos com PM”. Escutei isso, certa vez, numa conversa entre os guardas Fábio, Sandro e Miguel. Eles estavam comentando sobre as mudanças que o secretário iria anunciar no dia de aniversário da Guarda. Fábio disse que, na ocasião, o secretário iria informar sobre uma mudança na farda, tendo em vista sua adequação à lei que estava prestes a ser sancionada. O uniforme passaria, então, de bege para azul marinho. Perguntei o que o agente estava achando dessa modificação, e ele me respondeu: “Agora, com a farda igual à da PM e com arma, ninguém poderá subir o morro mais. Vamos ser confundidos com a PM, e vão querer matar todo o mundo lá. Não acho que é um bom negócio ter arma, nem mudar a farda, não.”. Miguel, porém, não concordou com ele. Disse que conhecia todo o mundo que morava perto de sua casa, inclusive os “traficantes”, e que, por isso, não correria riscos. E continuou: “Com a arma, vamos ser muito mais respeitados e vamos poder fazer alguma coisa. Quando acontece um roubo ou alguma coisa assim na rua, a gente não pode fazer nada, nem nos defender.”. Discussões como essas foram, muitas vezes, presenciadas por mim, principalmente nos dias próximos à votação e sanção da lei. Algumas delas eram iniciadas por perguntas minhas, outras partiam dos próprios guardas, que conversavam sobre o assunto. Tais opiniões não eram únicas e nem exclusivas desses guardas municipais. Escutei vários outros agentes falando coisas parecidas. Alguns deles, porém, procuravam enfatizar que, antes de se pensar na necessidade da adoção de uma arma de fogo, alguns pontos da “estrutura da Guarda” deveriam ser modificados. Quando conversei com o guarda Milton, há treze anos na instituição, ele me falou sobre isso. Ressaltou que, apesar de a arma “ser boa” para “dar mais respeito para o guarda, algumas coisas na estrutura da Guarda” deveriam ser modificadas, primeiramente. Por exemplo, o guarda não poderia ficar sozinho no seu “setor”, como eles ficavam; seria preciso ter rádio para eles se comunicarem e “boas
128 viaturas” em condições de uso; e, por fim, a Guarda não poderia mais atuar “puxando o trânsito”.
Como se vê, não há, na Guarda, uma opinião unívoca sobre o porte de arma. Ainda assim, deve se destacar que muitos acreditam que, com o porte de arma, eles seriam mais respeitados, no sentido de ter sua autoridade e um papel legitimamente reconhecidos. A arma, assim como a multa, seria um instrumento que lhes conferiria uma posição diferenciada em relação aos demais cidadãos. Mas será que a arma seria utilizada do mesmo modo que a multa, isto é, como um recurso de afirmação da autoridade imposta pelo paradigma repressivo-punitivo vigente em nosso Sistema de Segurança Pública? Miguel, ao assumir que, com a arma, eles vão poder “fazer alguma coisa” para o combate de roubos e crimes,e está assumindo que a ação dele e de seus colegas, no momento da pesquisa, não está voltada para uma “guerra contra a criminalidade”.O porte de arma, portanto, poderá levá-los a agir dirigidos para tal finalidade.
Quando entrevistei o comandante, perguntei o que ele achava da lei que tinha acabado de ser sancionada. Ele me disse que um dos pontos importantes da nova regulamentação é que a Guarda Municipal estaria legalmente autorizada a atuar fazendo algo que já faz informalmente, que é agir “repreendendo” pequenos furtos e roubos. Ressaltou, ainda, que, com essa lei, a instituição pode atuar como uma “força auxiliar da PM”, já que os guardas agiriam em “pequenos delitos”, enquanto os policias iriam atuar “acabando com a criminalidade”. A fala do comandante, capitão da Polícia Militar, enfatiza, mais uma vez, a interferência da lógica militar não só na ação dos guardas municipais, mas, também, na representação dos seus gestores sobre o papel que lhes compete. De acordo com a perspectiva do comandante, a atuação do guarda deveria se centrar nos “pequenos delitos”, chamados informalmente, entre outros agentes da Segurança Pública, de “feijoada”, o que, deve se dizer, se trata de uma visão reducionista das funções da Guarda Municipal.
No entanto, diversos são os agentes que compartilham dessa visão. Como consideram que possuem uma identidade subvalorizada, posto que seus atendimentos não estão relacionados, diretamente, ao combate à criminalidade, reivindicam o porte de arma na expectativa de ter o seu papel socialmente reconhecido não só pelos pedestres e motoristas, mas, também, pelos agentes de outras instituições ligadas à Segurança Pública. Ao fim e ao cabo, esses guardas municipais não possuem a intenção de se militarizare,
129 pura e simplesmente. O que esses agentes parecem querer é ser alguém, ter um lugar, um papel e uma identidade socialmente reconhecida.