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Encontro com os sujeitos: as condições e o registo

4. O ponto de partida

4.3 Encontro com os sujeitos: as condições e o registo

O contacto com a Janete foi feito telefonicamente. A relação restringiu-se a um telefonema e uma entrevista biográfica, realizada no local de trabalho. A interrupção da colaboração na investigação foi justificada com a mudança de horário no trabalho. A proposta de encontro ao sábado ou comunicação através da internet não pareceu viável.

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O contacto com a Regina foi feito telefonicamente. Primeiro contacto através da mãe que responde “Minha senhora, a minha filha é deficiente! Como é que pode fazer isso?” (face à insistência no interesse) “Olhe, eu vou-lhe passar a minha filha para você ver se a entende”. Houve um esforço de parte a parte para comunicar através de palavras-chaves e explorar a solução de recurso ao e-mail, chat ou MSN. A comunicação por esta via começou dias depois pela própria Regina, com pedido de informação e confirmação do interesse de participar no projecto. Ainda não houve disponibilidade para o encontro face a face por parte da Regina pela sua condição de dependência física total e pelas reservas da mãe perante a deslocação à Universidade. Da nossa parte, pela incompatibilidade de horários com o nosso emprego e com os horários do agente da plataforma sem barreiras. A relação foi construída com recurso às novas tecnologias da comunicação, constando de um telefonema / dezassete comunicações por e-mail e MSN.

O contacto com a Fátima foi feito através de um telefonema, ao qual respondeu de uma forma bastante positiva, afirmando que não tinha nenhum problema de falar nela e na sua vida e que, portanto, aceitava a proposta. No entanto, os nossos encontros presenciais, por opção da Fátima e por motivos pessoais, passaram a ser estabelecidos através de e-mail ou MSN, mostrando-se este meio uma ferramenta útil para continuar a comunicar com a Fátima. A relação foi construída com recurso às novas tecnologias da comunicação, constando de um telefonema, três sessões presenciais e oito comunicações por e-mail e MSN.

O contacto com a família da Betinha foi feito telefonicamente. A relação foi construída ao longo de doze sessões presenciais, realizadas em casa, no espaço do quarto e na sala, algumas vezes com a participação da mãe ou na presença de outros familiares e de uma freira amiga que, com frequência, faz visitas à Betinha. O cenário no primeiro contacto: a Betinha, no quarto, de pijama sentada na cama com o tabuleiro à sua frente e almofadas aos pés, convidou-nos a entrar no seu espaço privado. O facto de a Betinha ser frágil fisicamente, faz com que o tom da sua voz nos tivesse parecido muito baixo e pouco perceptível. Também tivemos que adaptar a linguagem, tendo cuidado em utilizar palavras conhecidas e frases simples. Dispusemo-nos a escutar tudo o que fosse dito, sem usar

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qualquer grelha de entrevista ou outros dispositivos que desencorajasse ou filtrasse a informação e intercomunicação.

O contacto com o Luís Miguel foi feito através de um telefonema. O primeiro contacto estabelecido foi com a mãe, D. Luísa, que nos deu a oportunidade de contactar com o Luís Miguel. A comunicação foi sempre feita através da intervenção da mãe, que nos facilitava a compreensão das palavras pronunciadas pelo Luís Miguel. A relação foi construída através de três sessões presenciais e vários telefonemas com a finalidade de obter a autorização de acordo com a disponibilidade de D. Luísa e do Luís Miguel para a nossa presença no local de residência.

4.3.1 Os encontros e os contextos de comunicação

Os locais escolhidos pelas pessoas para as entrevistas foram diversos: no espaço doméstico (na sala, no quarto), em espaços da comunidade (café, biblioteca) ou na internet. A escolha do local pelas pessoas indicou-nos o lugar onde cada pessoa se sentia mais à vontade para se expressar. Neste primeiro contacto, tomámos especial precaução com a forma como nos exprimíamos, como afirmavámos as nossas intenções e objectivos, adoptando uma postura formal/informal de modo a constrangir ao mínimo a nossa interacção com cada pessoa.

4.3.2 As memórias dos encontros como matéria de investigação

Marcadas as entrevistas, começavámos por colocar a seguinte questão – “Queres contar um pouco sobre a tua história de vida?” Todas as conversas foram gravadas e transcritas; procurámos estar atentas e registar gestos e silêncios.

Em cada uma das conversas ou entrevista informal, foram sugeridos e/ou registados temas, tais como a infância, o percurso escolar, os obstáculos sociais encontrados e os sonhos. Foram expressos medos e receios relativamente ao futuro, aos problemas da sociedade, aos direitos exercidos ou não e às atitudes de inclusão e exclusão. O grau de aprofundamento de cada tema dependeu do tipo de dificuldade de cada uma das pessoas e do contexto familiar, económico, social e cultural, onde se encontravam inseridas, tal como

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nos foi sendo dado a saber pelo discurso e/ou pelo percurso de vida de cada uma. No conjunto das conversas, houve algumas pessoas muito informadas, críticas e baseadas em observações sobre o mundo e, por diversas razões, outras pessoas deram-nos conta de uma visão limitada dos acontecimentos, das coisas e das pessoas.

Neste processo, começámos por ter como principal preocupação retirar do silêncio pessoas cuja vida foi limitada pelas condições e pelas atitudes de uma sociedade que as discrimina, pelo facto de serem portadoras de uma deficiência física e/ou psicológica. Procurámos ouvir as suas histórias de vida, as suas experiências de inclusão e de exclusão, para apreender o que sustenta a sua qualidade de vida, apesar da discriminação e da desigualdade que afectam a sua vida quotidiana. Procurámos apreender a expressão subjectiva dos sonhos de cada um, considerando-os como factores fundamentais, para dar sentido à vida de qualquer indivíduo, independentemente da sua condição física e psicológica.

No caso da Janete, obtivemos como memória destes encontros o registo de três notas de campo sobre o processo de abordagem, a construção do contexto de interacção e a transcrição da entrevista, com as nossas notas, sobre possíveis indícios da relevância dos acontecimentos narrados e do sentido atribuído pela narradora. O uso da informação foi autorizado para efeitos deste trabalho.

Como memória dos encontros com a Regina ficou (i) o registo dos dezassete episódios de comunicação e respectivo conteúdo, que tiveram a mesma função das notas de campo (auxiliar de memória e material de reflexão); (ii) um texto com o relato biográfico, cuja inclusão no trabalho foi autorizado; (iii) a anotação de possíveis indícios da relevância dos acontecimentos narrados e do sentido atribuído pela narradora; (iv) texto de resposta ao pedido de opinião sobre a continuidade do processo de investigação como projecto de apoio à inclusão; (v) um eco-mapa- círculo de suporte.

O material recolhido com a Fátima consiste: (i) no registo de onze episódios de comunicação e respectivo conteúdo, que tiveram a mesma função das notas de campo (auxiliar de memória e material de reflexão); (ii) anotação de possíveis indícios da relevância dos acontecimentos narrados e do sentido atribuído pela narradora; (iii) texto de resposta ao pedido de opinião sobre a continuidade do processo de investigação como

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projecto de apoio à inclusão; (iv) eco-mapa- círculo de suporte; (v) a grelha “a minha semana”.

A memória dos encontros com a Betinha está registada: (i) em dez notas de campo sobre o processo de abordagem e construção do contexto de interacção; (ii) a transcrição do diálogo, com as nossas notas, sobre possíveis indícios da relevância dos acontecimentos narrados e do sentido atribuído pela narradora; (iii) em quatro fotografias escolhidas pela Betinha para retratar um pouco do seu percurso de vida. Além das entrevistas ou conversas informais, o círculo de amigos, a minha semana e o PATH’s.

Os encontros com o Luís Miguel deixaram como memória: (i) o registo de um episódio de comunicação e respectivo conteúdo, que tiveram a mesma função das notas de campo (auxiliar de memória e material de reflexão); (ii) a transcrição do diálogo, com as nossas notas, sobre possíveis indícios da relevância dos acontecimentos narrados e do sentido atribuído pelo narrador; (iii) uma sequência de onze fotografias que o Luís Miguel escolheu para retratar um pouco do seu percurso de vida; (iv) o registo do percurso de vida do Luís Miguel, através do ponto de vista e da experiência da mãe; (v) o PATH’s.

4.3.3 Da relação de investigação ao projecto

A análise e o cruzamento dos dados recolhidos permitiu-nos reconstruir, com as próprias pessoas, experiências vividas como positivas e negativas, o ponto de vista de cada um sobre o mundo e sobre os acontecimentos com que construiram as suas próprias histórias de vida, vivenciadas no espaço privado e no mundo social mais ou menos extensivo ao espaço público.

No caso da Regina, a relação não cessou com a investigação. A proposta é que este diálogo venha a ser mantido e alargado a outras pessoas e grupos através da plataforma

Sem barreiras, da Universidade de Aveiro, e da publicação da biografia e das questões

que foram sendo construídas, no espaço do Boletim e do projecto da REDEInclusão, da Associação Cidadãos do Mundo, a que se espera que a Regina venha associar-se como colaboradora.

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O diálogo com a Fátima não cessou com a investigação. Existe a perspectiva de o manter e alargar à participação de outros, no diálogo iniciado através da plataforma sem barreiras da Universidade de Aveiro.

No caso da Betinha, também não houve interrupção da relação na investigação e na expectativa de inserir a sua voz e biografia no projecto e criação de uma plataforma de comunicação síncrona, onde possa alargar a sua rede de interconhecimentos e ampliar o seu universo social de referência, a propósito da sua experiência de pertença a uma família alargada a viver num bairro social, sobre os programas de televisão e as dificuldades de locomoção nas cidades por desrespeito às regras de utilização dos passeios.

No caso do Luís Miguel, não houve interrupção da relação na investigação, na expectativa de inserir a sua voz e biografia no projecto e criação de uma plataforma de comunicação síncrona, onde possa ampliar o seu universo social de referência.

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