2 O ESTUDO DE IMPACTO DE VIZINHANÇA
2.2 Implementação do Estudo de Impacto de Vizinhança
2.2.3 Empreendimentos e atividades sujeitas ao EIV
Uma vez ter sido o Estudo de Impacto de Vizinhança previsto pelo Estatuto da Cidade e estar presente no Plano Diretor de determinado município, cabe ao poder público instituir em legislação específica quais serão os empreendimentos sujeitos ao estudo e como se dará a tramitação de todo o processo de licenciamento.
Os municípios têm autonomia na escolha de que tipo de empreendimentos e atividades será submetido ao EIV, em virtude das especificidades de cada local. Vanêsca Prestes (2005) sugere que, além das questões mencionadas no artigo 37 do Estatuto da Cidade, a legislação municipal deva considerar para a análise do EIV os seguintes temas: impactos de volumetria de edificações, levantamento de vegetação, impactos socioeconômicos, impactos no patrimônio histórico-cultural e impacto nos recursos hídricos.
Prestes (2005) classifica a poluição sonora como um dos grandes problemas presentes hoje em nossas cidades, em uma junção de diversas fontes poluidoras comuns ao cotidiano do mundo contemporâneo: ruídos de canteiros de obras, dos veículos apressados, de cultos religiosos, de bares, de escolas, de indústrias etc. Os ruídos provenientes das atividades humanas têm papel representativo sobre a qualidade de vida nas grandes cidades. Neste sentido, o EIV pode caracterizar-se como um aliado na garantia de bem-estar à população e de um meio urbano saudável. O instrumento não só avalia os impactos e aponta as medidas a serem tomadas para mitigá-los e compensá-los, como também funciona como ponte entre os interesses da comunidade e dos empreendedores para o bom funcionamento e desenvolvimento de determinada atividade.
A Resolução CONAMA 001/90, instituída em 2 de abril de 1990, dispões sobre os padrões de emissão de ruídos, enquanto a NBR 10.152 estabelece os níveis de ruído para conforto acústico. Desta maneira, os municípios devem tirar proveito destas leis federais e dos instrumentos disponíveis, como o EIV, para legislar sobre o assunto.
Schimitt citada por Prestes (2005) recorda a importância da arquitetura bem planejada, que, através do projeto adequado e da escolha dos materiais, pode controlar a propagação do som e determinar qualidade acústica dos ambientes. Tal
observação relaciona-se à matéria de competência municipal, exclusivamente, relativa à polícia das edificações (PRESTES, 2005, p. 13).
O EIV também pode ser um forte instrumento para controle da poluição visual, que interfere na paisagem urbana com publicidade em forma de cartazes, luminosos e outdoors que ocupam os espaços públicos e os equipamentos coletivos, como os pontos de ônibus.
O direito à paisagem urbana está inserido no ambiente ecologicamente equilibrado no espaço urbano. É fundamental que os municípios atuem nestas questões antes que o grau de poluição visual seja tão intenso que somente a remediação seja possível (PRESTES, 2005, p. 15)
Outro tipo de atividade para a qual se prevê a realização do EIV envolve as operações urbanas consorciadas, isto é, intervenções pontuais coordenadas pelo Poder Público e que englobam a participação da iniciativa privada, dos moradores e dos usuários do local. As operações urbanas consorciadas objetivam transformações urbanísticas estruturais e melhorias socioambientais.
Saboya (2008) aponta que, em uma operação urbana consorciada, o Poder Público delimita uma área para onde será elaborado um plano de ocupação, em que serão previstos a implantação de infraestrutura, a distribuição de usos, as densidades permitidas, a acessibilidade, entre outros aspectos. O autor compara a operação urbana a um plano urbanístico em escala quase local, de forma que se possam considerar elementos de difícil tratamento em planos em escala mais global, ou seja, a altimetria das edificações e a relação entre espaço público e privado.
Segundo Saboya (2008), as operações urbanas apresentam grande potencial de qualificação espacial para as cidades, em virtude deste tratamento mais detalhado, que não pode ser obtido através do Plano Diretor e do zoneamento.
As operações urbanas consorciadas devem apresentar o Estudo de Impacto de Vizinhança de acordo com o artigo 33, Inciso V, do Estatuto da Cidade.
Art. 33. Da lei específica que aprovar a operação urbana consorciada constará o plano de operação urbana consorciada, contendo, no mínimo:
II - programa básico de ocupação da área;
III - programa de atendimento econômico e social para a população diretamente afetada pela operação;
IV - finalidades da operação;
V - estudo prévio de impacto de vizinhança; [grifo nosso]
VI - contrapartida a ser exigida dos proprietários, usuários permanentes e investidores privados em função da utilização dos benefícios previstos nos incisos I e II do § 2o do art. 32 desta Lei;
VII - forma de controle da operação, obrigatoriamente compartilhado com representação da sociedade civil.
§ 1o Os recursos obtidos pelo Poder Público municipal na forma do inciso VI deste artigo serão aplicados exclusivamente na própria operação urbana consorciada.
§ 2o A partir da aprovação da lei específica de que trata o caput, são nulas as licenças e autorizações a cargo do Poder Público municipal expedidas em desacordo com o plano de operação urbana consorciada (BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Capítulo II – Dos Instrumentos de Política Urbana).
Em Belo Horizonte, no presente momento, há um exemplo de operação urbana consorciada em processo de EIV. Em 15 de dezembro de 2011, o Conselho Municipal de Política Urbana (COMPUR) tornou público, na 168ª Reunião Ordinária, o início do processo de Estudo de Impacto de Vizinhança para a Operação Urbana Consorciada Estação Barreiro. Nessa ocasião, foi apresentada a Caracterização de Empreendimento, em conformidade com a Lei nº 7.165/96, a Lei 7.166/96 e o Decreto 14.594/11.
Além da orientação do artigo 33 do Estatuto da Cidade, consta no artigo 74-Q da Lei nº 7.165/96 de Belo Horizonte que o EIV deve conter a análise de impactos nas condições funcionais, paisagísticas e urbanísticas e as medidas destinadas a minimizar as consequências indesejáveis e a potencializar os seus efeitos positivos, e deverá submeter-se à análise e deliberação por parte do COMPUR.
O EIV em questão faz parte da etapa de estudos de viabilidade econômica e ambiental da Operação Consorciada Estação Barreiro, que compreende 600 metros no entorno da Estação de Transporte Coletivo – Estação Barreiro. Segundo seu memorial descritivo:
A Operação Urbana, seguindo as finalidades determinadas pela Lei nº 7165/1996, Art. 69-M, possibilita a reestruturação urbana da Zona Central do Barreiro, promove a ampliação e reestruturação dos espaços públicos e
áreas verdes, do sistema viário local, do transporte coletivo e do transporte não motorizado. Através da participação dos proprietários, moradores, usuários permanentes e investidores privados, coordenados pelo poder público municipal, a Operação viabilizará a otimização de áreas envolvidas nas intervenções urbanísticas através do adensamento de áreas subutilizadas (DIÁRIO OFICIAL DO MUNICÍPIO. 7 de dezembro de 2011).
Em conclusão, a lei municipal deve identificar e estabelecer quais atividades e empreendimentos deverão apresentar o EIV para a concessão da licença de construção, funcionamento ou ampliação. Para os empreendimentos que estiverem sujeitos ao EIA, por sua vez, não há necessidade de ser identificados para o EIV, uma vez que as questões analisadas pelo estudo já são contempladas pelo Estudo de Impacto Ambiental.