SECÇÃO I - Os contratos como via jurídica entre Estado e companhias petrolíferas
26. Empreendimento comum e suas especificidades contratuais
98
do capital, de modo a atrair pra si o máximo de vantagens a custo da outra parte.
Assim, a fim de reduzir esses riscos, muitas empresas desenvolvem metodologias de análise de execução do projeto de forma permanente e adotam consultorias profissionais independentes para manter a particularidade do produto, a satisfação do cliente, tudo de acordo com a natureza da joint venture e com a finalidade de proteger seus investimentos.
99
empreendimento comum, principalmente aqueles que têm como objeto a parceria para comercialização de produtos ou serviços, podem ocorrer com a finalidade de eliminar os concorrentes ou ter um desses efeitos independentes da intenção das partes.
No entendimento de Luís Pinheiro152, essa modalidade de contrato não passa sem objeções. A palavra “cooperação” é utilizada no Direito Internacional Público e no Direito Interno Privado. Por vezes, essas áreas afirmam que a obrigação da contraproposta do direito real é uma relação de cooperação, isso porque o credor só obtém a prestação mediante o cumprimento pelo devedor. Assim, poderia se dizer que, no contrato bilateral, a realização do fim imediato do contrato resulta também da colaboração de cada uma das partes. É importante entender que a palavra “cooperação”
é aqui utilizada no sentido de realização da prestação creditória (cumprimento) e, por conseguinte, com um significado completamente diferente da que assume na expressão
“contrato de cooperação”.
Sustenta Luiz Pinheiro que:
“não é de se estranhar que os estudos de Economia e de Gestão de Empresas, pelo que toca o comercio internacional, comecem a voltar suas atenções para a cooperação interempresarial. Mas perante a multiplicidade de fins e formas de cooperação interempresarial, estes estudos estão longe de oferecer um conceito preciso de cooperação interempresarial.”153
Com efeito aos contratos envolvendo a indústria do petróleo, por exemplo, estes são de alta complexidade, pois o mercado está diretamente ligado aos preços do combustível e do gás no mundo, juntamente com seus custos relacionados e sua eficiência. Dessa forma, os desafios são muito maiores, tendo em conta que os
152 Pinheiro, Luís de Lima. Contratos de Empreendimento Comum (Joint Venture) em Direito Internacional privado. Coleção Teses. Ed. Almedina. Coimbra, 2003, p. 47 e ss.
153 Pinheiro, Luís de Lima. Contratos de Empreendimento Comum (Joint Venture) em Direito Internacional privado. Coleção Teses. Ed. Almedina. Coimbra, 2003, p. 57.
100
investimentos são de grande magnitude.
Devido a esse quadro, as empresas que atuam nesse mercado têm o compromisso de gerenciar, com o mais alto grau de eficiência, esses fatores a fim de alcançar sucesso em um mundo em movimento constante.
Se pensarmos diretamente na indústria de petróleo e gás, por exemplo, são comuns os contratos de cooperação. Além disso, há uma pressão para trabalhar com grande eficiência. Contudo, os contratos-modelo tendem a manter um padrão, com a função de conservar seus termos e padronização e contribuir para a eficiência.
Quanto à estrutura geral dos contratos, Jorge Salgado Gomes, apresenta uma as principais cláusulas destes contratos na indústria petrolífera, que são duração, programa de trabalho, exportação, impostos e royalties, rendas, recuperação de custo e investimentos, lucro, bônus, devolução da área concessionada, custo de abandono, dentre outras obrigações154.
Com relação às formas contratuais, segundo o entendimento de Francisco Briosa, “estão a emergir novas formas de contrato cujas especificidades justificam uma análise e categorização autónoma, apesar de, no que tem emergido, se tender a partir da estrutura contratual das joint ventures e de outras tipologias complexas como o PSC.
Isso se justifica, tendo em conta os interesses por detrás de muitos desses contratos nem sempre estes são tornados públicos, existindo um “véu” sobre eles”155.
Ainda quando pensamos nesses contratos na área de petróleo e gás, é necessário mencionar os impactos políticos-sociais que estes causam nos países, principalmente nos subdesenvolvidos, onde os projetos serão executados, considerando que eles muitas vezes envolvem instituições financeiras, estados, empresas multinacionais com seus investimentos estrangeiros e, por se tratarem de contratos de
154 Gomes, J. S; Alves. F. B. (2014). O universo da indústria petrolífera: da pesquisa e refinação. (3ª ed.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. p.558,559.
155 Gala, Francisco Briosa e - A tipicidade das formas contratuais atípicas no comércio internacional do petróleo In: O Direito. - Coimbra: Almedina, 1869- . - Ano 141, n.º 4 (2009), p. 999-1026. p.1012 e ss.
101
longa duração, requerem uma série de protocolos, a fim de mitigar futuros riscos políticos e econômicos dos investimentos.
Continuando na indústria petrolífera, podemos pensar em uma tripartição que envolve as transações comerciais denominadas Upstream, Midstream e Downtream, sendo cada uma destas categorias correspondentes a uma fase do processo produtivo de energia a partir do petróleo. Primeiro acontece a prospeção, a descoberta e extração do petróleo bruto (Upstream), depois ocorre o transporte e a conversão do petróleo em estado bruto num produto energético utilizável (Midstream) e, por fim, o refinamento, venda e distribuição ao consumidor de produto energético acabado (Downstream).
Segundo o entendimento de Francisco Briosa, “cada uma dessas categorias de atividades é objeto de um tratamento negocial distinto, uma vez que envolve diferentes necessidades de capital de risco, como o risco geológico, o risco político do país de acolhimento — relacionado com mudança de regime e revoluções seguidas de nacionalizações e mudanças bruscas de fiscalidade — e o risco de meios tecnológicos, entre outros. Dessa forma, cada uma dessas etapas requer uma atenção especial, desde a pesquisa até a colocação do combustível em uma viatura.”156
Outra peculiaridade que precisamos mencionar nos contratos da indústria petrolífera, presente principalmente no Upstream, diz respeito ao “desequilíbrio contratual” desta área, sobretudo em contratos envolvendo países em desenvolvimento.
Esses países, apesar de terem reservas energéticas, não têm capital suficiente para investir em tecnologia e estrutura, com intuito de aproveitar esses recursos, necessitando, então, do capital estrangeiro. Esse mercado requer muitos investimentos e quanto mais investimentos forem necessários, maior será a capacidade de negociação disponível para os investidores. Dessa forma, as necessidades desses países os tornam frágeis em uma situação contratual, pois precisam apresentar propostas ou condições
156 Gala, Francisco Briosa e - A tipicidade das formas contratuais atípicas no comércio internacional do petróleo In: O Direito. - Coimbra: Almedina, 1869- . - A. 141, n.º 4 (2009), p. 999-1026
102
mais atrativas para os investidores.
Francisco Briosa acredita que os lucros provenientes da exploração dos recursos naturais disponíveis nos países em desenvolvimento, não retornam para a população, ou melhor, em nada lhes ajudam:
“o petróleo e as riquezas naturais abundantes em muitos dos países em desenvolvimento, á data ainda não se refletiram numa vida melhor para o cidadão comum desses países. Na realidade, muitos desses países continuam com gravíssimos problemas económico-sociais, sendo muitos deles líderes estatísticos num cartaz que inclui critérios como a pobreza, a corrupção, a mortalidade infantil, a baixa esperança média de vida, a separação econômica entre os muito ricos e muito pobres, entre outros fatores não abonatórios. A título de exemplo, podemos apontar os casos de Angola, do Chad e da Nigéria.”157
Com esse cenário, podemos constatar que, no momento da negociação, eles não terão igualdade de posição, o que enfraquece demasiadamente muitos países em desenvolvimento.
Contudo, não temos o objetivo de investigar profundamente as formas contratuais celebradas no universo do petróleo e gás, pois, por ser um campo que envolve muitas empresas e muitas formas de contratação, entendemos que esses contratos são atípicos158, haja vista a magnitude e a tipicidade do negócio.
157 Gala, Francisco Briosa e - A tipicidade das formas contratuais atípicas no comércio internacional do petróleo In: O Direito. - Coimbra: Almedina, 1869- . - A. 141, n.º 4 (2009), p. 999-1026
158 As primeiras noções de contratos que temos vêm do Direito Romano, contratos nominados e inonimados, e fluem pelo tempo até a liberdade contratual, caracterizada no século XIX, e as definições atuais de contratos típicos e atípicos. Os nominados e inonimados são ainda usados pela doutrina como sinônimo, respectivamente, de contratos típicos e atípicos - uso não tecnicamente perfeito pois os contratos nominados eram os contratos de que a lei no direito romano dispunha e, portanto, mereciam ser apreciados em juízo e os inonimados eram aqueles que, em suas resoluções, eram extrajudiciais, i.
e., por não estarem na lei não eram apreciados pelo pretor. Contrato Típico é aquele que se encontra regulado em texto de lei. Os Contratos Atípicos são aqueles que não possuem forma geral em lei escrita, estando à margem das perspectivas da liberdade contratual dos contratantes, e que assumem variadas formas estruturais e finais. Os Contratos Atípicos podem ser subdivididos em mistos e aqueles em stricto sensu, estes definidos acima. Os Contratos Atípicos Mistos são os que envolvem duas ou mais formas
103