ama a música e se recusa a desistir dela...
...mas se não conseguir logo a bênção de alguém, pode ficar
preso para sempre
no Mundo dosMortos.
M
iguel seguiu Hector descendo as escadas. “Mas por que é que iria querer ser músico?”, perguntou Hector.Miguel se sentiu ofendido. “Meu tataravô era músico.”
“Que passou a vida toda se apresentando como um macaco para completos estranhos. Argh!, não, obrigado, não”, Hector disse.
“O que VOCÊ sabe disso?”, perguntou Miguel. “Esse violão está muito longe?”
“Estamos quase chegando.” Hector deu um salto das escadas e caiu no chão, seus ossos se espalharam e depois se reuniram.
“Vamos, rapacito, não podemos perder tempo!”
A escada à frente deles descia para uma pequena parte da cidade, coberta em poeira. As luzes brilhantes que coloriam o Mundo dos Mortos pareciam ter evitado essa parte. Miguel olhou para quem passava na rua. Eram empoeirados e esfarrapados assim como Hector, sem as cores e os adereços chamativos das roupas dos Rivera. Um grupo de esqueletos desbotados estava reunido em volta de uma fogueira, feita numa lata de lixo, rindo de maneira estridente. Viram Hector se aproximar.
“Primo Hector!”, o grupo saudou de forma espalhafatosa.
“Ai! Esses caras!”, falou Hector com um sorriso largo. Fez um gesto de cabeça para cumprimentar o homem que tocava uma
música alegre num violino feito de latas, corda e outros objetos. “Ei, tio!”, Hector falou para o homem que tocava violino.
“Essas pessoas são a sua família?”, perguntou Miguel.
“Bom, de certa forma. Ninguém coloca foto em oferenda para nós. Não temos família para a qual voltar. Praticamente esquecidos, sabe?” Hector disse isso com tristeza na voz. “Então, nos chamamos de primos, ou tio, ou qualquer coisa.”
Hector e Miguel se aproximaram de três senhoras que jogavam cartas sobre uma caixa de madeira.
“Hector!”, uma delas chamou.
“Tia Chelo! Ei, ei!”, Hector cumprimentou a senhora.
“Chicharrón está por aqui?”
“No bangalô. Não sei se está querendo receber visitas”, tia Chelo informou.
“Quem não gostaria de receber a visita do primo Hector?”, brincou e entrou na tenda. Segurou as cortinas para que Miguel e Dante passassem. Dentro, era apertado, escuro e calmo. Havia pilhas de pratos antigos, uma cômoda cheia de relógios de bolso e muitas revistas e muitos discos. Miguel tropeçou e quase derrubou vários.
Hector viu uma rede cheia de bugigangas e um chapéu empoeirado. Ergueu o chapéu e viu o rosto ranzinza de seu amigo Chicharrón.
“Buenas noches, Chicharrón!”
“Não quero ver sua cara idiota, Hector!”
“Ora vamos, é Día de los Muertos! Trouxe um presentinho!”
“Saia daqui...”
“Eu sairia, Chicha, mas é que... eu e meu amigo aqui, Miguel, precisamos muito pegar seu violão emprestado.”
“Meu violão?”, Chicharrón se mexeu na rede.
“Prometo que vamos trazê-lo de volta”, Hector se explicou.
Chicharrón se sentou indignado.
“Como aquela vez em que prometeu trazer minha van de volta?”
“Hum”, Hector disse.
“Ou meu frigobar?”
“Ah, é que... hummm...”
“Ou meus guardanapos bons? Meu laço? Meu fêmur?”
“Não, não como daquelas vezes.”
“Onde está o meu fêmur? Você...”, Chicharrón ergueu um dedo para colocar na cara de Hector, mas caiu enfraquecido na sua rede, uma luzinha dourada brilhava através de seus ossos.
“Certo, certo, está bem, meu amigo?”, Hector continuou, correndo para ajudá-lo.
Chicharrón deu um longo suspiro. “Estou desaparecendo, Hector.
Posso sentir.” Olhou para seu violão. “Não poderia tocar essa coisa nem se quisesse.”
Os olhos de Hector foram de Chicharrón para o violão.
“Você pode tocar alguma coisa para mim”, pediu Chicharrón.
“Oh, sabe que não toco mais, Chicha”, relutou Hector. “O violão é para o garoto.”
“Se quer o violão, precisa merecê-lo.”
Hector pegou o violão a contragosto. “Só para você, amigo.
Alguma preferência?”
Chicharrón sorriu: “Você sabe qual é minha canção favorita, Hector.”
Hector sorriu ironicamente e começou a dedilhar as cordas do violão, tocando uma doce canção. Chicharrón sorriu, parecendo estar em paz, finalmente. Ouvindo Hector tocar, Miguel ficou impressionado. Não tinha a menor ideia de que Hector era músico – e um músico muito bom! O esqueleto começou a cantar uma música boba sobre uma mulher chamada Juanita, cujas articulações arrastavam no chão.
“Não é essa a letra!”, Chicharrón protestou.
“Tem uma criança presente”, Hector disse, com calma, e continuou cantando. Terminou a música com um suave floreio.
“Traz de volta lembranças”, disse Chicharrón. “Gracias.” Então, seus olhos se fecharam. De repente, as extremidades dos ossos de
Chicharrón começaram a brilhar com uma luz linda e suave. Hector pareceu triste. Então, assistiram Chicharrón se dissolver em pó.
“Espere, o que aconteceu?”, Miguel perguntou preocupado.
Hector pegou um copo, fez um brinde em homenagem a Chicharrón e bebeu. Colocou o copo ao lado do copo de Chicharrón, que permaneceu cheio.
“Ele foi esquecido”, Hector explicou. “Quando não há mais ninguém no Mundo dos Vivos que se lembra de você, você desaparece deste mundo. Chamamos isso de morte final.”
“Para onde ele foi?”, perguntou Miguel.
“Ninguém sabe”, respondeu Hector.
Miguel teve uma ideia. “Mas eu o conheci. Posso me lembrar dele quando voltar.”
“Não, não é assim que funciona, rapacito. Nossas memórias precisam vir de quem nos conheceu em vida. Nas histórias que contam sobre nós. Porém, não resta mais ninguém vivo para contar as histórias de Chicha...”
Miguel ficou em silêncio, pensando no altar de sua família e em como manter sua memória viva.
Hector colocou a mão nas costas de Miguel, sentindo-se mais alegre. “Ei, acontece com todos, eventualmente”, disse. Deu o violão para Miguel: “Vamos, De la Cruz Júnior. Tem uma competição para vencer.” Hector abriu as cortinas, e Miguel o seguiu para fora da tenda.
U
m pouco mais tarde, Hector e Miguel estavam pendurados na parte de trás de um bondinho. Hector dedilhava o violão sem intenção de tocar, enquanto se dirigiam para a cidade.“Disse que odiava músicos. Nunca disse que era um deles”, Miguel ponderou.
“Como acha que conheci seu tataravô? A gente tocava junto.
Ensinei a ele tudo o que sabe.” Hector tocou um conjunto de notas sofisticado, mas errou a última.
“Sem chance! Você tocava com Ernesto de la Cruz, o maior músico de todos os tempos?”
“Ah, ah! Engraçadinho!”, Hector riu. “Maiores sobrancelhas de todos os tempos, talvez, mas sua música... hmmm nem tanto.”
“Não sabe do que está falando”, Miguel concluiu.
O bondinho chegou ao topo. “Bem-vindo à Praça De la Cruz!”, Hector anunciou. No meio da praça movimentada, estava uma estátua gigante de Ernesto de la Cruz. “Hora do show, rapacito!”, Hector colocou o violão nos braços de Miguel.
O menino olhou à sua volta na praça. Parecia que o lugar brilhava e cantarolava, por causa dos gritos dos vendedores que promoviam uma variedade de doces e artesanatos para quem andava por ali.
“Llevelo! Camisetas!”, gritava o vendedor com produtos de Ernesto de la Cruz. “Bonequinhos!”
Miguel olhou mais adiante do vendedor e percebeu um palco grande, onde uma mestre de cerimônias estava dando as boas-vindas ao público.
“Bienvenidos a todos!”, gritou. “Quem está pronto para ouvir música boa?” O público comemorou e aplaudiu. “É a batalha de bandas, pessoal. O vencedor vai tocar para o maestro Ernesto de la Cruz, na sua festa hoje à noite!” O público continuou comemorando. “Que comece a competição!”, exclamou a mestre de cerimônias.
O palco se animou com vários números sendo apresentados, um após o outro. Os artistas não eram como algo que Miguel já tivesse visto. Tinha uma apresentação com tuba e violino, uma banda de metal pesado, alguém tocando marimba nas costas de um guia espiritual que assumiu a forma de iguana, uma orquestra de cachorros, e freiras tocando acordeão.
Miguel e Hector se inscreveram para a competição e foram para os bastidores juntar-se a uma multidão de outros artistas.
“Então, qual é o plano? O que vai tocar?”, Hector perguntou.
“Definitivamente ‘Lembre de Mim’”, Miguel respondeu. Ele começou a tocar as primeiras notas. Hector colocou a mão sobre as cordas.
“Não, essa não. Não”, Hector pediu muito sério.
“Mas essa é a música mais popular dele!”
“Então, é muito popular”, Hector retrucou. Olharam ao redor nos bastidores e perceberam que muitos outros estavam ensaiando
“Lembre de Mim”. Um músico estava tocando a canção em copos com água.
“Aquela música já foi assassinada o suficiente”, Hector disse com desgosto.
“Que tal...”, Miguel pensou bastante: “Un Poco Loco?”
“Muito bem! Agora sim!”
Um assistente de direção se aproximou de Miguel. “De la Cruz Júnior?”, ele perguntou. Miguel assentiu com a cabeça. “Fique atento, sua vez já vai chegar!” Depois, o assistente fez um gesto para outra banda. “Los Chachalacos são os próximos!”
Quando Los Chachalacos pisaram no palco, o público aplaudiu. A banda começou com uma introdução especial e o público foi ao delírio.
Nos bastidores, Miguel espiou a empolgação do público. Los Chachalacos eram invencíveis, De repente, sentiu-se mal. Parou.
“Sempre fica muito nervoso antes de se apresentar?”, Hector perguntou.
“Não sei. Nunca me apresentei antes.”
“O quê? Disse que era músico!”
“Sou!”, Miguel respondeu. “Quero dizer, vou ser. Depois que ganhar.”
“Esse é seu plano?”, Hector se exaltou. “Não, não, não, não, não... PRECISA ganhar, Miguel. Eu PRECISO que você ganhe. Sua vida LITERALMENTE depende da sua vitória E VOCÊ NUNCA FEZ ISSO ANTES?”
Miguel estava processando os fatos. Sua vida dependia MESMO da sua vitória. Um sentimento de pânico começou a se espalhar no seu rosto.
E Hector viu. “Vou lá.” Esticou o braço para pegar o violão.
“Não!”, Miguel protestou. “Preciso fazer isso!”
“Por quê?”, perguntou Hector.
“Se não conseguir ir lá e tocar UMA música, como posso dizer que sou músico?”
“Por que isso importa?”
“Porque não quero apenas TER a bênção de Ernesto de la Cruz.
Preciso provar que... que MEREÇO.”
“Oh”, exclamou Hector. “Oh, que sentimento maravilhoso... em uma hora péssima.” Então, ele se acalmou. “Muito bem, quer se apresentar? Então, precisa SE APRESENTAR! Primeiro, precisa
relaxar um pouco. Sacudir os nervos!” Hector e Miguel fizeram uma dancinha.
“Agora, me dê seu melhor grito!”, Hector ordenou.
“Meu melhor grito?”
“Vamos, grite! Ponha para fora!”, Hector incentivou e, em seguida, deu um grito longo e gutural. “Ah, melhor assim! Certo, agora você.”
Miguel olhou para Hector sem ter certeza. “A-a-aiiiiiiii-aaaaaaa-iiiiiii-ai...” O grito de Miguel foi desafinado e irregular.
Dante choramingou.
“Oh, vamos, garoto”, Hector insistiu. Atrás deles, no palco, Los Chachalacos estavam terminando a apresentação com aplausos incessantes.
“De la Cruz Júnior, sua vez!”, o assistente de direção informou.
“Miguel, olhe para mim”, Hector disse.
“Vamos lá, está na hora!”, o assistente gritou para Miguel, gesticulando para indicar o caminho do palco.
“Ei! Ei, olhe para mim”, Hector repetiu para tirar Miguel do transe. Miguel finalmente olhou para Hector. “Consegue fazer isso.
Conquiste a atenção deles e não a perca!”
A mestre de cerimônias falou para o público. “Temos mais uma apresentação, amigos”, informou.
“Hector”, Miguel falava baixinho enquanto o assistente o empurrava para o palco.
“Damas y caballeros! De la Cruz Jr.!”, anunciou a mestre de cerimônias.
“Faça com que escutem você, rapacito! Você consegue!”, Hector falou mais alto.
Com o violão nas mãos, Miguel entrou desajeitado no palco. As luzes fortes o cegaram e tentou forçar os olhos para enxergar o público enorme. O público olhou para ele também. Miguel ficou parado, congelado de medo.
H
ector se virou para Dante. “O que ele está fazendo? Por que não está tocando?”Miguel continuou parado em frente a um público inquieto, que queria dançar.
“Tragam os cachorros cantores de volta!”, alguém gritou. Miguel olhou para Hector e Hector repetiu a dancinha dos bastidores.
Miguel o imitou, respirou fundo e...
“HAAAAAAAAI-IAAAAAAAAI-IAAAAAAAI-IAAAAAAAI!”, soltou aquele grito longo e gutural.
O público ficou impressionado. Segundos depois, responderam com elogios e assovios. Alguns imitavam o grito, enquanto outros aplaudiam. Miguel começou a tocar no violão a música “Un Poco Loco”. Em seguida, deixou sua voz espalhar a letra para o público vibrante. Quando terminou o primeiro verso, já tinha conquistado todos.
De repente, Dante segurou Hector pela perna, tentando levá-lo até Miguel, no palco. Primeiro, Hector o afastou, mas, por fim, deixou que Dante o levasse até o palco. Sob os holofotes, Hector caprichou na percussão usando seus pés para acompanhar o violão de Miguel.
“Nada mal para um cara morto!”, Miguel disse para Hector.
“Você também não é ruim, gordito!”, Hector respondeu ao som grandioso dos aplausos.
Mas sem que Miguel soubesse, atrás do palco de apresentações, um caminho de pegadas brilhantes guiava Pepita e a família Rivera na direção daquele espetáculo.
“Ele está aqui perto”, Mamá Amelia disse. “Encontre-o.” Os membros da família se separaram, perguntando a todos que passavam.
“Estamos procurando um garoto vivo, mais ou menos doze anos”, tio Felipe e tio Óscar disseram juntos.
“Viram um garoto vivo?”, tia Rosita perguntou.
Embora o público batesse palmas no ritmo da música, a família de Miguel não prestou atenção ao menino-esqueleto que se apresentava no palco, ou no homem-esqueleto que estava ao lado dele, cada vez mais criativo com seus movimentos de dança. A cabeça de Hector sacudia e seus membros giravam para todos os lados. Cada truque novo fazia o público rir de alegria.
Hector e Miguel concluíram a apresentação com um grito e o público explodiu em aplausos. Miguel sorriu, aproveitando aquele momento. Ele se sentiu como um verdadeiro músico.
“Ei, você foi ótimo!”, Hector elogiou. “Estou orgulhoso!”
O coração de Miguel se encheu de alegria. Estavam mesmo batendo palmas para ele? Olhou para o público e viu sua família.
Papá Julio estava conversando com a mestre de cerimônias do outro lado do palco!
“Otra! Otra! Otra!, o público pedia bis.
Em pânico, Miguel puxou Hector para longe de Papá Julio e da mestre de cerimônias. Hector protestou irritado porque Miguel não queria cantar mais uma música. “Ei, aonde vai?”
“Temos que sair daqui”, Miguel disse sem fôlego.
“O quê? Está maluco?! Estamos prestes a vencer essa coisa!”
“Damas y caballeros, tenho um anúncio de emergência”, a mestre de cerimônias disse no palco. O público se aquietou. “Por favor, estejam atentos a um garoto vivo, que se chama Miguel. Mais cedo,
ele fugiu de sua família. Eles só querem mandá-lo de volta para o Mundo dos Vivos.” Rumores de preocupação se espalharam entre a multidão. “Se alguém tiver alguma informação, por favor, entre em contato com as autoridades”, completou a mestre de cerimônias.
Hector arregalou os olhos. “Espere, espere, espere!” Olhou com calma para Miguel. “Disse que Ernesto de la Cruz era seu ÚNICO familiar. A ÚNICA pessoa que poderia mandá-lo para casa.”
“Tenho outros familiares, mas...”, Miguel começou a explicar.
“Já poderia ter levado minha foto para o Mundo dos Vivos esse tempo todo?”
“Mas eles odeiam música. Preciso da bênção de um músico!”
“Mentiu para mim!”, Hector disse.
“Ah, olha só quem fala!”
“Olhe para mim. Estou sendo esquecido, Miguel. Não sei nem se vou conseguir durar essa noite toda!”, Hector desabafou. “Não vou perder minha única chance de cruzar aquela ponte só porque você quer viver uma fantasia musical idiota!”
“Não é idiota”, Miguel reclamou.
Hector agarrou o braço de Miguel e o puxou para o palco: “Vou levá-lo para a sua família.”
“Solte o meu braço!”, Miguel protestou, se debatendo.
“Vai me agradecer mais tarde...”
Miguel conseguiu livrar seu braço. “Você não quer me ajudar... só se importa com você mesmo! Pode ficar com sua foto boba!” Tirou a foto de Hector do bolso e jogou-a contra ele. Hector tentou pegá-la, mas foi levada pelo vento para o meio da multidão.
“Não, não, não!”, Hector gritou. Era sua última chance de ser lembrado.
“Fique longe de mim!”, Miguel gritou.
Enquanto Hector tentava encontrar sua foto, Miguel fugia.
Depois que conseguiu encontrar a foto, Hector procurou Miguel.
“Ei, rapacito! Para onde foi? Rapacito! Desculpe! Volte aqui!”
D
ante foi atrás de Miguel, mas olhou para trás, viu Hector e lamentou. Latiu para chamar a atenção de Miguel.“Dante, cállate!”, Miguel reclamou, mas o cachorro insistiu.
Puxou Miguel pela calça, tentando impedi-lo de ir embora. “Não, Dante! Pare! Ele não pode me ajudar!” Dante partiu para cima da blusa de Miguel. O garoto tentou afastar o cachorro, mas perdeu sua blusa, revelando os braços de uma pessoa viva. Dante aumentou seus esforços. “Dante, não, pare! Pare! Deixe-me em paz! Você não é um guia espiritual, é só um cachorro bobo! Agora saia daqui!”
Miguel puxou a blusa de Dante, que recuou.
A disputa entre o garoto e o cachorrinho chamou a atenção das pessoas. Esqueletos assustados viram os braços de Miguel. Ele se apressou em vestir a blusa de moletom, pois a multidão à sua volta apontava e comentava.
“É ele! O garoto vivo!”
“Olhem! Ele está vivo!”
Miguel fugiu e pulou de uns andaimes. No horizonte, estava a torre de Ernesto de la Cruz. Correu na direção da torre, mas Pepita pousou na sua frente, impedindo o caminho! Miguel se esforçou para parar a tempo. Gritou quando viu a onça alada. Pior ainda, Mamá Amelia cavalgava a criatura.
“Essa loucura acaba agora, Miguel! Vou dar minha bênção e mandá-lo para casa!”
“Não quero sua bênção!”, Miguel gritou e tentou fugir, mas Pepita o segurou com suas garras e o ergueu no ar. “Ahhh! Solte!
Largue!” Miguel se contorceu, agarrando uma linha de bandeirinhas coloridas penduradas sobre a multidão. Ele conseguiu se libertar das garras da onça e caiu no chão. Quando se levantou, correu para um beco estreito que tinha uma escada.
“Miguel! Pare! Pare!”, Mamá Amelia gritou com voz dura. Como não conseguiria descer pela escada com Pepita, continuou a pé atrás de Miguel. “Volte!” Miguel se espremeu por um portão de ferro.
Mamá Amelia ficou presa do outro lado: “Estou tentando salvar a sua vida!”
“Você está arruinando a minha vida!”, Miguel gritou de volta.
“O quê?”, Mamá Amelia congelou.
“Música é a única coisa que me faz feliz. E você... você quer tirar isso de mim!” Miguel começou a subir as escadas. “Nunca vai entender.”
Uma nota poderosa, cristalina, ecoou pelas escadas. Mamá Amelia começou a cantar! Sua voz era linda e assombrosa. Miguel repente, havia algo na minha vida que era mais importante do que música. Eu queria criar raízes. Ele queria tocar para o mundo.” Fez uma pausa, perdida em suas memórias. “Cada um de nós fez sacrifícios para ter o que queria. Agora, VOCÊ precisa tomar uma decisão.”
“Mas não quero tomar uma decisão. Não quero escolher lados.
Quero que você escolha o MEU lado”, Miguel disse com voz doce.
“É isso que a família deve fazer. Apoiar. Mas você nunca vai fazer isso.” Ele secou o canto dos olhos com a palma das mãos e deu as
costas antes que Mamá Amelia pudesse responder. Então, subiu a escada estreita na direção da torre de Ernesto de la Cruz.
M
iguel chegou ao pé da montanha que levava até a torre de Ernesto. Limusines, carros e carruagens estavam em fila, deixando convidados muito bem vestidos. Um casal no início da fila mostrou um convite para o segurança.“Divirtam-se”, o segurança disse, apontando para um teleférico lustroso que os levaria até a mansão de Ernesto, no topo da montanha.
Miguel correu, desviando por entre os convidados, para chegar ao começo da fila.
O segurança olhou para Miguel: “Convite?”
“Tudo bem. Sou tataraneto de Ernesto!” Fez uma pose dramática imitando a pose mais famosa de Ernesto de la Cruz com seu violão.
O segurança jogou Miguel pelos ares, para fora da fila.
Miguel sacudiu a poeira e viu Los Chachalacos retirando seus instrumentos de uma van. Eles devem ter vencido a competição!
Correu até a banda. “Disculpen, señores!”, Miguel começou.
“Ei, ei, amigos... é o ‘Un Poco Loco’!”, o líder da banda exclamou e os outros integrantes se aproximaram, felizes em revê-lo.
“Você estava com tudo hoje à noite!”, disse um dos músicos.
“Vocês também!”, Miguel disse. “Ei, de músico para músico...
preciso de um favor.”
* * *
Alguns minutos mais tarde, o líder da banda entregou seu convite para o segurança.
“Oh, os vencedores da competição! Parabéns, chicos!” Los Chachalacos subiram no teleférico para a mansão. Um dos
“Oh, os vencedores da competição! Parabéns, chicos!” Los Chachalacos subiram no teleférico para a mansão. Um dos