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III. Esboço do actual estatuto jurídico no estrangeiro

2. Na Europa

2.2. Em Espanha

A Constituição de Espanha 101consagra no art.º 9.º, n.º2 e 3, que “os poderes públicos” devem promover as condições para que a igualdade do indivíduo (e dos grupos em que se integra) seja real e efectiva, devem remover os obstáculos que impedem ou dificultem a sua plenitude e devem facilitar a participação de todos na vida política, económica, cultural e social. No art.º 10.º consagra-se, como fundamento do ordenamento jurídico, a dignidade da pessoa humana, os direitos invioláveis que lhe são inerentes e o livre desenvolvimento da personalidade. O art.º 14.º estabelece o princípio da não discriminação em razão de “qualquer condição ou circunstância pessoal ou social 102”. E o art.º 49.º, dedicado às pessoas com deficiência, estabelece que “os poderes públicos realizarão uma política de previsão, tratamento, reabilitação e integração dos diminuídos físicos, sensoriais e psíquicos, aos quais prestarão a atenção especializada que necessitarem e os ampararão, especialmente para que desfrutem dos direitos que o título dos princípios fundamentais da política social e económica outorga a todos os cidadãos”.

No Código Civil encontram-se previstos os institutos da tutela e da curatela em termos algo diferentes do regime vigente em Portugal.

101 No sítio http://www.discapnet.es, acede-se a todas as normas em vigor no ordenamento jurídico espanhol, em matéria dos direitos das pessoas com deficiência, quer a nível nacional quer em vigor apenas nas regiões autónomas.

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Esta como todas as restantes citações das normas espanholas resultarão de tradução livre a partir dos textos legais na língua original.

No instituto da tutela, será relevante realçar que o art.º 199.º estabelece que ninguém pode ser declarado incapaz sem ser por decisão judicial, acrescentando o art.º 200.º que são causas de incapacidade “as enfermidades ou deficiências persistentes de carácter físico ou psíquico, que impedem a pessoa de governar-se a si mesma”. O regime da tutela é aplicável quer aos “incapacitados” quer aos menores (art.º 222.º). Nos termos do art.º 232.º, “em qualquer momento poderá exigir-se ao tutor que informe sobre a situação do …incapacitado e do estado da administração da tutela”, o que pressupõe algum controle na aplicação da medida por parte do Ministério Público, como sugere a primeira parte do normativo referido. Aliás, nessa linha, o art.º 233.º afirma que o juiz poderá “estabelecer as medidas de vigilância e de controlo que estime oportunas”. O art.º 234.º identifica as pessoas a quem cabem as funções de tutor, indicando, em primeiro lugar, a pessoa designada pelo próprio interdito. Outra diferença com o regime português encontra-se no facto de ser a decisão judicial que fixa os limites da capacidade civil do sujeito, em função das concretas limitações dessa pessoa.

Já no regime da curatela, o Código Civil, no art.º 287.º, determina que poderão encontrar-se sujeitos ao seu regime as pessoas que a decisão judicial determinar, “em atenção ao seu grau de discernimento”. Nos termos dos artigos 289.º e 290.º, a decisão judicial fixará os actos sujeitos à assistência do curador, mas, caso essa especificação não ocorra, deverá entender-se que se encontram abrangidos os mesmos actos para os quais os tutores necessitam de autorização judicial. O art.º 223.º, n.º 2, admite que qualquer pessoa com capacidade de exercício que preveja vir a ser, no futuro, judicialmente incapacitada pode, em documento público notarial, adoptar disposições relativamente à sua própria pessoa ou bens, incluindo a designação de tutor. Acresce que actos pessoais, como o matrimónio, o reconhecimento de filhos e a outorga de testamento não são actos que estejam, a priori, vedados à pessoa protegida (v.g. artigos 56.º, 121.º, e 665.º, do CC).

Encontramos ainda no Código Civil, em apenas dois normativos (o art.º 303.º e 304.º), o regime do instituto da guarda de hecho 103, que será aplicável no campo dos actos quer pessoais quer patrimoniais, uma vez que a lei não faz qualquer restrição. Este instituto intervém quando a autoridade judicial tem conhecimento da existência de um guardador de

hecho, isto é, de uma pessoa que exerce de facto mas não de direito as funções de tutor. Nesse

caso, a autoridade judicial poderá instaurar o competente processo de tutela ou optar por solicitar que o guardador de hecho informe sobre a situação do património e estabelecer as “medidas de controlo e vigilância que considere oportunas”. Determinando o art.º 304.º, que

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Neste e noutros casos, decidimos manter a expressão original, na medida em que a tradução pode alterar o alcance e conteúdo exacto da mesma.

os actos realizados pelo guardador de hecho, no interesse presumido da pessoa protegida, não podem ser impugnadas se resultarem benefícios para este. Deste modo, o instituto pretenderá validar os actos praticados pelo guardador de hecho nas situações de incapacidade de facto.

Um dos primeiros diplomas vitais que pretende efectivar as garantias constitucionais será a Lei n.º 13/1982, de 7.4, designada Lei da Integração Social de Portadores de Deficiência 104, que assume (art.º 3.º) como uma obrigação do Estado a aplicação de todos os recursos para o exercício dos direitos das pessoas “diminuídas nas suas capacidades físicas, psíquicas ou sensoriais” e, ainda, a “prevenção, os cuidados médicos e psicológicos, a reabilitação adequada, a educação, a orientação, a integração laboral, a garantia de direitos económicos, jurídicos e sociais mínimos e a Segurança Social”. O art.º 5.º acrescenta que os “poderes públicos promoverão a informação necessária para a completa mentalização da sociedade, especialmente no âmbito escolar e profissional, com o objectivo de que esta, no seu conjunto, colabore no reconhecimento e exercício dos direitos dos minusválidos, para sua total integração”. O art.º 6.º reforça a inclusão social, ao determinar que “as medidas tendentes à promoção educativa, cultural, laboral e social das pessoas com deficiência serão levadas a cabo mediante a sua integração em instituições de carácter geral, excepto quando pelas características das suas minusvalías requeiram uma atenção peculiar através de serviços e centros especiais”. Seguidamente, o título V regula o sistema de prestações sociais e económicas, o título VI a reabilitação, o título VII a integração laboral, o título VIII os serviços sociais e o título IX a mobilidade e barreiras arquitectónicas, entre outras.

Mais recentemente, a Lei n.º51/2003, de 2.12, sobre a Igualdade de Oportunidades, Não Discriminação e Acessibilidade Universal das Pessoas con Discapacidad, vem no artigo 1.º definir a criação de medidas “para garantir e tornar efectivo o direito à igualdade de oportunidades das pessoas com incapacidade, conforme o disposto nos artigos 9.º, n.º 2, 10.º, 14º e 49.º, da Constituição”. O diploma define que por igualdade de oportunidades se entende a ausência de discriminação e a adopção de acções positivas orientadas a evitar ou a compensar as desvantagens das pessoas com deficiência para participar na vida política, cultural e social. O art.º 2.º afirma que o diploma se inspira nos princípios de vida independente (exercício do poder de decisão sobre a sua própria existência e participação activa na vida da comunidade), normalização (como possibilidade de levar uma vida normal, acedendo aos mesmos lugares, bens e serviços que estão à disposição de qualquer pessoa), acessibilidade universal (como condição de os processos, bens, produtos, serviços, objectos,

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O texto legal, integral, pode ser consultado em espanhol no anexo 5 da obra: La Contratación de

instrumentos, ferramentas e dispositivos serem compreensíveis, utilizáveis e praticáveis por todos em condições de comodidade e segurança, de forma mais autónoma e natural possível), desenho para todos (concepção do projecto, desde a sua origem, de modo a permitir a utilização por todos), diálogo civil (princípio segundo o qual as organizações representativas e a famílias participam na elaboração das leis e das políticas oficiais) e transversalidade das políticas em matéria de discapacidad. Neste mesmo diploma, no art.º 7.º, elencam-se medidas contra a discriminação: proibição de condutas discriminatórias, exigências de acessibilidade, de eliminação de obstáculos ou de realização dos ajustes necessários às necessidades específicas, sendo que se prevê o recurso a ajudas públicas para suportar os encargos financeiros com as transformações exigíveis. No art.º 9.º, encontramos as acções positivas: legislação, critérios e práticas mais favoráveis, assim como ajudas económicas, técnicas, assistência pessoal, serviços especializados, ajudas e serviços auxiliares para a comunicação - todas matérias que os normativos seguintes do diploma tratam de desenvolver mais profundamente. O art.º 17.º prevê um sistema de arbitragem para a resolução de litígios em matéria de igualdade de oportunidades e não discriminação, o art.º 1.º não descura, porém, a tutela judicial, garantindo o direito à indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais, e o art.º 19 (excepcionando os processos de natureza penal e o contencioso administrativo) permite que o tribunal exija ao réu que apresente uma justificação objectiva e razoável das medidas diferenciadas adoptadas.

Na Lei n.º 49/2007, de 26.12, fixa-se o regime das infracções e sanções em matéria de igualdade de oportunidades e não discriminação, quando não se cumprem as exigências de acessibilidade universal ou não se realizam os ajustes necessários ou, ainda, quando não se cumprem as medidas de acções positivas estabelecidas na lei, “especialmente quando advenham benefícios económicos para o infractor”. O diploma elenca actos que constituem infracções, designadamente, o tratamento menos favorável a pessoa com deficiência comparativamente com outra pessoa, qualquer pressão exercida sobre pessoa que pretenda instaurar uma acção legal, qualquer pressão sobre as autoridades administrativas que executem as medidas previstas na Lei 51/2003, o incumprimento por parte das empresas, centros de trabalho e oficinas públicas, assim como das outras entidades responsáveis por cumprir quaisquer normas daquela lei nas suas várias áreas, a imposição abusiva de uma forma de renúncia total ou parcial dos direitos das pessoas em razão da sua incapacidad, o incumprimento deliberado do dever de sigilo e confidencialidade com respeito aos dados pessoais dessas pessoas e as humilhações que sofram nos seus direitos em razão da sua deficiência.

O Real Decreto n.º366/2007, de 16.3, estabelece os princípios e as condições de acessibilidade e não discriminação da Administração Geral do Estado nas suas relações com as pessoas com discapacidad. Nomeadamente, aprova as medidas de acessibilidade às

Oficinas de Atención al Ciudadano, as condições do espaço físico interior e exterior

(dimensões, estacionamento, sanitários, pavimento, segurança, rampas, elevadores, etc.), a sinalização identificável para os que possuem desvantagens auditivas ou visuais, a configuração dos postos de recepção e de balcões, os sistemas interactivos e de comunicação com painéis gráficos, os sistemas audiovisuais e tácteis, a acessibilidade aos documentos e impressos em Braille e a páginas Web (em versões simplificadas para as pessoas com desvantagens intelectuais ou com dificuldades de leitura).

A Lei n.º 39/2006, de 14.12, regula as condições básicas que garantem a igualdade do exercício do direito subjectivo da cidadania, a promoção da autonomia pessoal e da atenção às pessoas em situação de dependência. Para tanto, cria o Sistema de Autonomia e Atenção da Dependência (SAAD). O diploma encontra-se, assim, dirigido não apenas às pessoas com deficiência, mas a todos aqueles que, por razões derivadas da idade, de doença, de

discapacidad e ligadas à falta ou perda da autonomia física, mental, intelectual ou sensorial,

necessitam de atenção de outra ou outras pessoas e ajuda para realizar as actividades básicas da vida diária (cuidado pessoal, actividades domésticas, mobilidade essencial, reconhecimento de pessoas e objectos, orientação no espaço e no tempo, entender e efectuar ordens e tarefas) ou necessitam de outros apoios para a sua autonomia pessoal. O diploma estabelece vários princípios, entre os quais o carácter público das prestações do SAAD, a universalidade de acesso em condições de igualdade efectiva e não discriminação, a atenção das pessoas de forma integral e integrada, a transversalidade das políticas de atenção a estas pessoas, a valoração das necessidades das mesmas, a personalização da atenção e a permanência das pessoas (sempre que possível) no seu meio. O diploma também consagra vários direitos e obrigações das pessoas em situação de dependência, entre eles: o acesso às prestações e serviços em situação de igualdade, o exercício e gozo dos direitos humanos e liberdades fundamentais com respeito pela sua dignidade e intimidade, o direito a receber informação sobre a sua situação, à confidencialidade dos seus dados, a participar (a titulo pessoal ou através de associações) na formulação e aplicação das políticas que a afectam, de decidir sobre a tutela da sua pessoa e bens, de decidir sobre o ingresso em centro residencial e o direito a um processo contraditório em caso de internamentos compulsivos. Os objectivos expressos no diploma serão prosseguidos através de apoios económicos para assistência pessoal, para cuidados a prestar pela família e por profissionais, pela criação de uma rede de

cuidados e de serviços (teleassistência, ajuda ao domicilio, cuidados pessoais, centros de dia e de noite e de atenção especializada). O Título III estabelece o regime de infracções e sanções à violação dos direitos aí consagrados.

O Real Decreto n.º 505/2007, de 20.4, aprova as condições básicas de acessibilidade e não discriminação das pessoas com deficiência para o acesso e utilização dos espaços públicos urbanizados e edifícios (incluindo, não só mas também, zonas pedonais, estâncias balneares, parques, jardins, áreas de jogo, etc.) de forma independente e segura, assegurando- se o uso de cães guias em tais áreas e a eliminação de obstáculos (tais como vegetação, mobiliário urbano, desníveis, pavimentos, controlo do tráfego urbano, nomeadamente através de semáforos com sinais auditivos). O diploma regula também os cuidados com as obras e o comércio na via pública, de modo a que não afectem, quer a segurança, quer a acessibilidade das pessoas com deficiência.

O Real Decreto n.º 1417/2006, de 1.12, estabelece o sistema arbitral específico para a resolução das queixas e reclamações em matéria de igualdade de oportunidades, não discriminação e acessibilidade em razão da discapacidad que tenham por objecto algumas das seguintes áreas: telecomunicações e sociedade de informação, espaços públicos, infra- estruturas e edificação, transportes, bens móveis e imóveis, produtos, serviços e relações com a administração no âmbito do direito privado. O diploma consagra os princípios da gratuitidade, da adesão voluntária, da igualdade das partes, da audiência, do contraditório e da ausência de formalismos.

A Lei n.º 10/2005, de 14.6, estabelece medidas urgentes para o impulso da televisão digital terrestre, sendo que a disposição adicional 2 se refere à garantia de acessibilidade da mesma pelas pessoas com deficiência.

Também a Lei n.º 32/2003, de 3.11, Lei Geral das Telecomunicações, consagra, no art.º 3.º, como um dos seus objectivos e princípios a defesa dos interesses e satisfação das necessidades das pessoas com deficiência no âmbito do serviço telefónico.

O Real Decreto n.º 1494/207, de 12.11 - também com o objectivo de dar cumprimento ao disposto no art.º 7.º, da Lei 51/2003, e à Lei 34/2002 - obriga a administração a adoptar as medidas necessárias para que tenha a informação disponível nas suas páginas da internet, tendo por base os critérios que são reconhecidos internacionalmente, na Iniciativa de Acessibilidade à Web (Web Accessibility Iniciative) do Consórcio Mundial da Web (World Wide Web Consortium) e obriga a condições básicas para o acesso das pessoas com limitações às tecnologias, produtos e serviços relacionados com a sociedade de informação e meios de comunicação social. O diploma amplia - em relação à Lei 32/2003 - as prestações

que o operador de telecomunicações, os prestadores de serviços da sociedade de informação e os titulares dos meios de comunicação social que prestam serviços têm de oferecer às pessoas com deficiência, nomeadamente estabelece a obrigação de guia telefónico, de contratos e facturas acessíveis a todos (incluindo as pessoas com deficiência visual, designadamente através da internet nas condições de acessibilidade previstas para as páginas Web na Administração Pública), a adaptação dos telefones públicos para pessoas com deficiência visual, de terminais fixos adaptados aos diferentes tipos de desvantagens das pessoas com deficiência, tais como telefones de texto, videotelefones ou telefones com amplificação para pessoas com desvantagens auditivas e com soluções para pessoas com incapacidades visuais. O diploma também prevê a prestação por parte do Estado de ajudas económicas para aquisição de produtos e serviços da sociedade de informação. O diploma prevê ainda a acessibilidade aos conteúdos da televisão, mediante a incorporação de legendagem, áudio descrição da linguagem gestual e a obrigação da adopção de medidas para garantir a estas pessoas, em condições de igualdade com os restantes, o acesso a todos os conteúdos da televisão digital (navegação em menus, guias electrónicos de programação, serviços inter- activos, etc.), nomeadamente através da conversão de texto em voz, aplicações de reconhecimento de voz, ergonomia dos receptores de televisão e dos comandos à distância.

O Real Decreto n.º 1544/2007, de 23.11, regula as condições básicas de acessibilidade e não discriminação para o acesso e utilização dos meios de transporte ferroviário, marítimo, aéreo, terrestre, autocarros urbanos e suburbanos, metropolitano, táxis e serviços de transporte especial para as pessoas com discapacidad, fixando também o respectivo calendário de implementação (até 13 anos para o transporte ferroviário, até 3 anos para o terrestre e o marítimo, até 18 meses para o aéreo, até 1 ano para o urbano e suburbano em autocarros, até 4 anos para o metropolitano, até 10 anos para os táxis, até 6 anos para os transportes especiais, variando o calendário dentro dos respectivos meios de transporte em função das diferentes especificidades exigidas). O diploma prevê ainda que se disponibilizem espaços para os cães- guia realizarem as suas necessidades fisiológicas e estabelece que em todos os veículos de transporte público serão os mesmos aceites, viajando juntos com o dono, assim como em todos os locais dos edifícios de uso público, e prevê a criação de uma página de sítio de internet onde se encontre toda a informação disponível pelos potenciais viajantes com deficiência (segundo as regras da Web Accessibility Initiative).

O Real Decreto n.º 1612/207, de 7.12, regula o procedimento de voto acessível que facilite às pessoas com discapacidad visual o exercício do direito de sufrágio – indo mais além que a Lei Orgânica 5/1985, de 19.6, que previa apenas que tais pessoas pudessem ser

assistidas por alguém da sua confiança – dando cumprimento ao determinado na Lei Orgânica 9/2007, de 8.1, ao garantirem a existência de boletins de voto em Braille, que permitem identificar a sua opção de voto sem serem assistidas por outrem, assegurando-se o secretismo do exercício do voto e a autonomia do eleitor.

A Lei n.º 41/2003, de 18.11, estabelece o regime de protecção do denominado “património protegido” das pessoas com deficiência física ou psíquica superior a 33%, independentemente de reunirem os pressupostos para serem interditadas ou inabilitadas. Esta lei permite que seja criado (por documento público ou por decisão judicial), por meio de contributos a título gratuito, um património cujo objecto específico seja prover às necessidades da pessoa com deficiência, sendo que o mesmo poderá ser constituído por bens e direitos que integram a sua esfera patrimonial, mas também que integrem a do tutor, do curador ou de terceiros. Qualquer pessoa pode requerer a constituição desse património aos pais ou tutor e, em caso de recusa destes, ao tribunal. O regime prevê a nomeação de um administrador de tal património – que poderá ser a própria pessoa beneficiária - e atribui ao Ministério Público uma função vital na supervisão desse património - sempre no interesse da pessoa protegida - atribuindo-lhe legitimidade para intervir (seja oficiosamente, seja a requerimento de qualquer pessoa) e criando, para o co-adjuvar nessa função, a Comissão de Protecção Patrimonial. A administração do património obedecerá ao que se encontrar estabelecido no documento público ou na decisão judicial que o criou ou o autorizou, tendo como objecto, por um lado, a satisfação das necessidades vitais da pessoa com deficiência e, por outro, a valorização e produtividade do próprio património. O diploma estabelece que não são considerados actos de disposição o dispêndio de dinheiro ou o consumo de bens fungíveis resultantes dos frutos e rendimentos do “património protegido”. O diploma também prevê que aquele que contribui com bens ou direitos para o “património protegido” estabeleça qual o destino que deve dar-se aos mesmos quando o “património protegido” for extinto (seja pelo falecimento do beneficiário, seja por este deixar de estar na condição de pessoa com deficiência). A extinção por morte do beneficiário faz integrar o “património protegido” no acervo hereditário do beneficiário. O Real Decreto n.º 177/2004, de 30.1, regulou o funcionamento, composição e funções da Comissão de Protecção Patrimonial das Pessoas com Deficiência.