CAPÍTULO 2 TIPOS DE COOPERAÇÃO EMPRESARIAL E
2.4 Empresa Comercial Exportadora e Trading Company
De modo geral o autor Eduardo Bassi define as tradings como “[...] empresas especializadas em importação/exportação, utilizadas quando a empresa produtora, não tendo interesse em conhecer mais profundamente os mercados internacionais, lhes transferem todas as funções relacionadas às exportações”67.
Esta definição pode ser entendida tendo em vista que a princípio o objetivo principal das indústrias é apenas a produção de bens, e para tanto, necessitam de uma empresa especializada para dinamizar e viabilizar suas vendas externas, situação esta que é feita pelas
tradings e as comerciais exportadoras.
Conforme preleciona o autor Dalton Daemon, estas empresas possuem personalidade jurídica e economia próprias, operando em escala nacional e mundial, com produtos próprios ou de terceiros, sendo que suas atividades podem variar desde a compra/venda de produtos, a representação de empresas, o agenciamento de negócios, financiar e prestar
66 SEBRAE, Arranjos..., op. cit., on-line, (destaque em itálico nosso). 67 BASSI, op. cit., p. 49.
serviços após a venda68.
É interessante ressaltar sobre a importante atuação destas empresas na história do Brasil, pois o então Ministro Dr. José Flávio Pécora em palestra proferida Simpósio Nacional realizado sobre Trading Companies em 1972 atesta que a colonização brasileira foi feita por
trading companies, isto porque a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais tinha justamente
esta natureza comercial e com isto veio colonizar o nordeste brasileiro69.
Atualmente, é importante salientar que no Brasil a diferença está na constituição de ambas, pois as trading companies são instituídas conforme o Decreto-Lei no 1.248, de 29/11/72, e as empresas comerciais exportadoras (não tradings) são regidas pelo Código Comercial Brasileiro, não havendo qualquer peça legal que as diferencie de outras, salvo seu objeto social70.
Assim, em entrevista realizada com o Sr. Luiz Eduardo Netto Sá Fortes71, do Ministério do Desenvolvimento, bem como artigos publicados na Revista Sem Fronteiras, para definir a diferença entre uma trading company e uma comercial exportadora comum pode-se recorrer ao Convênio ICMS no 113/1996, que, em sua cláusula primeira, cuja redação foi dada pelo Convênio ICMS no 61/03, assim especifica:
A trading company é um tipo específico de empresa comercial exportadora, nos termos do Decreto-Lei no 1.248/1972, a qual deverá preencher os requisitos definidos e atender aos procedimentos administrativos estabelecidos pela legislação brasileira.
Em primeiro lugar, as trading companies devem necessariamente ser constituídas sob a forma de sociedade por ações, ou seja, sociedades anônimas, segundo o autor José Augusto de Castro72, o que é confirmado pelo Decreto no 4.543, de 26/12/02 (novo regulamento aduaneiro), em seus arts. 228 a 232 e pela Portaria do SECEX nº 15, de 17/11/2004, bem como são obrigadas a ter um capital mínimo fixado pelo Conselho Monetário Nacional, conforme Resolução BCB no 1.928/1992, que é de de 703.380 Ufirs, o qual deverá estar integralizado para fins de registro.
Por fim, as tradings, para os efeitos de que trata o Decreto-Lei n. 1.248/72, são obrigadas a obter o Certificado de Registro Especial, concedido pelo DECEX em conjunto com a
68 DAEMON, Dalton. Empresas de comércio internacional: organização e operacionalidade. Blumenau: Ed.
da FURB, 1993, p. 30.
69 PÉCORA, José Flávio. Simpósio Nacional sobre “Trading Companies”. IDORT: São Paulo, 1972, p. 12. 70 Estas informações foram obtidas em entrevista com Luiz Eduardo Netto Sá Fortes, do Ministério do
Desenvolvimento, em 31 de janeiro de 2007. FORTES, Luiz Eduardo Netto Sá. Entrevista. Entrevistadora: Roberta Cintra Maranha, 31 jan. 2007
71 Ibid.
72 CASTRO, José Augusto de. Exportação: aspectos práticos e operacionais. 5. ed. São Paulo: Aduaneiras,
Secretaria da Receita Federal (SRF), bem como para obter seu registro deve obedecer o artigo da mencionada portaria a seguir citado:
Art. 61. A empresa que deseja obter o Registro Especial deverá satisfazer os seguintes quesitos:
I – possuir capital mínimo realizado equivalente a 703.380 unidades fiscais de referência (UFIR), conforme disposto na Resolução n.º 1.928, de 26 de maio de 1992, do Conselho Monetário Nacional;
II – constituir-se sob a forma de sociedade por ações;
III - não haver sido punida, em decisão administrativa final, por infrações aduaneiras, de natureza cambial, de comércio exterior ou de repressão ao abuso do poder econômico73.
Por outro lado, é considerada uma empresa comercial exportadora comum (não trading), as demais empresas que efetuam operações mercantis, devidamente inscritas no Siscomex.
Neste caso, as aquisições feitas no mercado interno com o fim específico de exportação, pela trading e a empresa comercial exportadora comum, mas não apenas estas, mas todas as exportações têm o seguinte tratamento fiscal:
• ICMS: não-incidência, art. 7o, § 1o, item 1, letra “a”, do RICMS-SP (para os
demais Estados, deve-se verificar o respectivo regulamento);
• IPI: suspenso, art. 42, inciso V, do Ripi;
• Cofins: isenta, art. 45, inciso VIII, do Decreto no 4.524, de 17/12/02; e
• PIS: não-incidência, art. 5o, inciso III, da Lei no 10.637, de 30/12/02.
Além do que, nos fornecimentos feitos sob esse tratamento, o fabricante é obrigado a entregar o produto no local de embarque ou em recinto alfandegado, bem como os produtos assim adquiridos por esses dois tipos de empresas deverão ser exportados no prazo máximo de 180 dias. O descumprimento desse prazo implicará o compromisso de recolhimento dos tributos que deixaram de incidir na operação.
Por outro lado, é comum, porém errôneo o entendimento de que vender um produto para uma trading company, com o fim específico de exportação, já configura uma exportação, pois de acordo com o Decreto no. 2637 de 25/06/98 relativo ao IPI e do Convênio do ICMS no. 113, de 13/12/96, estas vendas para as tradings não são equiparadas à exportação para efeitos fiscais e financeiros, sendo somente uma intenção de exportar.
73 SECRETARIA DO COMÉRCIO EXTERIOR. Portaria n. 15, de 17 de novembro de 2004. Consolida as
disposições regulamentares das operações de exportação. Diário Oficial da União: República Federativa do Brasil. Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 nov. 2004. Disponível em:
<http://www.desenvolvimento.gov.br/arquivo/legislacao/portarias/secex/2004/prtsecex15_2004.pdf>. Acesso em: 27 set. 2006.
Isto porque, as mercadorias adquiridas por tradings companies, diretamente do fabricante, com o fim específico de exportação, somente acarretará os benefícios fiscais da exportação para a trading após a mercadoria ter efetivamente saído do país, a qual é caracterizada pela averbação do embarque no Registro de Exportação (RE) pelo fiscal aduaneiro74.
Por outro lado, para que o fabricante também tenha os benefícios fiscais à exportação após receber da trading o documento denominado “Memorando da Exportação”, atestando que a mercadoria adquirida foi efetivamente exportada.