4 RELAÇÕES HUMANAS: UM FLUXO CONSTANTE DE BUSCA POR
4.5 MÍDIA E MODERNIDADE
4.5.4 Em questão: a modernidade
Anthony Giddens (1991) pontua que a modernidade refere-se à organização social que surgiu na Europa a partir do século XVII e que mais tarde se tornou praticamente mundial. A partir do século XX muitos pesquisadores passaram a argumentar que entramos em uma nova era, que estaria além da modernidade. Essa possível transição foi nomeada de diversas formas, tais como: “sociedade de informação”, “sociedade de consumo”, etc. Outras denominações sugerem que estamos chegando a um encerramento, dentre elas, pode-se citar: “pós-modernidade, “pós-modernismo”, e “sociedade pós-industrial”.Giddens (1991) destaca que Jean-François Lyotard foi o autor responsável pela popularização do conceito de pós- modernidade. De acordo com Lyotard, a pós-modernidade representa o deslocamento da fé no progresso humano. Uma das características da pós-modernidade é a evaporação da grand
narrative, o “enredo” por meio do qual as pessoas são colocadas na história como seres que
têm um passado definitivo e um futuro predizível.
Giddens (1991) apresenta uma crítica ao que atualmente é chamado de “pós- modernidade”. Na concepção do autor, “em vez de estarmos entrando num período de pós-
modernidade, estamos alcançando um período em que as consequências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas e universalizadas do que antes.” (1991, p. 12) Ainda de acordo com Giddens (1991), podemos entrever os contornos de uma nova e diferente ordem. O autor procura sublinhar as descontinuidades específicas associadas ao período moderno. Fomos desconectados dos tipos tradicionais de ordem social, de uma forma sem precedentes. As transformações ocorridas na modernidade são mais profundas do que as ocorridas em períodos anteriores. Foram estabelecidas formas de interconexão social que abarcam todo o globo. Além disso, nossa própria existência cotidiana foi alterada.
Para o autor, existem descontinuidades que separam as instituições sociais modernas das tradicionais. Uma delas é o ritmo da mudança. Na modernidade, a rapidez da mudança é extrema. Essa característica diz respeito não somente à tecnologia, mas a todas as outras esferas. A segunda descontinuidade é o escopo da mudança. Ondas de mudança penetram toda a Terra. A terceira característica se constitui pela natureza intrínseca das
instituições modernas. Algumas formas sociais modernas não existiam em períodos
precedentes. Produtos e trabalho assalariado foram transformados em mercadoria. Ocorreu uma perda da crença do “progresso”.
A ordem social que surgiu com a modernidade é capitalista em seu sistema econômico e em suas outras instituições. Houve um “deslocamento” das relações sociais que se reestruturaram em extensões indefinidas de tempo-espaço. Giddens (1991) diferencia dois mecanismos de desencaixe envolvidos pelas instituições modernas. As fichas simbólicas, que seriam meios de intercâmbio que podem ser “circulados” sem ter em vista características de indivíduos que lidam com eles. O dinheiro seria um exemplo de ficha simbólica. Os mecanismos de desencaixe dependem de uma confiança com caráter abstrato.
Na visão do autor, se é que o pós-modernismo significa alguma coisa, é mais apropriado para fazer referência a estilos da arquitetura, literatura e artes plásticas. Dessa forma, o conceito estaria mais ligado à reflexão estética. Giddens (1991) pontua ainda que se estamos caminhando para a pós-modernidade, estamos sendo retirados das instituições modernas rumo a um tipo diferente de ordem social. Assim, o pós-modernismo, se é que existe, exprime essa transição, mas não mostra que ela existe. Para o autor, “falar da pós- modernidade como suplantando a modernidade parece invocar aquilo mesmo que é (agora) declarado impossível: dar alguma coerência à história e situar nosso lugar nela.” (GIDDENS, 1991, p. 58)
Para o autor, a natureza expansionista e competitiva do capitalismo sugere que a inovação tecnológica tende a ser constante. O sistema administrativo do Estado capitalista moderno exerce controle sobre arenas territoriais. Essa concentração administrativa depende da imposição de vigilância. Essa vigilância é imposta por meio da supervisão das atividades da população. O capitalismo e o Estado-nação foram os responsáveis por promover a expansão das instituições modernas. Na era moderna, o nível de distanciamento tempo-espaço é maior. A relação entre eventos locais e formas sociais foram “alongadas”. A globalização se caracteriza por esse alongamento, uma vez que as modalidades de conexão entre diversas regiões se enredam pela superfície da Terra. A globalização intensificou as relações sociais em escala mundial.
Giddens (1991) destaca também que as instituições modernas estão ligadas ao mecanismo de confiança em sistemas abstratos. Em condições modernas, o futuro está sempre aberto. Em culturas pré-modernas, o distanciamento tempo-espaço era baixo. No mundo pré- moderno a segurança ontológica estava ligada a contextos de confiança e perigos fixos às circunstâncias do lugar. O parentesco era o primeiro contexto de confiança que predominava nas culturas pré-modernas. Em cenários pré-modernos, a pequena extensão espacial garantia a solidez das relações sociais. Era forte também a influência da cosmologia religiosa. As crenças religiosas também podem ser fonte de ansiedade e desespero, mas em outros aspectos, proporcionam interpretações morais e práticas que representam um ambiente de segurança para o crente.
A religião é um meio organizador de confiança. As deidades e os funcionários religiosos fornecem apoio seguro. A tradição é caracterizada como outro contexto de relação de confiança em sociedades pré-modernas. A tradição se refere à maneira pela qual crenças e práticas são organizadas. Ela é uma rotina intrinsecamente significativa. Muito se tem discutido nas ciências sociais sobre o impacto decrescente da religião e da tradição. A secularização pode ser considerada uma questão complexa. Para Giddens (1991) a cosmologia religiosa tem sido suplantada pelo conhecimento governado por observações empíricas. De acordo com o autor, vivemos num período da alta-modernidade. Para ele, podemos identificar apenas os contornos de uma ordem pós-moderna.
Em contraposição ao posicionamento teórico de Anthony Giddens (1991), o sociólogo Jean-François Lyotard (1998) defende a existência da era pós-moderna. De acordo com Lyotard (1998), a palavra “pós-moderna” designa o estado da cultura a partir do final do
século XIX. Esse é um efeito do progresso das ciências. Está ocorrendo um desuso do dispositivo metanarrativo de legitimação. A função narrativa perde seus heróis. Passamos a viver em muitas encruzilhadas. O princípio de que a aquisição do saber é indissociável da formação está caindo em desuso. A relação entre fornecedor e usuário do conhecimento está se tornando mercantilizada. O saber é produzido para ser vendido. “Sob a forma de mercadoria informacional indispensável ao poderio produtivo, o saber já é e será um desafio maior, talvez o mais importante, na competição mundial pelo poder.” (1998, p. 5)
Ao saber científico, Lyotard (1998) contrapõe o saber narrativo. O autor pontua que a fase atual do capitalismo é caracterizada por uma mudança na função dos Estados. As funções de regulagem são cada vez mais confiadas a autônomos. As “identificações” com heróis se tornam mais difíceis. Cada sujeito é entregue a si mesmo. Na sequência da decomposição dos grandes relatos veio a dissolução do vínculo social. As instituições privilegiam certos enunciados. Já as estórias populares contam formações positivas ou negativas que permeiam as tentativas dos heróis. Esses modelos promovem integração às instituições estabelecidas.
Na concepção de Lyotard (1998) vive-se em um contexto de deslegitimação, no qual as universidades formam competências e não mais ideais. As instituições de ensino superior estão sendo subordinadas aos poderes constituídos.
A questão explícita ou não apresentada pelo estudante profissionalizante, pelo Estado ou pela instituição de ensino superior não é mais: isto é verdadeiro?, mas: para que serve isto? No contexto da mercantilização do saber, esta última questão significa comumente: isto é vendável? E, no contexto do aumento do poder: isto é eficaz? (LYOTARD, 1998, p. 92-93)
A tendência é que se forme um vasto mercado de competências operacionais. Os possuidores deste saber são alvo de disputas políticas. Lyotard (1998), já previa que os bancos de dados seriam a enciclopédia de amanhã. De acordo com o autor, eles são a “natureza” do homem pós-moderno.