Capítulo III – I NVESTIGAÇÃO E MPÍRICA
3.2 EMPRETEC: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EMPREENDEDORA
Considerando os amplos estudos sobre o empreendedorismo, a questão da dúvida sobre se ele pode ser ou não ensinado, torna-se obsoleto (Kuratko, 2006). Para Drucker (1987), empreendedorismo é uma disciplina e como tal pode ser aprendida. Os comportamentos praticados por empreendedores, tanto podem ser adquiridos como ensinados por influencia do ambiente (Zhang et al., 2008). E como destacam Marques et al. (2010), fatores cognitivos fornecem um importante apoio ao estudo das características inerentes ao empreendedorismo. Assim, o ensino de comportamentos empreendedores pode contribuir para potenciar cada vez mais as características empreendedoras.
Com o objetivo de estimular e desenvolver as características individuais do empreendedor, propiciando a sua competitividade no mercado (Sebrae, 2009), o Empretec, é um programa de capacitação, com uma metodologia de característica vivencial. Ocorre durante seis dias, onde os participantes são estimulados a colocar em prática comportamentos empreendedores. Os comportamentos empreendedores: 1) busca de oportunidades e iniciativa; 2) correr riscos calculados; 3) exigência de qualidade e eficiência; 4) persistência; 5) comprometimento; 6) estabelecimento de metas; 7) planejamento e monitoramento sistemáticos; 8) busca de informações; 9) persuasão e rede de contatos; 10) independência e autoconfiança; são oriundos da teoria da motivação para realização do psicólogo americano David McClelland, o qual desenvolveu até década de 70 em mais de 40 países, treinamentos motivacionais de forma a aprimorar os comportamentos para prática organizacional, obtendo bons resultados (Sebrae, 2009; Magali et al., 2011; Fonseca & Muylder, 2010).
As conclusões metodológicas e da prática comportamental dos empreendedores, que dá base ao Empretec, são resultantes de estudos patrocinados por governos, ao observarem o cenário de destaque alcançado pelo empreendedorismo, como uma prática de auto-emprego, e como este fenômeno contribuía com o desenvolvimento econômico dos países (Sebrae, 2009). Na avaliação de Costa et al. (2011), no entanto, isto reflete o discurso atual do empreendedorismo sobre a responsabilidade que deve assumir cada indivíduo de reprodução do sistema capitalista. Assim, entidades entenderam também a importância de conhecer melhor o empreendedor. Neste contexto a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), financiou o Projeto denominado de Desenvolvimento do Empreendedor e da Pequena Empresa. Por conta deste projeto e
com o histórico de McClelland, a partir do ano de 1982, a USAID e a Management Systems International (MSI), através da empresa de consultoria McBeer & Company, dirigida por McClelland, iniciaram um projeto de estudo dos comportamentos empreendedores em 34 países, no intuito de aprimorar a capacitação de empreendedores. Este estudo identificou dez características marcantes e comuns em empresários de sucesso (Sebrae, 2009; Magali et al., 2011; Fonseca & Muylder, 2010).
Do ponto de vista de seu desenvolvimento prático, o Empretec teve seu lançamento inicial no Centro de Corporações Transnacionais das Nações Unidas em 1988. Nos dias atuais é conduzido pelo PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e pela UCTAD - Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. No Brasil, foi implantado em 1990, nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, através do Banco de Desenvolvimento dos respectivos Estados. Em 1993, o Sebrae em parceria com o PNUD, passou a ser a entidade executora em todo território nacional, após a assinatura do Projeto de Cooperação Internacional com as Nações Unidas e a Agência Brasileira de Cooperação. Neste ano desenvolveu o projeto em diversos Estados do país como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal e Pernambuco e expandiu três anos depois para mais sete Estados até chegar nos anos de 2000 a desenvolver em todos os 26 Estados e o distrito federal do país (Sebrae, 2009). Desta forma o Empretec, consolida-se como um importante instrumento de disseminação das características dos comportamentos empreendedores, contribuindo para aumentar o nível de conhecimento do empreendedor brasileiro, pois como observa (Magali et al., 2011), apesar dos destaques em número de empreendedores, o Brasil ainda não atingiu o nível de educação de nações mais desenvolvidas.
Neste cenário, o programa contribui com este importante aspecto da formação de gestores, pois como lembra Ferreira (2003), uma das variáveis que influenciam o crescimento da pequena empresa é a formação da gestão.
3.2.1 NÚMEROS E IMPACTO DO EMPRETEC
O programa Empretec é realizado em 33 países, conforme relação na tabela 2. Nestes países, o Empretec, ocorre dentro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o PNUD.
Tabela 2.Empretec no mundo: Relação de países que realizam o programa Países 1 Angola 2 Argentina 3 Benin 4 Botswana 5 Brazil 6 Chile 7 Colombia 8 Dominican Republic 9 Ecuador 10 El Salvador 11 Ethiopia 12 Ghana 13 Guatemala 14 Guyana 15 India 16 Jordan 17 Mauritius 18 Moroco 19 Mozambique 20 Nigeria 21 Panamá 22 Paraguay 23 Perú 24 Romania 25 Senegal 26 South Africa 27 Tanzania 28 Uganda 29 Uruguay
30 Venezuela (Bolivarian Republic of) 31 Viet Nam
32 Zambia 33 Zimbabwe
Fonte: Elaborado pelo autor com base em dados Sebrae, 2012.
No Brasil o Empretec é coordenado pelo Sebrae e o país é uma referência mundial de aplicação da metodologia (Sebrae, 2007). Desde a sua execução inicial no país, através do Sebrae, no ano de 1993, até o ano de 2011, já foram realizados 6.990 (seis mil, novecentos e noventa) seminários do programa, nos 26 Estados e Distrito da Federação.
Destes seminários participaram um total de 165.399 (Cento e sessenta e cinco mil, trezentos e noventa e nove) empreendedores. A tabela 3, mostra esta quantidade divida pelos respectivos estados da Federação.
Tabela 3. Empretec: Número de seminários e participantes, por estado Brasileiro (1993-2011)
Estado
Empretec
Número de Seminários realizados Número de participantes
AC 48 1095 AL 99 2052 AM 152 4317 AP 54 1172 BA 276 6343 CE 160 3685 DF 239 5664 ES 447 10322 GO 178 4162 MA 134 3212 MG 583 14391 MS 151 3513 MT 204 4640 PA 181 4021 PB 130 3066 PE 193 4723 PI 82 1715 PR 398 8996 RJ 431 9751 RN 165 4370 RO 157 3923 RR 66 1243 RS 717 17352 SC 458 11107 SE 69 1673 SP 1105 26300 TO 113 2591
Fonte: Elaborado pelo autor, com base em banco de dados do Sebrae, 2012.
Avaliações do impacto de programas de capacitação empreendedora existem deste a década de 60, tendo como pioneiro destas avaliações o próprio McClelland. Estas avaliações, ocorridas em diversas partes do mundo, considerando diversas culturas, utilizando-se das mais diversas metodologias, concluíram como positivo o impacto da capacitação em comportamentos empreendedores para a prática empresarial, destacando também a evolução do comportamento dos participantes, após participação no programa (Sebrae, 2009).
Pesquisas realizadas pelo Sebrae no ano de 2002 e pelo Instituto VER no ano de 2010 (https://intranet.ba.sebrae.com.br/uee/solucoes/empretec/documentos), destacam os principais resultados para os empreendedores participantes do programa, chamados de Empretecos. Estas avaliações concluiram que:
1. O empreteco efetivamente melhora seu desempenho empresarial após o Seminário; 2. O empreteco torna-se mais seguro sobre suas decisões após o Seminário;
3. O empreteco planeja mais e melhor após o Seminário;
4. O empreteco reduz suas chances de fracasso após o Seminário;
5. O empreteco gera mais riqueza e paga mais impostos após o Seminário, contribuindo para o crescimento do país;
6. O empreteco emprega mais e paga melhor após o Seminário, contribuindo mais para a sua comunidade;
7. As empresas de empretecos quebram menos que as outras, contribuindo para a estabilidade das economias onde se situam.
8. Os empretecos empreendem mais por oportunidade do que por necessidade.
9. As empresas de empretecos têm taxa de mortalidade menor que as outras empresas brasileiras.
10. As empresas de empretecos são mais eficientes e mais produtivas que as outras empresas brasileiras
Concordando com estes resultados, Muylder e Fonseca (2010) e Lopes (1999), concluíram que há uma acentuada melhora das características empreendedoras após esta capacitação. Já Idogho e Augustine (2011), observam que a competência em educação para o empreendedorismo está em criar no pequeno empresário a consciência da importância de práticas empreendedoras e orientar o desenvolvimento destas competências.