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Encontrão IV do Protocolo Comunitário do Bailique

No Encontrão IV, ocorrido na comunidade de Aparecida, em julho de 2015, tive a oportunidade de estabelecer o primeiro contato com o Arquipélago do Bailique, as comunidades que o compõem e o projeto que lá se desenvolvia. Aquele momento era decisivo para o futuro do PCB. A partir dos problemas identificados na primeira fase e dos objetivos a serem perseguidos, a Rede GTA articulou contatos com instituições e pessoas interessadas em atender às demandas das comunidades e firmar parcerias com as comunidades locais.

Para este momento, foram convidados uma jornalista, um advogado, representantes do extinto Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Natura, da Embrapa, do Instituto Socioambiental, professores pesquisadores da Universidade Federal do Amapá, e turismólogos. O objetivo em convidar estes sujeitos estava em que pudessem dar ideias ao aprimoramento das cadeias produtivas dos produtos da sociobiodiversidade e utilizar as potencialidades locais de geração de renda, além de buscar soluções para a regularização fundiária e conflitos pela garantia o território ribeirinho. Além disso, ocorreu o lançamento oficial, com a entrega dos exemplares do Protocolo Comunitário do Bailique e da cartilha da metodologia já citada anteriormente. Esteve presente, também, um representante da empresa Natura para anunciar a destinação do montante de R$ 100 mil reais para investimento no projeto,por meio de repartição indireta de benefícios. Segundo o representante, a empresa não possuía

interesse em manter relações comerciais com as comunidades bailiquenses, ao menos neste momento.

Compareceram em torno de 150 pessoas no evento, representando as comunidades integrantes no projeto, que permaneceram atentas às propostas expostas pelos convidados. Todos e todas deliberavam rapidamente, aceitando cada uma delas, em um processo de consentimento liderado pelo presidente da Rede GTA. Tudo se encaminhou muito bem neste momento. As comunidades possuíam muita confiança na Rede GTA, e tinham esperança de que todo o trabalho em torno do PCB traria bons frutos para todo o arquipélago.

Em minha primeira análise, ainda em 2015, para a confecção do trabalho de conclusão de curso, não me atentei para o protagonismo dos atores externos35 no

processo de tomada de decisão. O discurso da Rede GTA acerca do empoderamento das comunidades no processo de construção do PCB poderia estar encaminhando, na verdade, para a dependência dos coordenadores do projeto em sua relação.

35 Por atores externos me refiro a todos os agentes que não pertencem às comunidades ribeirinhas do

Bailique, que são os atores internos.

Fonte: Elaborada pelo autor, 2015.

Analisando mais detidamente os papeis desempenhados no PCB, percebo que a agência das comunidades foi meramente secundária, principalmente, se observarmos o processo de tomada de decisão, em total desrespeito ao consentimento livre, prévio e informado. Isso ocorreu na medida em que os planos de vida das comunidades foram substituídos pela noção de desenvolvimento dos atores externos, que limitam o leque de decisões por escolhas predeterminadas pelo grupo executor do protocolo, a Rede GTA.

A articulação em torno de parceiros, investidores, pesquisadores e empresas ficou a cargo da Rede GTA.Durante os Encontrões, esses atores externos foram - e são - levados ao arquipélago para que as decisões sejam legitimadas pelas comunidades, o que, revela uma inversão dos papéis, se considerarmos o discurso em torno do empoderamento baseado em um projeto de desenvolvimento local. A agência das comunidades no processo de busca do seu próprio desenvolvimento é ofuscada pela coordenação do projeto, que tenta suprir as dificuldades de acesso e comunicação do território com o mundo a partir de suas próprias conexões, substituindo os ribeirinhos no papel de coordenar, também, o rumo do protocolo comunitário.

Essa crítica já foi levantada por Blaser (2000), que defende que os projetos de desenvolvimento subordinam as comunidades a um ritmo de atividades que serve a interesses mercantis da visão de desenvolvimento levantada pelos atores proponentes/executores, quando essas propostas estão dissociadas do modo de vida local e são construídas sem a efetiva participação das comunidades.

Primeiro, deve-se levar em conta que o processo de consentimento livre, prévio e informado demanda que os envolvidos tenham tempo para absorver as propostas, para discuti-las internamente em seus tempo e, caso desejem, fazendo contra-propostas e ajustes sobre o que é consultado. O consentimento também deve ser livre, conforme determina a Convenção 169 da OIT, no entanto, as comunidades são sutilmente pressionadas a aceitarem os parceiros que a Rede GTA apresenta. As deliberações ocorrem em assembleias da ACTB durante os encontrões, lideradas pelo seu presidente. Não há uma instância de debate, mesmo porque os presentes se sentem intimidados em participar, ou deixam de entender as propostas, somente votando favoravelmente.

Em segundo lugar, a presença forte da Rede GTA no processo de articulação de oportunidades de negócios, investimentos e projetos não envolve as comunidades. Durante o IV Encontrão, o presidente da ACTB ainda não possuía autonomia, seja enquanto liderança da associação, seja frente ao projeto do PCB, mesmo porque a própria associação foi criada para servir ao protocolo, e não às comunidades, além de, à época do encontrão, ter sido criada há apenas quatro meses. Com isso, as decisões importantes sobre o processo de construção do PCB e seu futuro eram reservadas aos atores externos e as assembleias as legitimavam.

Durante o evento foram sendo apresentadas propostas de projetos a serem destinados ao Bailique. A Embrapa, que já se fazia presente no local através de outros projetos, propôs o Projeto Semear. Tal projetotem objetivo de implementar áreas de coleta de sementes florestais e produção de sementes crioulas, tendo como foco principal o açaí, além de outras espécies de interesse madeireiro, não-madeireiro e farmacológico. Almeja-se que a coleta de sementes seja um negócio economicamente viável e sustentável para as famílias ribeirinhas, tendo sido visto como ponto positivo pelas comunidades.

Fonte: Elaborada pelo autor, 2017.

Fotografia 15- Viveiro na Comunidade do Arraiol com mudas de Açaí. O espaço será utilizado pelo Projeto Semear, da Embrapa.

O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)36 propôs a criação de um

Centro Vocacional Tecnológico (CVT) no Bailique. O projeto consiste em implantar uma Escola Família Agrícola (EFA), para formação de jovens no nível médio, juntamente com cursos técnicos, com base na pedagogia da alternância. O objetivo é que os jovens sejam preparados para lidar com temas específicos voltados a fármacos, alimentos e microalgas, a fimde que apliquem os ensinamentos no centro de beneficiamento de produtos da biodiversidade local.

A ideia é que o CVT no Bailique funcione sob uma unidade em estrutura de terra firme, e outra, em duas estruturas flutuantes. Em solo, funcionarão uma secretaria escolar e sala de aula, enquanto que, sobre o rio, serão instaladas salas de aulas teóricas e práticas, plantas de processamento de produtos da sociobiodiversidade, abastecidos com energia fotovoltaica e captação de água da chuva com tratamento de efluentes. Todo o projeto foi orçado em R$ 6.899.145,12 (seis milhões, oitocentos e noventa e nove mil, cento e quarenta e cinco reais e doze centavos),que seriam destinados do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

O descompasso entre o discurso oficial contido na proposta do protocolo comunitário e a sua execução só começou a se tornar claro, para mim, durante o VI Encontrão, em janeiro de 2016.Naquela oportunidade, alguns acontecimentos demonstraram o protagonismo da Rede GTA no comando do projeto do Protocolo Comunitário do Bailique, mas a fase de investigação era muito inicial naquele momento para que chegasse a esta conclusão de pronto. Além disso, eu só havia acompanhado o lado dos coordenadores do projeto, então ainda era necessário conhecer o território para ter melhor entendimento das transformações em curso. Ainda assim, surgiram algumas perguntas nesse processo: o processo de empoderamento defendido pela Rede GTA estaria realmente ocorrendo? Quem tem o comando do modelo de desenvolvimento empregado no arquipélago? As comunidades bailiquenses estariam

36 Este era o nome do Ministério antes do golpe de 2016. Com o golpe, o Governo Temer cumpriu com

sua agenda de desmonte da educação e da pesquisa e extinguiu o citado Ministério e vários outros através da Lei nº. 13.341/2016 (convertido em lei após a edição da Medida Provisória nº 726) e o uniu ao Ministério das Comunicações, formando o MCTIC – Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

preparadas para executar o projeto autonomamente? A Rede GTA estaria problematizando sua atuação no processo de construção do Protocolo Comunitário do Bailique também como ator externo? Estas foram perguntas que passei a ter mais condição de responder a partir do sexto encontro do PCB, conforme explicitado na próxima seção.