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Encerro a presente categoria com um caso recente,

No documento Portal Luz Espírita (páginas 104-111)

Casos de xenoglossia obtidos com o automatismo escrevente (psicografia)

Caso 25 Encerro a presente categoria com um caso recente,

legitimamente famoso. Embora o conheçam todos os que se ocupam com as pesquisas metapsíquicas, não posso furtar-me a referi-lo em desenvolvido resumo.

Aludo aos vários e maravilhosos episódios de xenoglossia, na língua chinesa, obtidos em Boston com a médium Sra. Margery Crandon, de envolta com o fenômeno de “correspondência cruzada” a grande distância, consistindo esse fenômeno em os médiuns Valiantine, numa sessão em Nova York, e o Doutor Hardwick, numa sessão em Niagara Falls, escreverem, na mesma noite e quase à mesma hora, mensagens correlatas em língua e caracteres chineses, tendo sido tudo predisposto e previamente anunciado pelo Espírito-guia “Walter”, falecido irm~o da médium Margery.

No episódio que se vai ler, a “correspondência cruzada”, com o médium de Niagara Falls, Doutor Hardwick, faltou; mas, foi obtida com

o médium Valiantine, em Nova York. Tomo o episódio à revista norte- americana Psychic Research (1928, pág. 496-502)

De acordo com as instruções dadas pelo Espírito-guia “Walter”, na noite de 17 de março de 1928, às 21 horas, realizaram-se sessões em Boston, Nova York e Niagara Falls, com os médiuns mencionados acima.

No grupo de Boston, iniciador dos trabalhos, manifestou-se logo “Walter” por meio da voz direta e anunciou que estava tomando providências sobre a energia necessária para a manifestação daquela noite, em que operariam personalidades espirituais chinesas.

Relatando o caso, prossegue assim o doutor Richardson:

Depois, “Walter” mandou que provêssemos de papel e lápis o médium, que lhe deixássemos em liberdade as mãos, que acendêssemos uma lâmpada vermelha e que não interviéssemos enquanto o médium não houvesse concluído. Margery tomou do lápis e começou a escrever, do alto da primeira página do caderno, em nove colunas verticais, porém com tal rapidez que aos experimentadores se afigurava estar a sua mão apenas agitada por intensíssimo tremor. O tempo mais longo empregado em escrever uma das tais colunas foi somente de 17 segundos e de 12 segundos o mais breve. Quando, às 21h33 terminou a sessão, examinou-se a folha escrita, verificando-se que se não tratava de garatujas informes e sim de caracteres que tinham toda a aparência dos caracteres chineses... As 21h55, Margery, já despertada, se sentiu de novo impelida a escrever automaticamente e, em plena luz branca, escreveu, com muito menor rapidez, outras cinco colunas de caracteres chineses.

Isso é tudo o que se passou no grupo de Lime Street, em Boston.

Há mesma hora, realizou-se em Nova York, com o médium Valiantine, uma sessão, durante a qual uma “voz” se dirigiu à Sra. Cannon, saudando-a em chinês e dizendo ser “Kung-Fut-Ze”, para logo depois acrescentar, em inglês: “Tentarei: uma, duas ou três vezes.” Perguntou-lhe a Sra. Cannon se queria dizer que já tentara manifestar-se por três médiuns e a “voz” respondeu afirmativamente. Ao terminar a sessão, Valiantine escreveu, desperto, o nome “Kung-FutZe” e imediatamente encheu uma coluna de caracteres chineses.

O fato foi logo comunicado pelo telefone para Boston, Lime Street. Não se obtiveram manifestações no grupo de Niagara Falls.

As páginas escritas em chinês pela médium Margery foram submetidas ao exame de dois chineses cultos — os doutores Hsich e F. Huang — sendo ao

mesmo tempo enviada cópia ao eminente orientalista europeu, professor Whymant. Todos informaram acordemente que se tratava de autêntica escritura chinesa, em caracteres antiqüíssimos, escritura que os doutores do Celeste Império definiram, qualificando-a de “chinês original”, difícil de ser interpretado por quem não possua profunda cultura clássica. Nada obstante, os doutores Hsich e Huang se dedicaram com grande empenho a fazer uma tradução cuidadosa, declarando, porém, que pessoa mais enfronhada na literatura clássica talvez apanhasse com mais fidelidade certos matizes do pensamento do escritor. A tradução é longa (44 linhas da revista) e o texto consta de sentenças e conselhos morais e filosóficos.

Ora, conforme observa o Doutor Richardson, “tendo “Walter” anunciado previamente que Confúcio interviria, alguns dos presentes formularam perguntas de ordem geral, apropriadas à personagem que viria manifestar-se. Essas perguntas não foram escritas, mas o sentido delas se subentende das respostas obtidas”. Daí se deve inferir que tenha havido correlação entre as perguntas feitas e o conteúdo do texto chinês.

É de notar-se que a tradução do Doutor Whymant concorda com a dos doutores chineses, embora difira mais ou menos desta, quanto aos matizes do pensamento interpretado, o que, naturalmente, era de esperar-se, em se tratando de caracteres ideográficos, semelhantes aos caracteres egípcios, coisa que os doutores chineses haviam antecipadamente declarado.

A esse propósito, observa o Doutor Whymant: “Os caracteres são genuinamente chineses e apresentam forma normal. Nota-se apenas certa falta de firmeza nos ligamentos, como também ausência de simetria e de regularidade, o que leva a concluir-se que a mão que escreveu era a de um forasteiro. Noto igualmente que nenhum dos caracteres apresenta sinais de abreviação, num ditado tão longo, que nenhum literato chinês escreveria sem fazer uso de abreviações... Além disso, em todas as folhas mediunicamente escritas sobressai a errônea direção da grafia, que parte da esquerda para a direita...”

Loc. cit., págs. 571-573

Com relação a esta singularidade, o Doutor Richardson assim se pronuncia:

Para esta última particularidade já o empregado japonês da casa Grandon nos chamara a atenção. Varias vezes ele nos pedira para traduzir alguns escritos chineses, mais breves, que obtivéramos (quase sempre representação de algarismos) e constantemente nos observara que aqueles caracteres eram, com efeito, escritos em bom chinês, mas traçados em direção errada: da esquerda para a direita, em vez de o serem da direita para a esquerda. Acabara por se mostrar espantado com a teimosia de Margery em

querer escrever chinês daquele modo, declarando-lhe que, se desejava aprender a língua chinesa, tinha que se decidir a escrever no sentido contrário ao que o fazia!

Nas suas conclusões sobre a sessão de 17 de março, observa o Doutor Richardson:

Resumindo esta experiência, devemos, antes de tudo, fazer ressaltar que nela, como já nas duas análogas anteriormente citadas, “Walter” teve parte secundária, no que respeita ao desenvolvimento dos fatos, parte que, todavia, resultou muito importante, uma vez que foi ele quem tudo predispôs e quem regulou o aparelho — direi assim — do qual teriam de servir-se seus colaboradores chineses. E, desde que se atente nos resultados obtidos, obrigado se é a concluir que as condições por ele previamente dispostas eram perfeitas, dada a espantosa rapidez com que Margery grafou o pensamento dos chineses que se comunicaram... Inútil acrescentar que nem Margery, nem “Walter”, nem qualquer dos componentes do círculo dos experimentadores possuía a mínima noção, normalmente adquirida, da língua e da literatura chinesas. Em face destas circunstâncias, a que fica reduzida a hipótese de uma “personalidade segunda”, como agente presumível da mediunidade de Margery?... (Pág. 501.)

Mas, se a hipótese de uma “personalidade segunda” fica arrasada e aniquilada, no caso de uma médium que escreve com fulminante rapidez em língua e caracteres chineses, que se há de dizer diante deste outro episódio em que a chamada “personalidade segunda” pede se lhe forneça uma sentença qualquer, para transmiti-la em seguida aos seus colaboradores chineses, que a reproduzem traduzida em chinês, por via do médium de Niagara Falls, a 500 milhas de distância, quase simultaneamente?

Refere o Doutor Richardson:

“Walter”, por iniciativa sua, pediu ao Sr. Bird que desse uma sentença breve e clara, sentença que ele se encarregaria de transmitir aos seus colaboradores chineses, os quais, a seu turno, a reproduziriam pelo médium Hardwick, em Niagara Falls, traduzida em chinês. O Sr. Bird deu o seguinte provérbio: “Uma pedra que rola não se cobre de musgo”. “Walter” o aceitou, fazendo a propósito alguns comentários humorísticos... Ao mesmo tempo, em Niagara Falls, o Doutor Hardwick, em transe... produziu catorze caracteres

chineses, dispostos em duas colunas... que o professor Lees traduziu assim: “Um preceptor que viaja não guarda dinheiro”. Ora, não há quem não veja, nessa versão livre do provérbio do Sr. Bird, racional transporte, para a atmosfera intelectual chinesa, de um conceito metafórico dificilmente acessível às mentalidades chinesas numa versão literal. Direi mesmo que a tradução livre, interpretação fiel do significado da sentença proverbial, oferece uma amostra muito sugestiva do temperamento chinês, amostra mais convincente do que se tratasse de uma versão literal do próprio provérbio.

Loc. cit., págs. 502-503.

Indubitavelmente, aquela tradução livre, donde ressalta mais claro e preciso o conceito moral, um tanto ou quanto obscuro, do provérbio oferecido pelo Sr. Bird, demonstra mais que nunca a absoluta autonomia das Inteligências que presidiam às manifestações em apreço. Concorre, pois, fortemente para robustecer, no sentido espiritualista, o valor teórico das outras eloquentes circunstâncias de fato, aqui consideradas, relativas à transmissão, quase instantânea, a uma distância de 500 milhas, do provérbio confiado a “Walter”, no grupo de Boston, e sua tradução em língua chinesa, com caracteres também chineses. É uma circunstância esta última que não há como se atribuir aos poderes de uma efêmera personalidade subconsciente, visto que a médium e todos os presentes ignoravam a língua chinesa, com seus dificílimos e intrincados caracteres ideográficos.

Resumindo os fatos, o Doutor Richardson acentua nestes termos o maravilhoso incidente:

Iniciamos as nossas experiências no firme pressuposto de que o transe de Margery fosse de origem autossugestiva, que a sua clarividência fosse consequente à autossugestão e que certos efeitos pós-hipnóticos se deveriam atribuir a uma personalidade secundária da mesma Margery, personalidade que denominávamos “Walter-Margery”. Porém, agora, como seria possível persistir em tal hipótese, uma vez que “Walter” continua a manifestar-se, mesmo quando Margery está a uma distância de oito milhas? Como, se nessas condições ele é capaz de exercer “controle” não só sobre Margery distante, mas também sobre dois médiuns ainda mais distanciados? Como persistir em tal hipótese, quando algarismos, diagramas, pensamentos, expressos em inglês e enunciados em Boston, surgem, poucos minutos depois, traduzidos em boa língua chinesa, a centenas de milhas dali?

Em face das circunstâncias expostas, penso que todos hão de convir nisto: em que a melhor maneira de se harmonizarem os fatos consiste em aceitar a hipótese espirítica, isto é, reconhecer que “Walter” é realmente quem ele diz ser: irmão de Margery, sobrevivendo à morte do corpo...

A propósito de outro caso análogo, que não relato para ser breve, observa o mesmo professor:

Entretanto, em Niagara Falls, alguém se mostrou capaz de referir todos os pormenores (do que ocorrera na sessão que contemporaneamente se realizara em Boston, Lime Street), em perfeito e ótimo chinês clássico. Se isto não se deu por obra de “Walter”, com a coadjuvação de entidades espirituais chinesas, quem poderia ser então a personalidade comunicante? Formulamos esta interrogação, não porque tenhamos predileção qualquer pela hipótese espírita, mas no desejo honesto de saber qual alternativa se poderia conceber, para explicar os fatos aqui relatados e os que os precedem.

Loc. cit., pág. 505.

Parece altamente digna de atenção esta observação final do Doutor Richardson. Ele, em suma, se mostra empenhado em tornar manifesto que nenhuma intenção tem, nem qualquer inclinação, para advogar a causa da interpretação espiritualista dos fatos; que foram estes que, lógica e inexoravelmente, o conduziram a reconhecer a necessidade de admitir para eles a interpretação espiritualista. Assim sendo, dirige-se aos seus colegas do meio científico, a fim de que lhe sugiram alguma hipótese naturalística que explique cumulativamente os fatos.

Por outras palavras: em homenagem à pesquisa da Verdade, pela Verdade, quer ele e pede que o contradigam, se for possível. Pode, porém, ficar certo de que ninguém sairá a contradizê-lo, por isso que a empresa é impraticável: os fenômenos de xenoglossia que ele expõe assumem o valor de uma “prova crucial”, irrefutável e definitiva, a demonstrar a presença real, nas sessões, de entidades espirituais independentes da médium e dos presentes. Um século talvez ainda passe, antes que os psicólogos e os fisiologistas o reconheçam; mas, isso não impede que aquela verdade já se ache cientificamente e inabalavelmente demonstrada pelos fenômenos metapsíquicos, em

geral, e, em particular, pelos de xenoglossia.

Advirto que no grupo, que temos apreciado, de manifestações em língua chinesa, resta citar um episódio que, sob certos aspectos, é o mais importante de todos, episódio que coloquei na categoria que se segue, por não se haver produzido mediante a psicografia, mas pela

Categoria III

Casos de xenoglossia obtidos

No documento Portal Luz Espírita (páginas 104-111)