PARENTISMO POLÍTICO
2.1. EM TORNO DE UM PROJETO DEMOCRÁTICO LIBERAL
A década de 1980 no Brasil é marcada politicamente pelo processo da transição “democrática” e pela construção da constituição de 1988. Década em que um novo projeto de sociedade começava a ser instaurado, por meio de lutas simbólicas, em torno dos valores vinculados à liberdade. Liberdades que emergem no bojo de uma cultura política autoritária. Tendo esse valor como pressuposto, as discussões acerca da passagem do regime autoritário para o regime democrático ganhará força. A democracia liberal triunfará de braços dados com as antigas elites políticas legitimando o processo de transição e o “projeto” de país.
A defesa em torno de um projeto democrático de país na década de 1980 girou em torno das liberdades que haviam sido reprimidas pelo regime autoritário, não havendo um foco político em relação à democratização social20. Agenda esta que foi defendida pelos partidos de esquerda, a exemplo do PCdoB, PCB e PT, mas que não ganhou espaço de visibilidade no campo político em razão de ter sido rechaçada e relegada, naquele momento, ao esquecimento, sem falar no estigma que fora construído no Brasil historicamente acerca das bandeiras levantadas pela esquerda. (CORDÃO, 2015).
A preocupação das forças políticas que se encontravam na máquina estatal voltava -se para a garantia da transição de forma que pudesse viabilizar os direitos civis e os direitos políticos, principalmente, de votar e ser votado. A democracia, nesse sentido, estaria vinculada ao simples respeito às “regras do jogo”, não caberia, portanto, por em transformação os fundamentos substantivos da ordem social. Vale recordar a emblemática definição minimalista de democracia de Schumpeter (1984), para o qual democracia não seria mais que um simples método de seleção das elites por meio de eleições periódicas. As lutas simbólicas e materiais estabelecidas propiciaram a vitória de um modelo democrático que,
20 O projeto liberal democratizante vence o projeto social democratizante. Embora este pactue por meio dos
movimentos sociais e da sociedade civil um projeto de democracia participativa a partir da década de 1990 e com a constituição cidadã concebendo o alargamento da sociedade civil, o que se viu e se vê é que o controle político da representação política ficou com os herdeiros das oligarquias. A atual crise política vivenciada no país é uma demonstração de que o modelo pactuado de democracia liberal fortaleceu os herdeiros das oligarquias controlando na “Nova República” por meio das mais variadas instituições (Judiciário, Mídia, Legislativo e Tribunais de Contas). No momento que sentiram mudanças que permitiriam a quebra dos privilégios, a classe dominante se articulou de forma orgânica. O modelo de democracia minimalista passou a ser ameaçado, visto que contraditoriamente as forças da democracia social passaram a controlar instâncias que começava a por em suspensão a democracia liberal representativa, fortalecendo e potencializado a sociedade civil no que diz respeito ao alargamento de direitos para aqueles que historicamente foram excluídos.
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antes de por em suspensão a ordem social, poria as regras de escolhas dos candidatos. Esses passaram a ser eleitos através da universalidade do sufrágio, porém, sob o domínio e o controle daqueles que historicamente estiveram atrelados ao aparelho do Estado brasileiro.
As históricas famílias políticas – constitutivas da elite política brasileira – continuariam disputando seus interesses. O projeto de uma democracia liberal triunfa sobre uma democracia substantiva21. Uma agenda em torno da democratização da terra, dos meios de comunicação e da justiça tributária tornou-se novamente secundária no projeto democrático liberal. A desigualdade continuou sendo uma das características marcantes da sociedade brasileira. A igualdade foi encarada no texto constitucional no sentido de isonomia. Distante da forma material pela qual se organiza a sociedade e estão posicionadas as pessoas, o PMDB tornou-se, no período de transição, o símbolo das aberturas democráticas. Um partido que se constituiria a partir da heterogeneidade de agentes políticos das mais diversas linhagens políticas e com verdadeiros caciques regionais. Um partido que se caracterizaria pós-redemocratização pelo fisiologismo e que, portanto, tem como característica a permanência no poder.
Marcos Nobre (2013, p. 42) reforça tal argumento destacando que o PMDB tem como
Característica mais geral e marcante estar no governo, seja qual for o governo e seja qual for o partido a que pertença, como parte de um condomínio de poder organizado sob a forma de um superbloco parlamentar. (NOBRE, 2013, p. 42)
Referindo-se ao PMDB, Nobre (2013) formula uma compreensão de que este partido imprimiu um modus operandi na política brasileira que tem se constituído em uma verdadeira cultura política dominante pós-redemocratização que vários outros partidos têm utilizado para permanecer no poder, inclusive partidos antes configurados de esquerda – como o PT – acabou operacionalizando dentro do jogo político contemporâneo do pemedebismo22 através
dessa dimensão valorativa, cultural produzida historicamente pelo PMDB.
O pemedebismo permite ao agente político construir ou fazer parte de redes em que seu papel é desempenhar e/ou manter, o quanto possível, desemperrados os caminhos
21 De acordo com Osório (2014) democracia substantiva consiste em um modelo de democracia que se baseia
numa concepção de sociedade como unidade orgânica, que tem na igualdade social de seus membros um dos objetivos centrais. O bem da sociedade e a liberdade dos indivíduos são assumidos como um conflito permanente a ser resolvido. Para isso, não basta ditar a lei sobre a igualdade de oportunidades (liberdade negativa), é necessário proporcionar efetivamente as oportunidades para todos (liberdade positiva). Esta proposta de democracia não se limita a escolha das elites governantes, como sugere a proposta de Schumpeter. (OSÓRIO, 2014).
22 O pemedebismo não é uma forma cultural de fazer política apenas no PMDB, trata-se de uma cultura política
que se instaurou após o regime militar, através desse partido, mas que não ficou restrito a ele. Trata-se de um modelo de organização e ação de quase todos os partidos brasileiros.(NOBRE, 2013, p. 57).
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burocráticos que permitem o acesso de seu grupo a fundos e serviços públicos. Ocupar alta posição na hierarquia partidária permite ter uma ampla visão do conjunto da rede (NOBRE 2013). O sistema político dominado pelo pemedebismo, antes de querer, através da democracia, eliminar as desigualdades, terá como objetivo acomodar e gerenciar as desigualdades.
Os herdeiros simbólicos do MDB tornavam-se alimentados pelo amplo aparato midiático dos marinhos e de outras tradicionais famílias, “símbolos da democracia”. A relação estabelecida pelo MDB na transição pactuada entre as elites em prol de uma democracia liberal, em que não se colocou em suspenso a ordem, não seria os elementos utilizados pelos agentes do partido nas disputas simbólicas. Muitos herdeiros das tradicionais famílias políticas – a exemplo de Tancredo Neves – que fundara o PP, iria em 1983, para o PMDB, como candidato ao governo de Minas Gerais. À frente, em 1985, seria o nome civil do PMDB com o apoio do PFL, partido construído a partir dos herdeiros de sustentação do regime, para propor uma transição democrática eminentemente conservadora e pactuada entre as elites. A construção simbólica que triunfaria acerca dos agentes políticos do PMDB, nesse período de redemocratização, é que seriam “os verdadeiros defensores dos ideais democráticos”.
No âmbito das disputas simbólicas, a luta pela democracia que vinha se instaurando pelos projetos de esquerdas, sindicatos, movimentos sociais, OAB, CNBB e, em termos partidários, PCB, PSB, PDT e o PT, são engolidos pelo discurso construído por e entre o aparelho de Estado e a o aparato midiático. Os herdeiros do MDB pertencentes às tradicionais linhagens familiares se tornaram “verdadeiros porta-vozes do discurso democrático”. As famílias políticas tradicionais representadas por Tancredo Neves, José Sarney, Antônio Carlos Magalhães, dentre outros políticos, alinhadas aos militares, se colocaram como símbolos da nascente democracia. Na Paraíba, as famílias “Maia-Mariz”, “Braga”, tradicionais oligarquias que associada às famílias “Lucena” “Ribeiro” “Cunha Lima”, “Maranhão”, “Vital-Rêgo”, “Gadelha-Pires”, “Nóbrega-Mota”, “Gaudêncio-Brito”, disputam os espaços de controle do Estado no período e posteriormente à redemocratização.
A “democracia” assumirá o sentido de uma palavra homogênea em termos de significados. A defesa do projeto democrático defendido pelo PMDB, por meio do jogo simbólico construído pela elite midiática, tornará, aos olhos da maioria, a mesma luta pela democracia defendida pelos movimentos sociais organizados à época. Claro que se tratava de projetos distintos, em torno de uma mesma palavra “democracia”.
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A morte de Tancredo, por exemplo, cria tamanha comoção nacional ao ponto de relacionar que a esperança do Brasil se resume a esse agente político23 e que, portanto, o projeto democrático se inviabiliza com a sua ausência. Político que, em 1980, funda o PP com o intuito de articular, como o PMDB, uma transição pactuada e conservadora, tornando-se símbolo da democracia24. Esta foi uma das formas de inversões simbólicas promovidas pelo aparato midiático no sentido de pactuar com as elites políticas e a classe dominante a transição, desprezando e rejeitando todo e qualquer projeto de democracia que se vinculasse à transformação da ordem social, pertencente aos movimentos sociais e aos partidos posicionados ideologicamente à esquerda.
O projeto de democracia construído na transição deve-se ao pacto estabelecido entre as elites política e econômica. A democracia assim entendida restringe-se à liberdade de votar e ser votado. Esta é a concepção liberal de democracia que passaria a ser defendida pelas elites e pela classe dominante brasileira. Liberdade econômica e liberdade política no que diz respeito a votar e ser votado. Isto me conduz a estabelecer a relação entre democracia e representação. A representação política não pode ser entendida sem que antes leve em consideração as posições que os agentes ocupam no campo de disputas políticas e o quantum de capital esses agentes detêm. A construção de uma teoria crítica da representação política, conforme sugere Miguel (2014), permite-nos uma análise acerca dos capitais (econômico, político, social, cultural, político-familiar) historicamente acumulados e reproduzidos pelos agentes políticos.
Encarar o recrutamento político através do método genealógico relacionando à historicidade dos grupos familiares e econômicos na constituição elite política possibilitam “entender a dinâmica da representação política e como ela se liga às diferentes assimetrias presentes na sociedade” (MIGUEL, 2014, p. 17). A problemática da representação se coloca central ao debate das democracias contemporâneas. Democratizar os espaços da representação
23 Para uma compreensão acerca da construção da democracia no período de transição ver: CORDÃO, 2015. 24 As eleições presidenciais de 1985 seriam indiretas. No Colégio Eleitoral, o PDS não conseguira formar uma
margem ampla e segura, garantindo uma vantagem de apenas 38 parlamentares (BIERRENBACH, 1986). Mais do que isso, não fora capaz de viabilizar um candidato que unisse o partido. Com a definição de Paulo Maluf como candidato à presidência, o partido definitivamente rachou. A candidatura de Tancredo crescia em ritmo acelerado, levando muitos pedessistas – até então sustentadores do Regime Militar – a apoiarem a candidatura do PMDB. A maior parte desses dissidentes formou a “Frente Liberal”, encabeçada por Aureliano Chaves, ex-pré- candidato do PDS, e Marco Maciel. José Sarney abandonou a presidência do partido de Maluf e migrou para o PMDB. Apoiador da “Frente Liberal”, Sarney foi escolhido para ser o candidato à vice-presidência na chapa de Tancredo. Formou-se, assim, a “Aliança Democrática”, responsável por viabilizar a chegada do PMDB ao poder após anos de oposição. Porém, não foi esta uma vitória categórica da esquerda, na medida em que o triunfo, além de formar uma aliança com a “Frente Liberal”, contou com largo apoio de parlamentares do PDS. (BIERRENBACH, 1986, p. 47 a 128)
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requer um entendimento acerca da produção social das representações, quais agentes que ocupam e a que famílias pertencem, suas trajetórias.
O projeto de democracia triunfante na década de 1980 em nosso país foi o liberal. Assim, o Brasil transitou de um Estado autoritário para um Estado de direito oligárquico25. A democracia triunfante passou a operacionalizar pelas formas constitucionais e as práticas dos governos oligárquicos, tomando-se usualmente a existência de um sistema representativo como critério pertinente de democracia. Com tal projeto vencedor, o embate simbólico, nos primeiros anos da redemocratização, focou na concepção de liberdade como sinônimo de democracia. A “democracia liberal” triunfa sob o controle das velhas famílias políticas – antigas oligarquias – agora sob “novas” lideranças.
A democracia tornou-se, assim, o regime político que, assegurando a liberdade de votar e ser votado, permite a representação política por meio de partidos financiados por fraudes em contratos públicos; empresários que investem quantidade colossal de dinheiro em busca de mandatos; donos de império midiáticos privados apoderando-se das concessões púbicas e famílias políticas que historicamente se reversam nos órgãos e cargos de representação do aparelho de Estado, agora legitimadas pelo crivo do sufrágio universal, em eleições que os mais diversos tipos de capitais garante-lhes a inserção no campo político.
25 Ver: RANCIÈRE, 2014, p. 92.
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