1 A IMAGEM DAS MÃOS DE PAULO HONÓRIO: O ESTÁDIO ESPECULAR DA CONSTITUIÇÃO
1.1 O ENCONTRO COM O ESPELHO: A EDIFICAÇÃO ONÍRICA DE CORPOS-IMAGENS
Em História concisa da literatura brasileira (1994), Alfredo Bosi, ao realizar considerações sobre S. Bernardo, assim como Martins (1978), afirma ser essa obra um romance ligado intrinsecamente à tensão psicológica da personagem principal. Para Bosi, Graciliano Ramos edifica uma narrativa evidenciadora do ―[...] nível de consciência de um homem que, [...] absorveu na sua longa jornada toda a agressividade latente em um sistema de competição‖ (BOSI, 1994, p. 403). Ouso dizer que, nesse relato, há uma referência ao que Freud, em psicanálise, denominou de conteúdo latente, que abordarei mais à frente, detalhadamente. Nesse caso, o crítico literário indicia um questionamento ao capitalismo. Este, em sua agressividade latente, faz com que Paulo Honório, durante o decorrer de quase toda uma vida, manifeste, de sua arena interna até a muralha que o circunda, em um único cenário, em campos distintos, o Isso: o corpo-imagem.
O surgimento de sentido, que estabelece de maneira surpreendente o ―Isso‖ de Paulo Honório, ocorre quando ele fixa os olhos nas extremidades superiores de seu corpo – ―[...] estremeci e olhei as mãos‖ (p. 167). A partir do olhar que lança sobre suas mãos,os órgãos visuais de Paulo Honório passam a ser juízes de outros órgãos seus, as mãos, os julgados. Logo, ―[...] os órgãos são juízes e julgados [...]. Donde, a relação do juízo com os órgãos dos sentidos‖ (DELEUZE, 1997, p. 168). Dessa forma,tem início o corpo do juízo de Paulo Honório que assim delineia seus membros superiores: ―Que mãos enormes! As palmas eram enormes, gretadas, calosas, duras como casco de cavalo. E os dedos também eram enormes, curtos e grossos‖ (p.164).
Essa minuciosa descrição será o paradigma da definição orgânica imaginária que Paulo Honório estabelecerá para modelar o seu corpo. As mãos, metonimicamente falando, serão as responsáveis por edificar o todo metafórico da personagem. Mas antes de ver aquilo que de alguma forma confirmaria certo traço de sua identidade, talvez por não ter conseguido assimilar bem aquela visão, a personagem busca outros artifícios para melhor compreender o que se passava e informa: ―Levantei-me e aproximei-me da luz‖ (p. 165). A partir dessa ação, Paulo Honório inicia a busca
pela constituição de sua realidade, pois distante das sombras se deteve mais atentamente à análise que se pôs a realizar.
Seria a escuridão o motivo de sua visão ter aumentado desproporcionalmente suas mãos? O cenário parece propício, pois a iluminação, ao que tudo indica, é mínima, rarefeita. Para sanar a dúvida, Paulo Honório desloca-se para um local mais iluminado à procura não somente da claridade, mas de algum objeto do ambiente que lhe possa diminuir os efeitos do que enxerga. Ao contrário disso, depara-se com aquele que exerce o papel de lhe expandir a visão e lheconectar a algo misterioso. O que parecia estar escondido faz-lhe crer ser verdade o que vira na penumbra, pois ratifica: ―As minhas mãos eram realmente enormes. Fui ao espelho‖(p. 165). E considera: ―Aproximei dele o rosto cabeludo e a mão cabeluda‖ (p.87). ―[...] estava medonho‖(p. 165). Eis o ponto: o encontro com o espelho.
Na tênue linha entre ficção e realidade, Graciliano Ramos utiliza-se da simbologia do espelho para dar o devido ajuste aos contrastes da máquina social que dilacera corpos.Conduzindo-me, então, aos campos da interface da literatura com a psicanálise, o objeto especular, permite-me estabelecer um diálogo entre a narrativa graciliânica, evidenciadora da relação biunívoca corpo/imagem de Paulo Honório, e o texto ―O estádio do espelho como formador da função do eu – tal como nos é revelada na experiência psicanalítica‖13
, de Jaques Lacan, escrito, conforme anteriormente referendado, em 1949. Para abordar a tese desenvolvida nesse texto, apresentado no XVI Congresso Internacional de Psicanálise, em Zurique, e publicado posteriormente em Escritos, no ano de 1966, o psicanalista francês utiliza-
13 Lacan desenvolve o conceito de estádio do espelho a partir da experiência a ―Prova do Espelho e a
noção do corpo próprio‖ de Henry Wallon, que em 1931 descreveu como a criança vai diferenciando gradativamente seu corpo da imagem que observa no espelho. Não faz isso, no entanto, por meio de uma dialética naturalcomo a da investigação walloniana e sim de uma operação psíquica. Cabe ainda salientar que inicialmente, o trabalho de Lacan sobre o Estádio do Espelho seria apresentado no Congresso de Marienbad, em 1936. Isso devido a realização do Simpósio sobre os resultadosterapêuticos da Psicanálise. No entanto, dez minutos após o início de sua fala foi interrompido pelo presidente do Congresso Ernest Jones. Devido à desagradável situação, Lacan não entregou às atas do Congresso o conteúdo do texto que havia apresentado, mas publica o essencial desse texto, em poucas linhas, em seu artigo sobre a família datado de 1938 na Encyclopédie Française. – tomo – La vie mentale‖. Tempos depois dessa famosa conferência Lacan expõe o mesmo texto à primeira sociedade francesa de Psicanálise – Société Psychanalytique de Paris –, em que Françoise Dolto tomou notas fiéis e abundantes que confirmam que, de fato, Lacan retomou a seguir os termos de sua exposição no artigo sobre a família (ROUDINESCO, E. Jaques Lacan: esboço de uma vida,história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.122-128)
se da metáfora do espelho, ―[...] pois o cego também terá acesso ao Imaginário e ao Simbólico, embora o Estádio do Espelho tenha sua demonstração fundada no escópico‖ (LACAN,1998, p. 97). A comparação, possibilitada pela figura de linguagem, evoca a ―[...] transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem‖ (LACAN, 1998, p. 97) para, em seu corpo, estabelecer a relação do organismo (Innenwelt) com sua realidade (Imwelt)14, ou seja, com o que orbita no mundo.
O momento desse estádio ocorre, segundo Lacan, quando o infante, entre os seis e os dezoito meses de vida, estando diante do espelho, por meio da ludicidade, ao ver seu corpo incoordenado refletido, deixa-se capturar pela imagem, interessando-se por ela, apesar de estar aquém de um chimpanzé, em termos de inteligência instrumental. Não obstante, o filhote do chimpanzé, ao ver seu reflexo no espelho, não se interessa muito por ela e, após algum tempo, seu desinteresse pela imagem é total. Com o filhote humano ocorre o inverso. Ao ver sua imagem no espelho, surge no bebê uma sucessão de movimentos. Tais movimentos passam a ser experimentados e relacionados pelo filhote humano com o meio.
Devido ao grande interesse por essa imagem que o captura, o bebê, ao se ver refletido no espelho, realiza uma tentativa de conciliar uma vivência interna perceptiva. Esta, a partir da visualização da imagem de um corpo em movimentação, relaciona-se a uma sensação de júbilo. A comparação feita por Lacan entre os dois filhotes, o do homem e o do chimpanzé, evidencia que a reação de cada um frente ao espelho, no que diz respeito à constituição do eu, se diferencia. Enquanto o chimpanzé só consegue reconhecer o vazio da imagem, a criança passa por três estágios. Num primeiro momento, confunde imagem com realidade, ou seja, com uma pessoa que acredita estar escondida atrás do frio espelho. Num segundo momento, reconhece o que vê como imagem, mas não como sendo a sua. Por fim, experimenta a jubilação ao se identificar com a imagem especular. Nas palavras de Lacan, trata-se do:
14 Os termos alemães Innenwelt e Imwelt utilizados por Lacan em seu texto ―O estádio do espelho
como formador da função do eu‖ são advindos dos ensinamentos teóricos do biólogo alemão Von Uexküll. Esse biólogo revolucionou o estudo da Antropologia ao construir a teoria do conhecimento em que evidenciava que o pertencimento de um animal, inclusive o homem, a um meio, teria, por obrigação, que ser pensado como interiorização desse meio no vivido de cada espécie.
[...] espetáculo cativante de um bebê que, diante do espelho, ainda sem ter o controle da marcha ou sequer da postura ereta, mas totalmente estreitado por um suporte humano ou artificial (o que chamamos, na França, um trotte- bébé um andador), supera, numa azáfama jubilatória, os entraves desse apoio para sustentar sua postura, numa posição mais ou menos inclinada e resgatar, fixá-lo, um aspecto instantâneo da imagem (LACAN, 1998, p. 97).
O psicanalista prossegue e conclui:
[...] o Estádio do Espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação - e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamaremos de ortopédica - e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental (LACAN, 1998, p. 100).
Os aspectos da teoria do Estádio do Espelho lacaniana são basilares para eu sustentar a proposta acerca de Paulo Honório ser, até certo ponto da narrativa graciliânica, um corpo organizado. O enigma que o espelho lhe apresenta se configura como uma grande interrogativa sobre sua identidade. A transformação, constituinte da estrutura orgânica, ocorre na personagem por ela assumir uma imagem. Na verdade, o drama precipita-se devido às fantasias que Paulo Honório deixa aflorar por intermédio da imagem de seu corpo despedaçado, seus órgãos julgados: as mãos.
Nessa imagem parcial, os dedos curtos, grossos e duros não se coordenam adequadamente, tanto que ―[...] as mãos continuam cruzadas [...] e os dedos parecem de pedra. [...]‖ (p.119). Logo, guardadas as devidas proporções, posso pensar em uma impotência motora, aspecto marcante do ―Estádio do espelho‖, em Paulo Honório. A parte de um todo despedaçado da personagem, então, serve-me de paralelo à da imaturidade biológica do infans de Lacan. Importante nessa consideração é assinalar o que pontuo: Paulo Honório, mesmo sem poder dominar, nesse momento, a coordenação dos movimentos das extremidades de seus membros superiores – a organizaçãode seu esquema corporal –, ao ver suas mãosincoordenadas, resgata um aspecto instantâneo dessa imagem, deixando-se capturar por ela.
porém, é preciso saber como ocorreu essa captura cheia de sobressaltos. A personagem percorre um longo caminho até que possa se reconhecer no que visualiza. Desse modo, o espelho – instrumento essencial para seu destino – faz com que a imagem refletida deixe emergir além das mãos enormes, outras metonímias do objeto que será sua referência – ―[...] um nariz enorme, uma boca enorme‖ (p. 221) – a ponto de a personagem ter de fechar os olhos e agitar a cabeça para ―[...] repelir a visão que [...] exibe essas deformidades monstruosas‖(p.221).
Ouso dizer que Paulo Honório sentiu-se monstruoso no sentido etimológico do vocábulo monstro. De acordo com o Dicionário latino-português (FARIA, 2003, p. 751), a palavra monstro provém do verbo latino monstrare que em português significa ―mostrar‖, ―demonstrar‖. A personagem revela/mostra a percepção que teve de si como sendo um enigma, algo que a representa para além dela mesma – a fragmentação interior do homem – trazendo à superfície da narrativa graciliânica a problemática de uma sociedade criadora de monstros e, inversamente, criatura destes.
A passagem em que Paulo Honório tenta repelir a visão que tivera, não se trata, então, de uma brincadeira proporcionada por Graciliano Ramos para o deleite de seu interlocutor. Não haverá uma imagem atrás do espelho, quando o protagonista abrir os olhos. Não existe um jogo de esconde-esconde. O efeito é bem outro. Graciliano Ramos, de maneira inusitada, por meio do juízo estabelecido pelas percepções visuais de sua personagem, faz progredir, metonimicamente, a dinâmica da formação do eu e uma grande evidência das nuanças do inconsciente social de determinada época: o monstruoso no eterno jogo alteritário.Isso equivale a dizer que na sociedade oligárquica em que Paulo Honório vive, a relação estabelecida entre opressor e oprimido é monstruosa, pois, apesar de ser baseada, única e exclusivamente na desigualdade, apresenta-se como algo normal, natural, que não possui desvios. Repelir a visão, portanto, é o mesmo que não querer enxergar o sofrimento do oprimido, as injustiças por ele sofridas.
No estranho e inevitável exercício de alteridade, o corpo despedaçado de Paulo Honório, fragmento a fragmento, órgão a órgão – devido ao resgate instantâneo do
aspecto de monstruosidade que desliza sobre os efeitos deformantes causados pela visão horrorizada que tem de suas mãos – edifica-se na imagem de um lobisomem. Paulo Honório enxerga essa figura. Num primeiro momento, não a concebe como sendo sua própria imagem, tanto que acredita ter tido um sonho e, no mundo onírico, em meio a atoleiros e rios cheios, ter se encontrado com aquele ser. Vale recordar a fala da personagem:
Pouco a pouco me fui amadornando, até cair num sono embrulhado e penoso.
[...]
A vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e a figura de um lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto, o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas pelo chão(p.193-221).
Paulo Honório continua:
Creio que sonhei com rios cheios e atoleiros.
Quando dei acordo de mim, a vela estava apagada e o luar que eu não tinha visto nascer, entrava pela janela. [...] o nordeste atirava para dentro da sacristia folhas secas que farfalhavam no chão de ladrilhos brancos e pretos. [...]
Que noite (p.193)!
Tomando o enfoque do monstruoso, o autor de Vidas secas,em uma combinação metafórica de espelho e objeto virtual, propicia a sua personagem, no jogo de espelhos, o sono e, na sequência, o sonho. Essa combinação, expressa por distorção, deformação, transposição, reflete uma imagem enigmática e inquietante para o protagonista, pois ele, se enxergando de fora, fica horrorizado ao se deparar com a unidade licantrópica e a relaciona a outro, que não ele. Mas como forma de perceber a realidade ou de entendê-la, não seria esse outro, para Paulo Honório, um dos elementos estruturantes do inconsciente social? Se sim, não representaria a validação do status quo – o caráter social – de seus antigos patrões? Sob esse enfoque, o velho Salustiano Padilha e o Pereira, seus ex-patrões e também ―seu primeiro espelho‖, representariam corpos-imagens de um organismo monstruoso.
As inversões e os espelhamentos que essas personagens sugerem são os meios de que a personagem protagonista se vale para fomentar suas reflexões. Pereira, por
exemplo, adjetivado por Paulo Honório de ―malvado‖ (p.17), em sua natureza hostil e um tanto natural, devorava-lhe ―[...] músculo e nervo‖ (p.17). Essa percepção reflete uma crítica cortante e um agudo exercício de denúncia do inconsciente social, promovido por Graciliano Ramos, acerca dos dramas vividos, não apenas em determinada época, mas em diferentes tempos e lugares.
Na tentativa, então, de livrar-se daquela imagem licantrópica que lhe causava aflição, Paulo Honório apega-se à ideia de que aquilo não passava de um pesadelo, pois ―Quando ia adormecendo, [...] Despertava num sobressalto e continha a respiração. [...] Maluqueiras de sonho‖ (p. 180). Em meio às maluqueiras de seu sonho não conseguia, talvez não quisesse ou não aceitasse, perceber nada além de ausência e falta de identificação com aquela imagem.
Acreditar que a visão fora um delírio modificaria sua percepção, seu julgamento? O sonho seria um absurdo? Uma maluqueira? Um acaso? Na esteira de Freud, para quem o sonho foi a ―via régia‖, por excelência, para a descoberta do conhecimento de processos inconscientes da mente, não. Sob esse viés, para compreender melhor a relação entre o Estádio do Espelho lacaniano e o estádio especular da personagem Paulo Honório, faz-se necessário lançar um olhar sobre A interpretação dos sonhos, publicada em 1900, por Freud. Nesse texto, o autor afirma que o sonho é provido de sentido e passível de interpretação, pois é um desejo referente a fatos primitivos que foram reprimidos na infância.
Importante salientar que oconceito de ―desejo‖ utilizado por Freud não deve ser confundido com a ―teoria do desejo‖ trabalhada por Deleuze e Guattari em o Anti- Édipo. Freud inscreve o desejo no triângulo Edípico para produzir a interpretação. Deleuze e Guattari não. Para estes, o desejo só se faz ao traçar linhas de fuga e escapar do triângulo Edípico, uma vez que ―O desejo faz correr, flui e corta‖ (DELEUZE, GUATTARI, 2010, p. 16). O desejo deleuze-guattariano é produção. Ele flui entre os seres e as formações sociais. Com isso, os indivíduos, segundo regimes diferentes, são confrontados com a radicalidade da diferença e também das dessemelhanças. Tal produção, além disso, não pressupõe qualquer falta originária inscrita no indivíduo ou no social, pois ―[...] a produção desejante é multiplicidade pura, isto é, afirmação irredutível à unidade‖ (DELEUZE, GUATTARI, 2010, p. 46).
Enfim, o desejo para os teóricos franceses é pura exterioridade e não reconhece formas instituídas.
O desejo freudiano, todavia, é relativo a um indivíduo em seu acesso ao absoluto. Nesse sentido, para embasar ainda mais a análise que faço aqui, neste capítulo, da personagem graciliânica, sigo a assertiva freudiana discutida ao longo do capítulo III de sua obra do início do século passado. No dizer do psicanalista, ―[...] o significado de todo sonho é a realização de um desejo, isto é, [...] não pode haver quaisquer sonhos, a não ser sonhos impregnados de desejos‖ (FREUD, 1996, p. 143). Esse argumento central de Freud é acrescido de um adjetivo pelo próprio psicanalista. Para o médico francês ―[...] o sonho é a realização disfarçada de desejo‖ (FREUD, 1996, p. 156). Este endereçamento – o sonho ser a realização de um desejo – não se faz de forma transparente em Paulo Honório. Desde o início, ele apresenta-se disfarçado.
Segundo Freud (1996, p. 125), mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado é comum haver partes que têm de ser deixadas na obscuridade. Isso ocorre porque durante o trabalho de interpretação dos sonhos fica evidente que existe um grande emaranhado de pensamentos oníricos, ramificados em todas as direções, que não se deixa desenredar. Freud chama esse emaranhado de ―umbigo do sonho‖, ou seja, o ponto em que o sonho é insondável. É desse ponto, em que a trama de pensamentos é particularmente fechada, que brota o desejo do sonho e também o seu sentido.
O emaranhado de pensamentos de Paulo Honório, envolto no que ele relata como sendo uma ―treva dos diabos‖, está realmente na obscuridade, pois não consegue desenredar o significado do umbigo de seu sonho, ou melhor, dessas palavras – atoleiros, rios cheios, figura de lobisomem, grande silêncio, trevas e luz. Nessa massa de pensamento, há um único ponto fora de sentido, um ponto de falha com o restante da rede que o constitui, mas que estabelece estreita ligação com o restante do conteúdo de seu sonho. Sem dúvida, aí está a possibilidade de sentido de seu sonho. Mas, a suspeita prévia do protagonista em relação ao que julga ter sonhado disfarça sua clareza em relação ao que, aparentemente, está exterior a si: a imagem licantrópica.
A imagem contraditória, impossível para Paulo Honório, só lhe vem à mente por intermédio de associações livres15, para utilizar-me de uma expressão cara a Freud. Explico melhor. A personagem graciliânica de S. Bernardo, cujo estado psíquico retém o leitor,ao relatar o que acreditou ser um sonho, fala livremente o que lhe vem à cabeça, sem se preocupar em estabelecer conexão entre suas falas, pois fica ―[...] remoendo as palavras desconexas‖ (p.192).
Em seu discurso, primeiro narra o sonho ligando-o à imagem de atoleiros. Depois, a de rios cheios, a de sombras, a de luz e, por fim, a de um nordeste furioso que espalha folhas secas pelo chão. Há nessa associação do pensamento de Paulo Honório o mesmo que Luiz Alfredo Garcia-Roza, em Introdução à metapsicologia freudiana (1991), referencia ser para Freud a interpretação dos sonhos do ponto de vista consciente: um amontoado caótico de imagens. Segundo o estudioso, o que Freud nos mostra a partir da ―[...] interpretação dos sonhos de seus pacientes e de seus próprios sonhos é que o sonho é um amontoado caótico de imagens sem sentido apenas se o encaramos do ponto de vista da organização [...] consciente‖ (GARCIA-ROZA, 1991, p. 64).
Garcia-Roza, com essa afirmativa, considera que para Freud não basta procurar sentido pelas vias do consciente, em partes ―despedaçadas‖ dos sonhos. É preciso ir além e submeter o umbigo dos sonhos, fragmentos que se ramificam em todas as direções, a uma análise evidenciadora de outra ordem: a do inconsciente. Somente assim, conforme enfatiza o teórico, os sonhos podem revelar ―[...] uma lógica própria capaz de desvelar toda a sua coerência e de nos indicar suas múltiplas possibilidades de sentido‖ (GARCIA-ROZA, 1991, p. 64). Mas o que vem a ser o