• Nenhum resultado encontrado

O empoderamento como categoria passou a ser utilizada nos anos de 1970 por movimentos sociais, sendo amplamente incorporada a partir dos anos de 1990 nos discursos de organismos internacionais sobre ações que visam algum tipo de intervenção considerada de caráter social.

A noção de empoderamento começa a ser utilizada na década de 70, com os movimentos sociais e, posteriormente, passa a permear as práticas das ONGs. Nos últimos anos, o conceito e a abordagem foram gradualmente apropriados pelas agências de cooperação e organizações financeiras multilaterais (como o Banco Mundial). (ROMANO; ANTUNES, 2002, p. 5).

Entretanto, existe uma disputa no âmbito dos movimentos sociais em relação à origem do uso do termo empoderamento, que dificulta precisar qual seria a sua verdadeira origem.

Identificar a origem do conceito de empoderamento é uma tarefa que resulta inconclusiva. A origem do conceito é disputada tanto pelos movimentos feministas, como pelo movimento American Blacks que nos anos 1960, movimentou o cenário político norte-americano exigindo o fim do preconceito e da discriminação que marcavam a vida dos negros nos EUA. (LORIO, 2002, p. 21).

Independente da origem, as divergências em relação ao termo empoderamento têm se dado a respeito do seu uso ou apropriação por diferentes atores, o que teria levado a uma espécie de disputa sobre qual seria o uso mais apropriado do termo. Romano (2002) argumenta que a apropriação dessa categoria por organismos internacionais, como o Banco Mundial, consistiria numa forma de disputa ideológica sobre o significado dessa categoria em relação à concepção de desenvolvimento.

Nesta apropriação, o conceito e a abordagem sofreram um processo de despolitização – ou pasteurização – ao ser enfatizada sua dimensão instrumental e metodológica. Assim, junto com conceitos como capital social e capacidades, o

empoderamento passa a ser um termo em disputa no campo ideológico de

Dessa forma, categorias como empowerment surgem como parte dos discursos críticos ao modelo de desenvolvimento predominante, mas teriam sido “apropriadas e re- semantizadas nos discursos e nas práticas dominantes do mainstream, expressos principalmente através dos bancos e das agências de desenvolvimento multilaterais e bilaterais, dos governos e de diversas organizações da sociedade civil”. (ROMANO, 2002, p. 9).

Sardenberg (2006) reforça a problemática da incorporação do termo por organismos internacionais no debate sobre desenvolvimento, acrescentando que há uma desconfiança por parte do movimento feminista, por considerar que a incorporação do termo por agências internacionais tem se dado de forma inapropriada, desvirtuando assim o sentido original do termo.

[...] apesar das origens “radicais” do conceito de empoderamento - ele surgiu da “práxis” para a “teoria”, sendo utilizado primeiro por ativistas feministas e por movimentos de base para depois se tornar objeto de teorização (AITHAL, 1999) – a problematização dessa práxis seguiu dois caminhos bastante distintos. Por um lado, o conceito foi levado para a academia, ganhando espaço nas perspectivas feministas sobre “poder” (ALLEN, 2005), enquanto, por outro, foi apropriado nos discursos sobre “desenvolvimento”, perdendo, nesse processo, muito das suas conotações mais radicais e, assim, sendo visto com desconfiança por feministas não familiarizadas com suas origens radicais. (AITHAL, 1999). (SARDENBERG, 2006, p. 1).

Assim, “tem-se tornado comum tanto no discurso acadêmico, quanto de órgãos governamentais e não governamentais - ou mesmo no próprio movimento de mulheres - falar- se do empoderamento de mulheres, sobretudo no contexto do discurso sobre gênero e desenvolvimento”. (SARDENBERG, 2006, p. 1).

Sardenberg (2006) também reforça os argumentos de Romano (2002), sobre a existência de um embate no uso do termo, de cunho muito mais ideológico do que apenas de metodologias.

É claro que, no caso da divergência entre a perspectiva dessas agências e a dos movimentos feministas, não se trata apenas de questões de cunho teórico- metodológico e sim de ordem política, o que resulta em perspectivas bastante distintas, senão conflitantes, na abordagem ao problema. Por exemplo, existem importantes divergências quanto ao objetivo maior do empoderamento das mulheres. Para muitas dessas agências e órgãos, o empoderamento das mulheres é visto como um instrumento para o desenvolvimento, para a democracia, para erradicar a pobreza, etc. Não é um fim em si próprio. (SARDENBERG, 2006, p. 2).

Segundo Hernández (2009), a partir dos anos 1970 o termo empoderamento foi aos poucos sofrendo uma descaracterização por parte das agências de desenvolvimento, que despolitizou o termo, ressaltando seu caráter mais instrumental e metodológico. Nos anos noventa, o termo passou a ter uma centralidade nos discursos, não apenas das mais importantes agências internacionais, como também de organizações não governamentais e órgãos governamentais, assim como um termo recorrente nas agendas de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento de programas de promoção do microcrédito.

O empoderamento tornou-se uma categoria sobre a qual se formaram diferentes enfoques, variando também conforme o contexto em que é analisado, sendo assim um guarda chuva conceitual, que pode ter várias utilidades por diferentes visões intelectuais, políticas e ações que pretendem intervir na realidade. (HERNÁNDEZ, 2009; FERNANDES, S. A. 2008).

Em relação o termo empoderamento no debate de gênero e desenvolvimento, Léon (1997), citada por Venegas (2005, p. 1), comenta que:

Aunque han sido los estudios de las mujeres y el género en el desarrollo, los que han utilizado el concepto como uno de los ejes de su discurso, tampoco hay en estos campos consenso total en cuanto a susentido, al punto que cuando se habla de empoderamiento hay que preguntar si se está haciendo referencia a los mismos contenidos. El concepto se usa como sustituto de integración, participación, identidad, desarrollo y planeación y no siempre referido a su origen emancipador.

Embora o termo empoderamento apresente uma problemática conceitual, em relação ao uso feito pelo movimento feminista, Venegas (2005, p. 1) aponta que:

La variabilidad de uso y contenido del término empoderamiento ha hecho que desde el feminismo, sobre todo de la década de los 90, se haya tratado de llenar este vacío de significado. En este sentido Wieringa (1997:157) opina que el concepto tiene significado «si es utilizado para la transformación social según la concepción feminista del mundo».

“Nos anos 1990 observa-se a expansão do uso deste conceito para outras áreas do debate sobre desenvolvimento, especialmente a partir das grandes conferências oficiais e paralelas mundiais, notadamente Cairo e Beijing”. (LORIO, 2002, p. 21).

4.2 Empoderamento Individual e Empoderamento Coletivo: das necessidades práticas