4.2 Práticas discursivas, empreitadas punitivas e fortalecimento do sistema de intervenção
4.2.2 Empreitada punitiva n.º 2: os estrangeiros
No Brasil, no início do século XX, durante a chamada Primeira República, surgiu no ordenamento jurídico nacional, por meio do Decreto n.º 1.641, de 7 de janeiro de 1907 (a chamada Lei Adolfo Gordo), a primeira lei de expulsão de estrangeiros do território nacional. Em seu artigo 2.º, considerava como causa bastante para expulsão a condenação por crime comum, a vagabundagem e a mendicidade, entre outros motivos. Em 1913, com o Decreto n.º 2.741, que revogou dispositivos do Decreto n.º 1.641, a previsão legal de limite de tempo de residência para banir um estrangeiro foi retirada, assim como foi excluída a possibilidade de recurso ao Judiciário contra um banimento. Segundo Bonfá, essa alteração legislativa teve por objetivo ampliar a repressão e o controle sobre os estrangeiros, notadamente para tentar frear a atuação do Supremo Tribunal Federal na concessão de habeas corpus contra o banimento de estrangeiros residentes no país, com base no artigo 72 da Constituição Federal de 1891, que assegurava aos brasileiros e estrangeiros residentes no país a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à segurança individual e à propriedade.489
Em 1926, por meio de emenda constitucional, foi introduzido o § 33 no artigo 72 da Constituição Federal de 24 de fevereiro de 1891, nos seguintes termos: “É permitido ao Poder Executivo expulsar do territorio nacional os suditos estrangeiros perigosos á ordem publica ou nocivos aos interesses da Republica”.490
Quanto aos efeitos práticos dessa reforma constitucional, valendo-se dos dados contidos no Anuário Estatístico do Brasil (1939-1940), Bonfá ressalta:
Assim, segundo os dados do Anuário Estatístico, entre 1907 e 1925 foram expulsos, pela listagem oficial, 578 imigrantes. Já de 1926 a 1930, 551 deixaram o Brasil de forma compulsória. Ou seja, em um
488 Ibid., p. 250 e 372-376. 489
BONFÁ, Rogério Luis Giampietro. “Com lei ou sem lei”: as expulsões de estrangeiros na Primeira República. Cadernos AEL, v. 14, n. 26, 2009, p. 194 e 199. Disponível em: <https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/ael/article/view/2562>.Acesso em: 7 abr. 2018.
490
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm>. Acesso em: 7 abr. 2018.
período de cerca de quatro anos, foi expulsa quase a mesma quantidade de imigrantes em comparação com um período de aproximadamente 18 anos – diferença de apenas 27 pessoas.491
[...]
Essa desproporção entre a quantidade de imigrantes expulsos no período antes e após Reforma Constitucional de 1926 demonstra que a Reforma se transformou em um marco nas expulsões de estrangeiros, pois, entre outros fatores, acarretou um acréscimo visível no número de expulsos, evidenciando maior facilidade do executivo para banir um imigrante, sendo este, a partir desse momento, residente ou não no território brasileiro.492
De outra parte, o Decreto n.º 847, de 11 de outubro de 1890 (Código Penal de 1890), tipificava a vadiagem e dispunha sobre a deportação do estrangeiro vadio, se reincidente (art. 399 e art. 400, parágrafo único, do referido Código). No Estado Novo, as leis sobre expulsão foram mais severas. Assim, o Decreto-Lei n.º 392, de 27 de abril de 1938, permitia a expulsão de estrangeiro que, por qualquer motivo, comprometesse a segurança nacional, a estrutura das instituições ou a tranquilidade pública.
A explicação discursiva para a criminalização dos estrangeiros, consubstanciada nos atos normativos acima referidos e em outros escritos, sustentava a necessidade de retirar do território brasileiro os estrangeiros “vadios”, considerados indesejáveis. Era a forma pela qual a política criminal prestava colaboração à política migratória. Nesse sentido, a atuação seletiva materializava-se na criminalização de estrangeiros que não colaboravam com o progresso da República, na medida em que não dispunham de habitação, de meios próprios de subsistência de acordo com a moral e os bons costumes da época, e que não exerciam profissão ou ofício de forma habitual. O efeito era a criação de uma realidade que os considerava perigos sociais, merecedores de repressão, já que haviam adotado a vadiagem como estilo de vida.493
De acordo com Moraes, o contexto desse período era caracterizado pelo crescimento urbano desordenado, também favorecido pelo crescimento do número de imigrantes, de modo que rotineiramente os estrangeiros, assim como escravos libertos, capoeiras e pobres, eram apontados pelas forças policiais como os principais responsáveis pelo aumento progressivo dos casos de roubo, latrocínio e prostituição nas cidades. Segundo a autora, a imputação do crime de vadiagem e a possibilidade de
491
BONFÁ, 2009, p. 203.
492 Ibid., p. 204. 493
MORAES, Ana Luisa Zago de. Crimigração: a relação entre política migratória e política criminal no Brasil. São Paulo: IBCCRIM, 2016, p. 104-105.
aplicação da pena de expulsão com efeitos perpétuos494 decorreram de uma política de limpeza social destinada aos imigrantes não mais úteis à colonização, que passaram a ser considerados um perigo para os habitantes das cidades e “inimigos do progresso da Primeira República”.495
Moraes observa que, entre 1845 e 1930, a população carcerária do Rio Grande do Sul era composta por muitos imigrantes. A Casa de Correção de Porto Alegre, por exemplo, ostentava os seguintes quantitativos:
[...] em 1853, 32,07% dos presos eram estrangeiros (34 estrangeiros e 106 nacionais); em 1859, 40,95% eram estrangeiros (43 estrangeiros e 62 nacionais) e, em 1918, 21,22% (125 estrangeiros e 589 nacionais), sendo que, naquele momento histórico, a média de estrangeiros que viviam no Estado era de 30%.496
Em trabalho destinado à temática do controle e da exclusão social, Neder teve como campo de estudo a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, nas primeiras décadas da República (virada do século XIX para o XX). A autora observou uma preocupação acentuada com o controle da massa de trabalhadores pobres, também verificada tanto na conjuntura histórica da ditadura militar, quanto no momento atual da República. Segundo a autora, “[...] as referências à escravidão estão mais esmaecidas, mas o racismo e o medo (do Outro) estão, ainda, muito acentuados”.497
Naquele momento histórico, a imprensa carioca do início do século dava forte ênfase ao debate sobre o aumento da criminalidade, reivindicando melhorias por meio de discursos que transitavam pela necessidade de reaparelhamento da polícia, mais repressão e controle sobre os espaços da cidade, disseminando uma verdadeira campanha de lei e ordem. Conferências reuniam policiais, magistrados, jornalistas e intelectuais para discutir estratégias de atuação da política e da justiça no Rio de Janeiro, concluindo, ao final, pela necessidade de disciplinamento e de controle do espaço urbano, com a demarcação e a separação entre áreas quilombadas e áreas europeias.498 Segundo dados extraídos por Neder dos relatórios dos chefes de Polícia da capital federal, a vadiagem configurou a contravenção mais reprimida pelas agências
494 Conforme assevera Moraes, “o Decreto 4.247, de 6 de janeiro de 1921, criminalizou a conduta de
reingressar no território nacional o estrangeiro que dele foi expulso (art. 6.º), prevendo uma pena de dois anos de prisão, sem prejuízo de nova expulsão após o cumprimento” (Ibid., p. 108, grifo do autor).
495
Ibid., p. 107.
496 Ibid., p. 112.
497 NEDER, Gizlene. Cidade, identidade e exclusão social. Tempo, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1997, p. 106.
Disponível em: <http://www.historia.uff.br/tempo/artigos_dossie/artg3-5.pdf>. Acesso em: 11 jan. 2018.
policiais no momento da reestruturação do Estado sob a forma republicana499, não se olvidando que a vagabundagem configurava causa bastante para expulsão (art. 2.º do Decreto n.º 1.641, de 7 de janeiro de 1907) e a reincidência em vadiagem por estrangeiro ensejava sua deportação (art. 399 do Código Penal de 1890).
A empreitada punitiva contra os imigrantes levada a efeito na Primeira República funcionou em consonância com os valores sociais e políticos da época, adequados a uma governamentalidade da exclusão social, da miséria e dos considerados degenerados e subversivos pela ordem vigente e por seus anseios de progresso.500 Conforme observam Zaffaroni et al., a programação criminalizante da primeira República deixa evidente a participação decisiva do sistema penal na implantação da ordem burguesa, preservando os lugares sociais, sem renunciar à cultura da intervenção corporal inerente ao escravismo.501
Na sequência, na chamada Era Vargas (1930-1945), os “estrangeiros clandestinos”, notadamente judeus e refugiados em geral, permaneceram integrando o rol de indesejáveis. O auge da política dessa era foi a edição de leis restritivas de direitos fundamentais dos estrangeiros, ações de policiamento e previsão de exclusão de todo estrangeiro “indesejável”, caracterizado “como aquele em desacordo com o projeto de nação voltado ao progresso (católica e de população branca)”.502
Nesse período, a aversão ao estrangeiro consolidou-se por meio de uma forte produção legislativa da eugenia, aliada a um projeto nacionalista.503
Entre a Primeira República e o Estado Novo, a criminalização de estrangeiros estava fundamentada no pensamento criminológico positivista com forte conotação racista e higienista que se instalou na América Latina. Imigrantes foram objeto de xenofobia por parte de intelectuais e acadêmicos, e de repressão baseada no “perigosismo”. No entanto, o Código Penal de 1940 não reproduziu a perseguição aos estrangeiros considerados indesejáveis, mantendo a criminalização da conduta de reingressar no território nacional o estrangeiro que foi dele expulso (art. 338), de modo que a sua expulsão ficou consolidada como medida administrativa de controle, e não penal, por meio de ato privativo do Poder Executivo.504
499 Ibid., p. 117 e 119. 500
MORAES, 2016, p. 302.
501 ZAFFARONI; BATISTA; ALAGIA; SLOKAR, 2006, p. 456-457. 502 MORAES, op. cit., p. 130.
503
Ibid., p. 303.
Após o Estado Novo, o tema da perseguição aos estrangeiros perdeu fôlego, juntamente com a diminuição do fluxo imigratório, e passou a não mais figurar de forma significativa na agenda política do país que, após o Golpe de 1964, centrou suas ações na repressão e na perseguição aos inimigos do regime militar, independentemente de sua nacionalidade505, conforme já mencionado na subseção 2.3.1. Esse movimento, contudo, não significou que os estrangeiros deixaram de receber tratamento penal no cenário nacional,506 no entanto, passaram a integrar tendências político-criminais mais amplas, notadamente aquelas voltadas para a guerra às drogas.507 Nesse sentido, Moraes afirma que, na atualidade brasileira, a criminalização de estrangeiros não é uma tendência, mas se dá por via reflexa, em especial pela manutenção do Estatuto do Estrangeiro508 e pela guerra às drogas.509
505 Ibid., p.137-138.
506 De acordo com o relatório do Infopen, de junho de 2016, nas unidades prisionais que possuíam
informações sobre a nacionalidade das pessoas privadas de liberdade, de um total de 607.305 pessoas presas, 2.606 eram cidadãos de outras nacionalidades, que não a brasileira, o que representa um percentual de 0,4% de estrangeiros no sistema prisional. É interessante notar que, em relação ao Estado do Rio Grande do Sul, se, no ano de 1859, os estrangeiros somavam 40,95% das pessoas presas na Casa de Correição de Porto Alegre, conforme estudo de Ana Luisa Zago de Moraes já mencionado, em junho de 2016, a referida unidade federativa totalizou um percentual de 0,3% de estrangeiros custodiados (BRASIL, 2017, p. 38-39).
507 MORAES, op. cit., p. 176.
508 A Lei n.º 6.815, de 19 de agosto de 1980 (Estatuto do Estrangeiro) foi revogado pela Lei n.º 13.445, de
24 de maio de 2017 (Lei de Migração).
509 Sobre a criminalização de estrangeiros no âmbito da política de drogas, Moraes afirma que “as ‘mulas’
do tráfico, na atualidade brasileira, representam a maioria dos estrangeiros encarcerados no Brasil. Se, no ano de 2004, dois terços dos estrangeiros encarcerados no Brasil, ou 72,3% dos detentos, respondiam criminalmente pelo delito de tráfico de drogas, no ano de 2014, 81% dos estrangeiros presos em São Paulo tinham como motivo da prisão esse delito. Pode-se afirmar, portanto, que a repercussão da política criminal de drogas no aprisionamento de não nacionais é decisiva, e, se o tráfico de drogas não fosse criminalizado, talvez sequer houvesse o fluxo de pessoas vulneráveis e usadas como ‘mulas’” (Ibid., p. 308). Segue, ainda, a autora ressaltando que “nos decretos de expulsão publicados no ano de 2014, mais de 90% decorreram de condenação por tráfico de drogas, sendo apenas dois decorrentes de crimes contra a vida e dois de crimes contra o patrimônio, o que confirma também a tendência dos imigrantes de não cometerem crimes comuns, e a relação do encarceramento e das expulsões com a guerra às drogas” (Ibid., p. 309).