5 AFETOS E FORMA DE AFETAR
5.7 ENCONTROS AFETIVOS
importantes para você?
Fonte: O autor (2017)
Das quarenta pessoas que responderam à questão:Você se relacionou com pessoas participantes do evento que são ou foram importantes para você? Apenas uma respondeu de forma negativa. Aqui, temos um resultado extremamente positivo no que diz respeito a como o SPA foi um espaço que proporcionou encontros entre pessoas. E, para além do encontro e das relações entre pessoas e da afecção que acontece nesses encontros, vê-se, agregado, o uso do adjetivo importante na pergunta.
Impossível mensurar como os entrevistados interpretam “pessoas importantes”, porém considero que importantes são tanto as relações afetivas, amizades construídas e solidificadas no SPA, como também algumas relações profissionais nela estabelecidas. Portanto, tenho essa interpretação do adjetivo em questão. Acredito que de forma intuitiva busquei responder se existiram encontros potentes nessas relações.
5.7 ENCONTROS AFETIVOS
A pergunta seguinte do questionário busca compreender se os encontros foram propulsores de relações afetivas, se as pessoas carregam essa percepção do SPA das Artes como motivador de encontros. “Você acha que o SPA proporcionou o encontro de pessoas? Relações de afeto? Se sim, como e de que forma o evento construiu isso?” Nessa pergunta, procuro entender, de forma mais subjetiva, quais ferramentas proporcionaram esses momentos e de que forma os artistas
construíram essas relações afetivas. No intuito de entender melhor o retorno das respostas recebidas pelo questionário e agrupar algumas respostas, farei a análise em conjunto, para melhor compreender os retornos recebidos.
Como é possível perceber nos depoimentos anteriores, o SPA proporciona encontros entre pessoas. O que gostaria de observar aqui é como isso aconteceu. Como o SPA contribuiu e proporcionou esses encontros?
Para o artista Jeims Duarte, esses encontros aconteceram
“Principalmente através do corpo de produtores, bastante atuante no cenário artístico local. Todos os profissionais que pensavam e organizavam o SPA das Artes eram artistas, produtores, curadores, jornalistas e críticos bastante atuantes na cidade e com experiência e vivência fora do circuito local, trazendo novas experiências, identidade e um corpo de trabalho sólido ao evento.” (DUARTE, J. 2017)
Essa mesma equipe, conhecedora da produção local e nacional, conseguiu organizar em debates, oficinas e papos, pessoas com produções e poéticas que dialogavam com a proposta do evento, solidificando e aprimorando as experimentações e trocas artísticas, como indica o depoimento:
“O evento aproximou mais as pessoas que tinham produções parecidas. Trouxe pessoas/ artistas de outros estados com suas produções e junto, também, foi possível conhecer um pouco dos eventos que rolavam fora de Pernambuco”. (SCHEBBA, A. 2017)
A importância de ter uma equipe de especialistas dedicados a fazer o evento existir e preocupada com o espaço de construção de experiências e trocas positivas foi parte importante do processo que envolveu artistas e técnicos participantes do SPA, como podemos observar no depoimento de Chico Ludermir sobre a boa relação construída com a equipe do Museu Murillo La Greca quando montou a primeira exposição na última edição do evento.
"Esses espaços de troca sempre estão permeados de afeto. Lembro das reuniões com outros artistas, no Murillo la Greca e de trocas
realizadas no dia da abertura. No mais, construí relações com os organizadores do evento e, em especial com a equipe do museu. A montagem foi longa e intensa. O montador e o educativo estiveram muito próximos." (LUDERMIR, C. 2017)
A atenção dada pela equipe realizadora do SPA para proporcionar aos participantes esses encontros é destacada pelo artista Bruno Monteiro como um dos maiores propósitos, sendo, segundo ele, realizado com zelo mesmo dentro de uma proposta ousada, conforme depoimento a seguir.
“O evento acolheu o seu propósito. Não foi mais uma realização. Houve o zelo necessário que se espera de uma proposta ousada como esta. Parece óbvio, mas não foi e não há no histórico recente do país para este recorte do conhecimento: as artes visuais”. (MONTEIRO, B. 2017)
As trocas se deram para além das relações estabelecidas entre artista e equipe. Relações de amizade também foram construídas ao longo das edições, aproximando as pessoas. O SPA atraía gente de outras cidades para o Recife. Receber artistas visitantes foi uma prática estabelecida entre os participantes e artistas locais:
“Vários artistas amigos de outros estados se hospedaram na minha casa, de Cristiano Lenhardt e de Priscila Gonzaga. Foram dias de absoluta troca, com memórias que trago com muito carinho”. (ANDRADE, J. 2017)
Esse é o relato de Jonathas de Andrade sobre a experiência proposta em 2008, A Casa Como Convêm, um ateliê-morada disponível para residência de artistas e não artistas que ficou aberto à visitação pública durante o SPA.
Outros artistas também ressaltaram a importância desse momento de ciceronear artistas de fora em suas residências como forma de interação e troca, como podemos ver no depoimento de Tereza Neuma: “Tive a oportunidade de hospedar em minha casa artistas de outras cidades como Cristiano Lenhardt, Cristina Ribas e Luiz Roque”. (NEUMA, T. 2017)
Não era só nas residências e na hospedagem gentil e voluntária daqueles que visitavam a cidade que os encontros e as relações de amizade se estabeleciam. As demais ações do SPA foram de suma importância para a construção dessas construções afetivas. Como podemos ver nos depoimentos a seguir:
“Através dos encontros, oficinas, palestras e o próprio circuito das exposições e intervenções conheci vários grupos e artistas, conheci o ‘Laboratório’ e o pessoal da revista ‘Ragu’. Acho que o SPA me colocou no circuito das artes aqui no Recife. Antes era tudo restrito para mim”. (GREG, O. 2017 )
O SPA proporcionou o encontro de pessoas e estimulou afeto ao longo de todas as suas ações, desde o processo.(NOTARI, J. 2017)
“O SPA foi um evento que proporcionou grandes encontros de pessoas direta ou indiretamente ligadas às artes visuais. Era possível sentir o entusiasmo e a vontade dos artistas e críticos de estar nas ruas mostrando com orgulho e rebeldia como fazíamos arte.” (FELICIANO, J. 2017)
É importante observar também que essas relações afetivas não se restringiram ao espaço e ao tempo do SPA, elas se ampliaram depois do evento. E também consolidaram essas relações afetivas para além das fronteiras geográficas da cidade, construindo uma rede nacional entre os artistas participantes, como podemos ver nos relatos a seguir:
“O SPA unia os artistas visuais do Recife, porque que todos se inscreviam, e ainda trazia artistas de outros estados como Ceará, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul. Conheci muitas pessoas com quem até hoje cruzo no meio da arte e algumas são amigas até hoje, pois eram na época colegas do SPA, mas também da faculdade, se cruzando em outros festivais”. (ARAÚJO, A2017)
Acredito que movimentava a troca artística e experiências entre artistas de diferentes gerações, expressões e locais, que de alguma maneira proporcionava afetos e afinidades no campo das artes e
para além da produção que acontecia na semana do SPA. (PADILHA, L. 2017 )
Ressalto o depoimento de Lia Letícia, em que deixa claro seu entendimento do potencial transformador de eventos como o SPA, que está no encontro, na construção desses afetos e como ele nos afetam. “Tocar é transformar o outro e a si mesmo”.
Lia vai mais adiante e ressalta que a potência de eventos como o SPA está mesmo no encontro. E isso justificaria a falta de investimentos políticos em eventos desse tipo:
“Sempre acontece em eventos desse tipo, com artistas de diferentes lugares, como encontro mesmo. E acho que exatamente por isso é nada incentivado pelas (não)políticas públicas. Encontro é potência de mudar, transformar, somar. O afeto é mais ligado ao "afetar-se", tocar e transformar o outro e a si mesmo.” (LETÍCIA, 2017).