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3 EMBASAMENTOS TEÓRICOS

No documento adilsonrodriguescampos (páginas 93-101)

Neste capítulo, abordamos o foco, a fundamentação teórica deste trabalho e a nossa posição do que se entende por produção de significados. Logo depois, é apresentada a questão de investigação.

Com o propósito de investigar os significados produzidos, através de vários fatores que influenciam, positivamente e/ou negativamente, a tomada de decisão dos nossos sujeitos de pesquisa – “indivíduos-consumidores de bens e serviços” (KISTEMANN JR., 2011) sobre os seus gastos pessoais, domésticos e familiares, frente a esta nova sociedade líquido-moderna de consumo.

As escolhas e tomadas de decisões dos nossos sujeitos de pesquisa e suas produções de significados foram balizadas nas premissas do Modelo dos Campos Semânticos (MCS), cujas ideias básicas foram desenvolvidas por Lins (1994), dentre outras obras, assim como por Silva (2003), com seu método de leitura plausível, permitindo assim ler essas produções de significados dos sujeitos sobre objetos constituídos no interior de uma atividade.

3.1- O Referencial Teórico: pressupostos

O referencial teórico utilizado para as análises da nossa pesquisa de campo foi o Modelo dos Campos Semânticos (MCS) desenvolvido pelo educador matemático Romulo Campos Lins, a partir de sua tese de doutorado com o título: “A framework for understanding what algebric thinking is” (Um quadro de referência para entender o que é pensamento algébrico), submetida à Universidade de Nottingham em 1992, e amplamente utilizado nas pesquisas orientadas, desde o ano de sua formulação.

Apesar de as ideias do Modelo dos Campos Semânticos, a princípio, estarem ligadas diretamente a busca de Lins por um suporte teórico para seus estudos sobre álgebra e pensamento algébrico, e isso nos poderia fazer pensar que o modelo somente pode ser utilizado em estudos e pesquisas relacionados com essa área da Matemática, mas na verdade não é isso que ocorre, pois podemos também usá-lo e aplicá-lo em qualquer outra situação onde ocorra a produção de significados.

Esse Modelo dos Campos Semânticos é um modelo epistemológico utilizado para fins de estudos e pesquisas nas diversas áreas de conhecimento. Através dele, podemos entender a produção de significados para um objeto, buscando observar aquilo que o sujeito efetivamente diz sobre ele em uma tarefa proposta.

Para Romulo Campos Lins, idealizador do MCS, o “Modelo se constitui em algumas noções e nas relações entre elas, pensado como um quadro de referência, a partir do qual, o que vai existindo é tratado. O Modelo existe apenas enquanto está em movimento. Estudar o MCS é usá-lo” (ANGELO, 2012).

Acreditamos ainda que a utilização do Modelo dos Campos Semânticos coloca-se como um ato importante para se pensar e refletir algumas atitudes e questões relacionadas à Educação e a Educação Matemática, principalmente na hora de se interpretar amplamente todos os dados coletados em uma pesquisa de campo sob a forma qualitativa. E é sob esse enfoque que o modelo será usado em nosso trabalho.

O MCS é o suporte teórico para o estudo da produção de significados a partir da leitura de objetos de aprendizagem, que no nosso caso são os objetos financeiro- econômicos correlacionados a algumas discussões e situações-problema de consumo e planejamento propostas em oito módulos-encontros sobre os temas: Planejamento Financeiro, Orçamento e Economia Doméstica, além de outras atividades relacionadas aos gastos financeiros em geral das famílias brasileiras, frente a esta nova sociedade líquido-moderna de consumo.

As concepções deste modelo foram fundamentais para fazermos a leitura da produção de significados dos nossos sujeitos de nossa pesquisa – indivíduos- consumidores de bens e serviços, que no caso são todos professores de uma mesma escola pública, a respeito daquilo que eles tinham a nos dizer sobre suas ações de consumo e tomadas de decisão financeiro-econômicas cotidianas.

Segundo Kistemann Jr. (2011, p. 176):

No contexto da tomada de decisão de indivíduos-consumidores quando estes realizam suas ações de consumo, afirmamos que não há o consumidor que toma decisões racionais ou irracionais simplesmente, mas o consumidor que toma decisões de acordo com seu conhecimento (matemático ou não) e que sofre as consequências de seus atos de consumo numa sociedade globalizada e fortemente marcada pelos pressupostos do mercado econômico.

Assim a seguir apresentamos o detalhamento sobre nossos pressupostos teóricos sustentados pelo Modelo dos Campos Semânticos. No entanto, inicialmente

já concordamos com as ideias de Barroso e Kistemann Jr. (2013, p. 475) ao exemplificar como seria o uso do Modelo em sala de aula:

(...) o professor ensina conceitos matemáticos na medida em que ouve o que seus alunos falam desses conceitos, ao passo sobre os mesmos, ou seja, produzem significados para os conceitos apresentados que os alunos podem aprender Matemática e seus conceitos no momento em que falam. Uma total inversão no ensino e aprendizagem na sala de aula de Matemática.

Os principais elementos do MCS, de acordo com Lins (1999), são o significado, conhecimento, interlocutores, núcleo/estipulações locais, objetos e outras noções como a atividade, o espaço comunicativo, o texto e legitimidade.

Segundo Lins (1999, p. 87), “Conhecimento é uma crença-afirmação junto com uma justificação”, onde podemos relacionar a crença-afirmação como algo em que o sujeito enuncia e acredita, e a justificação como aquilo que este sujeito entende e foi lhe autorizado a dizer o que diz.

Silva (2003) explica a noção de conhecimento apresentada por Lins (1999): O sujeito acredita naquilo que está afirmando, o que implica que ele acredita estar autorizado a ter aquela crença. Mas não é suficiente que aquela pessoa acredite e afirme; é preciso também que ela justifique suas crenças- afirmações para que a produção de conhecimento ocorra. Porém, o papel da justificação não é explicar a crença-afirmação, mas tornar sua enunciação legítima, o que faz com que as justificações tenham um papel central no estabelecimento do conhecimento do sujeito. (SILVA, 2003, p. 6) Essa noção de conhecimento também pode ser entendida como algo que surge a partir da enunciação, da fala e da justificação daquilo que se acredita ser real pelo sujeito. Portanto, a sua fala sempre traz consigo uma oportunidade de organização de suas ideias adquiridas no meio social e cultural em que está inserido, cujos compartilhamentos interpessoais fundamentam a sua produção. O papel da justificação seria então produzir legitimidades para essa enunciação.

Podemos então dizer que o processo de produção do conhecimento está diretamente relacionado à capacidade do sujeito de falar e expor seu pensamento – seja através de sons, gestos, escritas ou rabiscos de todo tipo. E quando uma enunciação sobre um objeto acontece, o que se diz efetivamente sobre esse objeto no contexto de uma atividade é denominado significado.

Segundo Lins (1997) falar sobre um objeto é produzir significados sobre este objeto, isso quer dizer que toda produção de significado implica em produção de conhecimento. O conhecimento não está em nenhum texto ou enunciado, mas sim

na enunciação de um texto ou de um enunciado, feita por um sujeito que produz significados para esse texto ou esse enunciado.

Para produzir conhecimentos o sujeito aplica seu modo de pensar ao objeto de estudo e produz crenças-afirmações e justificações sobre ele. Traz ainda uma visão pessoal na interpretação do mesmo e o coloca de acordo com suas experiências, seu contexto social e histórico, de forma própria e pessoal.

Assim, de acordo com Lins (1999), nenhum conhecimento vem ao mundo ingenuamente, isto é, aquele que o produz, que o enuncia, já fala em uma direção, para alguém, este alguém é o interlocutor, na qual o que ele diz, e com a justificação que tem pode ser dito, de modo que essa direção representa uma legitimidade que internalizou o sujeito. Um dos pressupostos do MCS é de que todo conhecimento produzido é verdadeiro para quem o produz, simplesmente porque a legitimidade da enunciação/justificação se estabelece no processo de uma atividade.

Esclarecendo um pouco mais, de acordo Barroso e Kistemann Jr. (2013, p. 475), justificação no MCS não é justificativa, não é explicação para o que o sujeito diz, é apenas o que esse sujeito do conhecimento (aquele sujeito que o produz, que o enuncia) acredita (crença) e que o autoriza a dizer o que diz (afirmação) sobre algo no processo de uma atividade matemática, por exemplo, e que, muitas vezes, passa despercebido pelo professor centrado em seu ensino e que pouco abre espaço para as justificações de seus alunos.

Para o MCS a ideia de objeto caracteriza-se como sendo qualquer coisa sobre a qual um sujeito está enunciando, por exemplo, as taxas de juros ou o dinheiro. O objeto, sobre o qual o sujeito fala, não está previamente constituído, ele é exatamente aquilo que se constitui durante a fala do sujeito a partir de um resíduo de uma enunciação (conceitos, teorias, textos, situações-problema, algo escrito num parágrafo de um livro, e tudo mais).

Quanto à ideia de significado no MCS é tudo aquilo que um sujeito pode, e de fato diz, no interior de uma atividade na direção de um objeto. Entretanto, cabe se frisar aqui que “não é tudo que pode ser dito (pelo sujeito), já que qualquer dada cultura aceita alguns, mas nunca todos os modos possíveis de produzir significado”. (LINS e GIMENEZ, 1997, p. 143).

Segundo Santos (2007, p. 52):

(...) enquanto uma pessoa está produzindo significados, faz algumas afirmações que não sente necessidade de justificar porque as toma como válidas, dispensando outras justificações. Essas são crenças-afirmações que são chamadas de estipulações locais.

Mas para Lins (1999), a noção de estipulações locais (afirmações) é utilizada para afirmar que localmente (no interior de uma atividade) as justificações funcionam como verdades absolutas (como o dado), não precisando, portanto, elas próprias (as justificações) ser justificadas. Podemos dizer então que os sujeitos operam no interior das atividades com base em seus conhecimentos e em suas estipulações locais.

Ressaltamos ainda que o conceito de Campo Semântico, pode ser definido como “a atividade de produzir significado em relação a um certo núcleo” (SILVA, 1997, p. 14). E a ideia de núcleo, segundo Lins (1999), é “um conjunto de estipulações locais que estão em jogo em determinado momento, dentro de uma atividade”.

O núcleo, no sentido proposto pelo MCS, não é dado a priori e não se refere a algo estático, a um conjunto de coisas. Refere-se a todo um processo que se constitui no interior de atividades e se dissipa ao final delas, pois em uma outra atividade, um novo núcleo se constitui, novas estipulações são incluídas e antigas estipulações que vinham sendo adotadas até então, são abandonadas. Entretanto, devemos identificar em relação a que são produzidos os significados, ou seja, o que o sujeito ou pessoa que está envolvida no processo toma como dado, como coisas que não precisa justificar.

Em Lins (1999) encontramos a importância de investigarmos a produção de significados ao dizer: “Para mim, o aspecto central de toda aprendizagem humana – em verdade, o aspecto central de toda cognição humana – é a produção de significados” (LINS, 1999, p. 86).

E mais, de acordo com Lins (2012, p. 23) “o uso da leitura plausível é útil nas situações de interação, como são todas as situações envolvendo ensino e aprendizagem”, pois ela nos permite e tem, no MCS, por objetivo “mapear o terreno”, ao mesmo tempo, que trata de saber onde o sujeito está. Lins explica ainda que a leitura é plausível porque “faz sentido”, “é aceitável num dado contexto”, “parece ser

que é assim”, de modo que uma leitura plausível opõe-se a uma leitura pela falta, ou seja, ela indica um processo no qual o todo do que um sujeito acredita no que diz faz sentido para este sujeito.

Segundo Silva (2003, p. 54), “o caminho para uma leitura plausível é buscar fazer uma leitura do outro através de suas legitimidades, seus interlocutores, compartilhando o mesmo espaço comunicativo”. Desta forma, pretendemos ler o que os nossos sujeitos de pesquisa dizem, quando operam com objetos financeiro- econômicos nas situações problema de consumo e de planejamento financeiro pessoal, doméstico e familiar.

Entretanto, a fim de se estabelecer uma leitura plausível dos nossos sujeitos de pesquisa nas situações-problema de consumo e planejamento, faremos uso do MCS que norteará todas as nossas investigações e consequentemente legitimará a produção de significados desses nossos sujeitos, sem promover o preconceito de um caminho único na tomada de decisão. Assim, destacamos também segundo Barroso (2013, p. 110) que “o objetivo da leitura plausível não é olhar para o erro quando os sujeitos respondem uma situação-problema, mas compreender sua justificativa”.

Para Kistemann Jr. (2011), podemos fazer o uso do método de leitura plausível para identificar, qualitativamente, o modus operandi de indivíduos- consumidores em suas estratégias de decisão em situações de consumo por meio dos significados por eles produzidos mediante situações-problema apresentadas. As situações de consumo são vistas, assim, como atividades no interior das quais os significados são produzidos.

Nossa proposta de pesquisa ainda consiste de uma análise qualitativa dos modus operandi de cada participante – indivíduo-consumidor de bens e serviços na sociedade de consumo, frente as suas tomadas de decisões durante nossas discussões e situações-problemas a serem debatidas.

Nesse estudo exploramos também as várias questões relacionadas ao cotidiano desses nossos sujeitos de pesquisa, sendo os mesmos todos donos ou donas de casa que participavam ativamente da elaboração e execução de um orçamento pessoal, doméstico e familiar; e o modus operandi de suas escolhas, por exemplo, nas formas de pagamento de suas despesas diárias, semanais e mensais, e o motivo pelo qual preferem fazê-la daquela forma.

Aplicamos inicialmente e durante a nossa pesquisa entrevistas semi- estruturadas, onde discutimos os vários interesses dos nossos sujeitos de pesquisa pelo tema de nossas atividades a serem desenvolvidas durante os nossos módulos- encontros e suas expectativas futuras de vida após iniciarmos essas discussões através de debates coletivos. Todas as respostas colhidas em nossos oito módulos- encontros, foram vistas como significados produzidos e as analisamos com as lentes do MCS, mas não fechamos os nossos olhos para outras categorizações que poderiam emergir e nos ajudar na análise criteriosa de tais significados.

A análise de todas essas informações ou dados coletados durante a pesquisa de campo, por meio de escritas, gravações de áudio e vídeo sobre o que nossos sujeitos pesquisados tinham a nos dizer sobre suas ações de consumo e tomadas de decisão financeiro-econômicas cotidianas foi balizada pelo método da leitura plausível dos significados produzidos por eles, e de acordo com a fundamentação teórica do Modelo dos Campos Semânticos.

3.2 - A questão de investigação

A nossa questão de investigação, está diretamente ligada ao tema de nossa pesquisa “A Educação Financeira em um Curso de Orçamento e Economia Doméstica para Professores: Uma Leitura da Produção de Significados Financeiro- Econômicos de Indivíduos-Consumidores”, e foi feita através de uma pergunta diretriz: “Como ter e manter um orçamento doméstico equilibrado numa sociedade líquido-moderna de consumo?”, a qual nos norteou como um fio condutor durante todo esse processo.

Para tentarmos responder essa pergunta diretriz, fizemos várias discussões e reflexões sobre algumas ações de consumo e planejamento através de situações- problema propostas em nossos oito módulos-encontros sobre os seguintes temas: Planejamento Financeiro, Orçamento e Economia Doméstica, além de outras atividades relacionadas aos gastos financeiros em geral das famílias brasileiras.

Tendo em vista que o nosso tema de pesquisa é de grande abrangência, durante o andamento de nossa pesquisa de campo tivemos muitas surpresas que nos remeteram a um debate mais detalhado e específico sobre cada enfoque do tema a ser pesquisado e da questão de investigação, de forma abrangente e

profunda, com o intuito de sempre esclarecer e sanar qualquer dúvida que poderia aparecer durante nossos módulos-encontros – mesmo as mais simples relacionadas ao significado de alguma sigla qualquer até àquelas dúvidas que envolvam cálculos financeiros mais avançados, junto ao coletivo de nossos pesquisados “indivíduos- consumidores de bens e serviços”.

Assim, nossa questão de investigação buscou entender melhor como os indivíduos-consumidores fazem e executam o próprio planejamento financeiro, atrelado ao uso de seu principal instrumento de controle o Orçamento Doméstico. Além de se investigar também as suas atuais ações financeiro-econômicas, que estão diretamente ligadas às tomadas de decisão em relação ao consumo e ao planejamento.

No final da pesquisa elaboramos um produto educacional, em forma de “livreto didático”, que poderá auxiliar a todos interessados nesse tema, como entender e compreender melhor a real importância de sempre, que possível, discutir tais questões relacionadas às situações financeiro-econômicas de consumo de bens e serviços para uma Educação Financeira mais consciente e só assim poderão perceber como é relevante sempre ter e manter um bom planejamento financeiro – seja o mesmo pessoal, doméstico ou familiar; pois é através dele e de seu principal instrumento de controle o Orçamento Doméstico que podemos desenvolver planos e alcançar metas e objetivos a curto, médio ou longo prazo com total sucesso, inclusive uma melhor qualidade de vida hoje, amanhã e dias futuros para si e seus familiares.

No capítulo seguinte, descrevemos os procedimentos metodológicos escolhidos para esta investigação, além de relatar também como foi sua caracterização de cunho qualitativo, o contexto em que foi desenvolvida, os sujeitos de pesquisa e as atividades que foram realizadas durante os nossos oito módulos - encontros.

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