missa na igreja Matriz, as 19 horas.‖
Diagrama 1- Empreendimentos pastorais de frei Tiago M.
Coccolini (1945)
Organização e a constituição de novos locais para o
ensino da doutrina cristã
Campanhas no campo da saúde, como por
exemplo, a construção do novo hospital Bom Pastor
O incentivo aos moços, às moças e aos casais, para
ingressarem-se ao apostolado da oração, “Congregação dos
Marianos” e às “Filhas de Maria”. Campanhas para participações nas missões populares Solicitação da Congregação de Santa Catarina Ensino da catequese nas escolas. Empreendimentos pastorais de Frei Tiago M. Coccolini
Fonte: Elaborado por Lúcio Vânio Moraes (2012)192
É oportuno lembrar que esse fragmento remete à abordagem de Peter Ludwig Berger e Thomas Luckmann, que analisaram o poder das instituições religiosas em controlar um conjunto de normas e condutas na sociedade, pois
pelo simples fato de existirem, controlam a conduta humana, estabelecendo padrões previamente definidos de conduta, que a canalizam em uma direção por oposição às muitas outras direções que seriam teoricamente possíveis.193
192 Diagrama elaborado com dados extraídos do Livro Tombo da Paróquia Nossa
Senhora Mãe dos Homens de Araranguá (SC). Tomo I, 1945, p. 15-23.
193
BERGER, Peter Ludwig.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da
É visível, nos registros paroquiais e nos depoimentos orais, que frei Tiago M. Coccolini foi um pároco que travou muitas batalhas no campo religioso com outras igrejas. Ele encetou diversos planos pastorais, objetivando rejeitar e invalidar os trabalhos de outras empresas de salvação em Araranguá. Dito de outro modo, nos seus discursos representados no livro Tombo e nas pregações durante as missas, é perceptível o combate de forma nítida aos trabalhos de evangelização do Espiritismo, da maçonaria e das demais instituições protestantes, como a Igreja Luterana, Presbiteriana e, com o passar dos anos, também as igrejas pentecostais. Em seus relatórios anuais ele intitulava os adeptos que não pertenciam à Igreja Católica de ―acatólicos‖, ―hereges‖, ―ateus‖ e ―sem religião‖.194
No mestrado analisei um texto enviado para a Cúria Metropolitana de Florianópolis por frei Tiago M. Coccolini, que trata sobre o relatório das santas missões em 1947 e percebi indícios de como a Igreja Católica no período se representava na sociedade e identificava o ―outro‖ como seu principal inimigo.195
A renovação das Santas Missões fez um grande bem ao povo da sede da paróquia em modo particular. O Sr. Prefeito municipal Afonso Guizzo, congregado mariano fervoroso, contribuiu muito com sua presença e autoridade para os bons resultados das Santas Missões. [...] lastimamos a grande e ridícula oposição por parte de inimigos da Religião (como o diretor do Grupo Escolar e Sr. delegado de polícia) que em vão lutaram para impedirem a freguesia das Santas Missões às crianças e aos povos do interior [...].
A palavra franca, sincera e popular dos zelosos Padres missionários, abençoada e corroborada pela graça do Todo Poderoso, triunfou e paralisou os esforços dos adeptos
Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 80.
194 Livro Tombo da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens de Araranguá (SC).
Tomo I, 1945, p. 15-23.
195
maçônicos.196
Sobre esse ocorrido, os depoimentos do senhor H. L. P,197
hoje com 77 anos, são válidos para conhecer algumas práticas pedagógicas da maçonaria e o melhor entendimento das disputas no campo religioso em Araranguá. Ele explicou que seu pai fez parte dos primeiros agrupamentos secretos em moldes maçônicos em Araranguá198 e se lembrou de alguns conflitos existentes entre frei Tiago e alguns adeptos da maçonaria durante a realização das Santas Missões em 1947. Segundo ele, naquele período a Igreja Católica contestava fortemente quem fosse maçon, sendo então necessário esconder tal opção filosófica aos católicos para evitar críticas e, principalmente, o abandono dos familiares. ―Maçon era considerado um herege, um ateu, principal inimigo da Igreja Católica. Quando era criança
eu nunca entendia o motivo dessa reação‖.199
Quando ocorreram as missões populares em Araranguá, eu lembro, estava com uns 11, 12 anos de idade. Meu pai falava muito que não era para eu dizer aos meus colegas de escola que éramos maçons, porque o padre não gostava da maçonaria. Como eu era ainda criança, não entendia os motivos de esconder mais esse segredo aos outros. Fui obrigado a esconder por um bom tempo até que um dia eu contei à professora [...].
Então, durante as missões populares, os freis capuchinhos de Caxias do Sul é que rezaram as missas nas capelas e na igreja matriz e começaram a atacar com voracidade os ensinamentos da verdadeira doutrina maçônica e a chamar os membros da Loja de
196
Livro Tombo da Paróquia de Araranguá, Tomo 1, p. 127v.
197
Por solicitação do entrevistado, colocarei apenas as suas iniciais. A entrevista não foi gravada. O entrevistado pediu ainda que o seu depoimento passasse por correção ortográfica, retirando ainda vícios de linguagens.
198 A Loja maçônica ―Perseverança e Fidelidade‖ com rito escocês antigo e aceito foi
fundada em Araranguá no dia 10/2/1957. Atualmente está situado na Av. Engenheiro Mesquita, s/n, no Jardim das Avenidas. Maiores informações: http://www.gob- sc.org.br/lojas.php
199
H. L. P, 77 anos. Entrevista não gravada concedida a Lúcio Vânio Moraes em 3/10/2011.
hereges, inimigos da Igreja, de ateus e outras difamações. Isso porque o frei Tiago disse aos capuchinhos que esse delegado e o diretor do grupo,200 que eram amigos de meu pai e que os conhecia, não haviam permitido que os alunos das escolas participassem das missas durante o horário das aulas.
Isso porque todas as vezes que tinha as missões populares, havia o envolvimento dos diretores e professores das escolas e os alunos participavam. Aí, naquele ano, então, o diretor de uma escola de renome em Araranguá não aceitou isso; tirar alunos de uma sala de aula que estão aprendendo somente para participar da missa. O padre Tiago ficou sabendo disso e foi até ao grupo. Chegando lá, o diretor firmou o pé que não iria liberar os mestres e nem os alunos em horário de aula para ir às missas. O padre, então, ameaçou o diretor de maçônico, que iria excomungá-lo, chamando-o de inimigo da Igreja, de Jesus e de Maria, dizendo que iria ao delegado para prendê-lo caso o diretor não aceitasse que os alunos saíssem da escola.
Ao falar com o delegado, o frei Tiago teve uma surpresa (risos). O delegado também era um dos membros que estava frequentando a Loja que fora improvisada em
200 Quando fui fazer entrevista com o senhor H. L. P, fiz leituras do texto do Livro
Tombo que apresentava o episódio das missões populares de 1947 (Conforme: Livro Tombo da Paróquia de Araranguá, Tomo 1, p. 127v). A leitura desse documento despertou no entrevistado muitas outras memórias que estavam soterradas no esquecimento. Essa foi uma técnica em que realizei ao desenvolver as entrevistas com as pessoas. Levava fotografias, recortes de jornais e outros textos para que os narradores fossem estimulados a narrar histórias do campo religioso em Araranguá, assim como Marcel Proust ao comer o doce Madalena e ao tomar o chá foi estimulado a lembrar a cidade onde passou parte de sua infância, unicamente tendo a taça de chá e os doces como evocadores da memória. Dessa forma, os narradores com as imagens e textos oportunizaram uma viagem significativa por todos os cantos de Araranguá, trabalhando com questões religiosas, políticas, econômicas, sociais e culturais (PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Tradução de Mário Quintana. 9. ed. Porto Alegre: Editora Globo, 2000. p. 44-47).
Araranguá. A partir daí o padre foi falar com o prefeito, o Afonso Ghizzo. Também não adiantou, até porque o Afonso Ghizzo também estava misturado com a maçonaria. Frei Tiago viu que não tinha mais o que fazer, então aceitou que aqueles e outros alunos de alguns grupos escolares não participassem das missas.
O padre ficou mais irritado ainda porque o delegado e o diretor conseguiram ir a outras escolas para que os diretores não aceitassem a saída de alunos para as missas.201
Convém salientar que o embate ocorrido no período das santas missões populares entre frei Tiago, o diretor do grupo escolar e o delegado, contribuiu para o fortalecimento do grupo de maçons distribuídos em todo o município de Araranguá, pois, compreendi que os dois cidadãos não economizaram forças para divulgar os pensamentos da maçonaria nas escolas, comércios e demais espaços da sociedade.
Outros diretores, comerciantes e até professores que eram catequistas da Doutrina Cristã, ao saberem que existia delegado, industriais, políticos e diretor de escola, quiseram participar das sessões na Loja maçônica para conhecer. Alguns desses permaneceram e outros saíram porque o padre ameaçava a ponto de fazer a pessoa parar de frequentar a Loja.
Nas missas, meu Deus, o padre Tiago desenhava os maçons como verdadeiros monstros. Eu e mamãe íamos às missas e sentíamos mal pelas palavras proferidas pelo frei. Ele dizia que não era para aceitar e nem conversar com os maçons em nossas casas, porque eles eram de uma seita contrária à Igreja, que ensinavam a ser ateus, contra os padres, papa e toda a Igreja. Nós
201
H. L. P, 77 anos. Entrevista não gravada concedida a Lúcio Vânio Moraes em 3/10/2011.
chegávamos em casa e contávamos ao pai! Ele, então, passou a saber o que o padre dizia nas missas e passava ao grupo dele. Aí ele sempre pedia para irmos à missa. Só que, de tanto o padre falar dos maçons, eu acabei ficando sem amigo e a minha mãe sem ninguém para conversar. Na missa, as amigas dela que sabiam que nós éramos maçônicos nem nos cumprimentava.202
É perceptível no fragmento citado que a maçonaria passou a ter alguns privilégios e referência no mercado religioso em virtude da existência de adeptos com forte representatividade em Araranguá. Em outras palavras, o capital simbólico, do qual o delegado e o diretor eram detentores, possibilitava a comercialização dos bens de salvação às demais pessoas na sociedade, pois, embora os porta-vozes da Igreja Católica combatessem o trânsito religioso, ―sempre houve católicos que se tornavam maçônicos por influências de outros maçons com reconhecimento profissional e econômico‖.203
Analisando ainda os depoimentos do senhor H. L. P, observei que a primeira forma de realização das sessões maçônicas ocorria em agrupamentos secretos, ou seja, em moldes mais ou menos maçônicos, como em clubes e, raras vezes, em garagens de residências e em galpões. Até porque o grupo nesse período era pequeno e distribuído em Araranguá, não tendo um local fixo para as sessões. Como consta nos depoimentos, tais formas de organização vieram a contribuir com a disseminação dos ensinamentos maçônicos no referido município e também municípios circunvizinhos.
As sessões ocorriam em Sombrio, em Turvo, Meleiro, Praia Grande e aqui em Araranguá. Aí então tinha os dias de encontro nesses distritos que se faziam os estudos iniciais dessa filosofia. Isso fez a maçonaria crescer porque as pessoas passaram a conhecer o que era ser maçon bem diferente do que o padre dizia nos sermões das missas.204
202 Idem. 203 Idem. 204 Idem.
Diagrama 2- Atuação da maçonaria em Araranguá (1948)