CAPÍTULO I EMPREENDEDORISMO
1.4 Empreendedorismo como Processo Social Local
Nos últimos anos, o tema empreendedorismo vem ganhando evidência, o que faz com que esse enunciado ganhe maior atenção dos governantes, empresários, trabalhadores e de toda a sociedade. Os ambientes onde ocorrem processos interativos e cooperativos de aprendizado e inovação são mais favoráveis ao empreendedorismo. Dessa forma, busca-se desenvolver a capacitação local, em aprendizado e inovação, de forma pública e sistemática.
Por volta do século XVIII, Richard Cantillon já ressaltava a capacidade e o desimpedimento do empreendedor em lidar com as incertezas nos negócios. O austríaco Joseph Schumpeter introduziu, ainda no século XX, a conexão entre empreendedorismo e inovação, como agente de mudança, dentro ou fora da economia. Nessa perspectiva, a inovação era compreendida como a introdução de novos produtos, processos, formatos organizacionais e insumos de matérias-primas e o empreendedor era visto como aquele que procurava constantemente por oportunidades singulares, gerando instabilidade em um processo contínuo de destruição criadora. A importância do empreendedor era tida, dessa forma, como uma busca por oportunidades.
9 Stakeholders- em português, significa parte interessada ou interveniente. É um termo usado em diversas áreas, como gestão de projetos, comunicação social, administração e arquitetura de software, referente às partes interessadas, que devem estar de acordo com as práticas de governança corporativa executadas pela empresa.
A partir dos anos 90, o enunciado empreendedorismo ganhou maior relevância e conceitos contemporâneos, em meio a uma série de transformações inter-relacionadas. Segundo Albagli e Maciel (2003), o empreendedorismo refere-se à criação e ao desenvolvimento de novos e pequenos negócios, geralmente liderados por proprietários-gerentes ou empreendedores-proprietários, intercalando inclusão social, geração de trabalho e renda, combate à pobreza e ao desemprego, em meio ao desmantelamento do Estado do bem-estar social, quando se remete ao declínio dos níveis de emprego e à apologia do auto emprego, além da ascendência dos pensamentos neoliberais da redução do estado, que representa, dessa forma, a flexibilização dos aparatos técnico-produtivos e do trabalho.
Numa perspectiva neoclássica, Hodgson (1994) apud Albagli e Maciel (2003), divide a economia em três particularidades, sendo a primeira aquela em os agentes têm, supostamente, um comportamento tradicional e maximizador, em ambientes estáveis; a segunda foca em estados de equilíbrio, alcançados ou buscados; e a terceira engloba a ausência de problemas crônicos de informação. A abertura de oportunidades para grupos menos favorecidos e a melhoria das condições de vida locais estão condicionadas ao avanço na organização da sociedade civil e à maior pressão pelo empoderamento de segmentos sociais excluídos e de áreas marginalizadas.
À medida que o crescimento da globalização se expande e a competição capitalista se torna mais acirrada, torna-se imprescindível a busca por constantes inovações e novas oportunidades, a fim de alavancar a competitividade dos agentes econômicos. De acordo com Albagli e Maciel (2003, p.2) é primordial, nesse contexto:
[...] a emergência de uma sociedade e economia do conhecimento e do aprendizado, em que os recursos intangíveis- conhecimento, informação, competências, capacidade de aprendizado, de inovação e de cooperação- assumem um papel central como forma de ampliar o dinamismo, a competitividade e a sobrevivência sustentada de países, regiões, organizações e indivíduos.
Em outra perspectiva, a atomística e comportamental, a atitude empreendedora é explicitada através de decisões tomadas por uma racionalidade econômica e individualista e pelas características pessoais do empreendedor, como controle e autoconhecimento. Sob essa ótica, as ações devem estar voltadas para o estímulo do empreendedorismo em nível individual; todavia, essa perspectiva desconsidera as
motivações e influências que o entorno e o suporte social exercem sobre a atitude empreendedora e o grau de empreendedorismo em determinadas regiões ou localidades (Albagli & Maciel 2003).
Os processos econômicos locais competitivos são produto de um planejamento regional onde se busca por concentrações econômicas competitivas - também denominadas
clusters10-, complementado pela parte social/comunitária. Um aglomerado competitivo
caracteriza-se por ocupar todos os espaços da economia nos três planos: econômico, social e político. A sinergia obtida, especialmente na produção de tecnologia (royalties), é significativa. A verticalização da região, ou seja, o alto nível de consumo, significa a ocupação de todos os espaços econômicos e o inferido nível de empreendedorismo; portanto, o novo fundamento define-se em: empresas desverticalizadas, região verticalizada.
Os processos de desenvolvimento local devem considerar o fator cultural- por ele ser um elo estruturante em todo o processo-, considerando que toda mudança causa inquietações e resistências nos indivíduos que fazem parte de uma comunidade. A potencialidade básica de qualquer local, região ou país está solidificada em sua população e em seu ambiente, como na interação das pessoas, através de sua cultura, com o território e suas relações externas.
A escolha do processo de implementação de um modelo de desenvolvimento local dependerá das peculiaridades encontradas na microrregião e das necessidades endógenas dos ambientes, observando o grau de interação das redes internas e da capacidade de reação da trama econômica e institucional para as novas condições ambientais. Dessa forma, faz-se necessária a concentração de esforços para a criação de uma base de conhecimento às pessoas envolvidas no processo de promoção do desenvolvimento, pois, dessa forma, chegar-se-á a uma linguagem comum, desenvolvendo redes relacionais essenciais, promovendo a efetiva colaboração estratégica e operativa, que poderá favorecer fortes efeitos sinergéticos (Albagli & Maciel, 2003).
10 Um cluster é um aglomerado de industrias ou empresas de características semelhantes, que coabitam no mesmo local e que possuem, entre si, relacionamento de colaboração para se tornarem mais eficientes. São exemplos de clusters o Silicon Valley e o São Pedro Valley.