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Fonte: EN ARQ09 (DA; DI) abr/2013. Turnos 43-44; 49-51

DA. É cem por cento manual, essa costura é muito demorada, a costureira tem que costurar várias vezes, né?

DI. É tirinha por tirinha...

DA. E a gente não consegue seguir um processo normal que qualquer fábrica mais industrializada, que não fosse tão manual, conseguiria. Porque quando a gente modela um produto mais voltado para o comercial, para o volume, o processo é o seguinte: vai para corte, caiu na chanfração, chanfra, chega na costura a preparadeira vai preparar o máximo que puder, vai para a máquina de costura no máximo duas vezes, vai, volta para a preparação, vai para a costura e acabou! Os nossos não, os nossos vão na máquina de costura, costura uma parte, volta para preparar, confere os tamanhos...

DA. O problema é gabaritar, tem que gabaritar todo ele. Tem que conferir se está tudo dentro das medidas,

E. Ahã...

DA. Porque que não fique um pé com o rebite no meio, o outro no traseiro, quer dizer, a conferência do que está sendo feito, toda hora a costureira tem que pegar gabaritos e conferir se o que ela fez está certo.

Para Sudjic (2010), a produção industrial tornou fácil a fabricação do que antes era – manual e – difícil, portanto as marcas de luxo contemporâneo usam como uma de suas estratégias a complexificação da feitura dos artefatos, como um sinal de distanciamento das coisas que são facilmente feitas em série pelas máquinas. Jogando inclusive com o uso do tempo.

Na lógica fabril há uma implicação com a racionalização do tempo. Thompson (1998) problematiza esta questão no contexto do início da sociedade industrial. Para Thompson a medição do

tempo passou a ser vinculada com a maior produtividade possível da mão-de-obra o que indicava que o tempo não poderia mais ser desperdiçado, pois seu valor foi associado ao dinheiro de forma que “o tempo é agora moeda: ninguém passa o tempo, e sim o gasta” (THOMPSON, 1998, p. 272). A tese de Thompson afirma que o processo de notação do tempo de trabalho passou a ser internalizado pelos trabalhadores, o que ele chama de “notação interna do tempo”.

No entanto, um par do modelo LEY01 demora três dias para ficar pronto. Além disso, esta não é somente uma prática da empresa, como também uma de suas práticas de discurso. Em um catálogo institucional foi registrado que “um sapato Zeferino pode demorar até três dias para ficar pronto, dependendo da complexidade da peça” (ZEFERINO, 2011, p. 4). A divulgação desta informação pode funcionar como um legitimador de artefatos de luxo, bem como de seus preços, não sendo comum verificar este tipo de propagação – a de divulgação do tempo empregado na produção – em fabricantes de calçados, por exemplo, fabricados em série.

Seguindo a biografia do modelo LEY01, importa ressaltar que ao final do período de desenvolvimento os protótipos que formam uma coleção são levados para a matriz da Zeferino em São Paulo, SP, para serem calçados e avaliados em uma reunião entre modelistas, estilista, desenvolvedora de produto, o gestor e área comercial. Eventuais correções de modelo apontadas nesta oportunidade são registradas para serem realizadas no retorno dos protótipos à fábrica.

Feitas as correções, a etapa seguinte é pontuada pela Ficha de Combinação que, no caso do scarpin LEY01 apresenta 3 opções. A elaboração deste documento já conta com uma foto do protótipo calçado em um pé definido pela empresa como padrão e registra os passos finais do protótipo. A Ficha de Combinação do modelo LEY01 indica que nesta fase houve a inclusão do debrum e da plataforma que antes não estavam explicitados na Ficha de Amostra. Registra também a definição de certos materiais que não estavam descritos completamente no documento anterior como, por exemplo, o forro, a taloneira, o debrum de palmilha e o detalhe da taloneira e a substituição de um dos elementos, conforme citado anteriormente, do couro de python pelo couro de naja.

Quando a Ficha de Combinações é concluída a fábrica produz alguns pares de cada modelo da coleção como mostruário, que servem à coordenação e à gerência das lojas para que possam fazer seus pedidos. Importa ressaltar que nem todos os modelos de uma coleção são comprados pelas lojas. Na empresa Zeferino a coordenação e as gerências das lojas têm a tarefa de selecionar dentro da coleção os modelos que julgarem adequados para cada loja. Esta seleção é tensionada tanto pelo potencial de venda dos modelos, quanto pela intenção de manter uma configuração de coleção. Ao mesmo tempo ainda importa para a marca oferecer nas lojas, mesmo que em pequena quantidade, os

modelos que são publicados em revistas dedicadas ao tema, considerando que a seleção realizada pelas revistas e a realizada pelas lojas nem sempre são compatíveis.

Dito isto, retomo o início desta sessão quando disse que a biografia do scarpin LEY01 poderia ser resumida ao seu processo de desenvolvimento. Este modelo não foi selecionado pela coordenação das lojas para ir à venda, logo sua biografia foi interrompida antes mesmo de entrar nos circuitos de circulação e distribuição.

4.5.3 A Biografia do Modelo FST35: “esse sapatinho foi (...) o Festa mais marcante”

A trajetória da sandália de festa FST35, um modelo da linha Pink Label, foi constituída, e mesmo estendida, por certas particularidades que podem ser apontadas a partir dos documentos do seu processo de desenvolvimento e também das falas dos interlocutores.

O modelo concebido na coleção Inverno 2009 passou pelas três fases pontuadas pelos documentos abordados nesta pesquisa, iniciando pelo croqui.

Figura 69 - Documentos do Processo de Desenvolvimento do Modelo FST35. Fonte: Acervo digital Zeferino.

Nesta fase a sandália foi desenhada por Cristiano Rodriguez que a projetou com uma aplicação de cristais sobre as tiras mais finas localizadas na região do peito do pé. No entanto observando a fase seguinte, a da Ficha de Amostra, é possível notar que no campo reservado para a imagem do croqui consta já uma foto de protótipo e não mais o croqui como costuma ser o procedimento. Noto então que

no campo da ficha destinado a observações consta a seguinte inscrição: “não vai mais jóia nesse modelo; usaremos uma flor de cetim. Ver ref, preço e consumo de material abaixo.” A partir destas pistas posso concluir que esta é a segunda versão da Ficha de Amostra, tendo havido uma primeira na qual o estilista solicitava o desenvolvimento do modelo exatamente conforme o croqui. A respeito do uso desta Ficha de Amostra em particular, vale ressaltar que tal documento não é estático, mas antes um suporte dinâmico que registra informações durante todo o processo que envolve fazer uma coleção de sapatos na Zeferino, sendo que novos e diferentes registros do que ocorre ao longo do desenvolvimento do modelo vão sendo incorporados no documento.

A partir da entrevista com Cristiano Rodriguez foi possível acessar alguns detalhes deste processo, como demonstro por meio do fragmento a seguir: