CAPÍTULO III EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, FONTE NUCLEAR E SUSTENTABILIDADE
3.2. Energia Nuclear e os indicadores de Sustentabilidade
A construção da noção de desenvolvimento, ao longo do século passado, impulsionou os Estados para a adoção de um modelo econômico insustentável, baseado em relações de produção e de consumo sujeitas à sucessivas crises, fazendo emergir a noção de sustentabilidade no final do século XX. Todavia, a abordagem do desenvolvimento sustentável, explica Maria Martins e Gesinaldo Candido (20-, p.2), “incorpora um conjunto de dimensões e indicadores que englobam de forma sistêmica o processo de construção do desenvolvimento”, com base em “aspectos sociais, econômicos, políticos, institucionais, ambientais, dentre outros”.
O movimento internacional pela sustentabilidade, liderado pela Comissão para o Desenvolvimento Sustentável (CDS) das Nações Unidas (Commission on Sustainable
governamentais, organizações do sistema das Nações Unidas e especialistas de todo o mundo (IBGE, 2008). A partir de 1992, o movimento foi se organizando pela Agenda 21, em um programa de trabalho composto por diversos estudos que buscavam tratar da relação entre meio ambiente e desenvolvimento sustentável. As duas publicações pela CDS, os Indicators of
sustainable development (ISD): framework and methodologies (“Livro Azul”), publicado em
1996, no qual foram apresentados para o cenário 2000, um conjunto de 134 indicadores que mais tarde se tornaram 57, e, em 2001, a publicação das Fichas Metodológicas e Diretrizes de Uso do ISD, contribuíram para os Estados se orientarem na construção dos seus próprios indicadores nacionais de desenvolvimento sustentável (IBGE, 2008, p.10).
O Brasil, segundo o IBGE (2008), se inspirou na metodologia da CDS para construir os indicadores nacionais, observando que:
[...] um dos desafios da construção do desenvolvimento sustentável é o de criar instrumentos de mensuração, tais como indicadores de desenvolvimento. Indicadores são ferramentas constituídas por uma ou mais variáveis que, associadas através de diversas formas, revelam significados mais amplos sobre os fenômenos a que se referem. Indicadores de desenvolvimento sustentável são instrumentos essenciais para guiar a ação e subsidiar o acompanhamento e a avaliação do progresso alcançado rumo ao desenvolvimento sustentável. Devem ser vistos como um meio para se atingir o desenvolvimento sustentável e não como um fim em si mesmos. Valem mais pelo que apontam do que pelo seu valor absoluto e são mais úteis quando analisados em seu conjunto do que o exame individual de cada indicador (IBGE, 2008, p. 9)
Nesse sentido, o relatório dos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS) do Brasil (IBGE, 2008), no que refere à dimensão ambiental, propôs a análise da atmosfera, da terra, da água doce, dos oceanos, mares e áreas costeiras, da biodiversidade e do saneamento. Na dimensão econômica foram analisados o PIB, a balança comercial, o grau de endividamento, a taxa de investimento, os padrões de produção e consumo, constando a geração e o armazenamento de rejeitos radioativos no indicador de nº 54. Na dimensão social foram analisados a população (demografia; diversidade étnica), o trabalho e rendimento per capita (índice de Gini12), a saúde, a educação, a habitação e a segurança. A dimensão institucional abarcou as ratificações de acordos globais, os conselhos municipais, os gastos com pesquisa e proteção do meio ambiente e o acesso à informação.
12 Coeficiente de Gini mede a desigualdade. O índice de Gini foi desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini, e publicada no documento "Variabilità e mutabilità" ("Variabilidade e mutabilidade"), em 1912. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Coeficiente_de_Gini. Acesso em 2 de fevereiro de 2018.
Conforme o relatório dos IDS do Brasil (IBGE, 2008), as variáveis usadas para medir a quantidade de rejeitos radioativos (de baixo e médio níveis de atividade) produzidos no Brasil, foram: i. o número de fontes radioativas; ii. o volume de rejeito produzido e armazenado; iv. a atividade radioativa nas unidades armazenadoras; e, v. os locais e formas de armazenamento. No relatório, sete indicadores estão relacionados com a geração de rejeitos radioativos, sendo estes: (01) as Emissões de origem antrópica dos gases associados ao efeito estufa; (47) o Consumo de energia per capita; (48) a Intensidade energética; (49) a Participação de fontes renováveis na oferta de energia; (55) a Ratificação de acordos globais; (57) os Gastos com Pesquisa e Desenvolvimento - P&D; e, (58) o Gasto público com proteção ao meio ambiente (IBGE, 2008, p.361).
Desse modo, como já apresentado no tópico anterior (2.1), os indicadores de sustentabilidade do Brasil, no quesito geração e armazenamento de rejeitos radioativos, têm sinalizado nas últimas décadas, para o aumento considerável da produção, armazenamento e reprocessamento de rejeitos radioativos. Todavia, o IBGE (2008) vai definir o conceito de:
[...] rejeito radioativo de baixo e médio níveis de atividade todo e qualquer material que, após o uso, contenha radionuclídeos em quantidades superiores aos limites estabelecidos pela Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN. As informações utilizadas para a elaboração deste indicador foram produzidas pela Eletrobrás Termonuclear - Eletronuclear e a Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN (IBGE, 2008, p.360).
Para a CNEN, segundo o relatório dos IDS (IBGE, 2008, p.361), o rejeito radioativo corresponde àquele resíduo “passível de reprocessamento para extração de urânio remanescente e produção de novas pastilhas de combustível nuclear”, por isso o caso do Brasil ter optado pelo armazenamento em piscinas de refrigeração. Os rejeitos radioativos se originam no processo de produção do combustível nuclear, durante a mineração do urânio e nas pastilhas usadas pelas usinas, bem como no despejo de radionuclídeos pelos hospitais, industrias, centros de pesquisa, etc. Nessas circunstâncias, as radiações presente nos resíduos, como já mencionado no tópico anterior, variam entre baixa, média e alta intensidade, sendo as usinas nucleares as maiores produtoras de resíduos com alta radioatividade. Entretanto, o lixo radioativo representa em um sentido mais amplo, todo aquele produto resultante da fissão nuclear, que ocorreu dentro do reator, ou no processo de extração, beneficiamento e enriquecimento do minério de urânio, no qual se transformou em outros elementos químicos, que podem contaminar o ambiente tornando-o radioativo, tais como: o Césio 137; o Bário; o Trítio; o Criptônio; o Plutônio 239 e
240 (produção de combustível mox); os rejeitos radioativos (uranium); e outros (ferramentas, roupas e outros materiais que estiveram em contato direto com esses elementos (CRIIRAD).
Figura 17 – Níveis de alerta do Acidente Nuclear
Fonte: AIEA113.
Contudo, para medir o grau de radioatividade em um incidente, ou a dimensão do risco em um acidente nuclear, a AIEA criou a Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES). Como podemos ver na Figura 17, a escala INES é uma ferramenta que facilita a comunicação rápida, de modo a assegurar maior segurança nos casos de incidentes ou acidentes nucleares a partir de um indicador escalar. Sendo assim, podemos quantificar a gravidade de um evento nuclear e radiológico com base em sete níveis de alerta: 1. Anomalia; 2. Incidente; 3. Incidente importante; 4. Acidente sem risco fora da localização; 5. Acidente com risco fora da localização; 6. Acidente importante; e, 7. Acidente grave.
Com o indicador escalar, os acidentes nucleares puderam ser mensurados de modo a revelar a dimensão do risco para a população e para o ambiente. Como já mencionado na introdução, muitos acidentes nucleares no passado foram abafados pelos governos que negligenciaram as devidas providências para a retirada da população do ambiente contaminado. Contudo, para a Comissão de Pesquisa e Informação Independentes sobre Radioatividade (CRIIRAD)13, as normas internacionais estão baseadas no modelo de risco de Hiroshima e Nagasaki, ou seja, o tempo medido de exposição ao material radioativo será relativo, porque depende de cada situação. Assim, conforme a CRIIRAD acredita, a pergunta a se fazer sobre o impacto da
13A CRIIRAD é uma associação francesa, aprovada como lei, em 1991, que vêm atuando no âmbito da proteção
do meio ambiente. Tem realizado estudos de forma independente, com uma proposta anti-nuclear, tendo por objetivo contribuir para as análises no campo da radioatividade.
produção nuclear é: quais são as normas utilizadas para avaliar o impacto da produção nuclear? Qual o modelo de risco mais representativo para aplicar na avaliação do impacto ambiental?
Nesse sentido, explica a CRIIRAD, no bombardeio atômico a exposição ocorre de forma rápida, imediata. No caso de La Hage, na França, por exemplo, quando o ambiente foi contaminado, essa exposição ocorreu diariamente e teve consequências imprecisas para a saúde da população e para o ambiente. Portanto, a CRIIRAD considera o modelo de risco adotado para fundamentar as normas internacionais não sendo representativo, porque não define os limites de exposição diária à radioatividade. O modelo realista deveria considerar a exposição acumulativa da população em contato com o ambiente contaminado. Todavia, a forma como são realizados os descartes dos rejeitos radioativos, se de forma segura e sustentável, bem como as ocorrência dos acidentes e/ou vazamentos nas principais instalações nucleares do mundo e, os impactos gerados com as guerras, nos bombardeios de armas atômicas, serão alguns aspectos a serem abordados no tópico a seguir.