2. EMPODERAMENTO SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
2.3 Empoderamento por Paulo Freire
Embora o termo empowerment já encontrasse, há décadas, definição no vocabulário americano (dar poder a alguém), como já dito; no Brasil, foi o educador Paulo Freire que destinou um sentido diferente à palavra a partir do modelo pedagógico da “educação popular”, também conhecido como “educação transformadora”. Para Freire, só há empoderamento quando o sujeito consegue realizar por si mesmo – sem mediadores ou concedentes – as atividades, transformações ou ações que lhe fortalecem e lhe conscientizam das relações de poder e necessidade de mudança; ideia que está implícita na defesa da libertação do oprimido, ponto forte da literatura freireana. Essa literatura coloca a prática da liberdade como fundamental, caminho pelo qual o oprimido tem condições de atuar sobre sua própria destinação histórica. O empoderamento, nesse olhar, é algo proveniente da profunda e contínua reflexão pessoal, algo latente que passa a ser externado pelo indivíduo em forma de ação transformadora; o que implica opção, decisão e compromisso.
Somente os seres que podem refletir sobre sua própria limitação são capazes de libertar-se, desde, porém, que sua reflexão não se perca numa vaguidade descomprometida, mas se dê no exercício da ação transformadora da realidade condicionante. Desta forma, consciência de e ação sobre a realidade são inseparáveis constituintes do ato transformador pelo qual homens e mulheres se fazem seres de relação. (FREIRE, p. 53, 1981)
Num pensamento de influência gramsciana, Freire compreende o empoderamento como algo próximo à conscientização. Trata-se de um processo de conhecimento que se dá por reflexão e ação, a partir da percepção do indivíduo relativa à dialética homem-mundo. (FREIRE, 1979) Baseados nessa concepção freireana, maioria dos autores que citam o termo
empoderamento trazem a postura de Paulo Freire como referência (ROMANO; ANTUNES,
2002; BAQUERO, 2012; entre outros). O empoderamento, nesse viés
Implica, essencialmente, a obtenção de informações adequadas, um processo de reflexão e tomada de consciência quanto a sua condição atual, uma clara formulação das mudanças desejadas e da condição a ser construída. A estas variáveis, deve somar-se uma mudança de atitude que impulsione a pessoa, grupo ou instituição para a ação prática, metódica e sistemática, no sentido dos objetivos e metas
65 traçadas, abandonando-se a antiga postura meramente reativa ou receptiva. (SCHIAVO; MOREIRA, 2005, p. 37) – sem grifos no original.
A visão freireana vincula nitidamente o empoderamento às relações de classes sociais, à identidade, ao diálogo, ao exercício do poder e ao direito de ter direitos. A proposta é substituir o “poder sobre o outro” pelo “poder com o outro”, tendo o sujeito como protagonista de si mesmo. Mas a partir de que momento o sujeito se dá conta que é preciso haver mudanças nas relações de poder? A partir do que ou de quem ele percebe que tem poder para investir contra a opressão que lhe é destinada? Quem ou o quê o desperta?
Na acepção de Paulo Freire, o indivíduo percebe que tem poder a partir dele mesmo. É ele que se empodera. Uma conscientização que é colocada como método e que implica compromisso histórico, “implica que os homens assumam o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo. Exige que os homens criem sua existência com um material que a vida lhes oferece.” (FREIRE, 1979, p. 15) O empoderamento se dá, portanto, por meio da reflexão crítica, da percepção das contradições sociais em que vive; uma conscientização que em sua práxis se sintetiza na luta por e da prática da liberdade.
Um dos meios para a prática da liberdade, segundo Freire (1987), é a educação. A educação deve, portanto, dialogar com o indivíduo, exigindo-lhe novas formas de compreensão e expressão ao invés de pensá-lo como depósito reprodutor de conhecimentos pré-moldados, semiprontos (o que Freire nominou “educação bancária”).
A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente quem não a tem. Não é também liberdade um ponto ideal, fora dos homens, ao qual inclusive eles se alienam. Não é ideia que se faça mito. É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos.
Daí a necessidade que se impõe de superar a situação opressora. Isto implica no reconhecimento crítico, na “razão” desta situação, para que, através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais. (FREIRE, 1987, p. 18)
Nesse sentido, a prática da liberdade prescinde de reflexão, tomada de consciência, mas também de organização. É preciso se organizar para desorganizar, e isto é feito em conjunto; carecendo, portanto, de politização. “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” (FREIRE, 1987, p. 29) Para manutenção do seu poder, as lideranças opressoras tendem a encontrar mecanismos para dividir as minorias e/ou criar estratégias para perpetuá-las enquanto dependentes. A ação política, pelo contrário, deve agir em consonância com a independência dos indivíduos, induzindo-os à reflexão
66 crítica, participação em debates e tomada de poder; fatores que podem ser revelados como ação cultural:
A ação política junto aos oprimidos tem de ser, no fundo, “ação cultural” para a liberdade, por isto mesmo, ação com eles. A sua dependência emocional, fruto da situação concreta de dominação em que se acham e que gera também a sua visão inautêntica do mundo, não pode ser aproveitada a não ser pelo opressor. Este é que se serve desta dependência para criar mais dependência.
A ação libertadora, pelo contrário, reconhecendo esta dependência dos oprimidos como ponto vulnerável, deve tentar, através da reflexão e da ação, transformá-la em independência. Esta, porém, não é doação que uma liderança, por mais bem- intencionada que seja, lhes faça. Não podemos esquecer que a libertação dos oprimidos é libertação de homens e não de “coisas”. Por isto, se não é autolibertação – ninguém se liberta sozinho –, também não é libertação de uns feita por outros. (FREIRE, 1987, p. 30) – sem grifo no original.
Cultura e poder se articulam nas dimensões individual e coletiva, são subterrâneos à transformação, ao empoderamento. Se os civis podem se articular, organizando-se em prol de alterações práticas, sistemáticas e metodológicas das relações de poder, isso significa que a sociedade civil organizada, como afirma Maria da Glória Gohn (2004) pode ajudar a promover mudanças substanciais a partir de projetos perenes, dialógicos e – utilizando o termo freireano – libertadores. Recorrendo à visão gramsciana, a cultura é compreendida, neste cenário, como disciplina do próprio eu interior, como consciência que permite perceber o lugar histórico do indivíduo, sua função, deveres e direitos.
A cultura é também aquisição sistemática da experiência humana, mas uma aquisição crítica e criadora, e não uma justaposição de informações armazenadas na inteligência ou na memória e não "incorporadas" no ser total e na vida plena do homem.
Neste sentido, é lícito dizer que o homem se cultiva e cria a cultura no ato de estabelecer relações, no ato de responder aos desafios que lhe apresenta a natureza, como também, ao mesmo tempo, de criticar, de incorporar a seu próprio ser e de traduzir por uma ação criadora a aquisição da experiência humana feita pelos homens que o rodeiam ou que o precederam. (FREIRE, 1979, p. 21)
O poder, por sua vez, se revela quando o sujeito tem participação ativa na sociedade, na história, na comunidade; se revela na força para impor-se diante das situações adversas, na força de transformar a realidade a partir da apreensão da mesma, da reflexão sobre. Como já mencionado, para o despertar desta ação é preciso compreender os contornos e conteúdos da realidade que carece ser modificada, e o principal: porquê ela precisa ser modificada.
Se queremos que o homem atue e seja reconhecido como sujeito;
Se queremos que tome consciência de seu poder de transformar a natureza e que responda aos desafios que esta lhe propõe: (...)
67 Se queremos que através de seus atos seja criador de cultura;
Se pretendemos, sinceramente, que se insira no processo histórico e que “descruzando os braços renuncie à expectativa e exija a intervenção”; se queremos, noutras palavras, que faça a história em vez de ser arrastado por ela, e, em particular, que participe de maneira ativa e criadora nos períodos de transição (períodos particulares porque exigem opções fundamentais e eleições vitais para o homem); (...) é importante preparar o homem para isso por meio de uma educação autêntica: uma educação que liberte, que não adapte, domestique ou subjugue. (...)
O homem não pode participar ativamente na história, na sociedade, na transformação da realidade, se não é auxiliado a tomar consciência da realidade e de sua própria capacidade para transformá-la.
Ninguém luta contra as forças que não compreende, cuja importância não mede, cujas formas e contornos não discerne; mas, neste caso, se as suporta com resignação, se busca conciliá-las mais com práticas de submissão que de luta. Isto é verdade se se refere às forças da natureza: seca, inundação, doenças das plantas e dos animais, curso das estações, isto não é menos verdadeiro dito das forças sociais: "o latifundiário”, "os trustes”, "os técnicos”, "o Estado”, “o fisco” etc., todos os “eles” de que nós não temos senão uma vaga idéia; sobretudo a idéia de que "eles” são todo-poderosos, instransformáveis por uma ação do homem do povo.
A realidade não pode ser modificada, senão quando o homem descobre que é modificável e que ele pode fazê-lo. (FREIRE, 1979, p. 22)
São estas formas de cultura e de poder alicerçadas por ações transformadoras que fomentam a proposta dos projetos do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança. Esse envolve diferentes gerações em atividades dialógicas cotidianas culturais, comunicacionais, de afirmação da identidade, valorização da memória, além da geração de emprego e renda; tendo como principal conteúdo a cultura popular da zona rural pernambucana. Parte das atividades é subsidiada pela sociedade civil em parceria com políticas públicas culturais. O que na teoria e na prática pode parecer uma contradição, na voz dos atores sociais envolvidos pelos projetos é resvalada como transformação, tomada de consciência, reconhecimento, satisfação, empoderamento31.
Tudo isso, não sem conflitos, todavia.
31 Questão expandida no capítulo 6, criado a partir dos diálogos mantidos com os agentes locais, com base na
68 Não cabe ao Estado
fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos. (Gilberto Gil, 2003)