CAPÍTULO I: UMA “TEOLOGIA SOB O SIGNO DA TRANSFORMAÇÃO
6- Encontros e confrontos com uma theologia pro paganis e
Desde os Santos Padres, pode-se dizer que a teologia tem se desenvolvido praticamente em duas direções138. Uma primeira, denominada
theologia pro christianis, consiste numa reflexão da fé a partir das riquezas do depositum fidei, da Tradição cristã e se caracteriza pela proposta da
mensagem cristã ao homem. Seu ponto de partida é, portanto, o estabelecido, da identidade cristã. Já a segunda vertente, a daquela denominada de
theologia pro paganis, privilegia o presente, em sua dimensão histórica e real,
procurando oferecer a todos, homens de fé ou não, um sentido transcendental para suas vidas. Parte das interrogações, esperanças e angústias do homem de seu tempo; a história e o mundo são o palco donde ela perscruta as Escrituras para delas tirar parâmetros para o presente.
Enquanto a theologia pro christianis pressupõe a fé cristã, para aprofundá-la em sua reflexão, acentuando as diferenças Igreja-Mundo; a segunda as relativiza, colocando-as num quadro mais amplo de relação com o Reino de Deus139, a theologia pro paganis considera em primeiro lugar a busca humana de sentido da existência de todos os seres, e assim poder iluminá-la com a luz da fé.
A direção assumida por Boff no primeiro e segundo momento de sua teologia é claramente pro christianis; enquanto que, no considerado terceiro momento, à luz do novo paradigma teológico, sua teologia é uma theologia pro
paganis.
As duas opções frequentemente entram em choque. Os teólogos pro
paganis vêm a theologia pro christianis por demais doutrinária e carente de
encarnação na realidade humana, além de centrada e excessivamente preocupada com a ortodoxia. Os teólogos pro christianis, por sua vez, suspeitam dos primeiros de modismo passageiro, de imanentismo e de secularismo, bem como, de deixarem de lado o específico cristão.
Nessa ordem é que vai a suspeita dos críticos da teologia de Leonardo Boff. Numa reflexão que considera a base antropológica de sua teologia não se pode deixar de fazer referência aos confrontos que o teólogo tem mantido com a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé e com outros críticos mais atuais.
A suspeita da Igreja oficial a respeito de um possível imanentismo histórico da teologia da libertação (LN XI,17), na qual se insere a do teólogo em
138 O Caminhar da Igreja com os oprimidos, pp. 161-162. 139 Igreja: carisma e poder, pp. 20-21.
questão, deve ser verificada, não a partir de um dado isolado, ou de uma singular afirmação, mas do conjunto de toda a teologia em questão.
Outra forma de reducionismo atribuído à teologia e antropologia de Boff é a da redução da teologia à politologia, e a da desconsideração do pecado individual ou pessoal; sua clara opção pelo social nem sempre permite a evidência do que se refere à esfera do pessoal e individual (LN IV,14)140.
Segundo a referida Congregação, o regime de dependência e de cativeiro não pode ser reduzido tão somente às esferas do econômico, político e social, e hoje, do ecológico. Pois é o pecado a “fonte de divisão e de
opressão”, bem como a “raiz das alienações humanas” em todos os sentidos
(LC V). Na Instrução anterior, em crítica direta e objetiva à teologia da libertação, a mesma Congregação afirma que “... não se pode, portanto,
restringir o campo do pecado, cujo primeiro efeito é o de introduzir a desordem na relação entre o homem e Deus, àquilo que se denomina de 'pecado social'...
(LN IV,14.15). O imperativo da revolução radical das relações sociais e cósmicas, e as críticas às expressões de busca da perfeição pessoal, tendem a negar o sentido da pessoa e de sua transcendência...
Tendo em mãos todas esses questionamentos, que não podem ser desconsiderados, pode-se chegar a algumas conclusões sobre a orientação atual da obra do teólogo brasileiro.
Numa realidade em que a urgência do resgate do potencial transformador da fé é enorme, é compreensível a preocupação teológica do autor. Se trabalhadas com mais frequência a partir da categoria da transparência, muitas de suas afirmações, à primeira vista reducionistas, se tornam menos polêmicas, mais compreensíveis e enriquecedoras para a teologia, além de favorecer mais a compreensão da teologia como ciência de Deus e do homem.
Hoje é facilmente perceptível que a proposta do Evangelho de Jesus reflete um dado ontológico fundamental para se compreender a real vocação humana. Ao afirmar que o mandamento do amor ao próximo é semelhante ao do amor a Deus com todo coração, alma e entendimento, e que de ambos dependem toda a Lei e os profetas (cf. Mt 22,37-40), Jesus proclama a identidade do seu seguimento como uma realidade que não separa o regime pessoal do social.
Para entender a posição do teólogo, é preciso recorrer a uma visão mais completa e integradora de seu pensamento. Para ele, na origem e raiz de todos os males sociais está o que ele chama de “esquizofrenia radical que afeta a
raiz da personalidade humana”141 e que, muito mais que simplesmente político, econômico ou social, o mal é a “corporificação de um desvio mais profundo do
homem, atingindo o sentido fundamental de ser e de viver compreendido como poder-conquista-dominação, gerando opressão, repressão e regime global de
140 Cf. tb. Boaventura KLOPPENBURG, Las tentaciones de la teología de la liberación, Selecciones de
Teología, vol. 15, no. 60: 288-289.
cativeiro”142. Por isso, a honestidade teológica não permite afirmar que o pensamento de Boff circunde as causas do mal histórico apenas a razões sociais e imanentistas. O que não desconsidera sua afirmação de que no prisma social se vizibilizam mais evidentemente os desvios ontológicos e ecológicos causados pelo pecado, que para ele é a “ruptura do homem com
seu sentido transcendente e dilaceramento da tecedura social”143.
Sem dúvida, é clara a secularidade que transparece no pensamento do teólogo. Na linha da theologia pro paganis, para libertar-se dos condicionamentos epistemológicos da ciência tradicional da fé, Boff procura um jeito de falar de Deus sem passar pela religião convencional, sem falar religiosamente, como se costuma nestes “tempos de idolatria oficial”, pois, como diz o maior místico do Islã: “Quem ama a Deus não tem nenhuma
religião, a não ser Deus mesmo”144, razão porque, embora Boff se diga teólogo católico, alguns preferem vê-lo mais propriamente como católico supraconfessional e transreligioso145.
É claro também que, não obstante a grande riqueza ântropo-teológica, argumentada sobretudo nas contribuições da físico-química, da biologia e de outras ciências do cosmos e do humano, de fortes conotações holísticas... , os últimos escritos de Leonardo Boff não respondem às exigências da epistemologia teológica convencional. Por isso, não são, a rigor, explicitamente, textos de teologia, ao menos de teologia cristã. Inclusive, há quem prefira chamar seu pensamento, hoje, de “ecoteologia”146. Na verdade, o trabalho atual de Boff é, mais que o de um fazedor de teologia, o de um preparador, de um ensaísta, o de alguém que monta o cenário para um futuro teológico que ele espera para não muito longe. A proposta e o aprofundamento do novo paradigma que ele propõe, ainda não bem assimilado nos meios acadêmico e intelectual, certamente exige tempo e paciência até que se torne convincente. Então, possivelmente, outros, colhendo os frutos de seu enorme esforço, vão assumir o novo fazer teológico que ele espera.
A pergunta fundamental que o teólogo hoje procura responder com sua teologia não é sobre o futuro da Igreja ou do cristianismo, mas do planeta terra e da humanidade que é sua expressão147. No entanto, praticamente em todos os seus escritos ele faz referência a Deus, sem necessariamente contextualizá- lo religiosa e dogmaticamente. Gosta de denominá-lo de “Fonte Originária de
Todo o Ser”, por vezes referindo-se a Ele como Energia Universal, Vácuo
Quântico, Alimentador de Tudo...148 O que não deixa certamente de ser um risco, por tender a obscurecer o explícito evento bíblico da ação histórica de um
142 Teologia do cativeiro e da libertação, p. 141.
143 O Pai Nosso; a oração da libertação integral, pp. 55-56. 144 In Homem: satã ou anjo bom?, P. 67.
145 Hermann BRANDT, Leonardo Boff como teólogo protestante? Um balanço pessoal, in Estudos
Teológicos ano 48, no. 2: 5.
146 PRESIDÊNCIA E COMITÊ EDITORIAL, Leonardo Boff e Jon Sobrino: setenta anos de vida;
Concilium 328; 2008/5: 157.
147 Da libertação e ecologia: desdobramento de um mesmo paradigma, in AAVVc, Teologia e novos
paradigmas, p. 87.
148 Meditação da Luz; O caminho da simplicidade, p. 25.35; Virtudes para um outro mundo possível; vol.
Deus pessoal em meio ao povo eleito, e sobretudo a fé cristã da encarnação do Verbo divino. Além de poder favorecer a emergência de um neo-panteísmo pós-moderno e holístico.
A opção de Boff por essa maneira de fazer teologia, ainda que nem sempre muito bem-vinda por parte de alguns de seus críticos, tem, sem dúvida, caráter profético, e mostra com clareza que o mistério de Deus e do homem se evocam mutuamente. E sua cristologia é o momento culminante dessa intencionalidade. A humanidade encontra seu acabamento em Cristo. A estrutura crística que existe no coração da realidade humana não é um principio, mas uma maneira de viver a capacidade de abertura ao outro e a Deus. A possibilidade de ser um com Deus está inscrita no coração do homem. O cristianismo, muito mais largo que a religião cristã149, é a resposta a essa proposta de Deus, atualização da estrutura crística antropológica em cada homem para a sua salvação. Um tal modo de pensar teologicamente se distingue pela originalidade, pois, através dele se pode perceber e encontrar no coração do homem o coração de Deus150.
Para concluir este capítulo sobre a fisionomia de uma reflexão, é preciso convir que, não obstante os limites e as tendências holísticas que hoje caracterizam o pensamento do teólogo, ele apresenta com originalidade e maestria as bases antropológicas de toda teologia. Além disso, o inconformado teólogo, desconfiado de toda metafísica cristã convencional, e influenciado pela educação familiar e pela sua formação franciscana, não tem medo nem vergonha de mostrar sua sensibilidade e de “produzir uma teologia que evoque
beleza, que tenha fluidez linguística e inspiração poética”151. O grande mérito de Boff é lembrar à comunidade acadêmica que, antes de ser uma abordagem científica e reflexiva, a teologia é uma doxologia, o que reafirma o espírito profético da nova teologia. Sem dúvida,uma contribuição inestimável para a teologia e para as ciências como um todo152.
149 É o Cristo cósmico maior que Jesus de Nazaré?, in Concilium 319; 2007/1, p. 62.64.
150 Bruno CADORÉ (Recensão de) Jésus Christ Libérateur. In AAVV, Les livres, La Vie Spirituelle, n§
659: 266.
151 João Batista LIBÂNIO, Pensamento de Leonardo Boff, in Juarez GUIMARÃES (org.), Leituras
críticas sobre Leonardo Boff, p. 22
152 PRESIDÊNCIA E COMITÊ EDITORIAL, Leonardo Boff e Jon Sobrino: setenta anos de vida;