CAPÍTULO II: Conhecendo uma nova realidade
2.3 O encontro com o Teatro de Bonecos
Durante o quinto e sexto semestre do curso de licenciatura estive em estágio não-obrigatório na Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal/RN (SEMURB), onde desenvolvi atividades teatrais no setor de Educação Ambiental dando ênfase ao Teatro de Formas Animadas, especificamente com Teatro de Bonecos. Para tal, trabalhamos com as mais diversas alternativas de materiais. Percebi nas estratégias apresentadas pela supervisora e equipe, grande possibilidade de criação com as diversas faixas etárias, tanto na sala de aula como também em espaços não formais.
O Teatro de Formas Animadas compete a um campo de imensas possibilidades que envolve o teatro de objetos, teatro de sombras, os tecidos, teatro de bonecos. Essa abordagem refere-se à linguagem teatral que tem como essencial os objetos inanimados como personagens, além dos atores.
Os atores, através da manipulação, dão vida a estes objetos. Desta forma, encontrei no teatro de formas animadas um leque enorme de possibilidades e estratégias a serem exploradas do ponto de vista da criação da cena, apropriação, confecção de objetos e suas diferentes narrativas. Nessa vivência trabalhamos sempre com bonecos produzidos com materiais recicláveis. A abordagem desse trabalho surgiu em torno do
tema de pesquisa da turma, intitulado “A relação do homem com o meio ambiente: qual o nosso papel?”.
No campo do Teatro de Formas Animadas, na necessidade de contextualizar o conteúdo usei duas referências principais que trazem questões muito interessantes sobre as Formas Animadas do ponto de vista contemporâneo. A autora Ana Maria Amaral, e a Revista Móin-Móin, revista eletrônica de teatro de animação.
Ana Maria Amaral escreveu diversos livros acerca da história das formas animadas, também de estratégias de teatro de objetos e conceitos bastante amplos e significativos. A Revista Móin-Móin traz em suas edições um tema específico, grandes referências acerca dos mais diversos aspectos do Teatro de Formas Animadas.
Busquei através dessas referências compreender melhor o Teatro de Formas Animadas em sua diversidade, a fim de encontrar estratégias interessantes para a prática nesse estágio.
“Ora, no teatro de formas animadas, os objetos materiais inanimados (máscara, boneco, objeto ou simples imagem) ganham vida e passam a representar essências (por extensão da energia vital do ator-manipulador). E, ao se tornarem personagens, isto é, ao serem animados, perdem as características de corpo material inerte e adquirem anima, isto é, alma, passando a transmitir conteúdos, substâncias.” (AMARAL, 1996, p. 243)
No trecho acima, Ana Maria Amaral, conta de forma sensível o espírito do teatro de formas animadas. O momento em que determinada forma, ou objeto, deixa de ser um objeto inanimado para tornar-se um ser, através da manipulação de um ator- animador. Tanto pela construção destes seres, como pela posterior animação, as formas animadas refletem sutilezas da natureza dos atores-animadores.
A professora Ana Maria Amaral, em um artigo para o primeiro volume da revista Móin-Móin, intitulado “O inverso das coisas”, reflete em um texto introdutório este universo fantástico. Ana Maria Amaral explica tal “magia”, presente no teatro de formas animadas:
[...] os elementos usados no teatro de animação, bonecos, objetos, máscaras, não são vivos em si, mas transmitem vida ao serem animados. Está implícito aí o mistério: Vida e Morte. Por isso, se diz que no teatro de animação existe magia, pois magia
surge quando acontece a ligação entre duas realidades opostas. (AMARAL, 2005, p.17)
Colocar vida em um objeto inanimado está com certeza no universo da fantasia. E para quem vê, perceber vida nessas formas, torna o teatro de animação uma atividade lúdica pedagógica deliciosa, que só o teatro pode oferecer. Essa linguagem está definida por princípios, entretanto, traz um leque de possibilidades em relação às técnicas e formas utilizadas.
A potência dessa linguagem está nas sutilezas que tais formas podem revelar. Muito mais que a imitação de algumas ações do cotidiano, elas podem alcançar expressão de sensações, sentimentos, e significados fora do que consideramos realista. Ver uma garrafa pet ou caixa de leite criando vida e transmitindo a sensação de estar vivo, pensante, pulsante, pode trazer significados e interpretações que vão além. Da mesma forma que tais maneiras de fazer esse tipo de teatro são possíveis causadoras de riso e tristeza, podem também nos levar ao universo do sonho. O boneco ou qualquer outras formas animadas, portanto, encarnam de fato o personagem que lhe é atribuído pelo ator-animador. É uma verdadeira troca de energias. À medida que nos oferece suas características físicas como sugestão de sua personalidade, oferecemos-lhe uma “anima” que sempre carrega algo de nossa própria personalidade, mesmo que em contraponto.
Foi na mistura de educação ambiental com teatro, que embarcamos juntos para trilhar descobertas. Quero aqui deixar claro que nesse tipo de investigação, o processo é bem mais valioso que o produto.
Essa intervenção teve início pela construção da dramaturgia que foi feita de forma coletiva, propondo o jogo das palavras de minha autoria, no qual, as crianças retiravam palavras relacionadas ao tema de pesquisa e iam construindo no improviso um texto que as envolvessem.
A princípio, não disse para eles para que seria esse texto. Não queria que ficassem presos a uma lógica sequencial de ideias, como acontece na maioria dos casos quando se trabalha com teatro, portanto deixei-as livres para improvisar e criar acerca do que estavam estudando naquele semestre. As estratégias do Teatro de Formas Animadas em si, propiciam uma criação mais subjetiva e dá grande liberdade ao campo da imaginação. Em geral, essas experimentações tenderam ao universo do improviso sendo essa uma linguagem que por essência incita a viver o aqui e agora.
A qualidade existente no teatro de formas animadas foi mais um motivo para torná-lo parte da metodologia do meu projeto de estágio. Com relação à estrutura de cada aula identifiquei como aspecto operacional da metodologia o processo da abordagem triangular de Ana Mae: Contextualizar, Apreciar e Praticar. Sem necessariamente ser feito nessa sequência.
Na quarta intervenção, na primeira parte da aula, fizemos dois sorteios: o primeiro de divisão da turma em dois grupos e o segundo de distribuição dos personagens.
Após isso, fomos para sala de artes para confecção dos bonecos em seus respectivos personagens. Cada criança trouxe uma garrafa pete ou uma caixa de leite.
Inicialmente fizemos demonstrações de como poderíamos trabalhar com o material escolhido.
Imagem 7: A estagiária Pamela fazendo algumas demonstrações para os alunos. Foto: Bianca Vasconcelos
Lucas não quis participar e comentou com a professora Gildene que não se sentia a vontade de estar entre os colegas. Malu demonstrou não gostar da atividade, deitou-se no chão e tapou os ouvidos como se o barulho da classe causado pela
animação das crianças a fizesse mal. As demais crianças pareceram se divertir com tantas possibilidades e começaram a colocar “a mão na massa”.
Imagem 8: Alunos do 5° ano colocando a “mão na massa”. Foto: Bianca Vasconcelos
No dia 06/06, continuamos com a confecção dos bonecos na sala de aula mesmo, já que antes de nossa atividade, estavam utilizando de tintas e outro materiais na confecção do cenário e adereço para a quadrilha da festa junina da escola.
Tiveram algumas situações que destacamos para expor aqui: Daniel chutou o boneco de Roberta, desmontando as peças que ela tinha produzido. E ela começou a chorar, falando que não queria mais participar; Leticia Fernandes que estava satisfeita com a produção de seu boneco, nesse dia, não quis mais fazer, pois o achou feio. Tentamos fazer outro com ela; Pensamos em incluir Malu na sonoplastia junto com Lucas que a princípio ficaram fora da atividade.
Imagem 9: Alunos do 5° ano. Foto: Bianca Vasconcelos
Na intervenção do dia 07/06, fizemos nosso primeiro ensaio com o pano, na sala de artes. Primeiramente, fizemos uma breve introdução em relação a como manusear os bonecos e sobre a sonoplastia. Malu de forma alguma quis participar, nem ao menos entrou na sala. Então Lucas assumiu junto a outros alunos que se ofereceram. Pegamos alguns instrumentos da escola: pandeiro; pau de chuva; baquetas e etc. O ensaio foi bastante caótico, mas aos poucos as crianças conseguiram conduzir os bonecos. Falamos um pouco sobre a relação de palco e plateia.
Saber ver, apreciar, comentar e fazer juízo crítico devem ser igualmente fomentados na experiência escolar. Esta dimensão da aprendizagem só poderá ocorrer com a vivência do papel de espectador, explica Spolin:
A plateia é o membro mais reverenciado do teatro. Sem plateia não há teatro. Cada técnica aprendida pelo ator, cada cortina e plataforma no palco, cada análise feita cuidadosamente pelo diretor, cada cena coordenada é para o deleite da plateia. Eles são nossos convidados, nossos avaliadores e o último elemento na roda que pode então começar a girar. Ela dá significado ao espetáculo. (SPOLIN, 2005, p.11)
Explicamos como essa relação funciona em forma de roda de conversa e a maioria da turma compreendeu de fato a importância de fazer, mas também de apreciar e refletir sobre Arte. Terminamos aqui o ciclo de intervenções.
Imagem 10: Alunos do 5° ano passando o texto com os bonecos. Foto: Bianca Vasconcelos
No dia 08/06 marcamos de iniciar o relatório, juntando as informações de nossos diários de bordo e refletirmos sobre nossas evoluções. Ao analisarmos o percurso durante nosso estágio e toda a aprendizagem que tinha ocorrido, principalmente no dia anterior (07/06), expomos nossas reflexões e paramos para identificar as coisas que poderiam ter sido melhores.
Ao reler a peça, observamos conter muitos conflito no enredo, tornando-se uma forma representativa da ideia das crianças. De que forma isso poderia ser aproveitado?
As crianças estavam insatisfeitas com a ideia de 'se apresentar' para outras turmas e isso estava deixando-os aflitos. Refletimos o quanto, principalmente nesse contexto, o processo teatral é bem mais forte que o próprio produto final em forma de espetáculo finalizado e "apresentado para um público" como forma de aprovação do fazer. Então, realmente foi melhor ter dividido a turma em dois grupos para intercalar essa relação de palco e plateia, e dessa forma, todos vivenciarem esses dois lugares formativos.
Não conseguimos incluir Malu durante as intervenções, porém, pensamos na possibilidade de fazermos um último encontro com as crianças, numa proposta de desconstrução e liberdade em relação às ideias, a imaginação e o texto. Demonstrando todas essas insatisfações ao professor Jefferson, ele nos indicou desenvolver um roteiro
de aula, com questionamentos diante da criação. Onde Malu seria uma personagem misteriosa e ligamos logo no 'Núcleo da Terra' que foi o espaço em que o menino da história queria tanto chegar, mas acordou do sonho. Então, essa personagem misteriosa teria ligação com os elementos da terra: água, ar, fogo e terra. Malu não gosta de materiais escolares, odeia tinta, papel... Ela ama brincar com água e terra, e assim, em roda, com Malu a vontade brincando com os materiais que ela gosta, contaríamos essa história, de forma espontâneas, sem pretensões.Tentamos que a aula acontecesse com a presença de Malu, mas ela não esteve presente em nossa última aula. Sentimos muito.
A vivência foi muito construtiva para nossa experiência como futuras docentes por nos provocar tantas reflexões. Acreditamos também ter sido significativa para as crianças, por terem atuado como protagonistas em todas as etapas e expressado seu potencial criativo reaproveitando materiais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta experiência foi fundamental dentro da minha formação como professora de Teatro. Por ter sido, até então, a maior proximidade que tive com o ofício. Dificuldades foram muitas, mas principalmente elas é que me levaram a refletir bastante e compreender melhor este lugar de educadora. Pude conhecer, de fato, o cotidiano de uma escola. Uma palavra que me fez pensar bastante foi a palavra “cultura”. Para isso trago Koudela para nos ajudar a refletir:
“Os conteúdos de Arte buscam acolher a diversidade do repertório cultural que o aluno traz para a escola e trabalhar os produtos da comunidade em que a escola está inserida. São articulados com vistas ao processo de ensino e aprendizagem na escola e foram explicitados por intermédio de ações em três eixos norteadores: produzir, apreciar e contextualizar. A apreciação e o estudo da Arte devem contribuir tanto para o processo de criação dos alunos, como para a experiência estética e conhecimento da arte como cultura.”(2011, p.01)
A vivência foi mostrando que precisava levar a oportunidade de os alunos se relacionarem com algo cultural. Tive que adaptar algumas situações, pois diversos desafios muito característicos da realidade escolar surgiram mais que soluções.
Esse estágio me trouxe questões de como introduzir os alunos dessa faixa etária ao fazer teatral evitando ao máximo das pausas para instruções como cativar a atenção e concentração nessa cidade tão cheia de energia, como estruturar uma aula de forma contínua sem interrupções, onde não se perca a atmosfera construída que ritmo atribui as atividades dentro da estrutura de um plano de aula, que atividades podem ser interessantes para criar uma rotina dentro das aulas, como lidar com as falhas e incluir os alunos depois de longas ausências, como impor-se quando necessário sem uma atitude autoritária no mau sentido e como atender individualmente às necessidades, questionamentos de cada aluno, em uma turma de vinte e dois educandos em apenas uma aula semanal.
Dentro do Teatro de Formas Animadas, muitas vezes encontramos um caminho mais livre que imposto. A aula de teatro torna-se, em meio a tudo isso, um espaço de liberdade. É uma aula onde eles têm a possibilidade de se mover ao invés de
permanecerem em suas cadeiras. Tornou-se para mim, então, um grande desafio encontrar este equilíbrio nas aulas. Preciso de um “ritmo” na minha aula? Questões a se pensar.
Há nesta idade um excesso natural de agitação pertencente a toda esta energia, e descobrimento em que se encontram as crianças. Querer acabar com esta euforia seria fazer deles pequenos adultos obedientes. Busquei estar atenta a cada um deles em meio a tudo isto. Visto que a excitação demasiada é uma parente muito próxima da criatividade. Não se deixar desesperar, mas compreender este estado e fazer com que dali surja novos conhecimentos e desenvolvimento. Um trabalho minucioso. Tudo são pequenas conquistas diárias, particulares, individuais ou grupais, de mudança de atitude, de superação e de aprendizado.
É possível perceber também, claramente, como o ritmo de tudo está acelerado. Entrando na escola já se sente o agito, a gritaria, o corre-corre dos alunos. Talvez por nos encontrarmos em uma cidade grande, onde todo o tempo há informações nos bombardeando de todos os lados. É possível manter os alunos concentrados a todo o tempo? Questões a se pensar.
REFERÊNCIAS
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