1. MUNDO BORORO
1.4 A TERRA INDÍGENA TADARIMANA
1.4.1 A Aldeia Central de Tadarimana
1.4.1.1 Empregos e rendas
Em sua pesquisa (já referenciada), Serpa (1988, p. 84-85) levantou dados que apontaram para a coexistência de dois setores de produção, de partilha e de consumo na economia bororo. O primeiro deles seria a economia de subsistência que engloba a agricultura, a caça, a pesca, a coleta e a criação de alguns animais (aves e porcos). O segundo seria o setor da economia de troca, envolvendo a produção de artesanato, a venda de excedentes (arroz, peixe e criações) e a venda da força de trabalho para as fazendas vizinhas. Por fim, ele faz alusão aos aposentados do FUNRURAL (Fundo de Assistência e Previdência do Trabalhador Rural), como um grupo estratégico na economia da comunidade, por propiciarem às famílias a aquisição de produtos como açúcar, óleo e querosene.
Dessa época para o período em que estive em campo, esses setores continuam operando com algumas alterações. Nas observações que fiz, os produtos do trabalho colocados em circulação por meio da reciprocidade e da redistribuição foram a caça e a pesca em situação de troca ritual durante os funerais. A caça e a pesca, realizadas fora do contexto ritual, bem como a coleta e a produção dos quintais eram para consumo do grupo familiar ou, em algumas vezes, para venda a outras famílias da aldeia que buscassem o consumo.
Em relação à caça, fora dos contextos rituais, ela é praticada por alguns homens, que costumam ir aos pares, geralmente com um cunhado, ou mesmo sozinhos para a caça. Os animais de caça que vi sendo consumidos em Tadarimana foram tamanduá-bandeira, quati, queixada, tucano, macaco. Desses animais, a queixada pertence a Bope e, embora exista muita queixada em Tadarimana, só a vi sendo depelada para consumo em uma casa do povoado Praião.
O produto da pesca, geralmente, é para consumo da própria família de quem pesca. Entre as famílias, apenas uma comercializava peixe, com mais frequência, e realizava a atividade da pesca no rio Vermelho, que corre próximo ao povoado de Pobore. Na época propícia para a pesca, muitos jovens da Aldeia Central de Tadarimana passam a morar temporariamente em Pobore a fim de prover as suas famílias com o pescado ou para obter o produto para venda.
A venda da produção do quintal e da coleta de frutas do cerrado, segundo o cacique, poderia ser feita para instituições parceiras, como a Secretaria Municipal de Agricultura de Rondonópolis, que compraria a coleta de frutas como cajazinho, marmelada, jatobá, ingá e cajuzinho, e as destinaria às próprias escolas indígenas para a merenda escolar.
O período de intensificação da coleta é na estação das chuvas, principalmente no período de férias escolares, quando os pais vão com os filhos para a coleta do pequi (em janeiro/fevereiro) e, em outubro/novembro, quando vão para a coleta do cajuzinho, nos finais de semana. Dois aspectos podem ser considerados nesse tipo de coleta: ela não foi uma atividade preferencialmente feminina12, porque envolveu a família, e o pequi, fruto de Bope, é coletado para venda ou para doação aos barae. Soube de apenas duas famílias na aldeia que consumiam o fruto.
O trabalho assalariado e os benefícios propiciaram outros meios de acesso aos produtos alimentícios para a manutenção das famílias. Com isso, as atividades de caça, de pesca e de coleta não são praticadas como condicionantes para a sua sobrevivência, uma vez
que, no setor da economia de troca, a renda de algumas famílias provém de vínculos empregatícios na educação (catorze pessoas), na saúde (nove pessoas, sendo seis Bororo e três não indígenas), na Funai (duas pessoas, sendo uma delas não indígena), no Saneamento (duas pessoas) e numa empresa privada de Rondonópolis (uma pessoa). A venda de artesanato foi declarada como fonte de renda para duas famílias, e as vendas de pão e de frango para duas outras famílias.
Em entrevista gravada com a coordenadora de artesanato de Tadarimana, ela fala das dificuldades dos Bororo em fazer o artesanato com uma de suas principais matérias-primas, as penas de pássaros. Por causa disso, as mulheres artesãs foram aprender novas técnicas de produção de artesanato com sementes tratadas. Ela disse ainda que, em Rondonópolis, há um lugar onde as artesãs podem expor a sua produção para a venda, mas as mulheres preferem elas mesmas oferecer o seu produto à venda aos estudantes que vão visitar a aldeia.
Entre as famílias que recebem algum benefício, foram encontrados: treze aposentados, trinta e uma pessoas que recebem bolsa família, uma que recebe auxílio doença, três pensionistas, dois bolsistas PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência). Sete famílias disseram não possuir renda fixa. Como na pesquisa de Serpa, os aposentados continuam tendo um importante papel na economia familiar.
Os empregos do saneamento e os da saúde são por indicação do Conselho de Saúde, considerando os que forem habilitados, e os da educação, segundo sua habilitação, são contratados pela Prefeitura de Rondonópolis. Os professores mediante renovação de contrato, e os demais funcionários da escola, na época da pesquisa de campo, foram recontratados mediante exame de seleção com aplicação de prova escrita. A qualificação dos profissionais da educação é constantemente recomendada pela coordenadora da escola, como uma forma de eles buscarem a manutenção de seus empregos.
Além da formação do profissional para a atuação em determinado cargo, conta para a garantia do emprego dessa pessoa o compromisso com o trabalho. Isso implica o afastamento ou uso moderado das bebidas alcoólicas por esses profissionais. Há casos de pessoas que já perderam o vínculo empregatício por causa disso e não mais tiveram a possibilidade de retorno às atividades.