2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.4 Qualidade da informação contábil
2.4.3 Empresas familiares e a qualidade da informação contábil
A propriedade, quando em posse da família fundadora, pode afetar a oferta e a qualidade dos lucros de duas formas diferentes: pelo efeito entrincheiramento e o efeito alinhamento (WANG, 2006). O efeito entrincheiramento prevê que famílias fundadoras expropriam riqueza de outros investidores e apresentam uma qualidade inferior na apresentação do lucro. No entanto, a oferta de menor qualidade dos lucros pode ser atenuada pela exigência de qualidade elevada pelos usuários das demonstrações financeiras se eles percebem que as empresas familiares estão relacionadas a uma estrutura de governança corporativa inferior às demais. Em contraste, o efeito alinhamento prevê que a propriedade familiar alinha os interesses das famílias fundadoras aos interesses dos demais acionistas e, portanto, está associada a oferta de maior qualidade dos lucros, conforme afirma Wang (2006).
Os resultados empíricos de Wang (2006) mostram que a propriedade familiar está associada com o menor gerenciamento de resultados do que as empresas não familiares. O autor considera que o gerenciamento de resultados mais baixo das empresas familiares pode resultar de um melhor alinhamento de interesses entre os membros da família e outros acionistas.
Tipos de estruturas de governança baseadas em hierarquia, como é o caso de empresas familiares, predominantes nos sistemas econômicos com propriedade altamente concentrada, não necessariamente equivalem à existência de divulgação financeira de baixa qualidade (DOSSI; PATELLI; ZONI, 2010).
Alguns estudos evidenciaram que essas empresas, além de apresentarem melhor qualidade da informação contábil, também denotam melhor desempenho e incorrem em um custo de dívida menor do que as empresas não familiares (ANDERSON; REEB, 2003; ALI; CHEN; RADHAKRISHNAN, 2007; JIRAPORN; DADALT, 2009; CASCINO et al., 2010; PRENCIPE et al., 2011).
Segundo Gersick et al. (1997), as empresas familiares são caracterizadas por priorizarem o longo prazo e por manterem preocupações em relação à reputação da família, o que aumenta o compromisso dos proprietários em maximizar o valor da empresa. Ali, Chen e Radhakrishnan (2007), relatam que em empresas familiares a remuneração dos executivos é pouco relacionada com dados contábeis e dessa forma, estas enfrentam menor risco de manipulações das informações. De acordo com Gomez-Mejia, Makri e Kintana (2010), empresas familiares são naturalmente avessas ao risco e tendem a assumir riscos por razões diferentes das demais empresas.
Tong (2007) examinou as informações do período de 1992 a 2003 de empresas familiares e não familiares para investigar se as práticas de divulgação dos relatórios financeiros diferem nestas entidades. Os resultados indicaram que as empresas familiares apresentam menores níveis de gerenciamento. O autor considera que uma melhor informação financeira nessas empresas está relacionada com o horizonte de investimento a longo prazo, com as preocupações em relação a reputação e pela incidência de melhor acompanhamento das ações dos gestores.
Jiraporn e Dadalt (2009) investigaram o gerenciamento de resultados nas empresas familiares. Suas conclusões indicam que as empresas familiares são menos propensas a gerenciar o lucro
do que as não familiares e que a visão a longo prazo e o zelo pela reputação são características das empresas de controle familiar.
O objetivo da pesquisa de Cascino et al. (2010) foi verificar se as empresas familiares fornecem informações contábeis de qualidade superior ou inferior quando comparadas às empresas não familiares, e quais os possíveis determinantes que conduzam quaisquer diferenças. Foram analisadas as empresas listadas na bolsa italiana durante o período de 1998 a 2004. Os resultados mostraram que as empresas familiares apresentaram maior qualidade das informações contábeis em relação às empresas não familiares e que as diferenças estão presentes em várias dimensões. A qualidade, segundo os autores, está associada positivamente com a alavancagem, independência do conselho e com a qualidade da auditoria.
Os resultados obtidos na pesquisa de Ali, Chen e Radhakrishnan (2007) indicaram que as empresas de controle familiar apresentam melhores práticas de divulgação, enfrentam menos problemas de agência, levando a um comportamento menos oportunista na retenção de más notícias quando comparadas aos demais tipos de organização. Os autores verificaram também que as empresas familiares, quando comparadas com empresas não familiares, apresentavam menores volatilidades e menores erros nas previsões dos analistas.
No Brasil, Moura, Franz e Cunha (2013) pesquisaram a influência dos níveis diferenciados de governança, tamanho e independência do conselho de administração na qualidade da informação contábil de empresas familiares. Os autores verificaram que as empresas com níveis mais diferenciados de governança e com conselhos mais independentes, possuíam maior persistência, conservadorismo, oportunidade e relevância da informação contábil.
Paulo e Cavalcante (2012), realizaram um estudo sobre o conservadorismo contábil nas empresas abertas familiares e não familiares do mercado brasileiro, listadas na BM&FBOVESPA e que compõem o Índice Brasil - 100, para o período de 2006 a 2010. As evidências observadas apontam que as empresas familiares apresentaram maior reversão de perdas contábeis, sugerindo que elas possuem práticas contábeis mais agressivas. Porém, com base na análise estatística proposta, não foi possível confirmar se o conservadorismo contábil é significativamente diferente entre as empresas familiares e não familiares.
Croci, Gonenc e Ozkan (2012) analisaram os dados de um conjunto de 754 empresas da Europa Continental listadas em bolsa, referentes aos anos de 2001 a 2008, para identificar se há relação do controle familiar e dos investimentos institucionais sobre a remuneração dos executivos. Os resultados evidenciam que empresas familiares pagam uma remuneração baseadas em ações (variável) menor aos seus executivos do que as empresas não familiares. Diante isso, os gestores podem ser menos propensos a executarem práticas de gerenciamento dos lucros.
Dechow e Ge (2006), relatam que as empresas familiares estão associadas a uma maior qualidade em seus resultados. Isto significa dizer que possuem baixos índices de gerenciamento e maior qualidade das demonstrações contábeis.