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EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 59/2009 E SUAS IMPLICAÇÕES

3 OFERTA E ATENDIMENTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL NA REGIÃO DA

3.1 EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 59/2009 E SUAS IMPLICAÇÕES

Pretendemos retomar a discussão sobre a Emenda Constitucional nº 59/2009, porque ela traz mudanças significativas relacionadas à Educação Infantil: a educação das crianças de quatro a cinco anos deixa de ser apenas um direito e torna-se obrigatória, e a possibilidade de ocasionar a não responsabilidade do Estado de oferecer educação às crianças de zero a três anos. Essa mudança, embora pareça uma simples troca de denominações de direito por obrigatoriedade, acarreta várias reflexões, como: quem irá garantir a educação das crianças de zero a três anos?

Na concepção de Vieira (2011, p. 247), a aprovação da Emenda Constitucional nº 59, de novembro de 2009, pelo Congresso Nacional, tornou compulsória a frequência escolar para pessoas na faixa de idade de quatro a 17 anos, incluindo, doravante, crianças e jovens que frequentam a Educação Infantil - pré-escola e o Ensino Médio regular.

Com a nova configuração, um dos desafios a serem superados é garantir a especificidade da Educação Infantil, que vem sendo construída há 30 anos, baseada na defesa de uma educação que não reproduza desigualdades de classe, gênero e etnia/cor. Outro aspecto fundamental é que o atendimento às creches e pré-escolas deve ser feito em espaços educacionais em que haja a garantia de uma oferta de qualidade e de profissionais qualificados, sempre ressaltando que criança é um sujeito de direitos.

Por esse motivo e vários outros, a obrigatoriedade escolar a partir dos quatro anos de idade vem provocando inquietações entre os pesquisadores, pois, em função de escolhas políticas, os municípios podem destinar poucos recursos para a Educação Infantil, e assim a obrigatoriedade pode significar uma minimização na oferta de vagas para creches, priorizando a etapa da pré-escola e Ensino Fundamental.

No entanto, temos outras implicações relacionadas à Emenda Constitucional nº 59/2009: a primeira delas é a preocupação com o ingresso das crianças precocemente na pré- escola e no Ensino Fundamental. De acordo com Campos (2010, p. 13):

A indefinição leva muitas redes a aceitar e até exigir matrículas de crianças cada vez mais jovens na primeira série: com 5 e até 4 anos de idade. Classes numerosas, com alunos pequenos que não alcançam a altura das mesas e que mal conseguem se sentar

em cadeiras muito grandes para eles, tornaram-se uma visão comum nas escolas. Essas inadequações do mobiliário apenas indicam outras muito mais graves, como as inadequações de currículo, práticas pedagógicas, materiais didáticos e critérios de avaliação e promoção.

Campos (2010) ainda complementa que o ingresso antecipado no primeiro ano contribui para a democratização da leitura, da escrita e do conhecimento, porém para a implementação dessa norma seria necessário primeiro adaptações das escolas, formação continuada às professoras e revisão apurada do currículo. Não basta simplesmente implementar a lei sem nenhuma recomendação e depois fazer os ajustes necessários como temos observado no contexto brasileiro.

Outra questão relevante é que, mesmo com todas as mudanças ocorridas em relação às creches, deixando de ter caráter assistencialista e tornando-se parte da primeira etapa da educação básica, creche e pré-escola ainda continuam seguindo traços separados. Conforme Campos (2010, p. 12):

A mudança é realizada apenas do ponto de vista administrativo, continuando a gestão pedagógica, a trilha dos caminhos separados. Outras vezes, as carreiras dos profissionais são diversas, exigindo-se habilitação apenas para a pré-escola. É comum as creches não estarem incluídas nos programas de formação em serviços oferecidos para as pré-escolas. Todos esses problemas são mais acentuados para as creches privadas sem fins lucrativos conveniadas às prefeituras, modalidade de atendimento mais utilizada em grande parte do País.

Sabemos que a criança tem direito à Educação Infantil do zero a seis anos, e esse direito exige respeito às necessidades da criança em seu desenvolvimento, direito à brincadeira, às relações sociais, ao uso das diferentes linguagens, à atenção individual, ao aconchego, ao afeto e ao desenvolvimento integral. Nas palavras de Campos (2013, p. 31), “a despeito das dificuldades e contradições que acompanharam e ainda acompanham o processo de transição das creches para o setor educacional, elas estão lentamente encontrando seu próprio espaço no interior das redes municipais”.

Porém, com a obrigatoriedade de as crianças de quatro e cinco anos frequentarem as instituições educacionais estabelecida pela Emenda Constitucional nº 59/2009, surge uma nova preocupação, pois os municípios, na tentativa de darem conta do atendimento às crianças de quatro e cinco anos, podem precarizar ainda mais o atendimento às crianças de zero a três anos e, com isso, abrir-se a possibilidade de alternativas de atendimento não formais, em espaços domésticos ou não, inadequados aos critérios educacionais. Como alerta Vieira (2011, p. 247, grifo da autora):

Duas questões são especialmente desafiantes na nova realidade: evitar a cisão da creche e da pré-escola, sob o risco de flexibilizar o significado da creche como ‘atenção integral ao desenvolvimento da primeira infância’, abrindo a possibilidade de alternativas de atendimento não formais, em espaços domésticos ou não, inadequados aos critérios educacionais, com pessoas sem formação e qualificação; e evitar o ingresso precoce de crianças na pré-escola e no ensino fundamental nos sistemas e redes de ensino.

A preocupação com essa flexibilização que a autora refere vai ao encontro das reflexões realizadas por Campos (2012), que relata que em alguns países da América Latina as crianças de zero a três anos encontram-se incluídas na modalidade “não escolarizada”, e sua sistematização fica a cargo das organizações sociais, de natureza privada, que atuam sob a chancela do poder público, “prestando esse serviço” para as comunidades. No Brasil, o acesso a creches continua sendo muito restrito e o maior índice de atendimento é nas instituições privadas.

O que fica evidente é que a creche parece uma etapa da educação sem grande relevância, os cursos de formação inicial quase não abrangem essa fase com disciplinas e estágios, as secretarias e fundações municipais não possuem conhecimento adequado a essa faixa etária e a estrutura das instituições e materiais didáticos não são apropriados ao contexto das creches. Campos (2010, p. 12, grifo do autor) elucida:

Do ponto de vista das práticas educativas, a creche continua a ser uma ‘estranha no ninho’. Os cursos de formação inicial de professores quase não a contemplam em sua programação de disciplinas e estágios, as secretarias de educação não adquiriram ainda um conhecimento mais especializado sobre a faixa etária que inclui bebês e crianças muito pequenas, os prédios e o mobiliário são planejados segundo o modelo escolar tradicional e os materiais pedagógicos não são apropriados para o contexto da creche.

Essas reflexões advêm frente à preocupação sobre como os municípios da região onde realizamos a pesquisa estão conduzindo essa nova configuração da Educação Infantil, surgindo, assim, nosso problema de pesquisa: de que forma tem se efetivado o direito ao atendimento das crianças de zero a três anos na Educação Infantil nos municípios da AMUREL após a promulgação da Emenda Constitucional nº 59/2009?