Neste capítulo os autores analisam dos percalços que ocorrem nos relacionamentos familiares e que culminam com a saída dos jovens de casa com destino às ruas. São várias as situações e conflitos que motivam a saída dos jovens de casa. O modo individualista com que as novas gerações estão sendo submetidas é uma das causas mais importantes dos conflitos familiares, não havendo um sentimento de unidade e pertencimento a um grupo, enfraquecendo os elos afetivos entre os membros de uma família, motivando o abandono do lar.
Vê-se que a estrutura familiar moderna está fragmentada, com o predomínio da figura materna, sem a autoridade do pai, situação que desestabiliza a relação familiar e deixa seus membros propensos a toda espécie de vulnerabilidade, seja afetiva, ocorrendo a dilaceração dos vínculos familiares e o abandono dos lares pelos jovens em buscas de novas perspectivas.
A dilaceração da família se dá em razão da separação entre pai e mãe, sendo que somente a mãe ainda permanece com a família e ela não consegue sozinha manter a união do grupo familiar. Também tem situações em que a mãe, ao buscar constituir nova relação, traz para casa uma outra pessoa - padrasto -, que não consegue ter um relacionamento com os filhos e aí, deste atrito, gera a saída dos jovens de casa. Seja pela figura de um pai ausente ou agressivo, seja pela incompatibilidade de relacionamento com um padrasto, a tensão nas relações familiares acontece e é a motivação que promove a ruptura completa dos vínculos familiares e a saída dos jovens para a rua.
Nas entrevistas realizadas pelos autores e constante na obra, vê-se testemunhos de jovens que relatam terem saído de caso em razão de um fato grave acontecido na família ou, mesmo por desentendimentos comuns, geralmente com o pai ou padrasto, proveniente de maus tratos e brigas.
Entretanto, alguns desses jovens demonstram sempre uma vontade de voltar para casa e reconstituir seus vínculos de forma a terem novamente uma ralação familiar. Percebe-se que sentem falta do convívio familiar e das pessoas que faziam parte da vida antes de abandonarem seus lares.
Contudo, ainda temem se repetir as situações que motivaram a saída de casa e por isso ficam indecisos quanto ao retorno.
Outro fator que dificulta a volta destes jovens a seus lares são as facilidades que encontram na vida da rua e a possibilidade mais atrativa do consumo de drogas. Estas duas coisas associadas são uma espécie de combustível que motivam estes jovens a permanecerem na rua. Na rua, encontram algumas condições de vida que são até melhores daquelas que tinham em suas casas, onde a falta de alimentação e cuidados eram até mais acentuados do que o modo como vivem na rua.
O consumo de droga é um dos fatores mais importantes causadores do afastamento destes jovens de suas casas. Alguns relatos informam que no momento em que a família percebe o uso de droga dos jovens, procuram ajuda e formas de tratamento ou mesmo afastar estes jovens das drogas.
Aí surgem os conflitos que motivam o abandono do lar pelos jovens, até para poder continuar usando drogas sem que haja cobranças por parte dos familiares. Na rua cada um é senhor de seu próprio destino e não é necessário dar explicações do que se faz ou deixa-se de fazer. Este sentimento de liberdade é muito buscado por todos os moradores de rua, embora com ele venham muitas outras situações e dificuldades.
O que se percebe no desenvolvimento do tema é que a obra foi desenvolvida com base em entrevistas aos jovens moradores de rua de Montevidéu, no Uruguai e, os relatos trazem situações fidedignas dos moradores que, com suas próprias palavras e maneira de se expressarem, trazem a notícia de como vivem, o que faze, quais são seus medos e angústias e seus planos para o futuro.
Importante destacar que nem sempre estas pessoas realmente vão dizer tudo aquilo que estão sentindo e vivendo. Às vezes, um desses depoimentos pode estar influenciado pelo momento que vive a pessoa no instante em que foi abordada para a entrevista, situação que poderia viciar as informações colhidas e também desvirtuar a análise dos fatos e informações obtidas em uma entrevista.
Exemplo disso é entrevistar algum jovem sob o efeito de drogas ou álcool. Neste momento a tendência deste jovem é traçar uma situação
mais favorável em relação à sua vida, já que nestes momentos, geralmente eufóricos, os medos, inseguranças e angústias são deixados para traz, ficando somente as esperanças e anseio por dias melhores.
Contudo, diante da grande quantidade de relatos colhidos, percebe-se uma certa homogeneidade nos fatos, percebe-sendo todos de certa forma conscientes da vulnerabilidade que estão expostos no convívio na rua, onde não se têm amigos, mas sim conhecidos, onde não se pode contar ou confiar em ninguém e que o ambiente onde vivem é cheio de incertezas e dúvidas quanto ao futuro.
Todos têm esperança em dias melhores e também com um possível retorno aos seus lares, mas vivem um dia de cada vez, sempre buscando alimento durante o dia e um lugar seguro para dormir à noite, sendo esta a sua rotina, tentando apenas sobreviver.
2.3 AS ORIGENS
Neste capítulo os autores buscam estudar e analisar as origens desses jovens que vivem nas ruas. De onde eles vêm e de qual ambiente saíram, qual era suas condições sociais e econômicas, bem como de como é o espaço que utilizam nas ruas e quais os motivos que levam eles a determinados pontos e lugares. Enfim, o que determina o ponto da cidade que escolhem para viver, depois de saírem de suas casas.
Nas análises dos autores e nas entrevistas, chegou-se à conclusão que estes jovens são oriundos de famílias muito pobres e sem nenhuma estrutura que possibilitasse as mínimas condições de subsistência, aliado às fracas relações familiares e o uso de drogas e álcool, que dificultava o convívio familiar e aproximou estes jovens das ruas como uma forma de se buscar um espaço onde fossem mais bem aceitos e que não houvesse cobranças em relação as suas atitudes.
Ainda com base nestas entrevistas realizadas, constata-se que a escolha pelo local aonde irão se fixar na rua se dá pela maior possibilidade de se ter acesso aos meios de sobrevivência e que também possam ter
acesso a apoio institucional do estado, objetivando acesso a serviços sociais que contemplem os moradores de rua e que de uma ou outra forma lhes proporcione algum benefício, por menor que seja, já que nenhuma perspectiva essas pessoas podem ter, o que faz com que qualquer forma de ajuda lhes seja sempre bem-vinda e necessária.