• Nenhum resultado encontrado

No prefácio à primeira edição de Origens do totalitarismo, escrito em 1950, a mensagem central para o leitor é de que quem ali escreve está imersa em uma preocupação que articula presente, passado e futuro. Nessa obra, em que Arendt inaugura seu pensamento político maduro, já com um olhar retrospectivo aos eventos totalitários. Em razão disso, o prelúdio de uma premissa que perpassará os escritos de Arendt encontra-se no prefácio: os eventos totalitários como um acontecimento que logrou um desafio compreensivo à ampla comunidade de intérpretes.

A autora logo anuncia que sua análise se trata de um período no qual “O momento de expectativa é como a calma que sobrevém quando não há mais esperança” (ARENDT, 2007, p. 11). Por sua vez,

nunca antes nosso futuro foi mais imprevisível, nunca dependemos tanto de forças políticas que podem a qualquer instante fugir às regras do bom senso e do interesse próprio — forças que pareceriam insanas se fossem medidas pelos padrões dos séculos anteriores. (ARENDT, 2007, p. 11)

A autora vai além, defendendo que “a análise histórica e o pensamento político permitem crer, embora de modo indefinido e genérico, que a estrutura essencial de toda a civilização atingiu o ponto de ruptura.” (ARENDT, 2007, p. 11).

A moldura sobre a qual Arendt entende o século XX e seus eventos centrais, os regimes totalitários, está anunciada logo no prefácio de Origens. A expectativa é um lugar sombrio; o futuro é imprevisível, pois o instrumental político nunca havia se constituído,

sobremaneira, incontrolável. Estamos, assim, inseridos em uma crise sem precedentes que precisa ser compreendida de maneira cuidadosa, elabora a autora. No mesmo prefácio, explora o que toma por “compreensão”, depois de anunciar que se trata de um período o qual bagunçou as categorias temporais e morais,

A convicção de que tudo o que acontece no mundo deve ser compreensível pode levar-nos a interpretar a história por meio de lugares-comuns.

Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar os fenômenos, utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós — sem negar sua existência, nem vergar humildemente o seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela

— qualquer que seja. (ARENDT, 2007, p. 12)

Recuperamos o excerto supracitado para reafirmar, sob outro ângulo, qual é o interesse de Arendt ao escrever sobre os regimes totalitários. Trata-se, para ela, de um exercício compreensivo. E compreender, ainda relacionado à ideia de que houve uma quebra entre o passado e o futuro, significa examinar o “fardo de nosso tempo”. E esse exame não poderia se resguardar em interpretações históricas construídas em lugares-comuns. Essa é uma demanda, mais uma vez, de quem assiste aos eventos totalitários e procura constituir sentido para o ocorrido.

Embora essa citação apareça comumente entre comentadores de Hannah Arendt, é preciso reforçar que o exercício do compreender deve ser articulado ao significado de lugar-comum e ao que o termo traz consigo. Compreender, em Hannah Arendt, é um compreender fora do lugar-comum, sem necessariamente acreditar que tudo que ocorre no mundo pode ser compreendido. Parece-nos, então, que o ato de compreender está relacionado a outro: o de encarar a “fratura do tempo”, por isso o “acontecimento” e a História têm de se reconhecer numa outra lógica, que escape à teleologia ou à causalidade. Compreender “fora do lugar comum” é, também, criticar a concepção de História. Para ela, depois dos eventos totalitários, o exercício da compreensão é fundamental, mas sem enquadrá-lo dentro de um jogo do logos

— em que todas as condições necessárias para formar um acontecimento estavam dadas e o papel do interlocutor seria meramente reproduzir as condições que estavam dadas para o público.

Trata-se, assim, de um compreender “confuso” e “fora da realidade”, para trazer duas expressões que Arendt utiliza na resenha da obra The Devil`s share, intitulada Pesadelo e

fuga, publicada em 1945 na Partisan Review. Na resenha, embora reconheça que a obra de Denis de Rougemont seja problemática devido à confusão teórica36 e conceitual que a crítica apontou de modo correto, o autor não poderia tê-la feita de outra forma. O elogio de Arendt a essa obra e ao autor reside no fato de esta conseguir expressar com maestria o estado de espírito dos intelectuais pós-fascismo e pós-guerra:

Entre as publicações recentes, conheço pouquíssimas que tenham se aproximado tanto das experiências do homem de hoje. Quem quiser ter um vislumbre do estado de espírito pós-fascismo e pós-guerra dos intelectuais europeus não deve deixar de ler La part du diable, com cuidado, paciência e (sem querer ofender) caridade. O autor e o livro mostram falhas exasperadamente óbvias e gritantes. Eles confundem o leitor, tal como confundiram o próprio autor. Mas o ponto é que essa confusão é o resultado direto de experiências que o autor presencia e das quais não tenta fugir. Tal confusão e tais experiências serão comuns a todos os sobreviventes que se recusam a voltar à segurança ilusória oferecida por aquelas “chaves da história” que pretendiam explicar tudo, todas as correntes e todas as tendências, e que na verdade não conseguiam desvendar um único evento real. Rougemont fala do “pesadelo da realidade” perante o qual nossas armas intelectuais falharam de forma tão terrível; e, se ele está confuso, é porque, no desespero de não querer enfrentar espiritualmente nu esse pesadelo, Rougemont escolhe no belo e vasto arsenal de figuras e imagens venerandas qualquer coisa que pareça corresponder ou interpretar os novos choques que estão abalando os antigos alicerces. (ARENDT, 2008, p. 162)

Datada de 1945, seis anos antes da publicação de Origens do totalitarismo, essa resenha expressa a articulação entre a noção de compreender no pensamento de Arendt, o acontecimento totalitário e a situação da Europa e seus intelectuais no século XX, no contexto de pós-guerra. O pesadelo do totalitarismo fez um convite obrigatório aos intelectuais, a saber, uma fuga da realidade. Uma espécie, nesse sentido, de “saber confuso”, posto que não apelou ao que Arendt chama de “chave da história”. A compreensão, nessa acepção, demanda um olhar cuidadoso a esse acontecimento que desafiou as bases intelectuais dispostas naquele momento, gerando assim uma fuga, ação da qual foi acusado o próprio Rougemont.

Mais uma vez, gostaríamos de destacar, inclusive, a tentativa de a autora associar os eventos totalitários a uma singularidade e a uma ruptura no tempo contemporâneo. Ela frisa que, ainda na resenha Pesadelo e fuga, a grandeza da obra de Rougemont, dar-se-ia pelo fato

36 Arendt avalia que Rougemont fez parte da geração de autores gestada entre as duas guerras e que não teve tempo de amadurecer, garantindo-lhe assim um direito à imaturidade. A confusão, problema mais grave identificado por Arendt refere-se: “identificar a capacidade humana para o mal e o problema do mal em si com os “males de nossa época” em termos vagos e gerais. Isso motiva a introdução do Diabo em pessoa, que serve como simples denominador comum.” ARENDT, Hannah. Compreender: formação, exílio e totalitarismo. São Paulo: Companhia das letras, 2011, p. 163.

de entender e não desprezar que seu tempo — pós-fascismo e pós-guerra — representam

“choques” para os “antigos alicerces”, citando expressões presentes no excerto supracitado.

Mas, afinal, diante dos alertas que Arendt fazia em relação ao esgotamento instrumental dos intelectuais, o que restou ou qual o caminho ela propõe? Conquanto não seja essa a questão central analisada aqui, cabe destacar que, na mesma resenha, Arendt aponta que o caminho é a questão do mal. “O problema do mal será a questão fundamental da vida intelectual europeia no pós-guerra — assim como a morte tinha sido o problema fundamental após a Primeira Guerra” (ARENDT, 2008, p. 163). Essa interpretação é apontada por Tony Judt em Reflexões sobre um século esquecido (1901 – 2000):

[...] de fato, apesar da amplitude dos tópicos alcançada por seus escritos, Hannah Arendt preocupou-se acima de tudo, durante toda a sua vida adulta, com duas questões interligadas: o problema do mal político no século XX e o dilema do judeu no mundo contemporâneo. (JUDT, 2010, p. 92)

Na resenha de The black book: the nazi crime against the jewish people intitulada A imagem do inferno, Arendt apresenta um interessante retrato dessa originalidade que ela atribui ao acontecimento totalitário:

Os fatos são: 6 milhões de judeus, 6 milhões de seres humanos desamparados foram arrastados para a morte, na maioria dos casos sem suspeitar do que estava ocorrendo. O método empregado foi o terror cumulativo. Primeiro, o descuido proposital, a privação e a vergonha, quando as pessoas de compleição mais fraca morreram junto com pessoas com força e rebeldia suficiente para se matar. Depois, a pura fome, ao lado do trabalho forçado, quando morreram aos milhares, mas em momentos diferentes, conforme a resistência física. Por último, as fábricas de morte — e todos morreram juntos, novos e velhos, fracos e fortes, doentes e sadios;

não como homens e mulheres, crianças e adultos, meninos e meninas, bons e maus, bonitos e feitos — mas reduzidos ao mínimo denominador comum da simples vida biológica, mergulhados no mais negro e fundo abismo da igualdade primal, como gado, como matéria, como coisas sem corpo nem alma, nem mesmo uma fisionomia em que a morte pudesse imprimir seu selo. (ARENDT, 2008, p. 226)

Orientando-nos por um vocábulo arendtiano, afirmamos que os campos de concentração e suas câmaras de gás eliminam completamente a pluralidade humana. A vida em sua plenitude apenas poderia ser alcançada entre os homens, o que não era o caso no campo, que, ao fim, reduzia “homens” a “animais”. Nesse contexto, limitados “ao mínimo denominador comum da vida biológica”, como os indivíduos poderiam manifestar sua

unicidade e aparecer no mundo como seres singulares, dotados de uma trajetória particular?

Morreram sequer sem fisionomia! O totalitarismo é o regime que irá propor a extinção de pessoas de modo racional, sob uma égide da “cientificidade”. Essa cientificidade, argumenta Arendt na mesma resenha de 1946, residiria em um argumento tautológico no qual o progresso histórico ou a força da natureza garantiriam um lugar ideal para os crimes cometidos pelos regimes totalitários.

Para compreender a orientação política violenta dos eventos totalitários e sua associação à crença no progresso histórico, é fundamental considerar a proposição analítica que Hannah Arendt identifica como um elemento compreensivo daquele tempo: a de que o poder destrutivo do homem se torna uma necessidade histórica e da natureza diante de um inimigo comum, portanto, seres inferiores necessitam ser eliminados para que um destino progressista seja cumprido. Arendt afirma que esse ambiente ideológico criado pelo totalitarismo gera um sentimento de superficialidade presente inclusive nos argumentos dos que operam contra os crimes cometidos pelos cumpridores de ordem, como bem ficou demonstrado no caso de Adolf Eichmann. Este oficial nazista se anulou diante de uma estrutura lógica que cobrava apenas o cumprimento de ordens, afastando os traços de qualquer individualidade. Eficiência e técnica, por sua vez, serviam ao progresso e ao cumprimento dos deveres. Fora, assim, “dessa atmosfera geral de ‘cientificidade’, ao lado de uma tecnologia moderna e eficiente, que os nazistas precisavam para suas fábricas de morte — e não da ciência em si”. (ARENDT, 2008, p. 232)

Diferente de obras como Reflexões sobre a origem do hitlerismo, escrita por Simone Weil em 1939, que entedia o Império Romano como primeiro modelo de regime totalitário e indicava a limitação da originalidade de Hitler (ADLER, 2007), Hannah Arendt pensa os eventos totalitários como um regime absolutamente diferente de qualquer outra modalidade.

Outro clássico que enfrentou o desafio de pensar o regime totalitário sob uma leitura baseada no que Arendt chamou de “as chaves da história”, foi Franz Neumann37 em 1942. O autor trouxe elementos da perspectiva internacionalista, demonstrando como o jogo de forças e as disputas entre as nações em escala internacional conseguem explicar o surgimento do nazismo na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Arendt observava a questão judaica sob uma dinâmica internacionalista, mas não reduziu sua explicação à correlação de forças em disputa.

37 Franz Neumann (1900 – 1954) Jurista e cientista político alemão. Ficou reconhecido pelos seus trabalhos sobre o nazismo. Considerado um dos fundadores da Ciência Política moderna na Alemanha.

Ainda sobre as diferenças de Arendt com outros intelectuais contemporâneos que pensaram os eventos totalitários, há que se considerar sua discordância com outro colega que muito a influenciou, Raymond Aron. Esse autor acreditava que a lógica do nazismo estava centrada na ação de um partido político inconsequente, baseado em uma ideologia radical.

Segundo Adler,

Arendt coloca no centro de sua reflexão os modos de funcionamento do totalitarismo, seja nazista ou soviético. Ao contrário de Raymond Aron, para quem o totalitarismo se apoia num partido que, por sua vez, se apoia numa ideologia, Hannah Arendt afirma o caráter novo desse monstro frio chamado totalitarismo, por essência um movimento dinâmico, perpétuo, nunca fixado nem fixável, alimentado pela propaganda, por sua vez, recarregada pelas massas. Para além do diagnóstico político desses anos de ferro que o mundo acaba de enfrentar, Hannah Arendt se preocupa em descrever a desfiguração do mundo, analisando um novo modelo político que dobra o real evacuando-o, para nos propor uma ficção do mundo que desnaturaliza nossa humanidade. (ADLER, 2007, p. 321)

No que o mundo havia se transformado? É a pergunta que Arendt a todo momento se faz. Mais uma vez, aparece dentro do seu exercício de compreensão sua expectativa de futuro e a premissa de que houve uma ruptura em seu tempo presente, provocada pelos regimes totalitários. Diferente de outros regimes que foram autoritários e cercearam liberdade, é no regime totalitário que essa expectativa é negada ao extremo. Isso porque procurava, então, suprimir toda a ação, que, no pensamento de Hannah Arendt, corresponde à liberdade e à constituição do corpo político. Ou seja, além do cerceamento político típico de regimes restritivos, o totalitarismo elimina todo grau de envolvimento do indivíduo em sua comunidade. Eliminando completamente o senso de pertencimento à humanidade, gera uma sociabilidade amorfa, lugar em que o indivíduo não se realiza politicamente – dado o significado amplo atribuído à política.

Outro aspecto original da estrutura totalitária era a burocracia e a sua forma de organização. O poder era caracterizado pela multidepartamentalização, em que delegacias de polícia envolviam-se num gigantesco emaranhado de chefias. Desse modo, o sentimento de responsabilidade e culpabilidade era diluído. Ao contrário da metáfora clássica da pirâmide, utilizada para ilustrar as estruturas de poder burocrático dentro de um regime político, Hannah Arendt prefere, por sua vez, usar o exemplo da “estrutura da cebola”, como argumenta Souki ao analisar a organização do poder no regime totalitário:

O dirigente age a partir do interior de uma estrutura, composta de muitas camadas formadas de simpatizantes, adeptos, membros das formações da elite ou do núcleo dos iniciados em torno do líder. O estrado mais exterior oferece uma aparência de normalidade, ao mesmo tempo para as massas e para o estrato imediatamente interior, e assim por diante. Essa estrutura permite a filtragem da realidade, criando um abismo entre a ficção ideológica central e o mundo periférico, o que torna sempre possível desmentir aquilo que daí transpira. Por isso, compreende-se por que a mentalidade totalitária é uma “mistura de credulidade e cinismo”, credulidade da massa e cinismo dos iniciados, indiferentes aos fatos e resguardados por uma lealdade suicida ao chefe. (SOUKI, 2001, p. 112) Arendt analisa a forma como o regime totalitário elaborou uma governança amorfa ao não transparecer as relações hierárquicas entre cada uma das estruturas administrativas e policiais. Os centros de poder eram constantemente multiplicados, sem que os anteriores fossem dissolvidos, de modo que esse amorfismo era a marca de um regime que não separava a vontade do líder (Fuhrer) e a manifestação de repartições e organizações da estrutura burocrática do regime. Esse confuso sistema conseguia garantir uma eficiência em suas atividades e, ao mesmo tempo, uma certa invisibilidade social, considerando sua estrutura.

A técnica de governo totalitária foi marcada, dessa forma, por uma hierarquia confusa, porém eficaz em seus propósitos. O objetivo de aumentar a rede de poder e controle encontrou uma maneira de gerir as estruturas administrativas de modo completamente novo, aponta Arendt:

Como técnicas de governo, os expedientes do totalitarismo parecem simplesmente e engenhosamente eficazes. Asseguram não apenas um absoluto monopólio do poder, mas a certeza incomparável de que todas as ordens serão sempre obedecidas; a multiplicidade das correias que acionam o sistema e a confusão da hierarquia asseguram a completa independência do ditador em relação a todos os subordinados e possibilitam as súbitas e surpreendentes mudanças de política pelas quais o totalitarismo é famoso. A estrutura política do país mantém-se à prova de choques exatamente por ser amorfa. (ARENDT, 2007, p. 458)

Dessa forma, destacamos dois elementos que, para Arendt, diferenciaram os regimes totalitários de todas as outras experiências de governo. Primeiro, apontamos o isolamento do mundo, e em seguida, a departamentalização da estrutura de poder. Entretanto, pode-se questionar: que lugar conseguia realizar esses feitos com precisão? Nesse sentido, os campos de concentração eram o lugar onde o totalitarismo se materializava por excelência. Os campos, para Arendt, além de objetivos de controle político e da liberdade de homens e

mulheres, causavam uma mudança profunda na própria natureza humana, pois eliminavam completamente todo o grau de espontaneidade humana. Segundo Arendt,

Os campos de concentração não são apenas destinados ao extermínio de pessoas e à degradação de seres humanos: servem também à horrível experiência que consiste em eliminar, em condições cientificamente controladas, a própria espontaneidade enquanto expressão do comportamento humano, e em transformar a personalidade humana em simples coisa, em alguma coisa que nem mesmo os animais possuem.

(ARENDT, 1989, p. 506)

Os campos de concentração, juntamente com a burocracia e a organização política dos regimes totalitários, no pensamento de Hannah Arendt, diferenciam esses eventos históricos de todas as outras experiências de dominação política e de restrição da liberdade. E é sob essa perspectiva que a autora irá defender uma leitura compreensiva dos eventos totalitários, a saber, identificando sua originalidade. Para que essa leitura fosse possível, era preciso romper com o que ela denominava de “chaves da história”, meio pelo qual se compreendia os eventos totalitários sob uma ótica lógico-dedutiva, em que um universo de acontecimentos históricos gerais conseguia explicar as causas que geraram tal evento.

Outro texto da autora que corrobora essa tese foi escrito em 1950. Esse texto foi publicado na revista Jewish Social Studies e, na coletânea que nos serve de fonte, possui o seguinte título: As técnicas sociológicas e o estudo dos campos de concentração. Nesse artigo, a autora irá defender que as especificidades dos campos de concentração desafiaram os pressupostos tácitos e axiomáticos em que todas as ciências se amparam para fazer inferências básicas sobre determinado objeto de estudo. O pressuposto de Arendt é que as conjecturas axiomáticas das ciências — e aqui ela se refere especificamente às Ciências Sociais e à História — são desestruturadas quando encontram um fenômeno totalmente inesperado (ARENDT, 2008).

Em outras palavras, em qual lei conseguiríamos enquadrar os eventos totalitários? E em qual conjunto de leis orientadas por outra lei mais genérica ainda, a teoria, tais acontecimentos poderiam ser anexados? Com esses questionamentos, Arendt propõe que, sob o ponto de vista histórico, o objetivo de eliminar os inimigos não é uma novidade:

Empreender uma guerra agressiva nada tem de inédito; os massacres da população inimiga ou mesmo de um povo considerado hostil parecem corriqueiros no registro sangrento da humanidade; e o extermínio de nativos durante a colonização e a criação de novo assentamentos foram coisas que

ocorreram na América, na Austrália e na África; a escravidão é uma das instituições mais antigas da humanidade; e o trabalho forçado de grupos empregados pelo Estado na execução de obras públicas foi um dos esteios do Império Romano. (ARENDT, 2008, p. 261)

Todos esses eventos aos quais a autora faz menção possuem em sua concepção uma

Todos esses eventos aos quais a autora faz menção possuem em sua concepção uma