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Ao longo do século XIX, os aventureiros foram retratados nas artes plásticas, na ópera, na literatura, em cartazes publicitários, nos brinquedos infantis, nas exposições e feiras universais e em vários outros bens da cultura, porém, dentre todos eles, a literatura de aventura foi o que melhor representou o aventureiro e as suas ações em outros continentes. Isso se explica porque o apogeu da literatura de aventura correspondeu ao

16 Palavra utilizada por Mary Pratt para designar as pessoas, fruto da zona de contato, que possuem ascendência europeia através de um ancestral direto ou indireto, porém não muito distante. É importante frisar que o europeu, aqui, designa as grandes potências europeias que desde o século XVI conquistaram domínios territoriais, principalmente a França e a Inglaterra.

período do imperialismo, momento em que o poder e a riqueza dos países eram medidos conforme o número de colônias em outros continentes. A literatura de aventura, por meio da imaginação dos seus autores, retratou várias possibilidades de acontecimentos relacionados ao domínio europeu em outros territórios, narrando a exploração da população colonizada, a extração de recursos naturais e em alguns casos a revolta da população local ante o domínio violento do estrangeiro. Isto se dá porque o autor de um texto literário é uma figura imersa em um tempo histórico. Ele sofreu influências do meio em que viveu, do que escutou, leu, se preocupou, sentiu, desejou e de tudo o que experimentou ou quis ter experimentado. No seu texto encontramos não só os seus valores, suas expectativas, críticas, crenças, visões de mundo, como da sociedade e do tempo em que viveu.

Nesse sentido, como a literatura é uma obra produzida em um tempo e um espaço específico, ela pode ser uma ferramenta para se pensar a história de uma determinada sociedade ou de uma determinada cultura. Isso é possível porque a literatura reflete os costumes, as possibilidades do mundo e os acontecimentos que poderiam fazer parte da realidade, imaginados por um indivíduo de seu tempo.

Antes de analisarmos como Salgari construiu as relações entre europeus e não europeus na sua literatura, apresentamos uma breve caracterização da literatura de aventura, bem como uma rápida biografia de Emilio Salgari.

O estudo da literatura de aventura justifica-se primeiramente pela sua importância na história da cultura moderna devido ao impacto sobre o público leitor; e pela sua

extrema contemporaneidade. Parques temáticos17, histórias em quadrinhos, obras

literárias, filmes, séries televisivas e jogos de videogame remetem aos clássicos referenciais deste gênero: a penetração da selva, a ocupação do oeste norte-americano e as explorações de lugares desconhecidos e exóticos. Nos cinemas este imaginário 17 Como exemplo, citamos o interessante artigo de Jeanne van Eeden sobre um parque temático chamado “O Mundo Perdido”, construído na África do Sul, e sua relação com o mito do imperialismo. Segundo a au-tora, os parques temáticos de entretenimento constroem um passado mítico e distorcido da realidade, basea-do em um imaginário tradicional que evita questionamentos. No caso basea-do parque estudabasea-do, a autora perce-beu o reforço da imagem exótica da África, que reforçava a África como o “Continente Negro”, habitado por selvagens que viviam em tribos, nos mapas, na nominação das atrações e na propaganda. (EEDEN, 2004).

movimenta fortunas e ainda leva milhares de espectadores, em todo o mundo, às salas de

exibição, para assistir filmes da série “Indiana Jones”18 ou “Os Piratas do Caribe”19. O

interesse que a aventura desperta também é o tema para diversas exposições em alguns

países da Europa.20

Essa popularidade também se transformou em uma ferramenta eficiente aos objetivos patrióticos das nações europeias do século XIX. Desde a publicação de “Robinson Crusoe”, os romances de aventura aproveitavam suas histórias para ensinar sobre a flora, a fauna, a geografia e a etnologia dos lugares não europeus. Várias obras também valorizavam a colonização europeia ao mostrar, como referências simbólicas, personagens que serviam ao exército ou à marinha e que desfrutavam de aventuras.

As bases da literatura de aventura remetem-se aos folhetins jornalísticos e aos romances de ‘capa e espada’ produzidos no século XVIII. Essa literatura estava ancorada

em uma tradição literária europeia que, com a exaltação viril, cultuava heróis em

romances de cavalaria, ao mesmo tempo em que convivia, “(…) na literatura picaresca, em culto paródico do anti-herói heroico, transgressor e desafiador de uma ordem que o rejeita, mas que acaba por acolhê-lo pela sua excentricidade insistente.” (Rêgo, Castelo-Branco, 2003). Com estes antecedentes, a literatura de aventura tem a sua origem propriamente dita ainda no século XVIII, com a publicação das obras “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, e de “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, e ganha sua máxima expressão nas últimas décadas do século XIX e início do século XX, com a publicação dos romances de Robert Louis Stevenson, Mark Twain, Emílio Salgari, Jack London, entre outros.

Neste período, o romance de aventura transformou a terra e os seus espaços distantes e desconhecidos no seu tema central, protagonizado por jovens que testam seus

18 Série de filmes dirigida por Steven Spilberg e protagonizada por Harrison Ford cujo personagem principal é um explorador de relíquias históricas e professor universitário de arqueologia, o qual participa de uma série de aventuras para proteger objetos sagrados da ganância de saqueadores e de membros dos grandes regimes totalitários contemporâneos.

19 Série de filmes dirigidos por Gore Verbinski e protagonizados por Johnny Deep, inspirada em um popular parque de diversões homônimo da Disney, cujo enredo basicamente trata das aventuras de piratas lutando contra o Império Britânico pelo domínio dos mares.

20 Destacam-se as exposições realizadas pela Biblioteca Nacional de Lisboa intitulada “Antes das Playstations: 200 anos do romance de aventuras em Portugal”, no ano de 2003; e “Tarzan! Ou Rousseau chez les Waziri”, realizada pelo pelo Museu do Quai Branly, na França, em 2009.

limites para alcançar um objetivo. Na conquista por tesouros, relíquias históricas ou descobrimento de espetáculos naturais, o protagonista enfrenta uma série de obstáculos capazes de agregar ao herói a coragem e a bravura, valorizando a singularidade da meta a ser alcançada.

A maioria dessas obras apresenta a seguinte característica: a necessidade de viajar até um lugar remoto, muitas vezes impreciso geograficamente, em uma região na qual a natureza ainda não fora devidamente explorada e conhecida, percorrendo um caminho repleto de perigos, sempre com o objetivo de conquistar algum benefício, seja material ou

moral. Da grande quantidade de obras publicadas destacamos: “Kim”, de Rudyard

Kipling, “As minas do Rei Salomão”, de Rider Haggard, “Volta ao mundo em oitenta

dias”, de Jules Verne, “As quatro penas brancas”,de Alfred E. W. Mason, “Os tigres de

Mompracem”, de Emilio Salgari, etc.

Quanto ao enredo, partilhamos da análise de Franco Moretti (2003) sobre os romances de aventura cujas histórias se passaram na África. Segundo o autor, o trajeto que as personagens percorrem corresponde à linearidade do enredo, no qual não há qualquer possibilidade para que o caminho planejado seja modificado. Não importa onde o caminho se inicie, em um porto ou entreposto comercial, ao longo da costa ou coincidindo com o lugar onde iniciou a conquista europeia, o enredo só tem um sentido: o homem branco deve seguir com o auxílio de um guia, um velho mapa e ou da tecnologia ocidental, atrás da conquista de um objetivo. Os únicos obstáculos são os antagonistas: “(…) leões, calor, vegetação, elefantes, moscas, chuvas, doenças – e nativos. Todos misturados e, no fundo, todos intercambiáveis em sua função de obstáculos: todos igualmente desconhecidos e ameaçadores. Confusão (…) que expressa a mensagem final dos romances coloniais: os africanos [e todos os nativos] são animais.” (Moretti, 2003,

70).Para nós, a linearidade do enredo não se aplica apenas à literatura de aventura que se

passa no continente africano, mas em todos os continentes, pois encontramos trajetos lineares em obras cuja aventura aconteceu em regiões como a América e a Ásia.

Diante dos perigos o personagem só encontra duas opções: seguir adiante ou voltar. Se o percurso for vencido, no final da viagem, além das conquistas morais e do crescimento pessoal, sempre há espólios, apresentados na forma de matérias-primas,

marfim, ouro, minas de diamantes ou outras pedras preciosas, além de muitos seres humanos prontos para serem escravizados.

O requisito fundamental de qualquer aventura é afastar-se não só da Europa Ocidental como de qualquer lugar que apresente referências à civilização. Participar de uma aventura também significa arriscar a vida e desafiar o destino em situações de risco e inusitadas. Por isto, ao contrário do mundo burguês e urbano, onde as ações cotidianas poderiam ser previsíveis e, por isto até monótonas, o distanciamento das normas sociais, ocorrido nos confins do planeta, oferecia aos personagens a plena liberdade para desfrutar de qualquer experiência em um lugar onde não há regras (Arendt, 2000, 221). Na sua análise sobre o imperialismo, Arendt percebeu a semelhança existente entre os antigos aventureiros e os homens supérfluos enviados às colônias. Porém, ao contrário dos aventureiros, eles eram homens sem caráter que, movidos pela ganância e cobiça, utilizavam violência para alcançar seus objetivos. No mundo colonial eles se sentiam livres e por isso poderiam realizar todas as suas fantasias criminosas em nome da diversão. A autora percebeu nos romances ingleses o melhor retrato desses homens,

principalmente na obra “Heart of darkness”, de Joseph Conrad. Nela, o autor expressa

muito bem como o europeu se sentia superior diante daquela gente ausente de civilização, de natureza incompreensível e de pessoas que agiam como loucas.

De um modo geral, a literatura de aventura produzida entre o final do século XIX e início do século XX descrevia as experiências individuais de europeus, ligados ao imperialismo, realizadas em regiões da África, América ou Ásia. Junto a estas narrativas existe uma descrição detalhada de lugares, pessoas, valores, comportamentos e atitudes, ora apreciadas, ora menosprezadas, as quais são ricas fontes de informações sobre o imaginário da sociedade em que foi escrita. Uma vez que estas histórias agradam o grande público, significa também que os conteúdos transmitidos correspondem aos interesses e aos posicionamentos dos seus leitores.

Devido às claras relações com o Imperialismo, os pesquisadores da cultura imperialista tenderam a associar a literatura de aventura à difusão de valores imperialistas e coloniais entre a juventude leitora de suas obras. Uma das razões para tal fato, no caso francês por exemplo, resultou da ligação dos primeiros aventureiros, inspiradores de

vários personagens dos romances de aventura, às práticas coloniais francesas. As histórias de aventura também foram amplamente utilizadas para valorizar a participação no sistema colonial, em narrativas que os personagens conquistavam o triunfo ao participar do avanço e das conquistas do império, justificando e ao mesmo tempo atraindo mais entusiastas à causa imperialista.

Entretanto, uma visão reducionista tende a constatar na literatura de aventura apenas uma visão ideológica, a qual enaltece o imperialismo e o colonialismo europeu, ao mesmo tempo em que dissemina valores preconceituosos e racistas quando se refere aos habitantes dos países não europeus, considerados selvagens, exóticos e não civilizados. Outros críticos tendem ainda a detectar nestas obras “(…) uma subcultura microburguesa escapista, alienante e massificada, apostada em reduzir os efeitos da anomia resultante do nascimento da nova sociedade industrial.” (Rêgo, Castelo-Branco, 2003, s/p). Críticas como esta se desmoronam com o conhecimento dos clássicos desse gênero, nos quais se destacam a presença de heróis oriundos dos povos colonizados ou considerados fora da lei, como Capitão Nemo ou Sandokan.

Emilio Salgari é considerado pelos críticos e analistas como um dos maiores escritores da literatura juvenil e de aventura do final do século XIX e início do século XX (Rêgo, Castelo-Branco, 2003; Venayre, 2002a, Moura, 1998). Desde o final do século XIX a sua obra fez grande sucesso na Itália e foi traduzida para várias línguas, sendo

muito popular na Europa e na América Latina21. No Brasil, encontramos algumas edições

na Biblioteca Nacional, as mais antigas publicadas pela editora portuguesa J. Romano Torres em 1900. Ao longo do século XX, várias editoras brasileiras publicaram os maiores sucessos de Salgari, como Editora Nacional, Abril Cultural, Círculo do Livro,

Ediouro, Nova Cultural e Civilização Brasileira22. Entre seus leitores famosos

encontramos pessoas de diferentes ideologias, gerações ou nacionalidades como Umberto

21 Apenas as traduções em língua inglesa tardaram a acontecer. As primeiras obras foram traduzidas para editoras norte-americanas na década de 1950.

22 Na atualidade, a partir de 2008 a editora brasileira Iluminuras começou a publicar todos os Livros das séries “Os Piratas da Malásia” e “Os Corsários das Antilhas”, traduzida a partir da publicação das obras completas de Emilio Salgari pela editora italiana Fabbri em 2001. Novas traduções também foram produzidas na França, Portugal, Espanha e na América Latina.

Eco, Sergio Leone, Giacomo Puccini, Federico Fellini, Antonio Gramsci, Norberto Bobbio, Che Guevara, Isabel Allende, Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marquez e Jorge Luis Borges, dentre tantos outros. Felice Pozzo (2000), um dos maiores estudiosos da vida e obra de Salgari, elenca vários depoimentos de intelectuais, artistas, cineastas, jornalistas e escritores, na grande maioria italianos, que foram ávidos leitores de Salgari.Vários deles, inclusive, destacaram a influência da literatura salgariana nas suas obras.

Emilio Carlo Giuseppe Maria Salgari foi um dos romancistas mais lidos na Itália e um dos autores italianos mais traduzidos para outras línguas. Ele nasceu em 21 de agosto de 1862 em Verona. Filho de um comerciante de tecidos, teve uma infância modesta. Na juventude, Salgari leu vários romances, principalmente da coleção chamada “Biblioteca dei Viaggi” publicada pela editora milanesa Serafino Muggiani. Dessa coleção faziam parte os grandes clássicos do romance de aventura, a começar pela obra

“Robinson Crusoe”, escrita por Daniel Defoe. Por meio das leituras da coleção, Salgari

conheceu os personagens aventureiros presentes nas viagens marítimas, nas explorações geográficas e nas descobertas científicas e naturais, criados por Jules Verne, Gustave Aimard, Thomas Mayne-Reid, James Fenimore Cooper. A mesma coleção publicou textos sobre as descobertas geográficas e os relatos de viagens famosos, como dos italianos Marco Polo e Cristóvão Colombo, e apresentou aos leitores os relatos das recentes explorações da África e das viagens às regiões polares.

Tendo em vista sua paixão por viagens, Salgari tentou tornar-se capitão. Buscou uma vaga no Instituto Náutico de Veneza mas não obteve resultados satisfatórios. Encontrou uma vaga na Escola Técnica de Verona mas abandonou os estudos. Salgari passou a trabalhar como jornalista e escritor. Em 1883, publicou um conto no Jornal

ilustrado “La Valigia” em Milão. Neste mesmo ano tornou-se redator no jornal “La

Nouva Arena” em Verona. Em 1885, tornou-se redator do “L'Arena. Nesses jornais,

Salgari também trabalhou como crítico de ópera lírica23 e teatro, e comentarista de

política internacional (Gallo, s/d.).

23 Simonetta Petruzzi Satragni analisou relações entre os livretos de várias óperas e a obra salgariana. No livro de Salgari, “Tay-See”, depois chamado de “La Rosa del Dong”, a autora encontrou aproximações de linguagem com as óperas “Aida”, “Rigoletto” e “Lucia di Lammermoor”. (GUALERZI, 2011, p. 21).

Em 1887, publicou seu primeiro romance: “La Favorita del Mahdi. Em 1892, casou-se com Ida Peruzzi, atriz amadora a qual chamava carinhosamente por Aida. Nesse mesmo ano, abandonou os trabalhos jornalísticos para dedicar-se à literatura, quando começou a escrever para a Editora Treves, de Milão. A partir de então, Salgari publicou para várias editoras, rompendo e firmando novos contratos com outras três. Em 1898,

publicou um dos seus livros mais famosos, “Il Corsaro Nero”. Entre 1904 e 1906, fundou

e dirigiu o jornal semanal “Per Terra e per Mare”, pelo editor Donath em Genova,

momento em que Salgari mais uma vez mudou de editora, passando a escrever para Bemporad, localizada em Firenze. Nesse período, o autor já fazia grande sucesso dentro e fora da Itália.

Ao longo de sua vida, Emilio Salgari produziu uma obra extensa: mais de oitenta

romances e cem contos, alguns deles publicados com pseudônimos24 para driblar os

contratos de exclusividade com as editoras (Colombera, 2011), além de cinquenta apócrifos lançados por seus filhos após sua morte. A sua produção literária foi marcada pela exploração de seus editores. Para sobreviver, Salgari escrevia entre três e quatro livros ao mesmo tempo e em troca recebia valores irrisórios. Exausto pelo esforço cotidiano, Salgari descreveu os seus dias de trabalho da seguinte maneira.

A profissão do escritor deveria ser cheia de satisfações morais e materiais. Eu, ao contrário, estou preso na minha mesa por muitas horas ao dia e algumas da noite, e quando descanso, estou na biblioteca para referenciar os estudos. Eu devo escrever a pleno vapor pastas e pastas, para enviar imediatamente aos editores, sem ter tido tempo para reler e corrigir. (Colombera, 2011, s/p)25

Não foi apenas o esforço diário de trabalho para cumprir as exigências de suas editoras que esgotou Salgari, vários problemas financeiros também o prejudicaram. O autor não se tornou um homem rico, principalmente se comparado aos dois maiores romancistas franceses da literatura de aventura: Jules Verne que, dentre outros bens,

24 Como Guido Landucci, Guido Altieri, Antonio Quattrini Garibaldi, H. Barry, W. Churchill, Capitano Weill, Cap. J. Wilson, Massa, R. Hornill. Cap. G. Wattling, H. Aubin, R. Bonsac, Jules Lecomte, Cap. G. Vallariol, R. Cabryol, W. Hill e John Staar.

25 “La professione dello scrittore dovrebbe essere piena di soddisfazioni morali e materiali. Io invece sono inchiodato al mio tavolo per molte ore al giorno e alcune della notte, e quando riposo sono in biblioteca per documentarmi. Debbo scrivere a tutto vapore cartelle su cartelle, e subito spedire agli editori, senza aver avuto il tempo di rileggere e correggere.”

adquiriu um iate, e Alexandre Dumas, que conseguiu adquirir uma ilha para si – bens extremamente caros ainda hoje. “Somente nos últimos anos de sua carreira veio a ganhar um bom dinheiro, como um funcionário do governo, ou seja, 10 mil liras por ano (tendo em conta, com aproximação, dos não quantificáveis direitos do autor para as traduções no exterior)” valor que corresponderia a 34.000 euros anuais, calculados em 2001 (Pozzo,

2006, s/p)26. Mesmo com um salário razoável, Salgari passou por dificuldades

econômicas: em vida nunca recebeu pelos direitos autorais de suas obras. Perdeu os direitos autorais de suas obras na Itália e no exterior em contratos fraudulentos. Alguns desses contratos foram anulados em 1928, quando seus filhos conseguiram recuperar os direitos autorais das obras escritas pelo pai, ainda em mãos das editoras, após um extenso processo judicial promovido pelo sindicato dos autores. O processo, conhecido na Itália como “Il caso Salgari” ganhou repercussão nacional devido ao escândalo dos contratos.

Todo mundo sabia que [Salgari] tinha vendido a propriedade de suas obras literárias sem qualquer limite de tempo por uma remuneração fixa e muitas vezes com valores irrisórios. Isso também se refere aos contratos esporádicos assinados com diversas editoras. Mesmo com os contratos exclusivos assinados com Donath em Gênova e depois, em 1906, com Bemporad de Florença. Nenhum desses contratos previa que a propriedade do trabalho seria devolvida ao autor depois de um certo número de anos, como já previam os contratos feitos com muitos outros escritores. (Pozzo, 2006, s/p)27

Os valores recebidos pela venda de suas obras – que se tornaram sucesso dentro e fora da Itália – não foram suficientes para sustentar sua esposa, seus filhos e a numerosa família de sua esposa. Além disso, sofria com inúmeras obras falsas publicadas em seu nome e com as incontáveis reedições de seus livros, cujos valores resultantes da venda iam exclusivamente para as editoras.

26 “Soltanto negli ultimi anni della sua carriera arrivò a guadagnare discretamente, diciamo come un funzionario statale, e cioè sulle 10.000 lire all'anno (tenendo conto, con approssimazione, dei non quantificabili diritti d'autore per le traduzioni all'estero),”.

27 “Tutti sapevano infatti che aveva venduto la proprietà letteraria delle sue opere senza limiti di tempo per