Empreendedorismo e inovação
1.1 Empreendedorismo: origens, conceitos e abordagens
Desde que o empreendedorismo se tornou num campo de investigação, tem havido pouco consenso entre os investigadores na formulação de uma definição universal. Sem uma definição central e exacta, a investigação tornou-se numa actividade caracterizada pela divergência da recolha e análise de factos para a compreensão deste fenómeno. O conceito de empreendedorismo tem um vasto leque de significados. Se, por um lado, o empreendedor é visto com um indivíduo com uma aptidão muito elevada para a mudança, possuindo características que só uma pequena fracção da população possui, num outro extremo das definições qualquer um que trabalhe por conta própria é considerado um empreendedor.
Segundo Audretsch et al. (2001), o empreendedorismo é um conceito multidimensional. A sua definição depende largamente do foco da investigação levada a cabo, mas apesar da falta de consenso entre os investigadores a respeito dos diferentes aspectos do empreendedorismo, estes parecem concordar que o nível da actividade empreendedora varia sistematicamente através dos países e através do tempo. Referindo-se à notável confusão que cerca a definição de empreendedor, Filion (1997) prefere usar o termo ―diferença‖. Segundo este autor, os investigadores tendem a perceber e a definir o conceito de empreendedor usando as premissas das suas próprias disciplinas. Os economistas, por exemplo, associaram os empreendedores com a inovação, enquanto que os behavioristas se concentraram nas suas características criativas e intuitivas.
Não existe uma teoria universal consistente mas, em vez disso, existem várias aproximações de diversas disciplinas como a psicologia, a sociologia, a antropologia, a economia ou gestão, todas com pontos de vista e análises diferentes. O empreendedorismo não pode ser visto unicamente à luz de uma disciplina, pois esta actividade não é limitada a determinadas indústrias ou a empresas de determinada dimensão. É uma actividade intercultural, realizada por pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e em todas as áreas de negócio. Desta forma, o campo de investigação do empreendedorismo é interdisciplinar e/ou multidisciplinar e está em constante
desenvolvimento. Esta nova área de estudo, conhecida nos meios académicos pelo termo anglo-saxónico entrepreneurship, abrange, hoje em dia, um alargado leque de teorias e abordagens e tem sido estudada de variadas formas e com propósitos diferentes.
Segundo Landström (2005), a palavra empreendedor (entrepreneur) é originalmente uma palavra francesa, tendo aparecido, pela primeira vez, em 1437 no Dictionnaire de la
langue française. De acordo com o autor, neste dicionário eram listadas três definições
de entrepreneur, sendo que a mais significativa era ―celui qui entreprend quelque chose”, referindo-se à pessoa que é activa e que consegue algo e sendo entreprendre, o seu verbo correspondente. A palavra tem feito parte da língua francesa desde o século XII e alguns autores franceses da altura referiam-se ao termo entrepreneur relacionando-a com actividades de guerra durante o período medieval, sendo os guerreiros vistos como
entrepreneurs. Outros autores referiam o entrepreneur como alguém que é duro e
preparado para arriscar a sua própria vida e fortuna. Mais tarde, no século XVII, o termo
entreprendre era empregue para definir um indivíduo que assumia o risco de criar um
novo empreendimento (Leite, 2000). Porém, Landström (2005) refere que nem todos os indivíduos que aceitavam riscos eram considerados empreendedores. Apenas aqueles que estariam envolvidos em grandes empreendimentos poderiam ser chamados de empreendedores. A maior parte das vezes, era uma questão de grandes contratos entre os Estado e alguém que fosse competente, uma pessoa rica, com o objectivo, por exemplo, de fornecer equipamento para o exército. O típico empreendedor era, deste modo, uma pessoa contratada pelo Estado para concretizar serviços específicos ou para o fornecer com determinados bens. O autor refere, ainda, que o conceito de empreendedor era nesta altura definido nos dicionários como ―entrepreneur, qui
entreprend un bastiment pour un certain prix”, o que significa que o empreendedor era
contratado para executar determinada tarefa a determinado preço.
Os termos entrepreneur e entreprendre apresentaram alguns problemas de tradução para outros idiomas, sendo que, em inglês, as palavras derivaram para entrepreneur e
entrepreneurship e, em português, segundo Leite (2000), entrepreneur poderia ser
traduzido como empresário, todavia refere que, para alguns autores, como Drucker, o termo é empregue para designar empreendedor e não necessariamente um empresário, assim como para entrepreneurship a tradução em português será de espírito empreendedor.
Richard Cantillon, irlandês (aprox. 1680 - 1734), foi o primeiro autor a dar ao empreendedorismo um papel de destaque no desenvolvimento económico. No seu
trabalho Essai sur la nature du commerce en général (publicado em 1755), verificou que as discrepâncias entre a oferta e a procura num mercado criavam oportunidades para comprar barato e vender a um preço alto, o que traria equilíbrio a um mercado competitivo. Para Cantillon, o empreendedor era portador da incerteza, como o cita Schumpeter (1954:pág. 646): ‖buying productive services at certain prices in order to
produce a product whose price is not certain‖, ou seja, o empreendedor compraria
produtos a um determinado preço e, depois de embalado e transportado para o mercado, seria vendido a um preço incerto. Aqueles que soubessem tirar partido desta oportunidade de lucro (por realizar), eram chamados de empreendedores. Empreender é uma questão de visão e vontade para assumir o risco em um dado momento do tempo, não estando necessariamente relacionado com a produção de bens e criação de emprego. O entrepreneur passou a designar uma pessoa que identificava uma oportunidade de negócios, assumindo os riscos inerentes.
Jean-Baptiste Say (1767-1832), economista francês e grande admirador de Adam Smith, definiu o empreendedorismo como uma combinação de factores dentro de um organismo e dividiu, segundo Landström (2005), o desenvolvimento industrial3 em três actividades distintas: 1) investigação que é conduzida por investigadores com o propósito de geração de conhecimento; 2) ajuste/utilização desse conhecimento em produtos via empreendedores, os quais organizam, reúnem os factores produtivos e 3) produção que é executada pelos trabalhadores. Say tinha uma visão do empreendedor como um ―broker‖, na medida em que organiza e combina os meios de produção com o objectivo de produzir bens, mas este, para além de coordenador, também acarretava estas actividades por seu próprio risco. Segundo Schumpeter (1954, p. 555), Say foi o primeiro a distinguir o empreendedor do capitalista. Filion (1997) refere que Say associou os empreendedores à inovação, vendo-os como agentes da mudança.
No início do século XX, o economista austríaco Joseph A. Schumpeter (1883-1950) apresenta um novo significado para o empreendedor, e aborda o seu impacto sobre a economia, destacando as suas funções inovadoras e promotoras da mudança. Para Schumpeter (1934), o crescimento económico não resulta da acumulação de capital, mas da combinação de meios de produção, chamando de empreendimento à realização de combinações novas e de empreendedores aos indivíduos cuja função é realizá-las. A realização de combinações novas pode surgir das antigas por ajuste contínuo mediante
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3Nesta época a Revolução Industrial estava em curso. Segundo Filion (1997), Say tinha a esperança que esta pudesse atravessar o Canal com rumo a França.
pequenas etapas, significando o emprego diferente da oferta de meios produtivos existentes no sistema económico, originando, desta forma mudança e crescimento. O acto de empreender coloca o processo de inovação em marcha e o empreendedor poderá ser visto como a personificação do inovador. O empreendedor que realiza estas novas combinações não precisa de ser o dono da empresa, ou seja, este poderá ser um trabalhador dependente, como um gerente, membros da direcção, entre outros. Segundo o autor, o empreendedor é responsável por um processo que chamou de ―destruição criativa‖, sendo o impulso fundamental que acciona e mantém em funcionamento a economia capitalista. Leite (2000) refere que, na percepção de Schumpeter a ―destruição criativa é um processo orgânico, de permanente mutação industrial, que incessantemente revoluciona a estrutura económica a partir de dentro, constantemente destruindo a velha, constantemente criando uma nova‖. Para Schumpeter, o conceito de ―destruição criativa‖ foi usado para definir a “mutabilidade, a natureza dinâmica dos fenómenos e para sustentar que a mudança é um ingrediente essencial ao sucesso‖ (Cunha, 2004).
A partir da II Guerra Mundial, emergiu uma nova linha de pensamento, centrada numa perspectiva comportamental, levando em consideração as características pessoais, as motivações, os estímulos e as necessidades de realização dos empreendedores. Nesta corrente de carácter mais psicológico, McClelland (1917-1998) é o mais reconhecido pioneiro entre os investigadores behavioristas do estudo comportamental dos empreendedores. Realizou trabalhos sobre a questão da motivação psicológica, baseado na crença de que o estudo da motivação contribui significativamente para o entendimento da capacidade empreendedora. Segundo a sua teoria da motivação psicológica, as pessoas são motivadas por três necessidades: 1) necessidade de realização, 2) necessidade de poder e 3) necessidade de afiliação. Para Rego (1995:pág.5) a teoria de McClelland poderia ser classificada como uma teoria de conteúdo, na medida em que se preocupa ‖com o que motiva o comportamento, isto é, enfatizando a compreensão dos factores internos dos indivíduos que contribuem para que estes se comportem de determinada maneira em oposição às teorias do processo (que procuram responder à questão de como as pessoas são motivadas)‖.
McClelland verificou que a necessidade de realização era um ingrediente essencial ao sucesso do empreendedor. Segundo Landström (2005), McClelland concluiu que os países com um melhor desenvolvimento são caracterizados por se dar menos atenção a normas institucionais e uma maior ênfase aos valores das pessoas. Os empreendedores são pessoas com grande desejo de autonomia, com um optimismo elevado, com capacidade de persuasão e com grande necessidade de realização, sendo que esta
necessidade faz com que o indivíduo execute de melhor forma as suas tarefas, atingindo eficazmente os seus objectivos. Neste contexto, os empreendedores tornam-se numa força importante no desenvolvimento económico de um país.
Com a globalização, a figura do empreendedor entra novamente na moda e urge uma nova análise sobre o empreendedorismo, numa óptica de gestão. Para Drucker (1909 - 2005), o empreendedorismo é uma disciplina que pode ser aprendida, frisando que o empreendedorismo não é uma arte nem uma ciência, mas sim uma prática. Segundo Drucker, o surgimento da economia empreendedora é tanto um evento cultural e psicológico, quanto económico ou tecnológico. O empreendedorismo é um comportamento e não um traço de uma personalidade especial, não existindo, desta forma nenhum pré-requisito para alguém se tornar num empreendedor, pois são factores como a vontade, a persistência, a responsabilidade, a dedicação e a visão de futuro que determinam o sucesso do candidato a empreendedor.
De acordo com Drucker, a tecnologia que proporciona o surgimento de uma economia empreendedora crescente, mudando atitudes e valores é a ―administração‖. O que motivou o aparecimento da economia empreendedora nos EUA terão sido as novas aplicações de administração, que se voltou a novos empreendimentos existentes, a empresas pequenas e não somente a grandes e, principalmente à inovação sistemática, através da busca e aproveitamento de novas oportunidades para satisfazer as necessidades humanas. Sobre a inovação, Drucker, (1985:pág.25) refere que ―é o instrumento específico dos empreendedores, o meio pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um negócio diferente ou um serviço diferente‖.
Mais recentemente, Audretsch (2002) refere que o empreendedorismo é visto como um processo de mudança e, concordando com a proposta para a definição de empreendedorismo da OCDE (1998), refere que os empreendedores são os agentes de mudança e crescimento numa economia de mercado, e que podem agir para acelerar a geração, a disseminação e a aplicação de ideias inovadoras. Os empreendedores não só procuram e identificam potenciais oportunidades económicas de lucro, mas desejam também arriscar, para ver se os seus palpites estão correctos.
Para Audretsch (2002), o empreendedorismo é um conceito multidimensional, que pode ser encarado numa perspectiva económica ou de gestão e comporta alguma complexidade, pois pode ser entendido de diferentes formas, consoante a unidade de análise. Por um lado, o empreendedorismo envolve as decisões e acções de indivíduos que poderão agir sozinhos ou dentro do contexto de um grupo. Por outro, envolve a análise ao nível da indústria e do espaço onde se insere, como cidades, regiões ou
países. Desta forma, há a considerar a problemática do contexto, pois o que pode ser percepcionado como mudança para um indivíduo ou empresa pode não o ser para a indústria, da mesma forma que o que pode representar mudança para a indústria local, pode não o ser para a indústria a um nível global. Assim, o valor do empreendedorismo é contextualizado pelo local onde se apresenta.
Atendendo a esta perspectiva histórica do termo e significado de empreendedor, verifica-se que a descoberta e a exploração de novas oportunidades de negócio foi desde sempre importante. Pode-se afirmar que o empreendedorismo é uma das actividades mais antigas na vida do Homem, sendo objecto de interesse, em conjunto com o estudo de pequenas empresas, desde o século XVIII por autores como Richard Cantillon e Jean- Baptiste Say e mais tarde pelos economistas austríacos Carl Menger e Joseph Schumpeter. O interesse no assunto intensificou-se durante o século XX, quando deixou de ser visto apenas na óptica economicista e passou a ser considerado numa perspectiva comportamental (behaviorista) e de gestão. A partir da década de 70/80 do século XX, o empreendedorismo tornou-se motor do desenvolvimento económico e social por todo o mundo, em parte devido às mudanças que ocorreram na sociedade (como a crise petrolífera, o progresso tecnológico, a crescente globalização, entre outros), sendo considerado uma importante prática para o desenvolvimento de alguns países, uma vez que os empregos tradicionais estão mais escassos e os indivíduos sentem a necessidade de encontrar novas carreiras/oportunidades nesta era competitiva. Desta forma, o papel que o empreendedorismo desempenhava nas economias tradicionais transformou- se/adaptou-se drasticamente à nova economia.
Ainda sobre as diversas correntes e formas como o conceito de empreendedorismo é percepcionado por diversos autores/campos de estudo, Fillion (1997) escreve:
―The economists tend to agree that entrepreneurs are associated
with innovation, and are seen as the driving forces of development. The behaviourists ascribe the characteristics of creativity, persistence, locus of control and leadership to entrepreneurs. Engineers and operations management specialists see entrepreneurs as good distributors and coordinators of resources. Finance specialists define entrepreneurs as people able to measure risk. For management specialists, entrepreneurs are resourceful and good organizers, develop guidelines or visions around which they organize their activities, and excel at organizing and using resources.
Marketing specialists define entrepreneurs as people who identify opportunities, differentiate themselves and adopt customer-oriented thinking. For students of venture creation, the best elements for predicting the future success of an entrepreneur are the value, diversity and depth of experience and the skills acquired by the would-be entrepreneur in the sector in which he or she intends to operate”.