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Na discussão anterior, apontamos para a ideia de que o suplemento Mais! apostou num discurso mais denso para conquistar o leitor cult, promovendo com ele uma identificação. A principal estratégia da publicação, como será visto a seguir, é reler a tradição, dando amplo destaque a autores que já integram o cânone nacional, e pouco aos intelectuais e autores novos, numa política de valorizar o “medalhão”. Esse discurso foi fortalecido pela criação de instâncias de consagração promovidas no próprio suplemento, com a edição de listas dos melhores em categorias como romance, poesia e não-ficção.

Esse procedimento recorrente permite uma interpretação do suplemento. Em meio à ampliação de tendências da crítica cultural como a ocorrida nos anos 1990, o suplemento Mais! buscou, ao longo da década, alguns caminhos que lhe assegurassem a identificação com um número maior de leitores, reafirmando valores da cultura brasileira. Essa hipótese ganha força na própria voz de alguns dos colaboradores mais frequentes, segundo os quais existe uma crise na literatura atual e na produção teórica — dominadas pelo

“vale-tudo” dos estudos culturais e pelo avanço da indústria cultural. O que fazer, então, diante de uma paisagem que se torna mais árida quanto à produção literária e crítica? A resposta fornecida pelo Mais! foi a reabilitação de leituras e autores consagrados da literatura brasileira e internacional, dando destaque para os valores modernos, como antídoto à fragmentação dos estudos literários da “era dos extremos” ou da “modernidade líquida”.

Uma das vozes mais contundentes que apontam para uma suposta crise da crítica e da produção foi a de Leyla Perrone-Moisés159, para quem, desde a década de 1990, houve enfraquecimento da crítica literária como discurso especializado devido aos descentramentos promovidos pela

159 PERRONE-MOISÉS, Leyla. Que fim levou a crítica literária? Folha de S. Paulo, 25 ago. 1996.

Mais!, p. 12-13.

modernidade e pelas novas abordagens dos estudos culturais. Conforme a autora, outros critérios de julgamento — além dos estéticos — passaram a ser acionados para o estabelecimento e o inventário de obras literárias e culturais, características identificadas como tendência mundial.

Defensora da autonomia dos estudos literários, Perrone-Moisés critica a ascensão dessas novas formas de estudo, ao afirmar que elas favorecem o relativismo e a falta de critérios de julgamento. Para ela, o

“culturalismo” que atingiu, nos anos 1990, os estudos literários e outras áreas teóricas, ocupou o lugar de disciplinas especializadas, substituídas aos poucos por abordagens mais ecléticas e pouco sistemáticas. “Quanto à literatura, se esta se dilui na ‘cultura’, passa a ser vista apenas como expressão, reflexo, sintoma, e perde sua função de crítica do real e proposta indireta (estética) de alternativas para o mesmo.”160 Perrone-Moisés acredita que o momento não favorece a leitura, a produção literária e a crítica, pondo em risco sua existência como disciplina especializada.

Em outro texto, a autora chama a atenção para a mudança que vêm sofrendo as humanidades nas instituições de ensino superior. Ela lembra que as disciplinas humanísticas sempre tiveram um lugar de destaque na formação da universidade. Isso foi se perdendo, no entanto, à medida que houve avanço tecnológico e globalização, que tornou os países dependentes do mercado internacional. Desse momento em diante, que ela localiza no final do século XX, as humanidades passaram a ser vistas como algo supérfluo. O maior aporte de dinheiro passou a ser destinado à pesquisa aplicada, nas áreas das ciências exatas e biológicas. Estabeleceu-se também a formação de parcerias entre universidades e grandes empresas, comprometendo a autonomia das instituições de ensino e sua postura “desinteressada” em relação à produção intelectual.

Os tomadores de decisões — políticos, economistas, cientistas, tecnocratas — perguntam cada vez mais: para que servem as humanidades? Submetidas ao critério da uma utilidade imediata, identificada com um bem-estar do homem baseado apenas no acesso às conquistas da ciência e da tecnologia, assim como no bom funcionamento do mercado, as humanidades passaram a ser vistas como um luxo, uma perfumaria, uma inutilidade.161

160 Ibidem, p. 13.

161 PERRONE-MOISÉS, Leyla. Para que servem as humanidades? Folha de S. Paulo, 30 de jun. 2002.

Mais!, p. 7-8.

Para exemplificar, a autora cita a reforma educacional planejada para a França no final dos anos 1990, que visava diminuir a carga horária das disciplinas humanísticas e adequar o ensino às novas profissões e à realidade do mercado. Manifestações de estudantes e intelectuais, no entanto, fizeram o governo recuar. Ainda assim, Perrone-Moisés reconhece que há uma tendência mundial para o enfraquecimento dessas áreas nas universidades — o que reflete, logicamente, na produção intelectual e na leitura de jornais.

Outra voz que identifica o momento como sendo de crise é Walnice Nogueira Galvão. Além de enxergar a desvalorização do literário como fenômeno cultural da época, ela vê uma espécie de desmonte da cultura brasileira, promovido pelo governo desde a Ditadura Militar. Segundo ela, a maneira de tratar a produção cultural adotada pelo estado autoritário — a centralização e o incentivo à indústria cultural — foi mantida pelos governos do período democrático. Isso teria gerado uma produção cultural acanhada, pouco afeita a experimentações formais, antenada às exigências do mercado, às quais procura satisfazer.

O mesmo pode ser dito em relação à crítica, que, na opinião de Walnice, foi abalada pelas leis do mercado.162 Para a autora, a crítica da literatura em jornal se diluiu no serviço prestado pelas resenhas. O ensaio foi-se refugiar na universidade. Tanto a crítica jornalística quanto a especializada não conseguem atingir a esfera pública. Para Walnice, a primeira é “digestiva”, por sua superficialidade, e a segunda é “indigesta”, devido à excessiva especialização acadêmica.

Uma lógica perversa viria a imperar, privilegiando o investimento em novidades que, devido a sua facilidade e baixo custo, degradariam cada vez mais o gosto do cidadão.

Foi assim que os produtores agiram, enquanto se justificavam dizendo dar ao povo o que ele queria. E não o contrário: os produtores é que se empenharam numa campanha de deseducação, infantilizando o público (caso do cinema), imbecilizando-o (caso da televisão), tratando seu ouvido como penico, na célebre frase de Nana Caymmi (caso da música), analfabetizando-o (caso da literatura). A tal ponto que certos gêneros perderam a razão de ser, porque vieram a faltar artistas e cultores.

162 GALVÃO, Walnice Nogueira. Musas sob assédio. Folha de S. Paulo, 17 mar. 2002. Mais!, p. 5-11.

O que se passou com a cultura e a literatura brasileiras nas últimas décadas é parte integrante desse processo.163

Essas duas vozes identificam determinadas características que estiveram presentes no Mais! e que têm relação com o contexto dos anos 1990. Foi nesse período que passaram a repercutir com maior intensidade as discussões geradas pelo que pode ser chamado aqui muito genericamente de estudos culturais, exportados para universidades e intelectuais brasileiros a partir dos Estados Unidos e da Europa. Ainda que tenha se consolidado nos anos 1990, a visada “culturalista” começou a ganhar corpo em universidades brasileiras no final dos anos 1980, impulsionada pela abertura democrática local e pela discussão em torno do papel político e cultural dos movimentos sociais.