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Emissoras Reunidas: primeiras verticalidades no Vale do Taquari

4.2 Verticalidades e horizontalidades na distribuição espacial das emissoras de rádio do

4.2.1 Emissoras Reunidas: primeiras verticalidades no Vale do Taquari

A chegada do rádio comercial ao Vale do Taquari é influenciada por fortes relações de verticalidades. A iniciativa é do empresário Arnaldo Pignome Ballvé, de Porto Alegre. Na metade da década de 1940, ele começa a estruturar o grupo Emissoras Reunidas e adquire várias estações de rádio no interior do Rio Grande do Sul. Mesmo com a pequena densidade populacional da época e a reduzida quantidade de receptores de rádio existentes entre a população, Ballvé acredita no rádio interiorano (DILLENBURG, 2007). O foco são ―cidades com potencial econômico e financeiro necessários para remunerar o capital investido, através da implantação de emissoras regionais‖ (DILLENBURG, 2007, p. 40). Ex-funcionário do Banco da Província do Rio Grande do Sul, Ballvé vem de uma experiência como sócio fundador e diretor da PRH 2 Rádio Sociedade Farroupilha, a principal emissora gaúcha da primeira metade do século

XX, inaugurada em 1935, e como diretor da Rádio Sociedade Gaúcha, cargo que assume em 1944.

De início, Ballvé consegue nove concessões de rádio nas cidades de Santa Cruz do Sul, Caxias do Sul, Alegrete, Cachoeira do Sul, Carazinho, Cruz Alta, Erechim, Passo Fundo e Santo Ângelo (FERRARETTO, 2007). Nessa fase, Ballvé adota a estratégia de ―dar participação no negócio a empresários e pessoal da imprensa local.

[...] Em cada município onde instala suas estações [...] procura antes informações sobre quem pode ser aproveitado no novo empreendimento‖ (FERRARETTO, 2007, p. 55).

Nessa situação, o empresário chega a promover treinamentos aos inexperientes candidatos a radialistas, episódio que se constitui em novas práticas verticais. Como refere Santos (2000) são os macroatores agindo de fora do território para determinar as modalidades internas de ação.

É o que acontece com a primeira emissora comercial do Vale do Taquari, a Rádio Alto Taquari AM 820, inaugurada em 1948, no município de Estrela, à época um dos mais importantes centros econômicos do Vale do Taquari39. Para colocar em funcionamento a nova estação, Ballvé se aproxima do amigo Adão Henrique Fett40, radioamador pioneiro do Vale do Taquari e especialista na montagem de receptores de

38 Ballvé, junto com Luiz Guerra Flores da Cunha, filho do então governador do RS, José Antônio Flores da Cunha, assinam o contrato com a emissora argentina Rádio Prietto Sociedade Anônima, de Buenos Aires, para adquirir a estação radiodifusora para levar ao ar o som da Farroupilha (ENDLER, 1997). Aliás, Ferraretto (2002) refere os laços de parentesco e amizade entre a família Ballvé e os Flores da Cunha, tanto que o irmão de Arnaldo, Constante Ballvé, era cunhado de Irene Guerra Flores da Cunha, a esposa do governador. Quando é constituída a Rádio Sociedade Farroupilha, em 18 de março de 1935, os sócios são Ballvé e Paulo da Rocha Gomes. Depois, a sociedade é alterada, ficando estabelecia entre o governador, o filho e Ballvé.

39 Quando da instalação da Rádio Alto Taquari, as características sociais e econômicas de Estrela, segundo município a se emancipar no Vale do Taquari, as colocavam em posição de centralidade na região do Vale do Taquari. Nos primeiros anos do século XX, o município destaca-se pela produção de azeite, alambiques, curtumes, cervejarias (fábrica da Polar), destilarias, refrigerantes, refinaria de banha, serrarias, salsichas, sabão, arame, vassouras, moinhos e engenho de arroz (AHLERT e GEDOZ, 1999).

Aliado a isso, Estrela se posiciona como polo industrial da região, beneficiado principalmente pela navegação fluvial via Porto de Estrela, junto ao Rio Taquari, e pela estação ferroviária. No final dos anos de 1960, a navegação começa a entrar em crise, influenciada também pelo desenvolvimento das rodovias, sobretudo, a BR-386, que liga o Vale do Taquari a Porto Alegre. Nesse período, Lajeado, município emancipado de Estrela, já assume características de cidade-polo do Vale do Taquari, influenciado, principalmente, pelo desenvolvimento nos setores da indústria, comércio e de serviços (SCHEIBE, PICCININI e BRAGA, 2017).

40 Três anos após a inauguração da Rádio Alto Taquari, Fett é eleito prefeito de Estrela para o mandato 1951-1955 ao somar 3.841 votos. Antes, em 1947, havia tentado sem sucesso se eleger ao cargo de vice-prefeito. Em 1958, ele fica suplente de deputado estadual. Chega a assumir uma cadeira titular na Assembleia no lugar de Manoel Braga Gastal em 1960. E, em 1963, volta a se eleger prefeito de Estrela, gestão que cumpre até 1969. Em 1972, tentou o terceiro mandato de prefeito, mas obteve apenas 519 votos. Disponível em: <https://estrelars.blogspot.com/2013/04/abrindo-o-bau-destaca-exposicao-de-adao.html>. Acesso em setembro de 2018.

rádio. Ballvé tem muito prestígio entre lideranças empresariais e políticas, tanto que no ato de inauguração da emissora de Estrela, o governador do Estado, Walter Jobim, e o secretário de Estado, Adil Moraes, estão presentes (DILLENBURG, 2007).

Nesse período, o rádio do Vale do Taquari começa a reproduzir o modelo de concentração de propriedade, como referimos no capítulo anterior, nos trabalhos de Bolaño (2007) e Comassetto (2013). Isso fica evidente em mais uma ação de verticalidade no momento em que o grupo de Ballvé expande seus negócios para outro município do Vale do Taquari, Encantado41. O Diário Oficial da União, em agosto de 1950, publica a portaria que concede a outorga a uma filial da Rádio Alto Taquari de Estrela, com 100 watts de potência. Em 1951, a Rádio Encantado AM 1580 entra em operação como a primeira emissora comercial da cidade42 (FERRI, 2007).

No total, o grupo Emissoras Reunidas chega a contar com 20 concessões de rádio no interior do Rio Grande do Sul, número que motiva Ballvé e Mauricio Sirotsky Sobrinho a criarem, em 1950, em Porto Alegre, a Rádio Publicidade Ltda, uma empresa de representação comercial com o objetivo de conquistar, principalmente para as Emissoras Reunidas, verbas publicitárias mais lucrativas das grandes empresas anunciantes. Os empresários estão de olho em um mercado no qual ―40% dos anunciantes são absorvidos pelas rádios Difusora, Gaúcha e Farroupilha‖, localizadas na capital (FERRARETTO, 2007, p. 58). Em pouco tempo, a Rádio Publicidade Ltda representa 44 emissoras do Rio Grande do Sul, entre elas, três estações situadas no Vale do Taquari, nas cidades de Estrela, Encantado e Lajeado (FERRARETO, 2007).

De acordo com o autor, com o passar dos anos, a pujança das Emissoras Reunidas começa a enfraquecer, resultado não só do avanço das rádios concorrentes, mas também da carência de investimento e modernização técnica e gerencial. Essa situação leva à mudança do comando administrativo do grupo. Em 1990, a família Proença, do então deputado federal de quatro mandatos consecutivos pelo Rio Grande

41 Na época, Encantado se destaca como uma das forças econômicas do Vale do Taquari pela produção de suínos e de banha, tanto que é conhecido como a “Capital do Ouro Branco” e sede da Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda, a Cosuel (FERRI, 2007).

42 Até então, as únicas experiências encantadenses com transmissões de áudio são uma estação de rádio amador, por volta de 1940, e o Serviço de Alto-Falantes de Encantado (SAFE), que vai ao ar de setembro de 1947 a dezembro de 1948, “com transmissões em vários horários, com músicas, notícias, entrevistas, propaganda e avisos” (FERRI, 2007, p. 297).

do Sul, Nelson Luiz Proença Fernandes , assume a gestão e muda o nome do grupo para Rede Comunidade, na época formada por 10 AMs e uma FM. O controle administrativo dessas emissoras é feito por um escritório central localizado em Porto Alegre, situação que caracteriza mais um vetor de verticalidades no Vale do Taquari, visto que, entre as AMs, estavam as emissoras de Estrela e Encantado. Segundo Ferraretto (2007), a situação administrativa e financeira do grupo ainda é crítica, com relatos de atraso no pagamento de salários, corte nos telefones das estações e ações trabalhistas em julgamento.

Outro movimento forte de verticalidade, desta vez com repercussões na programação de emissoras do Vale do Taquari, ocorre em fevereiro de 1994, quando a Rede Comunidade anuncia uma parceria com a Rede Líder, de São Paulo. O acordo prevê a retransmissão de programas da emissora paulista. Apenas alguns horários e os intervalos comerciais são destinados para produção local. O restante da programação é preenchido com conteúdo informativo e publicitário de São Paulo. A justificativa do diretor Nelson Proença é de oportunizar uma quantidade maior de informações aos ouvintes gaúchos e a de buscar o anunciante das grandes marcas. Segundo ele,

―nenhuma das emissoras que compõem o grupo perderão o sabor local de suas programações e a atuação comunitária do radiojornalismo‖ (JORNAL OPINIÃO, 1994).

Porém, na prática, não é o que acontece. A nova programação é vista com decepção pelos ouvintes das emissoras de Estrela e Encantado, que estranham o modelo de comunicação. A programação se distancia do ouvinte local, uma característica bem peculiar das forças externas agindo no território. É muito estranho ouvir na Rádio Alto Taquari ou na Rádio Encantado, os comunicadores da Rádio Líder em São Paulo mandando recados ou abraços para ouvintes do Piauí, Ceará ou Pernambuco, por exemplo. A experiência não vinga e meses depois a parceria é desfeita (informação verbal) 44.

43 A Constituição Federal proíbe que deputados federais e senadores sejam donos de canais de rádio e TV. O artigo 54 aponta que deputados e senadores não podem, desde a expedição do diploma, “firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes” (CF 1988, online). E, desde a posse, “ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoas jurídicas de direito público, ou nela exercer função remunerada” (CF 1988, online).

44 Informação fornecida ao autor por Radialista 2 e Radialista 3, em agosto e setembro de 2018, respectivamente.

Em 1999, segundo relata Ferraretto (2007), como não obtém sucesso na tentativa de vender as rádios, Proença contrata um executivo com planos de dobrar o número de emissoras até metade do ano 2000, porém a dificuldade em conseguir parceiros investidores frustra as pretensões. As estratégias das empresas da família Proença mantêm características de verticalidades, como relata Ferraretto (2007, p. 311).

Chegam a ser instalados estúdios em Porto Alegre e Brasília, pretendendo começar uma operação em rede. Esboçam-se as negociações para a aquisição de rádios em Bagé, Canguçu, Pelotas e Sant‘Ana do Livramento.

Entretanto, não prosperam as tentativas de inserir outros parceiros no negócio, capitalizando o grupo. Boa parte dos equipamentos está sucateada e há a necessidade de investir R$ 1 milhão – US$ 525 mil – somente nas plantas transmissoras (Grifo do autor).

A partir do ano 2002, a família Proença negocia seis das 11 emissoras de rádio, entre elas, a Rádio Encantado, da cidade de Encantado, que passa a pertencer ao grupo LB Sistema de Comunicação do Vale, dos mesmos empresários que conseguem a concessão para a primeira emissora FM de Encantado, como abordaremos mais adiante.

As outras emissoras negociadas são aquelas sediadas nas cidades de Carazinho, Passo Fundo, Novo Hamburgo e Santa Cruz do Sul45 (FERRARETTO, 2007).

Ao mesmo tempo, há uma nova tentativa de reestruturação das cinco emissoras restantes, entre elas a Rádio Alto Taquari de Estrela, agora pertencentes à Rede Tchê de Comunicação, ―sem, no entanto, grandes repercussões‖ (FERRARETTO, 2007, p. 311).

As outras rádios que se mantêm nesse período sob a administração da família Proença são as localizadas nas cidades de Alegrete (Rádio Alegrete AM), Erechim (Rádio Erechim AM), São Gabriel (Rádio São Gabriel AM) e São Leopoldo (Rádio Progresso AM).

Em 2005 é anunciado um projeto de expansão e modernização da Rede Tchê com investimentos na aquisição de novos equipamentos para as rádios de Estrela, Erechim e Alegrete. Outras sete emissoras se associam à Rede Tchê, totalizando 12 emissoras integradas e 100% de cobertura no interior do Rio Grande do Sul (COLETIVA.NET, online).

Até 2007, a Tchê coloca no ar mais cinco emissoras FM, duas delas com concessão para o Vale do Taquari, em nova prática de verticalidades, nos municípios de

45 Na cidade de Carazinho, a Rádio Carazinho FM é vendida para a Universidade Luterana do Brasil e a Rádio Carazinho AM para a Empresa Jornalística Diário da Manhã, de Passo Fundo, que também compra a Rádio Passo Fundo AM. Em Novo Hamburgo, a Rádio Progresso é negociada com o Grupo Editorial Sinos e, em Santa Cruz do Sul, a Rádio Santa Cruz é adquirida pela Mitra Diocesana de Santa Cruz do Sul (FERRARETTO, 2007).

Arroio do Meio (FM 90,1) e Progresso (FM 92,7). Os outros três canais são destinados para Restinga Seca, Salvador do Sul e Rosário do Sul. Anos depois, a família Proença se desfaz dos canais FM, assim como da Rádio Alto Taquari, de Estrela.

Atualmente, a Rede Tchê de Comunicação conta com três emissoras AM, nenhuma delas no Vale do Taquari. São elas Rádio Alegrete, Rádio Erechim e Rádio São Gabriel. O escritório central do grupo se localiza no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O site oficial da Rede destaca que a área de cobertura abrange as regiões do Alto Uruguai, Fronteira Oeste e Campanha e, ao mesmo tempo, ressalta o respeito que as rádios têm para com ―a cultura, os costumes e as necessidades locais‖ (REDE TCHÊ, online).