Há unanimidade entre os autores, como Horochovski e Meirelles (2007), Romano (2002), Villacorta e Rodriguez (2002) e Iorio (2002), em afirmar que o termo empoderamento surge por volta dos anos 1960, tendo como fonte, primordialmente, os movimentos feministas e o movimento American Blacks, que movimentava o cenário político norte-americano pelo fim do preconceito racial nos EUA. Contudo, entende-se que a linha feminista tem se destacado mais, pela
continuidade de suas ações ao longo dos anos 1980 e 1990, em razão da implementação de políticas de conscientização e de estratégias de empoderamento.
A noção de empoderamento, para Romano e Antunes (2002), começa a ser utilizada na década de 1970, pelos movimentos sociais e por agências de cooperação e organizações financeiras multilaterais na formulação de suas políticas e estratégias, associada aos conceitos de capital social e de capacidades. Também, o empoderamento passa a ser um termo utilizado em disputas no campo ideológico de desenvolvimento. Pode-se considerar como o reconhecimento e a promoção do conjunto de direitos humanos, como os direitos civis, sociais, culturais, políticos e econômicos. Já a partir dos anos 1990, o termo empoderamento foi utilizado nas áreas de debate sobre desenvolvimento em geral, pela necessidade reconhecida em empoderar pessoas e grupos para o sucesso de programas e de políticas sociais.
Por empoderamento, podemos encontrar alguns conceitos que nos levam ao entendimento sobre o tema. Numa perspectiva emancipatória, Horochovski e Meirelles (2007, p. 486) citam que “é o processo pelo qual indivíduos, organizações e comunidades angariam recursos que lhes permitam ter voz, visibilidade, influência e capacidade de ação e decisão”, ou seja, a possibilidade de ter controle sobre os aspectos que afetam o seu cotidiano, vivenciando uma capacidade de gerir processos de desenvolvimento autossustentável através de intermediação de agentes externos, já que não se trataria de um processo natural. Na sua linha de raciocínio, o empoderamento seria cingido de uma relação de poder e suas relações conexas, já que empoderar a sociedade significaria equilibrar as relações de poder numa relação de equidade, em favor dos indivíduos que teriam menos recursos. Tal situação alcançaria o aprofundamento da democracia mediante a ampliação da cultura política e da possibilidade de aumento da participação popular, que, por sua vez, conquistariam o direito à voz e vez para o seu autodesenvolvimento.
O empoderamento, segundo Iorio (2002), traria consigo a ideia política de promoção e proteção aos direitos humanos, sendo esses o resultado de um processo de lutas e acordos sobre princípios e padrões legais e morais, e suas características mais marcantes são a indivisibilidade e universalidade dos direito civis, sociais, políticos, culturais e econômicos. Direitos como o da saúde, da educação, de uma digna moradia, do acesso a uma justiça gratuita e rápida, da segurança pessoal e da
responsável por prover, assegurar e proteger esses direitos. Não adiantaria apenas ter o indivíduo a garantia de seus direitos políticos e não ter a garantia de ter comida, moradia digna ou um emprego.
Sobre o tema, Villacorta e Rodriguez (2002) afirmam que o empoderamento parte do entendimento de que a situação de pobreza e dominação seria um impedimento ao desenvolvimento, tendo como base o poder de poucos sobre os recursos disponíveis e também sobre as possibilidades de existência social de outros. É um processo de criar poder para as classes, estabelecidas nos setores pobres e excluídos, gerando capacidades, que, por consequência, implicaria lucro para a sociedade. Seria o processo de obter acesso e controle sobre si mesmos e sobre os meios necessários para sua existência, na construção e ampliação das capacidades para que o indivíduo possa assumir o controle de seus próprios assuntos; produzindo, criando, gerando novas alternativas e mudando as relações de poder. Seria mobilizar suas energias para o respeito a seus direitos e para se obter controle sobre os recursos disponíveis, sejam eles físicos, humanos e financeiros, e, também, sobre recursos ideológicos, assim considerados as crenças, valores éticos e as atitudes, criando-se uma capacidade para poder discernir como melhor escolher estes recursos e, finalmente, efetivar suas próprias ações.
Para Romano e Antunes (2002), o empoderamento seria a conquista plena dos direitos de cidadania; seria a capacidade de um ator, enquanto indivíduo ou no coletivo, usar de seus recursos econômicos, sociais, políticos e culturais para atuar no espaço público na defesa de seus direitos. Daí, poderia influenciar as ações do Estado, inclusive na distribuição dos serviços e recursos públicos. Para esses autores, os movimentos sociais e as organizações ditas como populares são considerados como os principais agentes de transformação dentro do Estado, enquanto instrumentos para a erradicação da pobreza e da desigualdade no país.
O empoderamento, ainda para Romano (2002), é uma dentre as categorias de abordagens enquanto considerado como um direito, da efetiva participação social, de uma descentralização do poder, de aumento de capital social, estando inserido no debate ideológico em torno do desenvolvimento. Seria conquistado pelo acesso à informação, pela inclusão e participação social, pela capacidade de prestação de contas e de se organizar localmente. Também sobre o tema, Romano (2002), assevera que o empoderamento não seria neutro e sem conflitos, sendo necessária a atuação dos agentes externos para a formação do consciente de empoderar no
indivíduo e, dessa apreensão, se infiltrar no cotidiano das dimensões vivenciadas pelos indivíduos e famílias do grupo, buscando quebrar as relações de dominação que sustentam a pobreza e a desigualdade, fontes de privação de liberdades, não podendo ser superpolitizada ou atomizada, pois reduziriam as chances de seu sucesso. O empoderamento se daria pela ocorrência de conflitos, pois as relações de dominação envolveriam de forma voluntária ou involuntária, numa mesma arena, os opressores e oprimidos. Governos e agências multilaterais buscam despolitizar este processo pela tecnicização de conflitos, retirando dos atores as suas dimensões ideológicas e políticas, como forma de submissão. É através de processos de empoderamento que se busca, de forma consciente, quebrar e eliminar as relações de dominação que sustentam a pobreza e a tirania enquanto fontes de privação das liberdades. Não deve ser um processo de superpolitização, pois, nesse viés, implicaria a negação dos interesses e interações de grupo, fazendo prevalecer os interesses pessoais em discursos políticos contestatórios, em detrimento da vontade do grupo. No empoderamento, buscar-se-ia enfrentar a questão do poder, este considerado como capacidade de controle sobre algo ou sobre alguém, podendo ser delegado por representantes, ou tirado das bases. O poder seria relacional, constituído entre indivíduos, se constituindo numa abrangência de relações sociais entre pessoas, somente existindo quando se usa. Sem poder, as relações não existiriam.
Nas mais diversas sociedades e em todas as relações sociais, para Romano (2002), seria possível identificar o exercício do poder: poder sobre, poder para, poder com, poder dentro. Assim, o enfrentamento da pobreza através de uma abordagem de empoderamento determina uma clara compreensão das relações de poder e de quais os tipos de exercícios de poder que as conformam, qual o nível pessoal ou grupal, identificar o território de sua abrangência, sendo este o local, o regional, o nacional e o global; qual a sua dimensão social, cultural, política, econômica e ambiental; e finalmente os seus objetivos estratégicos ou organizacionais em que se privilegiem.
As relações de poder ocorrem em diversos espaços sociais, como na família, na comunidade, na região, no mercado, no Estado, na sociedade civil, ocorrendo de diversas formas: poder econômico, político, social, poder cultural, poder psicológico, dentre outros. Nesses locus estariam, em jogo, as relações quanto ao acesso a
delimitar o campo das políticas nacionais de combate à pobreza, o campo das relações familiares de gênero, o campo da luta pela terra, o campo do desenvolvimento local, dentre outros. Seus atores poderiam ser entes de governo, elites, associações ou representações urbanas e rurais, etc., e exerceriam a sua posição dominadora através de coerção pelo poder físico ou moral, pela aplicação de lei enquanto poder institucional, e através de costumes e de aspectos ideológicos enquanto poder simbólico.
Ainda, Romano (2002) afirma que, por seu conteúdo, na superação da pobreza implicaria então o desenvolvimento das habilidades dos excluídos e pobres, transformando as relações de poder, sendo igualmente relacional, pois envolveria vínculo com outros atores, e conflituoso quando age na resolução de conflitos. Sem o conflito, redundaria na submissão, extremo averso ao empoderamento. Assim, a pobreza se constituiria num estado de desempoderamento, num olhar de que os grupos e indivíduos pobres não teriam condição e poder suficientes, por si, para melhorar as suas condições e relação com o poder, razão pela qual poderia, pelo autor, afirmar que o empoderamento é um meio e um fim para superar este estado de pobreza, construindo uma luta por acesso a direitos como o meio e um fim, já que o poder está na essência da definição do tema e da superação da pobreza. Orienta-se para a conquista da cidadania, ou seja, para a plena capacidade de um ator usar seus recursos econômicos, sociais, políticos e culturais para atuar na defesa de seus direitos, influenciando as ações governamentais na distribuição de recursos e serviços, garantindo-lhe o exercício pleno da cidadania.
Numa mesma linha de raciocínio, Iorio (2002) tem a sua proposta de empoderamento e suas consequências nas perspectivas do chamado poder sobre os recursos físicos, sendo os humanos, físicos e financeiros e ideológicos, como crenças e valores; e o poder para ou de dentro, como a capacidade ou habilidade de se expressar e o acesso ao controle dos meios de sua existência. Complementando este pensamento, Romano (2002) abrange a questão para distribuir o poder em “poder sobre”, “poder para”, “poder com” e “poder de dentro”. No primeiro aspecto, inclui num só espectro os recursos, sendo eles físicos ou imateriais. No segundo, indica uma ação para criar possibilidades e ações. No “poder com”, faz a abordagem do enfrentamento conjunto de questões pelo grupo e, finalmente, no quarto aspecto, demonstra a força espiritual de cada indivíduo para a aceitação e respeito com ou outros, ou seja, a autoaceitação e o autorrespeito.
Horochovski e Meirelles (2007) afirmam que o Estado, por razões fiscais, desenvolve ações focalizadas em detrimento de ações universalizantes, não enfatizando a questão política dos grupos como estratégia de empoderamento. Para os autores, existem, todavia, barreiras que podem tornar insucesso a sua tentativa ao empoderamento. A primeira seria constituída na insegurança econômica que se traduz em incerteza constante e numa luta diária pela sobrevivência. Em segundo lugar, haveria de se identificar a própria dificuldade dos grupos hegemônicos em querer dividir os recursos de que dispõem. Finalmente, um limite de grande expressão é o alcance dos projetos que visam incrementar o empoderamento, já que iniciativas abrangentes possuem menos resultados que ações pontuais.
Entende, ainda, Iorio (2002), que as pessoas se empoderam a si mesmas, daí porque a necessidade de se criar um ambiente propício para o empoderamento, onde as políticas públicas, os recursos financeiros e humanos, a livre informação, o acesso ao conhecimento e às instituições sociais podem mudar a cultura institucional de atores importantes do campo do desenvolvimento.
No campo das políticas públicas, poderia ser ocasionada a mudança ou aprovação de leis que apoiassem a iniciativa dos excluídos e pobres, retirando condições de discriminação, promovendo e implementando processos participativos na gestão destas políticas, como de conselhos e comitês de saúde, educação, segurança e de programas de combate à pobreza e à exclusão. A participação, no entender de Iorio (2002), seria elemento constitutivo das estratégias de empoderamento.
No campo da livre informação, resta, para Iorio (2002), estabelecer e promover o acesso à informação para as pessoas vivendo na pobreza, pois o controle da informação, a parcialidade ou a falta de transparência é o mecanismo mais usado pela corrupção e pelo assistencialismo (CARDOSO, 2004). De posse de informações, a autora afirma que as pessoas e os grupos têm uma oportunidade de sair da condição de “beneficiário” para ser um agente ativo do processo, daí a importância de se pretender o controle sobre o conhecimento e a informação, o que pode levar à mudança nas relações de poder, nas estratégias de geração de conhecimento e de sua difusão para a comunidade.
vivendo em estado de vulnerabilidade social para que não se reifique os processos de pobreza. Uma sociedade que distribua o poder na sua estrutura social de forma mais equitativa terá condições especiais no sucesso das estratégias de combate à pobreza e à exclusão.
Diante do aporte teórico acima estabelecido, passaremos para o próximo tópico, onde serão discutidos e analisados os resultados desta pesquisa.