• Nenhum resultado encontrado

3 EMPREGO DOS RELATIVOS CUJO, ONDE, EM QUE

Merece ainda destaque o emprego do relativo cujo, e do onde em relação ao emprego do que precedido da preposição em, no corpus em estudo.

No que se refere ao cujo, pode-se supor já não ser o seu emprego tão frequente, no século XIX, no Brasil e em Portugal, uma vez que não ocorre nos textos consultados de Eça de Queirós e de Machado de Assis. Nos textos analisados de autores do século XX, ocorre, na flexão feminina, em uma carta e em um conto de Clarice Lispector, possivelmente como reflexo do seu nível de escolaridade e, conseqüentemente, do seu conhecimento e domínio das normas gramaticais.

(21) “Na verdade quando eu escrevo carta eu estou com um anzol compridíssimo cuja isca bate no Rio de Janeiro para pescar resposta.” (CL – carta)

(22) “Mais oxigênio e dessa vez uma injeção de soro a cuja picada ela reagiu com um tapinha colérico, de pulseira tilintando.” (CL – conto)

Quanto ao onde, como se pode observar no quadro a seguir, os dados obtidos demonstram ser o seu emprego eminentemente locativo, podendo também referir- se a um espaço nocional, tanto no século XIX, como no século XX, em Portugal e no Brasil, contrastando com o em que empregado, quase sempre, para referir-se a espaços temporais ou nocionais:

Emprego do onde e do em que em textos de autores portugueses e brasileiros do séc. XIX e XX Autores

Onde x Em que

Eça de Queirós Fernando Pessoa Machado de Assis Clarice Lispector

Onde Locativo 02 01 05 05 Nocional 01 02 02 01 Em que Locativo 00 00 00 00 Temporal 06 02 02 02 Nocional 07 04 03 02 Quadro 3

192 São exemplos do onde se referindo a espaço físico:

(23) “[...] sob aquele aspecto de sua casa, onde se encontrava sempre agarrado [...]” (EQ – conto)

(24) “Espero da lealdade jornalística de V. Exª a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam” (FP - carta)

(25) “A mim este lugar para onde fui cadavérico há uns dezessete anos, e donde saí gordo [...]” (MA – carta)

(26) “[...] e, agora, não só dos Estados Unidos, como também do Brasil, para onde haviam apelado”... (CL – carta)

O onde ocorre também se referindo a espaço nocional, como em: (27) “[...] e depôs enfim os seus lábios numa face onde não houvesse [...]” (EQ - conto) (28) “Repontar com isso seria, além de absurdo, indício de um grave desconhecimento da história literária, onde os génios inovadores foram sempre”... (FP - carta)

(29) “Tenho ido sempre à Revista, onde o nosso Paulo [Tavares] continua a receber com

aquela equanimidade e bom humor [...]”5 (MA - carta)

(30) “Subia pela roupa estendida na corda, de onde dava gritos de marinheiro [...]” (CL - conto)

Contrastando com o onde, o que precedido da preposição em é sempre empregado referindo-se a espaços temporais ou nocionais:

(31) “No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita”. (MA - conto)

(32) “[...] esta carta é apenas um primeiro encontro, um d’esses primeiros encontros, encantadoramente embaraçados, em que o muito que se sente é sobretudo expresso pelo pouco que se diz [...] (EQ-carta)

(33) “[...] antes que os outros aprendam a língua em que fala.” (FP- carta) (34) “Já uma crítica benévola e carinhosa em que tomaste parte” (MA - carta) (35) “[...] tiramos um retrato em que sorri para vocês.” (CL - carta)

(36) “A velha caleça de praça em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada [...]”6

(MA -conto)

5 Nesse exemplo, tem-se uma metonímia: emprego de um produto pelo local em que é produzido.

6 Pode-se, entretanto, admitir tratar-se também de um espaço físico, levando em consideração o

fato de ser um espaço em que um ser humano pode ocupar um lugar. Nesse caso ter-se-ia: 1) espaço físico: a) local físico, real ou fictício, que pode ser habitado, a que seres humanos ou não podem se dirigir; b) espaço físico estendido – espaço menor, fechado; algo em que seres humanos ou não podem ocupar um lugar.

193 O que se observa nos dados em relação ao uso dos pronomes cujo, onde e em que é que refletem uma realidade lingüística bem próxima a este estágio sincrônico da língua: séculos XX/XXI. Em relação ao cujo, é baixa a frequência de uso nos textos escritos do século XIX e XX, apenas se destacam as duas ocorrências em textos de Clarice Lispector. Como um adendo, registra-se o quase desaparecimento, na língua falada, desse pronome, tanto em Portugal (cf. ARIM et al. 2004), como no Brasil, conforme atestam inúmeras pesquisas.

Quanto ao onde, o uso referente a espaço físico é o canônico, que apresenta, no corpus, um número maior de ocorrências em relação ao uso nocional (13 ocorrências para 5). No entanto, o uso nocional é bastante significativo, haja vista que esse uso do onde, embora não reconhecido pela tradição gramatical, já está registrado na língua desde o português arcaico (cf. MATTOS e SILVA, 1989) e (SOUZA, 2003), e se confirma nesses textos de reconhecidos escritores brasileiros e portugueses.

Com referência ao em que, os escritores portugueses e brasileiros seguem a norma gramatical, empregando-o com referência à noção e ao tempo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vai-se retomar a motivação para este trabalho, que surgiu da evidência da dupla realidade lingüística brasileira, do final do século XIX e inícios do século XX. De um lado, a norma culta escrita, de caráter lusitanizante, prestigiada pela elite letrada; de outro, uma norma culta falada bem ao modo brasileiro, reflexo de uma gramática que se evidenciava com características sintáticas, diversificadas da de Portugal. Pretendeu-se, portanto, com a escolha de renomados escritores portugueses e brasileiros, dos séculos XIX e XX, numa pequena amostra, verificar que realidade lingüística esses textos refletiam, se havia diferenças entre os escritos de autores portugueses e brasileiros, e também, se os gêneros textuais escolhidos, como corpus, se constituiriam em variáveis em termos de escolhas lingüísticas. Do ponto de vista do fato lingüístico, a escolha recaiu nas estruturas relativas, com base nos estudos empreendidos por Tarallo (1996), e apresentados neste texto.

194 As observações feitas, a partir do corpus, acabaram por ampliar o objetivo inicial da pesquisa. Além de se verificarem as estratégias da relativização apresentadas por Tarallo, foram observados tipos de relativas; outras estruturas com o que; e foi feito um levantamento de alguns dos relativos presentes no corpus. Portanto, vão-se apresentar os resultados obtidos a respeito do uso das estratégias da relativização, e também o que as outras observações podem informar sobre esses textos.

As primeiras conclusões são as obtidas com as estratégias da relativa, já apresentadas, anteriormente: os usos tendem ao padrão, refletem o ideal normativo, em se tratando de estratégias de relativização. Apenas três estruturas cortadoras foram identificadas em contos do escritor português Eça de Queirós.

Em relação aos tipos de relativas, observe-se que o número de restritivas, como já verificado em pesquisas realizadas por lingüistas como Perroni, Kato et al. é superior ao de explicativas/apositivas no corpus. O fato curioso é que do século XIX para o século XX, o número de restritivas nos textos analisados diminuiu, o que se pode explicar, talvez, pela preferência do Modernismo por períodos curtos e frases nominais.

As estruturas transpostas ocorrem com mais frequência em textos do século XX, sendo altamente relevante o número de ocorrências nas cartas de Clarice Lispector. Também os textos de Fernando Pessoa, considerando o conto e as cartas, apresentam uma freqüência de uso dessas orações superior ao dos autores do século XIX. Esses dados levam à hipótese de que o uso dessas estruturas se tornou mais acentuado no século XX, principalmente nos textos brasileiros.

Em referência às estruturas clivadas, conclui-se que o predomínio é do mais canônico: são as pseudo-clivadas, as mais freqüentes, no corpus. Mas as clivadas (tomando de forma geral), que são exemplos de focalização, põem em relevo uma informação nova, nesse sentido se coadunam com as orações restritivas, como visto anteriormente. Comparando-se com essas relativas, as clivadas têm uso reduzido no corpus, talvez por essas representarem estruturas mais simples, mais fluidas, e, por isso mesmo, mais vernaculares, como salienta Perroni. O fato é que, pode-se concluir, ao lado da manutenção da norma gramatical, do ideal

195 normativo, que emana dos textos escritos analisados, há fatos lingüísticos que prenunciam a emergência de uma nova gramática, no século XX.

REFERÊNCIAS

ARIM, Eva; RAMILO, Maria Celeste & FREITAS, Tiago. Estratégias de relativização nos meios de comunicação social portugueses. ILTEC. Disponível em:

<www.iltec.pt/pdf/wpapers/2005-redip-relativas.pdf>.

ASSIS, J. M. Machado de (1979). Contos. Seleção de Deomira Stefani. 7. ed. São Paulo: Ática.

ASSIS, J. M. Machado de (1973). Obra completa III. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora. CORRÊA, Vilma Reche (1998). Oração relativa: o que se fala e o que se aprende no português do

Brasil. Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

QUEIROZ, J. M. Eça de (s/d). No moinho. In: OBRAS de Eça de Queiroz, v. I. Porto: Lello e Irmãos Editores. p. 734-742.

FARACO, Carlos Alberto (2008). Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo: Parábola Editorial.

KATO, Mary et al (1996). As construções - Q no português brasileiro falado: perguntas, clivadas e relativas. In: KOCH, Ingedore Vilaça. (Org.). Gramática do português falado,

volume VI: desenvolvimentos. Campinas: Editora da Unicamp/FAPESP.

KATO, Mary; RIBEIRO, Ilza (2006). A evolução das estruturas clivadas no português: o período V2. In: LOBO et al. (Orgs.). Para a história do português brasileiro: novos dados, novas

análises, v. VI. Salvador: EDUFBA.

LISPECTOR, Clarice (1981). Felicidade clandestina: contos. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (1989). Estruturas trecentistas: elementos para uma

gramática do português arcaico. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (2004). Ensaios para uma sócio-história do português

brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial.

PAGOTTO, Emílio Gozze (1998). Norma e condescendência: ciência e pureza. Línguas e

instrumentos lingüísticos, São Paulo, Pontes Editores, n. 2, jul./dez., p. 49-68.

PERRONI, Maria Cecília (2001). As relativas que são fáceis na aquisição do português brasileiro. D.E.L.T.A., São Paulo, v. XVII, n. 1, p. 59-79.

PESSOA, Fernando (1986). O banqueiro anarquista. 2. ed. Lisboa: Edições Antígona. PINTO, Edith P. (1986). A língua escrita no Brasil. São Paulo: Ática.

196 QUADROS, Antonio. Obra em prosa de Fernando Pessoa. Portugal: Publicações Europa- América Ltda.

QUEIROZ, Maria e Antonio d’ Eça. Eça de Queiroz entre os seus: cartas íntimas. Porto: Livraria Lello & Irmãos; Lisboa: Aillaud e Lellos Ltda.

RIBEIRO, Ilza; FIGUEIREDO, Maria Cristina (no prelo). As sentenças relativas em atas

escritas por africanos no Brasil oitocentista (1832-1842).

SOUZA, Emília Helena Portella Monteiro de (2003). A multifuncionalidade do ONDE na fala

de Salvador. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Bahia, Salvador.

TARALLO, Fernando (1996). Diagnosticando uma gramática brasileira: o português d’aquém e d’além-mar ao final do século XIX. In: ROBERTS, Ian; KATO, Mary. (Orgs.).

Português brasileiro: uma viagem diacrônica. 2. ed. Campinas: Editora da UNICAMP. p. 69-

105.

197 ANÚNCIOS DE JORNAIS CARIOCAS DO SÉCULO XIX: O APAGAMENTO

DE PRONOMES CLÍTICOS DE FORMA REFLEXIVA E OUTROS