Capítulo IV. Apresentação e Análise dos Dados
1.1. Encaminhamento de alunos para processo de TVA
Este tema remete-nos para o conteúdo das representações sociais dos directores de turma que se pronunciam sobre os aspectos facilitadores e inibidores da inclusão de alunos com NEE na escola e ao próprio conceito de TVA, para justificar decisões de encaminhamento de alunos para processo TVA.
Da análise dos protocolos obtivemos 3 categorias, tal como ilustra o seguinte quadro:
Categorias Subcategorias Relações entre pares
Intervenção do professor Organização curricular 1 Condições de Inclusão na escola
Organização do espaço Conceitos
Objectivos
Critérios de selecção dos alunos 2 Processo de TVA
Critérios de selecção dos locais de experiência laboral
Como se pode verificar o conteúdo do discurso dos directores de turma sobre as razões de encaminhamento dos alunos para TVA inclui a referência a diferentes aspectos da realidade das escolas, designadamente: (i) a organização do sistema escolar (ii) as intenções e práticas pedagógicas e (iii) as relações pessoais e sociais vividas pelos alunos no interior da escola.
Relativamente à categoria processo de TVA, são referidos essencialmente os elementos que o caracterizam como modelo de intervenção (i) definido por conceitos (ii) orientado para a concretização de objectivos específicos (iii) regulado por critérios que delimitam a possibilidade de acesso por alunos com NEE (iv) e a escolha dos locais de experiência laboral.
De seguida aprofundaremos a análise destes aspectos, tendo em conta as diferenças na distribuição das referências a cada um destes aspectos.
Categoria 1: Condições de inclusão na escola
Subcategoria Indicadores UE*
N=6
U.R** 16 Os alunos bons auxiliam os alunos com NEE 1 2 A turma aceita os colegas com NE.E. 2 4
Jogam futebol 1 1
Relações entre pares
Total 7
Explicar aos alunos as diferenças entre todos 2 2 Sensibilizar para a aceitação da diferença 2 3 Dar mais atenção aos alunos com NEE 2 4 Intervenção do
Professor
Total 9
* UE – Unidades de Enumeração
**Total de UR (Unidade de Registo) da Categoria
Como se pode observar pela análise da frequência das referencias a este tema, os directores de turma que se pronunciaram e/ou participaram na decisão de encaminhamento dos alunos para o processo TVA, não consideraram de forma muito expressiva a escola como contexto de educação inclusiva. No entanto, as condições que são mais referidas no seu discurso dizem sobretudo respeito à dimensão ética das relações informais, que ocorrem no interior da escola e que sugerem um apelo à tolerância de todos face à diferença de alguns alunos. A única actividade que os directores de turma referem como «inclusiva» é o jogo de futebol.
Quanto à dimensão pedagógica das práticas que está a cargo dos professores parece ser referida apenas em termos da atenção individualizada requerida pelos alunos com dificuldades de inclusão, criadas quer pelo conteúdo e falta de flexibilidade do curriculo comum, quer pelas relações sociais entre pares e com adultos que ocorrem no contexto escolar. Como nos dizia o director de turma do Manuel:
“eles precisam de uma atenção especial[ ...], é um bocado dar atenção, sentar-me ao pé deles” .
Da análise da entrevista a estes directores de turma, percepcionamos atitudes inclusivas dos professores que privilegiam sobretudo a sensibilização dos alunos da turma para a aceitação da diferença dos alunos com NEE e a procura de lhes dar uma atenção especial. Embora, como sabemos, estes sejam factores que interferem, de forma decisiva na inclusão dos alunos com NEE no contexto regular de ensino, o empenho na resolução dos problemas de inclusão com que se confrontam os alunos, depende de um conjunto mais alargado de factores.
refere que a construção de uma escola inclusiva tem a ver com a liderança e a partilha de responsabilidades de todos os agentes educativos, com o sentido de cooperação na construção de um ambiente de confiança e entreajuda, e também com a flexibilidade curricular e a formação dos professores, como contributos para a valorização da amizade e a diversidade.
A análise das referências que os professores fazem aos factores que inibem o processo de inclusão dos alunos com NEE, quando se referem ao encaminhamento para TVA, e que consta do quadro que se segue, torna ainda mais evidente a necessidade de se considerarem estas condições para a inclusão na escola.
Categoria 1: Condições de inclusão na escola
Subcategoria Indicadores UE
N=6
U.R* 13 Os professores não têm tempo para o ensino
individualizado
5 7
Programa extenso a cumprir 2 3
Organização curricular
Total 7 10
Elevado número de alunos por turma 2 2 Dimensão reduzida da sala de aulas 1 1 Condições
Estruturais
Total 3 3
UR (Unidade de Registo) * Total de UR da categoria
O discurso dos directores de turma aponta como factores inibidores da inclusão aspectos organizacionais e estruturais de escola.
A falta de tempo dos professores é assumida como barreira à inclusão, o que parece revelar a dificuldade dos professores para uma acção centrada no aluno. A ideia de que «Os professores não têm tempo para o ensino individualizado» é mencionada sete vezes, e foi referida por 5 professores.
Um dos directores de turma sintetiza estes aspectos que mereceriam um maior aprofundamento da análise do contexto, com a seguinte afirmação:
- “eu tenho muito pouco tempo para dar atenção a estes miúdos..(...) tenho-os numa sala pequenita onde eles são 25, estão todos uns em cima dos outros....” (DT do
Categoria 2: Processo de Transição para a Vida Adulta
Nesta categoria reunimos as opiniões dos entrevistados no que se refere aos conceitos, objectivos e critérios de selecção de transição para a vida adulta que desmembramos em tres quadros para facilitar a análise.
Categoria 2: Processo de Transição para a Vida Adulta
Subcategoria Indicadores UE
N=6
U.R* 135 Programa de ensino c/ actividades práticas 3 4 Actividades da escola que ajudam na formação
pré-profissional dos alunos
1 1 Actividades de despiste vocacional 2 4 Período de adaptação ao mundo do trabalho 3 8 Conceitos
Total 17
Experienciar actividades de carácter prático 1 2 Adquirir regras e hábitos de trabalho 1 2 Adquirir conhecimentos práticos 5 10 Desenvolver no aluno competências para uma
profissão de carácter prático
1 2 Estar em contacto com actividades que
futuramente poderão desempenhar
4 6 Objectivos
Total 22
O que podemos verificar neste quadro é que todos os entrevistados se manifestaram relativamente às subcategorias «conceitos e objectivos» no processo de transição para a vida adulta.
A distribuição da frequência de enunciados referentes a estes dois aspectos, permite-nos percepcionar o maior grau de incidência, no discurso dos directores de turma, de algumas palavras chave, tais como período e programa que implicam a ligação entre noções de tempo e de actividade em que assenta o conceito de transição.
Se tivermos em conta as ideias base sobre transição para a vida adulta, apresentadas no Relatório Síntese da Agência Europeia para o Desenvolvimento em Necessidades Educativas Especiais (2002), podemos identificar que estes são os dois parâmetros que definem e justificam o investimento no processo transição para a vida adulta. Na perspectiva daquela instância o processo de TVA implica a noção de trabalho prévio e de um período de tempo necessário para a transição, ou seja a passagem de um nível educacional ou de um estádio de vida para outro que por sua vez implica mudanças na situação pessoal e profissional dos sujeitos.
Os depoimentos de alguns directores de turma põem em evidência esta noção entre tempo como transição e como espaço de realização de actividades que preparam os alunos para ingresso na vida adulta que se pretende com o processo de TVA e que é por eles definido nos seguintes termos:
- “...os alunos em currículo alternativo, em estágios no mundo do trabalho, têm
esse período de adaptação algo que será mais tarde a sua vida no mundo do trabalho...” (DT da Joana);
- “... será um programa de ensino, actividades para jovens que não se integram no currículo normal escolar... (DT do Dario);
-“A transição para mim seria fazer com que eles tivessem oportunidade de estar em contacto com várias actividades...”(DT do João).
A incidência dos enunciados incluídos na subcategoria Conceitos, apontam também para o facto dos directores de turma identificarem o processo de TVA com actividades de despiste vocacional, preparação pré-profissional e desenvolvimento de competências para a vida adulta, sendo estes argumentos orientados para um tempo futuro. Futuro que é antecipado pela criação de um período de adaptação ao mundo de trabalho e de aprendizagem de regras de hábitos de trabalho.
Um outro aspecto a realçar é a ênfase que estes directores de turma dão à natureza das actividades proporcionadas no processo de TVA. A subcategoria Objectivos da TVA, reúne um conjunto de 5 indicadores cujo conteúdo salienta o facto, das experiências e mesmo dos interesses dos alunos incidirem sobre actividades práticas, que por sua vez visam a aquisição de conhecimentos de carácter prático, no momento presente.
Categoria 2: Processo de Transição para a Vida Adulta
Subcategoria Indicadores UE
N=6
U.R* 135 Baixo nível de competências nas áreas académicas 6 18 Desmotivação pelas actividades escolares 5 11
Baixo nível de concentração 2 2
Problemas afectivos 2 2
Dificuldades na relação com adultos 2 2 Critérios de
encaminhamento/ elegibilidade dos alunos
Falta de assiduidade na escola 1 2
Idade mínima (13 anos) 5 5
Frequência mínima de um ano lectivo no 2ºciclo 4 4
Total 60
Relativamente à subcategoria Critérios de encaminhamento/elegibilidade dos alunos, constata-se que uma grande incidência no discurso dos directores de turma faz referência a factores psicológicos como critérios que justificam o encaminhamento dos alunos para TVA. Podemos verificar que a soma das referências ao baixo nível de competências nas áreas académicas, a desmotivação pelas actividades escolares e o baixo nível de concentração constituem mais de metade das unidades de registo.
Por outro lado sobressaem entre os critérios de elegibilidade dos alunos para o processo de TVA aspectos sócio-relacionais identificados em termos de dificuldade na relação com pares e na relação com adultos e de problemas afectivos.
«Falta de assiduidade na escola», a «Idade mínima» e a «frequência mínima de um ano lectivo no 2º ciclo», que se referem a uma outra ordem de factores, de natureza mais jurídico-administrativa que, de alguma forma, tanto podem sugerir quanto constranger o encaminhamento dos alunos para o processo TVA.
O encaminhamento dos alunos para TVA parece assim ser justificável por diferentes formas. Os directores de turma combinam razões e motivos de natureza cognitiva e pedagógica, social e afectivo-relacionais e juridico-administrativos, que se apresentam como passíveis de abordagem e de resolução no processo de transição para a vida adulta que se segue ao período de permanência do aluno em contexto educativo regular.
A decisão de encaminhamento com tudo o que esta comporta enquanto antecipação da separação dos alunos do seu contexto social de pares e do ingresso no mundo laboral caracterizado pelo desempenho de papéis e tarefas produtivas que são sancionadas na relação social entre adultos, justificam o encaminhamento. Este assenta na expectativa de que os alunos em processo de TVA podem beneficiar não só de situações de aprendizagem normalizantes, como usufruir da interacção com os seus pares.
Importa no entanto referir que de acordo com o Decreto-lei 319/91, a desmotivação pelas actividades escolares que é referida por 5 directores de turma como um critério de selecção de alunos para TVA, o baixo nível de competências ou o baixo
nível de concentração, os problemas afectivos e as dificuldades na relação com adultos, isoladamente não constituem critério de selecção para TVA. O que o artigo 11º sugere que a aplicação de currículos alternativos a alunos com NEE só poderá acontecer como última medida, por ser considerada a mais restritiva de todo o decreto, só devendo ser aplicada a alunos com necessidades educativas especiais, decorrentes de deficiências físicas e mentais.
No estudo realizado pelo Ministério de Educação (2001), a que fizemos referencia anterior neste trabalho, constatou-se que existe “a ideia dominante de se iniciar o processo de transição muito perto da idade considerada terminal para o cumprimento da escolaridade obrigatória, ou seja, 15 anos”. No entanto, 20,2% das escolas estudadas referiram como idade ideal para iniciar o processo de transição para a vida adulta, os 14 anos.
Se atendermos ao quadro nº1, relativo ao discurso dos Directores de turma que entrevistámos, podemos verificar que alguns referem os 13 anos ou a frequência mínima durante 1 ano no 2º ciclo para início do processo de transição. Nos casos mencionados neste estudo a idade dos alunos é igual ou superior aos 14 anos.
Categoria 2: Processo de Transição para a Vida Adulta
Subcategoria Indicadores UE
N=6
U.R* 135 Interesse revelado pelo aluno numa determinada
actividade prática
6 12 Interesse revelado pelo aluno em exercer a profissão do
pai
1 1 Critérios de selecção
de locais de experiencia laboral
Interesse revelado pelo aluno no encaminhamento para TVA em instituição
Disponibilidade dos locais de experiência laboral 4 5 Proximidade das empresas à casa do aluno 2 3 Proximidade das empresas à escola 2 2 Alunos com problemáticas mais graves são
encaminhados para processo T.V.A em instituição
5 7 Alunos indecisos na escolha de uma área profissional
são encaminhados para processo T.V.A em instituição
1 2 Alunos com problemáticas menos graves são
encaminhados para processo T.V.A em empresa
1 1
Total 36
UR(Unidade de Registo) Total de UR da categoria
Na análise dos conteúdos constantes nesta subcategoria, podemos encontrar enunciados que nos remetem também para diferentes ordens de argumentos de natureza científica, económica e educativos que são reconhecidos pelos directores de turma como critérios de selecção dos locais de experiência laboral.Um dos argumentos prende-se com o interesses revelados pelos próprios alunos por actividades de natureza prática e/ou que coincidem com a profissão dos pais ou com o próprio contexto institucional em que estas actividades serão aprendidas (instituição, empresa etc.).
Refere um dos Directores de turma:
“Em primeiro lugar é importante ver o que é que os miúdos gostam mais de fazer em termos práticos. Se gostam mais de uma caixilharia, garagem de automóveis, de serralharia. Portanto o que se procura primeiro saber é o que é que eles gostam de fazer, o que eles têm mais jeito e o que querem para o futuro deles.” (DT do Bernardo)
No entanto os Professores mencionam que a escolha do local para a experiência laboral, é determinada também pela disponibilidade dos locais laborais existentes na zona de residência dos alunos (proximidade geográfica) embora tenham em conta a problemática dos alunos.
Dois directores de turma referem como critério a proximidade das empresas à casa do aluno ou à escola. A disponibilidade dos locais de experiência laboral é um indicador apontado por 4 professores. Estes critérios reflectem, quanto a nós, a preocupação da escola na criação de redes de suporte na comunidade.
Os directores referem também como critérios de escolha do local de experiência laboral, o tipo de problemáticas dos alunos. Aludem que nas situações de dificuldades
mais graves os alunos são encaminhados para processo TVA em instituição, para onde são encaminhados também os que ainda estão indecisos na escolha de uma área profissional. Apenas 1 professor refere o encaminhamento para empresas dos alunos com problemáticas menos graves, como uma possibilidade.
De salientar o facto dos directores de turma apontarem a instituição como melhor escolha para alunos com problemáticas mais graves e para alunos indecisos na escolha de uma área profissional, parecendo justificar-se pelo facto de estes considerarem que na instituição os alunos ficam mais “protegidos” e são melhor orientados.
Os testemunhos seguintes parecem elucidativos da análise anterior.
- “...quanto mais a situação do aluno é complicada mais é usado o espaço restrito onde pode ser acompanhada vigiada e controlada” (DT da Joana); - “...a instituição tem outro acompanhamento...”(DT do João);
- “...era uma empresa muito pertinho de casa dele... podia ser um futuro para ele...” (DT do João).
Em suma, podemos inferir que os directores de turma entrevistados respeitam e valorizam, na selecção dos locais de experiência laboral, o interesse revelado pelo aluno numa determinada actividade prática. Por outro lado o tipo de encaminhamento dos alunos varia não apenas em função das suas problemáticas, mas também em função da disponibilidade dos locais de experiência laboral, com que se pretende responder adequadamente a cada jovem.