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Em abril de 2014, a operação de cooperação e coordenação com agências, com emprego das Forças Armadas no Complexo da Maré foi autorizada pela Presidente da República. A medida buscou atender à solicitação encaminhada pelo Governador do Estado do Rio de Janeiro, em razão da insuficiência de recursos da Polícia Militar. A sequência das ações ocorreu nos termos do Aviso Presidencial nº 106, de 31 de março de 2014, do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e da edição da Diretriz Ministerial nº 9/2014, firmada pelo Ministro da Defesa na mesma data.

Coube ao Exército Brasileiro assumir o comando das operações de apoio ao Estado do Rio de Janeiro na região denominada Complexo da Maré (Fig. 28). Uma região que abrange 15 comunidades, com cerca de 140 mil habitantes, em uma área de

aproxi-madamente 10 km2; portanto, uma área densamente povoada e edificada dentro da

cidade do Rio de Janeiro. Para tal, foram empregadas tropas do Exército e da Marinha do Brasil, enquadradas por uma Força de Pacificação (F Pac) nível Brigada, com um efetivo aproximado de 3500 militares. A missão, cuja duração seria de apenas quatro meses, acabou prolongando-se por 14 meses.

Figura 28 - Complexo de favelas da Maré Fonte: Tecnologia e Defesa

A Área de Pacificação (A Pac) abrangia uma região de entroncamento da cidade,

que liga a região central ao aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim (Aeroporto

Internacional do Galeão), bem como a bairros da Zona Oeste, Baixada Fluminense e da Ilha do Governador, dentre outros. A localização do Complexo da Maré interfere no acesso às principais vias urbanas da cidade: Avenida Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha.

A missão recebida pelo Comando da F Pac foi a de contribuir com os esforços do Comando Militar do Leste (CML) na pacificação do Complexo da Maré, no Rio de

Janeiro, realizando Ações de Garantia da Lei e da Ordem (Fig. 29)e Ações

Comple-mentares, para impedir a ação de organizações criminosas naquela Comunidade.

Figura 29 – Tropa da F Pac realizando patrulhamento Mec na Maré Fonte: Tecnologia e Defesa

A ocupação da Maré foi planejada no contexto de um ambiente operacional volátil, incerto, complexo e incerto. A missão da tropa consistiu basicamente em realizar o patrulhamento ostensivo no interior da Área de Pacificação, estabelecendo Postos de Bloqueio e Controle de Vias Urbanas (PBCVU) nos principais acessos à comunidade, realizar a abordagem e revista de pessoas e veículos e realizar a prisão em flagrante dos crimes em andamento. A intenção do comandante era clara: restabelecer e man-ter um ambiente seguro e estável na região, permitindo assim a atuação do Poder Público, em especial dos demais OSP estaduais e municipais.

Por se desenvolver em terreno humanizado (Fig. 30) e com muitas edificações, teve destaque durante a sua realização o estudo dedicado às considerações civis, às for-ças adversas e ao terreno, durante o planejamento e a condução das operações. As

construções e a população conferem às operações de combate em área edificada algumas características principais como a canalização do movimento, a dificuldade de prover apoio mútuo, as ações táticas descentralizadas e executadas por pequenas frações, o predomínio do combate aproximado, a grande dificuldade de localizar e identificar o “inimigo”, a constante preocupação com os possíveis efeitos colaterais, uma menor velocidade nas operações, observação e campos de tiro reduzido, uma maior necessidade de segurança em todas as direções, a fundamental importância do apoio da população e a dificuldade de comando e controle.

Figura 30 – Tropa Bld em ambiente humanizado Fonte: O autor

Para cumprir sua missão, a Força de Pacificação foi organizada, inicialmente, a 3 Batalhões de Infantaria Motorizados (um deles contando com 1 Pel Inf Mec com Vtr GUARANI) e 1 Esquadrão de Cavalaria Mecanizado (com Vtr URUTÚ II), para realizar o emprego de suas peças de manobra, podendo inclusive compor Forças-Tarefas (FT) com elementos Mecanizados. Sua forma de emprego consistia em uma rotina de re-alização de patrulhas (Fig. 31), nível Grupo de Combate em toda a área de pacificação

(A Pac), e ocupação de “Check points” nos locais de entrada e saída das

comunida-des.

Com o aumento das ações dos APOP contra a tropa, A F Pac solicitou o reforço de veículos blindados para as ações na MARÉ. Foram então enviadas quatro VBTP M 113 BR do 20º BIB (Curitiba-PR) com suas guarnições (Cmt e Mot) para atuarem em proveito de um dos Btl da F Pac.

Figura 31 – Pel Inf Mec em patrulha na Maré Fonte: Tecnologia e Defesa

Essas ações criminosas atingiram seu ápice em novembro de 2014 com o atentado

que vitimou fatalmente o Cb Michel Mikamido 28º BIL, fato que motivou a decisão do

Exército de reforçar a F Pac com uma tropa blindada nível subunidade. Foi então or-ganizada a Força Tarefa CAMPOS GERAIS, composta por uma subunidade de fuzi-leiros blindada a quatro pelotões de fuzifuzi-leiros blindados com 180 militares, oriundos do 13º BIB (Ponta Grossa-PR) e do 20º BIB (Curitiba-PR).

A FT CAMPOS GERAIS foi inicialmente subordinada a um Btl Inf Mtz, atuando ex-clusivamente em prol daquela unidade, apenas em sua Zona de Ação. Contudo, com o decorrer da missão, ficou clara a necessidade do Cmt da F Pac de ter na “sua mão” o controle operacional dessa importante peça de manobra valor SU. Outro fator que foi alterado foi a questão administrativa e logística.

Por ser uma unidade motorizada o Btl não conseguia realizar a logística de manu-tenção Cl III e IX das VBTP M 113 BR, o que dificultou em muito o andamento das atividades. Além disso, o fato de serem oriundos de brigadas diferentes, bem como terem suas cadeias logísticas baseadas em Regiões Militares diferentes (3ª e 5ª RM) também tornou a situação de REFORÇO impraticável. A decisão do Cmt F Pac foi então de enxergar a Cia Fuz Bld com mais uma unidade (elemento de manobra da F Pac), ligada diretamente ao Cmdo da F Pac e mantendo seus elos administrativos e logísticos com sua OM sede e RM de origem, o que facilitou o seu emprego.

Após esses ajustes a Cia Fuz Bld manteve-se operando em AÇÃO DE CONJUNTO à F Pac, com prioridade para o Btl com o qual iniciou a missão, tendo porém realizado diversas operações em áreas de responsabilidade de outros Btl da F Pac, tudo de acordo com o previsto no manual de Op GLO.

Essa participação da tropa oriunda da 5ª Bda C Bld na Op SÃO FRANCISCO pode ser considerada como a primeira vez em que uma tropa blindada constituída e com seus meios blindados foi empregada em missão real no território nacional (lembrando que tropas blindadas foram empregadas sem seus meios blindados e meios blindados já foram empregados em apoio a outras tropas por diversas oportunidades anterior-mente)

A Instrução Provisória IP 85-1 OPERAÇÕES DE GARANTIA DA LEI E DA ORDEM, em seu capítulo 8, define que:

“Dentro de um quadro de GLO, os meios blindados serão normalmente empregados fora de suas características opera-cionais, tendo seus principais empregos como elemento de demonstração de força nas ações de dissuasão, plataformas para difusão de informações à população na campanha psi-cológica, integrando os postos de bloqueio e controle de vias urbanas (PBCVU) (Fig. 32) e checkpoints e fornecendo pro-teção blindada para a tropa nas ações de investimento”.

Figura 32 - Tropa Bld integrando PBCVU Fonte: O autor

Essa forma de emprego de tropas blindadas ou de outras tropas apoiadas por meios blindados, quando ocorrer em ambiente urbanizado, restrito às manobras am-plas e rápidas, deve ter sua utilização muito bem avaliada pelo comandante, pois es-tará sendo empregada fora de suas características operacionais tradicionais (Fig. 33), acostumada a manobrar com maior liberdade pelos terrenos.

Figura 33 - Diferença de emprego de blindados em meio rural x urbano (área edificada) Fonte: O autor

Para o melhor emprego de elementos blindados observa-se ainda a importante regra a ser utilizada em operações de GLO, que é a de mostrar a sua presença, através do movimento a pé e do patrulhamento, diurno e noturno (Fig. 34), o que foi amplamente praticado na F Pac MARÉ.

Figura 34 – Tropa Bld em ação de patrulhamento noturno na Maré Fonte: O autor

Essas ações permitiram estabelecer elos com a população local, que passou a con-siderá-lo como verdadeira pessoa e não como alienígena que desce de uma caixa blindada. “Passear” num comboio blindado, fazendo viagens como um turista no in-ferno, além de lhe afastar do conhecimento da situação local, faz com que você vire alvo fácil e no final das contas se torna muito mais perigoso.

A F Pac, pôde, eventualmente, constituir uma reserva valor SU Blindada ou Meca-nizada que deveria estará todo tempo ECD se deslocar para qualquer lugar do Com-plexo da MARÉ, em reforço imediato dos Elm motorizados em 1º escalão (Fig. 35).

Figura 35 – Reserva Bld ECD sair em ação Fonte: O autor

O problema militar estava relacionado à ação dos agentes perturbadores da ordem pública (APOP) que comprometiam a manutenção da segurança da população local e da cidade Rio de Janeiro. As ações criminosas eram caracterizadas, na maioria das vezes, pelo envolvimento da população das comunidades, constituída por jovens e adultos, em atos de violência apoiando-se no conhecimento de rotas e vias de acesso da área densamente edificada. Tais grupos agiam entre a população, sendo difíceis de serem identificados, pois contavam com a participação de crianças, mulheres e pessoas idosas, que atuavam como olheiros (Fig. 36), mensageiros e condutores de droga.

Figura 36 – Moradores da comunidade observando a tropa Fonte: O autor

As facções adquiriram armas e munições de calibre cada vez maior, e suas ações no ambiente densamente edificado (Fig. 37) foram potencializadas pela utilização de dispositivos de contra mobilidade contra veículos. Empregavam, ainda, artefatos ex-plosivos de fabricação caseira, e construíam barreiras de concreto e muros de con-tenção para obter abrigo contra projéteis.

Figura 37 – Tropa Bld progredindo por rua na Maré (detalhe do terreno com ruas estreitas e construções que dominam as vias)

Fonte: Tecnologia e Defesa

O controle da movimentação dos APOP durante as ações da tropa era dificultado, também, em virtude das próprias características complexas do ambiente densamente edificado. Nas fugas, tais APOP utilizavam as lajes das casas, evadindo-se por ruas paralelas e dificultando a perseguição pelas forças de segurança, que tinham que contornar o conjunto de casas para acessar a rua utilizada na evasão. Tal dificuldade se dava, principalmente, em virtude da proibição legal de adentrar o domicílio dos moradores e do desconhecimento ou da falta de familiaridade, por parte das tropas empregadas com os becos e vielas da comunidade. Normalmente se optava por linhas de ação de menor vulto, isolando pequenas e bem definidas partes do terreno, exe-cutando pequenos cercos dentro da área de operações (Fig. 38).

Figura 38 – Esquema de manobra da SU Fuz Bld em ação de cerco e investimento na Maré

Fonte: O autor

A necessidade da manutenção de operações continuadas e a ausência de uma autorização judicial para uma ampla incursão e vasculhamento de casas, ou mesmo pela dificuldade de caracterizar os casos de flagrante delito foi um problema enfren-tado pelo componente militar na MARÉ. Essa forma de operar copiou o modelo apli-cado no Haiti, sem contudo atingir os mesmos objetivos. A sensação que se tinha era que se estava “enxugando gelo” na missão.

Cabe lembrar também que quanto maior a força aplicada, maior a chance de se causar prejuízos colaterais às estruturas locais e à população, devido ao peso e ao tamanho das Vtr Bld empregados em relação ao pequeno espaço para manobra den-tro das comunidades.

A Força de Pacificação Maré encerrou suas atividades em 30 de junho de 2015 e obteve como resultados positivos mais de 65.000 ações, 583 prisões, 228 apreensões de menores por cometimento de atos infracionais e 1.234 apreensões de drogas, ar-mas, munições, veículos, motos e materiais diversos.

Vale destacar que a atuação na Maré contribuiu para a prisão de integrantes im-portantes na estrutura do crime organizado, causando desestruturação organizacional nas facções e uma perda significativa nos lucros com o comércio de entorpecentes. Como resultados negativos, a operação contabilizou 21 militares feridos em ações operacionais e a perda irreparável do Cabo MIKAMI, assassinado em emboscada de uma facção criminosa.

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