É muito provável que Francisco não conhecesse muita coisa do Islã, e possivelmente ele não conhecia nada. Ao longo de sua vida foram organizadas várias batalhas contra os muçulmanos e havia um grande preconceito diante daqueles que eram chamados filhos da
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Cf. 1 Cel II-5, FFC, 2004: 201. 121
Regra não Bulada XVI. 122
perdição (HOEBERICHTS, 2002: 30)123. Alguns autores de sua biografia, ao relatar o seu encontro com o Sultão, dizem que o pobrezinho foi se encontrar com o Sultão da Babilônia (FFC, 2004)124, seguindo “o negativismo da Bíblia e de muitos textos medievais.”, segundo palavras do próprio Frugoni (2012: 128). Pode-se perceber aqui, que provavelmente não é apenas um erro geográfico. A guerra contra o Islã tinha uma conotação religiosa e cultural. O Papa Inocêncio III dizia que era chegada a hora de exterminar a besta (HOEBERICHTS, 2002: 30), uma clara alusão ao Apocalipse que diz: “Um segundo anjo o seguiu, dizendo: ‘Caiu! Caiu a grande Babilônia que fez todas as nações beberem do vinho da fúria da sua prostituição! ’” (cf. Ap 14,8). O Sultão da Babilônia ganha aqui uma característica carregada de significados, um inimigo que leva os homens à perdição e que deve ser derrotado em nome do Senhor. Se na mentalidade dos biógrafos de Francisco o Islã era comparado ao Demônio, não é difícil que tal pensamento também passasse pela cabeça dele.
Toda a vida de Francisco, do nascimento à morte, se desenvolve enquanto a Igreja estava perenemente em luta contra quem fosse desviado de suas doutrinas ou fosse de confissão religiosa diversa. O outro era o inimigo a combater e se possível matar, ou ainda, sobrepor, descrito como brutal na batalha, mas também violento e traiçoeiro. (FRUGONI, 2012:22).
Não é difícil imaginar que os membros da fraternidade de Francisco tivessem a mesma visão com relação ao Islã e seus seguidores; no entanto, em Francisco não se encontra alusão alguma ao Islã. Mas, após o seu encontro com o Sultão em Damieta ele escreve o Capítulo XVI da Regra não Bulada e os pedidos feitos aos governantes dos povos. Em tais escritos não é encontrado nenhum menosprezo à religião do Sultão.
Para Fresneda não se pode santificar o Islã e demonizar os cruzados, havendo preconceitos de ambas as partes. Mohamed tinha uma visão de Jesus como um fracassado enquanto Francisco vê no fracasso de Jesus a grandeza de Deus que se esvaziou por amor aos pecadores. Mohamed acreditava que era preciso impor a sua religião, ainda que fosse pela força da espada.
É a mesma condição com que aparece a Igreja ante o Islã, que ratifica a guerra justa por decisão dos príncipes do império (e dos papas), em definição, estados que racionalizam o poder e justificam a violência para alcançar a paz pela fé que prega o Deus ‘Todo poderoso’. O encontro de Francisco com o Sultão e sua inutilidade reflete toda esta compreensão de Deus e da religião na sociedade de então. (FRESNEDA, 2007: 37).
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Conforme Carta Quia Maior, Papa Inocêncio III. 124
Ver Boaventura, LM IX-8, FFC, 2004: 613; Compilações XXVII, FFC, 2004: 1178; Testemunhos menores VII, FFC, 2004: 1417; Rogerio de Wendover, FFC, 2004: 1438 e I Fioretti 24, FFC, 2004:1529.
Pelos relatos dos primeiros biógrafos de Francisco não é difícil perceber que ele tinha o desejo de expandir a pregação do Evangelho e da penitência para todos os cantos do mundo, desde que o grupo ainda iniciava a sua formação. 125 Ele queria chegar também até os desconhecidos, e entre eles viver como um irmão Menor.
Esforço inútil, pois o projeto do pobrezinho tende ao fracasso: “ele segue a Jesus e fracassa como ele.” (FRESNEDA, 2007:37)Porém, mas encontra no Cristo e no Evangelho a verdadeira alegria.
Uma religião diferente
Nenhum dos autores que narram a façanha de Francisco ousa dizer que ele foi maltratado quando chegou ao acampamento do Sultão. Ao contrário, todos fazem questão de relatar a cortesia com que o chefe dos muçulmanos tratou Francisco, recebendo-o com muita honra126, escutando com atenção127 e prazer128, pedindo orações129, oferecendo salvo conduto para que pudesse voltar em segurança ao acampamento dos cristãos130, dando-lhe até presentes,131 e convidando-o para permanecer entre eles132. Uma visão um pouco divergente daquela que o tratava como o Sultão da Babilônia, da terra da perdição, que via nele um homem com sede de sangue e que pagava pela cabeça dos cristãos133. A mudança da besta fera em mansidão pode apontar também uma mudança no olhar de quem está diante do Sultão. Francisco começa a perceber uma religião diferente, não só do que estava impresso em seus pensamentos diante das tantas propagandas contrárias, mas diferente no modo de crer e rezar.
A religião dos infiéis é diversa da religião cristã e não uma heresia nascida no seio da Igreja, ela tem sua forma piedosa de se relacionar com Deus, uma forma que parece ter impressionado Francisco de Assis, como veremos à frente, tem a sua organização e seus mecanismos para que todo o povo possa se voltar a Deus. Nos dias em que Francisco permaneceu junto ao Sultão, descortinava-se aos olhos dele uma nova visão, ele “descobre, à luz de Deus, aspectos novos: os muçulmanos são seus irmãos enquanto filhos de Abraão, pela
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Ver Ítem 2.1- A Missão e a Gestação da Regra. 126 Cf. I Celano XX-56, FFC, 2004: 236. 127 Cf. Jul VII-36, FFC, 2004:527. 128 Cf. LM IX-8, FFC, 2004: 613. 129 Cf. Jacques Vitry, FFC, 2004: 1426. 130 Cf. Ernoul, FFC, 2004: 1430. 131 Cf. Celano XX-56, FFC, 2004: 236. 132 Cf. LM IX-8, FFC, 2004: 613. 133 Idem. LM IX-7, FFC, 2004: 612.
salvação universal de Cristo, mas também na comunhão alcançada na oração ao Deus único”. (Jeusset, 1988: 33).
A minoridade de Francisco e o seu modo de viver segundo a forma do Santo Evangelho abrem espaço para que ele possa encontrar o outro e, permanecendo firme na sua fé, apreciar o que é nobre e santo na maneira de o outro ser e de se relacionar com Deus.
Aprendendo com o outro
No processo de conversão de Francisco percebe-se uma capacidade de ir ao encontro do outro, uma capacidade que a bem da verdade é dada pelo Senhor, como ele mesmo diz em seu testamento, o encontro com o outro o fez deixar o mundo.
Como eu estivesse em pecados, parecia-me amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles, e afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se converteu em doçura de alma e de corpo; e, depois, demorei só um pouco e sai do mundo. (TEST, FFC, 2004:188).
Francisco começa o seu Testamento relatando como princípio de sua conversão o encontro com o leproso, quando lembra que o que era amargo se transformou em doçura134. As batalhas entre cristãos e muçulmanos e os conceitos que tinham entre si, faziam com que vivessem separados por muros de ódio e indiferença. Eram amargos uns aos olhos dos outros e se colocavam em batalhas que pareciam, aos olhos do pobrezinho, não agradar a Deus (2 Cel III‐30, FFC, 2004: 321). No entanto, o ardor pelo Altíssimo leva Francisco ao encontro do muçulmano e o que era amargo aos olhos dele e de toda a cristandade, se converte em mansidão (FFC, 2004:1426), uma mansidão que se apresenta aos olhos de um homem que busca viver a vida segundo a forma do Santo Evangelho e na minoridade.
O tema do encontro com os leprosos aparece em todas as antigas biografias de Francisco, mas é o próprio Francisco que mostra, em seu Testamento, que ele foi o grande transformado a partir do encontro. (VAUCHEZ, 2012: 37).
Nem todos os biógrafos falam do encontro com o Sultão, o próprio Francisco não faz qualquer referência clara a ele, como o fez ao falar dos leprosos, mas parece plausível que a mesma capacidade que Francisco demonstra ao mudar sua vida após o encontro com o
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Francesco si è lasciato totalmente transformare dall’amore di Dio, sino quasi a diventare per lui un folle secondo gli occhi del mondo. Il suo essere vibrava continuamente per l’amore infinito di Dio, e ciò lo rendeva ebbro di gioia, perchè era per lui un’emozione palpabile. L’amore di Dio lo ha reso totalmente conformato al Cristo povero e crocifisso, e lo ha portato ad accogliere sempre la volontà del padre celeste, anche quando essa era incompresnibile. Questa forte espereinza mistica con lo ha distratto dal servizio agli altri, soprattutto agli ultimi e agli emarginati; lo ha reso invece testimone di pace e riconcilizione con tutti,a cominciare dai fratelli che Dio gli donava continuamente per condividere la sua stessa esperienza. (ANTINUCCI, 2011: 53)
leproso, ele apresenta após o encontro com o Sultão. Alguns textos de sua autoria explicitam a importância de viver entre os sarracenos como servo em nome do Senhor, da mesma forma que se fizeram servos na convivência com os leprosos.
A mesma ideia de mudança diante dos interlocutores pode ser percebida quando se encontra com os irmãos, ou melhor, quando o Senhor lhe envia irmãos, e rapidamente acontece uma mudança no projeto de vida, que como as outras serão sempre reveladas pelo Senhor.
E mesmo quando se encontra com o Papa Inocêncio, o que parece é que esse faz um pedido a Francisco e ao seu grupo, percebendo-se, nesses últimos, uma abertura para atender à demanda apresentada pelo pontífice, que será importante para a vida e o desenvolvimento da Ordem.135
O encontro com o outro em Francisco parece sempre ser uma simbiose abertura/mudança de um coração que se deixa conduzir com lucidez entre os homens, de maneira especial entre os mais deserdados,136 conduzido por Deus. Em um universo marcado pelas batalhas e preconceitos, o pobrezinho, de encontro em encontro vai forjando a sua identidade de arauto do grande Rei, servidor do Senhor que lhe revela a paz e, não do servo que convoca os homens à guerra.
É verdade que a articulação de louvor de Francisco, fazendo de Deus o objeto central de suas orações e de seus louvores encontra uma ressonância no Sultão Al-Kamil e na piedade do Islã (Pirone, 2003: 46), o que permitirá ao jovem de Assis adotar um estilo missionário dialógico, na ótica de todo o projeto de sua vida desde o momento da sua conversão. “Ele vê no estrangeiro um irmão que é dom do Senhor [...] o outro é uma oportunidade para anunciar o Evangelho e criar espaço de diálogo e de amizade, o outro é um meio, um bem” conforme palavras de Scognamiglio (2011: 66).
O outro é, para Francisco, sempre uma oportunidade de aprendizado, por isso pediu aos seus frades que não criassem discussões e nem brigas, que não ofendessem, mas que pudessem conviver no meio dos estrangeiros estando abertos ao aprendizado e, só então, seria possível compreender se era agradável a Deus anunciar o nome de Jesus. Viver a minoridade entre os outros e entre os seus. O Islã lhe parece uma religião sólida, que experimentada de
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Se si dà fede all’Anonimo Perugino, secondno il quale Nei mesi immediatamente precedenti durante i primi viaggi Francesco “adhuc non praedicabat populo”, può sorgere l’idea che Francesco non ottenne ciò che desiderava, ma ricevette un mandato nuovo [...] è un spia che l’invito pontificio di predicare la penitenza non fosse ciò che erano andati a chiedere, ma il compito che fu loro affidato, il banco di prova dal cui esito sarebbe dipeso il loro futuro. (Cf. BRUFANI, 2008: 28-29).
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Il mondo degli uomini è un campo di battaglia. Il messagero del Vangelo non deve apparire come un rivale o un concorrente nella corsa alla ricchezza e al potere. La povertà, e solo essa, è il cammino che lo condurrà verso una comunione fraterna con tutti gli uomini e, in primo luogo, con i più diseredati. (LÉCLERC, 1982: 74)
perto lhe faz vibrar o coração e perceber que não eram os demônios tão decantados em versos e prosas na propaganda da cruzada (JEUSSET, 2008: 74). Por isso, ele jamais mostrou a consciência ou postura de superioridade em relação aos infiéis. Ele é apenas um Irmão Menor no meio de tantos irmãos. (BEER, 1982: 22).