5. ANÁLISES
5.2 ANÁLISE SOBRE A FLEXIBILIDADE INTERPRETATIVA E VISÃO
5.2.7 Empresas de Telefonia e Operadoras de Celular
Segundo o superintendente executivo da TELEBRASIL em 2006, César Rômulo Silveira Neto, o entendimento da TELEBRASIL sobre a tecnologia era que a TV Digital poderia ser um instrumento de inclusão social. Enfatizou que a TELEBRASIL manteve-se neutra em relação à definição dos padrões desde o início do processo,
mas entendeu que a mesma se tratava de uma oportunidade rara de produzir verdadeira revolução social no País (BRASIL.CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2006). A TELEBRASIL (2006) em sua carta aos Ministros6 de Estado declarou que qualquer
que fosse o padrão escolhido pelo governo, o mesmo deveria possuir:
Mobilidade e Portabilidade de Terminais, especialmente se considerada a amplitude da aceitação que o serviço móvel pessoal (celular) atingiu no Brasil, que o tornou em mais um poderoso instrumento de inclusão social; a disponibilidade de canais específicos para esse tipo de usuário deverá ser a maior possível para permitir competição ampla também nesse segmento; Interatividade diversificada para aumentar a opção de escolha por parte do usuário final, tanto quanto a redes de suporte quanto a serviços e conteúdos; essa interatividade tem que ser completa, pois só com ela a TV digital poderá ser utilizada como instrumento de inclusão digital;
Melhor eficiência na utilização do espectro de freqüências o que amplia as possibilidades de serviços, de distribuição de conteúdos e de prestadoras de serviços, em benefício do usuário final; e
Padrão aberto, documentado, disponível publicamente e que evite a necessidade de negociações com detentores de patentes ou países, cujo poder possa vir a ser entrave ao desenvolvimento de soluções requeridas para o atendimento de demandas locais, como as da inclusão social. (TELEBRASIL, 2006, p.3).
Realizando uma análise em profundidade do conteúdo da carta, podemos notar que há uma divergência entre o seu conteúdo implícito e explicito. A TELEBRASIL afirmou ter-se posicionado de maneira neutra em relação à TV Digital, ou seja, como não possuindo preferências por um ou outro padrão, porém os itens descritos em sua comunicação entregue aos ministros deixam uma interpretação ambígua (TELEBRASIL, 2006).
Em relação à mobilidade e portabilidade, a entidade se manifesta em favor de uma competição mais ampla e da inclusão social, subjetivamente referindo-se ao padrão europeu, pois os conteúdos poderiam também ser transportados em canais específicos de transmissão para celulares, além das difusoras de televisão.
6Antonio Palocci Filho, ministro de Estado da Fazenda; Celso Luiz Nunes Amorim, ministro de Estado
das Relações Exteriores; Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República; Gilberto Passos Gil Moreira, ministro de Estado da Cultura; Luiz Fernando Furlan, ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Fernando Haddad, ministro de Estado da Educação; Luiz Gushiken, chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República; Paulo Bernardo Silva, ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão; e Sérgio Rezende, ministro de Estado da Ciência e Tecnologia.
No que tange a interatividade, esta seria possível tanto no padrão japonês, europeu ou no modelo híbrido sugerido pelo CPqD, uma vez que o canal de retorno, ponto-a- ponto, necessitaria utilizar algum meio de comunicação tal como, telefonia fixa, móvel, Wi-Max ou Wi-Fi, todos contemplados no relatório elaborado pelo CPqD (CPqD , 2006b).
A melhor eficiência no espectro poderia se implantada com qualquer um dos padrões, uma vez que as distribuições de espectro não estariam atreladas à tecnologia em si, mas a regulamentação do setor e por fim, o padrão aberto, que a associação compartilhava com a sugestão do CPqD sobre um middleware brasileiro, ou também em favor do europeu, pois após a uniformização do MHP na Europa, o levou a se tornar uma plataforma aberta e, portanto livre de royalties (ESTADAO, 2006b).
Em relação à visão da tecnologia, a TELEBRASIL acreditava que a convergência tecnológica deveria ser contemplada na discussão sobre a escolha do padrão brasileiro e ressaltou:
A possibilidade de conteúdos distintos poderem ser distribuídos através de plataformas digitais concorrentes ou alternativas;
A possibilidade de competição entre prestadores, detentores de distintas outorgas, em busca de melhor servir os usuários, por exemplo: a) serviço de banda larga pela rede de telefonia, fixa ou móvel, ou pela rede de TV a Cabo; b) serviço de TV por redes para serviços de telecomunicações, fixos ou móveis, ou pelas redes de TV a Cabo ou DTH; c) recepção de TV digital através de aparelhos celulares disponíveis para os padrões tecnológicos adotados no Brasil;
O marco regulatório deve ser atualizado à luz dessas novas possibilidades de prestação de serviços num ambiente competitivo; neste sentido a regulamentação deve ser a menos intrusiva possível, fomentando a competição, regulando somente falhas de mercado e atuando pontualmente para que oportunidades de ganho por padronização ou escala (externalidades) sejam capturadas em benefício da prestação do serviço; e, Um arcabouço jurídico-regulatório para o SBTVD que considere a convergência tecnológica de modo a evitar graves conseqüências para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. (TELEBRASIL, 2006, p.04).
Estas afirmações mostraram-se opostas ao posicionamento adotado pelos radiodifusores, pois o se recomendou a ampliação da competição e a possibilidade das empresas de telefonia distribuírem conteúdos de televisão através de sua infra- estrutura.
Em linha com as alegações da TELEBRASIL, o presidente da ACEL na ocasião, Amadeu Castro, ressaltou que as telecomunicações móveis poderiam funcionar como elemento fortalecedor da comunicação social eletrônica, emprestando seus terminais para agregar portabilidade à TV digital, ampliando os canais de recepção direta, livre e gratuita do serviço de radiodifusão. Além disso, face à característica unidirecional da televisão, os serviços de comunicações móveis também se habilitariam como canal de retorno efetivo, ao alcance do usuário, para a televisão digital.
A carta da TELEBRASIL chamou a atenção sobre os aspectos macro-econômicos e sugeriu que o padrão a ser escolhido pelo Brasil fosse também global, para que fosse possível a economia de escala na produção de equipamentos e insumos. O termo global aparece em grifo, sugerindo o que o consórcio em prol do padrão europeu vinha afirmando sobre os padrões, ressaltando que o único padrão implantando em mais de 40 países era o padrão europeu, contrariamente ao japonês e o americano (DVB, 2008c; ESTADAO, 2006b). Portanto, realizando uma síntese da análise do conteúdo da carta da TELEBRASIL, o grupo escolheu o padrão europeu como de sua preferência, apesar de não explicitar isto em suas considerações.
As teles ainda viam no padrão europeu a possibilidade de alterar o marco regulatório. Com a definição de um novo padrão, poder-se-ia conseguir um novo nicho de mercado, o operador de rede, em que as empresas receberiam para transportar o conteúdo das produtoras de conteúdos (MEDINA, 2006). Outro aspecto relevante aponta para o fato do padrão europeu utilizar faixas de freqüências consignadas para as empresas de telefonia celular. Estas faixas de freqüências diferentemente das concessões aos radiodifusores, seguiam critérios para utilização e permitiria às empresas de telefonia estarem no centro das operações de televisão.