As encíclicas de Leão XIII e Pio X e outros documentos emanados da Santa Sé e dirigidos à hierarquia e católicos dos vários países, bem como as instruções da Secretaria de Estado da Santa Sé para os núncios, constituem elementos essenciais para se conhecer as orientações do governo da Igreja a partir de Roma. Formam um corpus documental que representa um panorama agitado do catolicismo. Como documentos abertos e destinados a divulgar doutrina e programas de ação, as encíclicas têm um lugar destacado na análise do problema do catolicismo político. Pode dizer-se que algumas encíclicas de Leão XIII (1878-1903), depois da época conturbada de Pio IX (1846-1878) com o enfrentamento da sociedade liberal, definem uma linha conceptual e política da Santa Sé e, a partir daí, também definem diretivas locais sobre a participação política dos católicos com a sua intervenção na representação política de sentido legislativo, tanto municipal como nacional.
A herança de Pio IX62 com a Questão Romana, só resolvida em 1929, e o non expedit sempre em pano de fundo, o combate à maçonaria, a afirmação do catolicismo social e político nos vários países católicos, o ralliement em França e o retorno ao tomismo são algumas das principais preocupações expressas por Leão XIII nas suas 86 encíclicas. O tempo histórico do Papa Leão XIII é de grande densidade por ser um período de profunda crise e múltiplos confrontos, para além dos problemas diversos com que se debatia a Igreja no seu próprio interior: formação teológica e doutrinal do clero, bons costumes e moralização do clero, participação política dos católicos e do clero, diferendos entre membros do clero ou entre baixo e alto clero, diferendos entre famílias religiosas e questões com os legitimismos. O programa leonino (1878-1903) de renovação do catolicismo
constituíam o núcleo central da vivência religiosa da população portuguesa e diziam bem do seu nível cultural e ideológico. Leite de Vasconcelos e Alberto Sampaio falam da “paixão religiosa” e da “vitalidade religiosa” como traços culturais das populações do Minho. Diz Alberto Sampaio do minhoto: «A religião constitui na realidade o fundo de toda a sua vida moral ... É raro haver pessoa que não pertença a muitas associações religiosas, confrarias e irmandades.» (in Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira – A luta contra os cemitérios públicos no século XIX. Ler História, n.º 30, 1996, p.
30.) Não raramente a religião popular andava associada a crendices e superstições. Ver a este respeito: Moisés Espírito Santo – A Religião Popular Portuguesa. 2.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.
62 Cf. R[oger]. Aubert – Le Pontificat de Pie IX (1846-1878). [Paris:] Bloud & Gay, 1963.
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compreendia todos os esforços para o tornar sólido e viável em período de convulsões liberais. O catolicismo ou seria capaz de lidar com os tempos modernos ou seriam progressivamente postas em causa tanto as suas dinâmicas como as suas instituições e organizações. Consolidar o “reino social de Jesus Cristo” foi o grande desafio do pontificado de Leão XIII.
A aposta na divulgação de encíclicas supõe um programa de recristianização, tentando por um lado superar o estado de recusa dos tempos modernos, como o tinha feito Pio IX, e entrar num processo de diálogo, negociação, influência e estabelecimento de procedimentos, organismos e legislação favorável à Igreja. Predominou a diplomacia no pontificado de Leão XIII.
Tabela 1 – Divulgação de encíclicas no pontificado de Leão XIII (20-02-1878 – 20-07-1903)
1878 = 2 encíclicas 1879 = 1
1880 = 3 1881 = 2 1882 = 3 1883 = 1
1884 = 3 1885 = 3 1886 = 3 1887 = 2 1888 = 8 1889 = 2
1890 = 3 1891 = 5 1892 = 5 1893 = 5 1894 = 5 1895 = 3
1896 = 3 1897 = 4 1898 = 5 1899 = 3 1900 = 2 1901 = 4
1902 = 6 1903 = 0
Total = 86 encíclicas
Fontes: http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/index_po.htm; http://www.vatican.va/offices/papal_docs_list_po.html; A Igreja e a Questão Social: Encíclicas de Leão XIII, Pio X, Pio XI (texto completo) e outros documentos pontifícios. 5.ª edição, Lisboa:
União Gráfica, 1961.
As 86 encíclicas de Leão XIII poderão, de acordo com a sua principal matéria, distribuir-se do seguinte modo:
- Devocionais:
- Devoção à Virgem Maria e Santo Rosário = 11;
- Devoção a S. José, S. Francisco de Assis, S. Cirilo e S. Metódio e São Pedro Canísio = 4;
- Comemorativas e evocativas: = 3;
- Sobre o espírito e missão da Igreja Católica: = 7;
- Sobre educação cristã, estudos e formação em escolas católicas63: = 11;
63 Estas encíclicas seguem um padrão comum pois referem-se à formação do clero, começando pelos candidatos para depois falarem do modelo de formação nos seminários, dos professores, dos métodos pedagógicos, do plano de estudos e da atualização científica. No horizonte destas encíclicas, direta ou indiretamente, se verifica a defesa do tomismo, conforme a Aeterni Patris (1879), como doutrina teológico-filosófica a adotar nos institutos religiosos de educação.
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- Sobre a situação da Igreja Católica e dos católicos em vários países64: = 28;
- Dirigidas a Portugal65: = 4;
- Encíclicas doutrinais sobre a abolição da escravatura e condenação da Maçonaria: = 6;
- Encíclicas orientadoras do catolicismo social e político: = 12.
Como a este trabalho interessam apenas aquelas encíclicas que apresentem algum conteúdo referente ao catolicismo social e político, com destaque para o político, as restantes não serão aqui tratadas. As três primeiras encíclicas têm uma carga doutrinal muito forte para o campo social e político como se o Papa quisesse fazer rapidamente a transição de pontificado marcando o seu rumo, e as duas seguintes são de ordem pastoral e sobre a família (Arcanum Divinae de 10-02-1880) e os santos Cirilo e Metódio (Grande Munus de 30-09-1880). Por conseguinte, as três primeiras encíclicas poderão estar muito ligadas ao clima de transição de pontificados.
A primeira encíclica de Leão XIII (Inscrutabili Dei Consilio de 21-04-1878) reafirma a posição do seu antecesor quanto à Questão Romana (1870-1929) e à restauração do poder temporal dos papas uma vez que a liberdade, a independência, a autoridade e o poder da Igreja eram fundamentais para a sua existência. Por outro lado, esta primeira encíclica apela, em espírito de união e veneração, à obediência e à fidelidade de todos os católicos à Santa Sé Apostólica. Trata-se de uma encíclica sobre a situação do poder e autoridade da Santa Sé para congregar todos os católicos.
A segunda encíclica (Quod Apostolici Muneris de 28-12-1878), assumindo o confronto com algumas das linhas ideológicas e filosóficas dos tempos modernos, refere-se aos males da sociedade, rejeita a iniquidade das teorias socialistas, comunistas e niilistas que não respeitam a propriedade nem a autoridade, acusa os «delírios da razão» por recusarem a revelação e suprimirem a «ordem sobrenatural», contesta a origem da autoridade na multidão e não em Deus, condena o «igualitarismo socialista» e o abuso do poder, afirma a «sociedade doméstica» como a base da sociedade civil e defende a submissão da mulher ao homem. Em síntese, nesta encíclica está a preocupação com a
64 Os países referenciados são: Alemanha, Áustria, Baviera, Bélgica, Brasil, Canadá, Escócia, Espanha, Estados Unidos da América, França, Hungria, Irlanda, Perú e Polónia. Implícita ou explicitamente e de acordo com as circunstâncias de cada nação, nestas encíclicas recomenda-se o respeito pelo poder estabelecido como condição de tranquilidade pública, a ligação da religião católica à afirmação das nações, faz-se apelo à participação dos católicos nos assuntos públicos e à não intervenção da Igreja nos assuntos do país, embora, por vezes, condene certos atos como os duelos de honra no
«Império Alemão e Áustria-Hungria» e o casamento entre crentes de diferentes religiões, no Perú, para defesa da pureza do catolicismo.
65 As 4 encíclicas dirigidas a Portugal ocorreram em momentos específicos como seja a situação e dinamização da Igreja em Portugal (Pergrata Nobis de 14-09-1886 e Pastoralis de 25-06-1891), a ação evangelizadora de Portugal, especificamente no Padroado do Oriente (Ad extremas de 24-06-1893), e o estado das ordens religiosas em Portugal aquando do levantamento da questão religiosa em 1901 (Gravissimas de 16-05-1901).
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organização política da sociedade moderna e a defesa de um rumo doutrinal consentâneo com o catolicismo romano.
A terceira encíclica (Aeterni Patris de 04-08-1879) constitui, por si só, um dos pilares do pontificado de Leão XIII e destinava-se a definir as linhas principais de uma doutrina filosófica que desse suporte teórico às reformas de reafirmação da Igreja. Sem uma linha teológico-filosófica não haveria fundamento e princípios organizadores do pensamento católico para os tempos do confronto com as mais diferentes doutrinas da modernidade. Mas onde ir buscar essa doutrina? A tradição consagrava um vastíssimo contributo de escolas, mestres e práticas teológico-filosóficas desde Santo Agostinho (354 - 430), à Patrística (IV - VIII), Escolástica (IX - XV / XX), Santo Anselmo (1033 - 1109) e S. Boaventura (1221 - 1274), estes de orientação platónica e augustiniana, ou a S. Tomás de Aquino (1225 - 1274) de orientação aristotélica66.
Com o tempo, sobretudo no final do pontificado de Pio IX, foi-se clarificando a questão de uma doutrina teológico-filosófica de militância sob uma perspetiva mais pragmática que moralista, mais realista que idealista, platónica ou exageradamente espiritualista. O tomismo tinha dado provas em dois momentos críticos da Igreja, o primeiro aquando da fixação do pensamento de S. Tomás após a sua morte em 1274 e até à sua canonização (1323), o segundo na altura da Reforma Protestante, instauração da Companhia de Jesus por bula papal de 1540 e realização do Concílio de Trento (1545-1563). Por conseguinte, no último quartel do século XIX e pelo século XX adentro, adotando-se o tomismo teológico como “filosofia cristã”, retomava-se a Igreja militante, agora contra os ideários da modernidade. Esta encíclica vai marcar todo o pontificado de Leão XIII e dos papas seguintes por se apresentar de um modo programático e apologético.
A encíclica Aeterni Patris67, condensando o fundamental da “Filosofia Cristã”68, aparecia vinculada à escolástica medieval e ao pensamento de São Tomás e apresentava finalidades muito claras: restaurar o tomismo teológico como “verdadeira filosofia cristã” («perenis philosophia») nos institutos e escolas católicas em ordem a uma formação intelectual sólida do clero; renovar e atualizar
66 Roger Aubert – Aspects divers du néo-thomisme sous le pontificat de Léon XIII. In AAVV – Aspetti della Cultura Cattolica nell´età di Leone XIII – Atti del convegno tenuto a Bologna il 27-28-29 dicembre 1960, Roma: Edizioni 5 Lune, 1961, pp. 133-227.
67A primeira tradução da Aeterni Patris apareceu primeiramente n´O Progresso Catholico - Guimarães, 31-08-1879, 15-09-1879 e 30-15-09-1879. Cf. Leão XIII - Sôbre a Filosofia Cristã - Encíclica «Aeterni Patris». (Documentos Pontifícios, n.º 31). 4.ª edição, Petrópolis / Rio de Janeiro: Editôra Vozes Limitada, 1962.
68 Cf. Miguel Brunec, S.D.B. – Há ou não uma Filosofia Cristã - Católica? Lisboa: Edições da Revista Filosofia, 1960, que nos apresenta as posições de Etienne Gilson, Émile Bréhier e Maurice Blondel; Claude Tresmontant – Les Idées Maîtresses de la Métaphysique chrétienne. Paris: Éditions du Seuil, 1962; Maria Carmelita Homem de Sousa – O Problema da Filosofia Cristã: Sobre a Essência da Filosofia. Vol. I, Porto: Edição da autora, Distribuidora Livraria Tavares Martins, 1976.
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os estudos teológico-filosóficos para melhor corresponderem aos desafios culturais e intelectuais dos novos tempos, concretamente da teologia protestante; pôr fim ao ecletismo filosófico e doutrinal; pôr fim aos diferendos doutrinais no interior da Igreja, concretamente entre bispos, entre superiores de institutos religiosos e entre católicos; refutar as teses do liberalismo filosófico; enquadrar e fundamentar racional e doutrinalmente as práticas dos católicos.
Toda a encíclica Aeterni Patris se orienta no sentido da subordinação, em matéria teológica e metafísica, da Razão à Fé e da Filosofia à Teologia. Será muito considerada ou tida por muito útil a Filosofia enquanto instrumento conceptual de excecional valia ao serviço da Teologia. Diga-se que o rigor lógico-racional era requerido para suportar e vencer os diferendos com intelectuais e académicos adversários e dar consistência à doutrina teológica. Caiu-se num racionalismo de elevado grau e numa técnica conceptual e argumentativa muito esquemática. E diga-se que o esquematismo escolástico-tomista adequava-se ao esquematismo hierárquico e ortodoxo da instituição Igreja Católica no final do século XIX para, de um modo coeso e coerente, poder fazer frente aos tempos de revolução e de grandes transformações, reclamar uma União Católica como primordial preocupação e divulgar a ideia de “sociedade perfeita” onde Deus, Homem e Mundo se encontravam em perfeita e hierárquica sintonia. E daqui se deduziam outras subordinações como sejam as do Estado à Igreja, da moral à religião, da ordem social à moral, do indivíduo à comunidade. Em toda a encíclica existe uma linha fideísta que ordena e tece os vários elementos e níveis da “sociedade perfeita”.
É frequente afirmar-se que a encíclica Aeterni Patris fixa uma ortodoxia alicerçada no aparelho conceptual do Tomismo e subalterniza outras correntes teológicas, filosóficas e doutrinais, como sejam Neoplatonismo, Augustinismo, Bonaventurismo, Escotismo e Ockhamismo ligados aos franciscanos, Suarezismo ligado aos jesuítas, rosminianismo e contributos de vários autores como é o caso de Lucien Laberthonnière (1860-1932). Por conseguinte, esta encíclica toma uma posição oficial a favor de uma linha de pensamento face a uma diversidade de contributos oriundos da patrística, da escolástica e dos mestres medievais que, todos, formam o património histórico da cristandade.
Se o tomismo afirmado nesta encíclica não teve a intenção de subalternizar outras sensibilidades doutrinais, escolas ou correntes cristãs, pelo menos tentou aglutiná-las e constituir-se como o eixo central do pensamento teológico-filosófico do final do século XIX. Pode até dizer-se que esta preferência pelo tomismo vai da Aeterni Patris (1879) até à Fides et Ratio (14-09-1998) de João
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Paulo II69 e que da Aeterni Patris até ao final da 1.ª Grande Guerra se viveu uma fase ortodoxa e dogmática.
O tomismo, assente no realismo gnoseológico de Aristóteles, apresenta uma feição mais práxica e pragmática e, por isso, mais ajustada ao contexto conturbado da época. Precisava-se de uma doutrina mais aglutinadora em hora de combate, mais de alcance político e social que apenas remetida ao domínio da consciência individual ou a uma doutrina idealista de cariz místico. Se o realismo gnoseológico de Aristóteles se fundava no conceito de verdade enquanto “adequação do intelecto ao real”, será aceitável afirmar-se que o tomismo se inclinava para um «agir sobre o mundo» e não para um «renunciar ao mundo»70.
No plano histórico e social, o tomismo orienta-se por uma visão providencialista e confessional e, quanto à relação Estado - Igreja, embora aceite o princípio da distinção na harmonia, defende a subordinação do Estado à Igreja uma vez que considera a superioridade dos fins espirituais em relação aos temporais. No plano político, partindo da Política de Aristóteles fundada na lei e na autoridade, equaciona o lugar do homem na comunidade organizada referindo-o a ele como “naturalmente social e político”.
O tomismo, enquanto ideologia ou doutrina de uma instituição central de uma Igreja universal, destinou-se a «maximizar o poder sacerdotal» com um «discurso programático explicitamente político»71. Émile Poulat, fazendo a ligação entre tomismo e poder temporal dos papas e afirmando o tomismo como «fundamento teórico de uma política cristã e o princípio de uma política clerical», refere que
«”En certaines occasions et sur certains sujets, l’Église a le strict devoir d’entrer dans la politique” (14 avril 1887). Léon XIII vient d’en donner un exemple qui a déconcerté, n’hésitant pas à intervenir dans les affaires intérieures allemandes et à conseiller aux députés catholiques, dans l’intérêt supérieur de l’Église, de soutenir les projets militaries de Bismarck auxquels ils étaient fortement opposes.72»
Reafirmando-se a linha de rumo desta encíclica, outros documentos e outras disposições dos papas e da Santa Sé continuaram a reafirmar o tomismo como a doutrina oficial da Igreja Católica e a divulgar documentos que atestavam uma clara ortodoxia. Assim: Iampridem (15-10-1879) para
69Cf. João Paulo II – A Fé e a Razão - Encíclica sobre a Filosofia Cristã. Apelação: Paulus Editora, 1998.
70 Cf. Clérigos e Religiosos na Sociedade Medieval. In Lusitania Sacra, 2.ª série, tomo XVII, 2005, pp. 580-583. Este texto é uma recensão crítica a uma obra sobre os Monita Secreta falsamente atribuídos aos jesuítas.
71CF. Pierre Thibault – Savoir et Pouvoir: Philosophie thomiste et politique cléricale ao XIX.e siècle, Préface d´Émile Poulat, Québec: Presss de l´Université Laval, 3.e trimestre 1972, p. XXV.
72 Cf. Émile Poulat – L´Église c´est un Monde. Paris: Les Éditions du CERF, Paris, 1986, pp. 212, 231, 233, 235 e 246.
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restaurar a Academia Romana de S. Tomás; motu proprio Placere Nobis (18-01-1880) para ordenar uma nova edição das obras completas de S. Tomás de Aquino (Editio Leonina)73; Pergratus Nobis (07-03-1880) para apelar à divulgação do tomismo; por decreto de 04-08-1880 Leão XIII declarou S.
Tomás de Aquino patrono universal das escolas católicas74; a encíclica Licet Multa (03-08-1881) incentiva o ensino da filosofia tomista em Lovaina; breve Gravissime Nos (30-12-1892) para recomendar o ensino do tomismo aos jesuítas; decreto do Santo Ofício Lamentabili Sine Exitu (03-07-1907) sobre os erros do modernismo75; encíclica Pascendi Dominici Gregis (08-09-1907) e motu proprio Sacrorum Antistitum (01-09-1910) para condenar as doutrinas modernistas.
Fizeram-se estudos, publicações e traduções, criaram-se academias estudantis, constituíram-se sociedades de estudos filosóficos, teológicos e históricos, fundaram-se escolas, institutos e universidades, estabeleceu-se um espírito de reflexão e de rigor racional. Com toda esta dinâmica a Igreja ganhou em cultura filosófica e teológica, surgiu uma maior e melhor preparação dos sacerdotes, elevou-se o discurso da Igreja e ganhou novos contornos a pastoral dos povos.
Em Portugal, logo após a publicação da encíclica Aeterni Patris, iniciou-se um movimento neotomista com inúmeras iniciativas: criação da cadeira de filosofia tomista em várias escolas católicas76, lançamento de publicações tomistas, realização de academias, palestras e conferências.
Coimbra, Braga e Viseu destacaram-se neste movimento. Apesar de alguma dinâmica, os estudos teológico-filosóficos em Portugal não contavam com significativos núcleos e institutos que os desenvolvessem e a Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra viveu tempos conturbados na década de 80 onde ganhou destaque um conflito entre os professores dessa faculdade e o bispo-conde de Coimbra77. Quereria Roma, em sintonia com o bispo-conde e por ocasião da aplicação da encíclica Aeterni Patris, reeditar o lugar destacado que o Colégio Conimbricense da Companhia de Jesus teve nos finais do século XVI? O regalismo do período liberal não foi favorável.
73 «Os centros de estudo, as academias, as universidades, as Revistas, as iniciativas culturais que têm o seu nome ou nele se inspiram, são apenas um índice quantitativo de um triunfo que não é somente quantitativo. […] Desde que se iniciou a edição leonina, o estudo directo das fontes tornou-se dia a dia mais familiar aos investigadores.» (Luís Bogliolo – Actualidade do Tomismo. In Filosofia (Revista do Gabinete dos Estudos Filosóficos - Lisboa), n.º 22, jul.-set. 1959, p.
73.
74 Cf. J. Pinharanda Gomes – A renascença católica e a renovação da escolástica. In Pedro Calafate (dir.) – História do Pensamento Filosófico Português - O Século XIX. Vol. IV - tomo 1, Lisboa: Editorial Caminho, 2004, p. 445.
75 Cf. http://www.traditio-op.org/apologetica/LAMENTABILI_SINE_EXITU,_Pio_X.pdf .
76 Foi o seminário de Coimbra a primeira escola a introduzir a cadeira de filosofia tomista que ficou a cargo, logo em 1879, de Mons. Dr. Luís Maria da Silva Ramos (1841-1921). Cf. Escholio - Braga, 30-05-1888, pp.148-149.
Em 1880 fundou-se em Coimbra a Academia de S. Tomás de Aquino. Por incentivo desta encíclica se conseguiu novo alento em muitas ordens religiosas, nomeadamente nos jesuítas que restauraram a província portuguesa em 1880.
Também se restauraram em Portugal as ordens beneditina (1888), franciscana (19-11-1891) e dominicana (1893).
77 A análise deste conflito aparece no capítulo II-2.
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A encíclica Diuturnum Illud (29-06-1881), expondo a doutrina católica sobre a origem da autoridade, contraria a ideia liberal da origem popular do poder e afirma que a autoridade legitimadora do poder político vem de Deus. Embora conceda a eleição ou escolha pela “multidão”, não aceita a outorga dos “direitos do poder” ao governante se ele, para garantir legitimidade e dignidade, não se considerar um participante do poder divino. Esta encíclica tem também no seu horizonte uma contundente crítica às novas teorias do socialismo, comunismo e niilismo que considera uma «ameaça de morte para a sociedade civil».
A encíclica Etsi Nos (15-02-1882) faz uma crítica frontal à situação política em vigor na Itália que descristianizava a sociedade e fazia uma «guerra a Jesus Cristo» devido à extinção das ordens religiosas, confisco dos bens da Igreja, casamento civil fora do ritual católico, exclusão da autoridade eclesiástica da educação da juventude e oposição contínua à Santa Sé que se via despojada do poder temporal e assistia, em Roma, à realização de ações promovidas pelos “inimigos” da Igreja. Esta encíclica incentivava à realização de obras e congressos católicos a favor da juventude e dos operários, realização de festas religiosas, instrução dos filhos das «pessoas mais probres», difusão da boa imprensa, defesa da fé católica, ilustração do clero no dominio tanto da filosofía como das várias ciências e exortação ao estudo da encíclica Aeterni Patris. Trata-se de um programa católico para aquelas circunstâncias históricas que a Itália estava a viver no período inicial da sua unificação.
A encíclica Immortale Dei (01-11-1885), respeitante à constituição cristã dos Estados e à participação cívica e política dos católicos, é uma das mais importantes encíclicas do catolicismo político do pontificado de Leão XIII. Cortando com uma orientação de Pio IX de rejeição das sociedades liberais e de recusa de participação nos assuntos políticos, Leão XIII apelava à participação política e cívica dos católicos na vida das suas comunidades quer municipais quer nacionais. E refere-se mesmo no ponto 54 da encíclica:
«Será geralmente útil e louvável que os católicos estendam a sua ação além dos limites desse campo demasiado restrito e se cheguem aos grandes cargos do Estado. […] Abstendo-se eles, as rédeas do governo passarão sem contestação às mãos daqueles cujas opiniões certamente não oferecem grande esperança de salvação para o Estado.»
Dirigindo-se à «esfera das coisas humanas» ou terrenas, a encíclica trata da fundação cristã dos Estados num confronto com as novas teorias sociais. Assim, para os católicos poderem viver inseridos na comunidade organizada, mesmo sob a tutela das novas teorias que não aceitam a origem divina do poder, terão de aceitar os poderes constituídos ou a «autoridade dos príncipes» e rejeitar a sedição que é um «crime de lesa-majestade, não só humana, mas divina». Afirmando a separação entre Deus e César, entre «poder eclesiástico e poder civil», recomenda que «haja entre os dois poderes um
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sistema de relações bem ordenado, não sem analogia com aquele que, no homem, constitui a união da alma com o corpo». Contestando ideias regalistas, a Immortale Dei, embora rejeite a sujeição da Igreja aos Estados, «não vê com maus olhos as formas mais modernas dos sistemas políticos» nem
«repele em bloco todas as descobertas do génio contemporâneo» nomeadamente no campo das ciências, do estudo da natureza e da cultura em geral. Por fim a Immortale Dei, assumindo a união católica como um dos seus princípios mais elevados, recomenda que «não se deve deixar lugar algum às dissensões intestinas ou ao espírito de partido; mas, num acordo unânime dos espíritos e dos corações, todos devem perseguir o escopo comum, que é salvar os grandes interesses da religião e da sociedade»78.
Dirigindo-se aos católicos alemães pela encíclica Jampridem nobis (06-01-1886), Leão XIII, em pleno período da política bismarckiana da Kulturkampf, conforta os católicos e sua hierarquia, lamenta as leis contrárias ao catolicismo, reclama o direito aos estudos católicos nos seminários e solicita-lhes a manutenção da fé católica. Estavam em causa os avanços do protestantismo na Alemanha e no mundo.
Seguindo a linha da Diuturnum Illud (29-06-1881), a Libertas praestantissimum (20-06-1888)79 expõe a doutrina católica sobre a liberdade e o liberalismo. Começando pela exaltação do conceito de liberdade e afirmando que a Igreja é defensora da liberdade, refere que «o fim supremo, para o qual deve tender a liberdade humana, é Deus». Coerente com uma perspectiva teológica, refere que o poder legítimo vem de Deus e que quando isso não acontece será «legítimo desobedecer aos homens a fim de obedecer a Deus». Em seguida expõe doutrina sobre a falsa liberdade dos liberais, sobre o liberalismo radical consumado no racionalismo e no naturalismo filosóficos, sobre o liberalismo do Estado que quer separar-se da Igreja, condena o Estado ateu, aponta limitações para a liberdade de expressão e a liberdade de ensino, incentiva os estudos nas várias ciências, refere a tolerância da Igreja e a intolerância do liberalismo e conclui com o apelo à participação política dos católicos e à busca de uma organização política que recuse o despotismo e se guie pelo bem comum e pela justiça.
Com a encíclica Exeunte jam anno (25-12-1888) Leão XIII pretende fazer a enumeração e a crítica às doutrinas da modernidade que mais explícitamente contrariavam o exercício da vida cristã.
Lamenta a falta de orientação religiosa na escola pública e na vida pública e privada que seguem
78 Cf. António Manuel Martins - Recepção em Portugal das encíclicas sobre o Liberalismo: Mirari Vos, Quanta Cura e Immortale Dei. In Igreja e Sociedade em Portugal no século XIX. Lusitania Sacra, 2.ª série, tomo I, 1989, pp. 41-80.
79 Leão XIII – Sobre a Liberdade Humana (Libertas Praestantissimum). 2.ª edição, Petrópolis - Rio de Janeiro - São Paulo: Editora Vozes L.da, 1950.