Vários sociólogos alemães5, estudiosos da área de enfermagem
questionam, com base na teoria luhmanniana, se a enfermagem pode ou não ser considerada um sistema social funcionalmente diferenciado, assim como a medicina, o direito, a política e outros. (HOHM, 2002; SCHROETER & ROSENTHAL, 2005; SCHROETER, 2006; BAUCH, 2005, 2006).
Para que um sistema social se diferencie funcionalmente, ele precisa segundo Luhmann (1990), garantir a sua própria comunicação mediante um código binário, ou seja, por meio de uma distinção de duas possibilidades comunicativas, as quais identificam o sistema e capacitam-no a gerar novas comunicações.
No sistema de medicina, por exemplo, a comunicação se estabelece por meio do código de diferenciação saúde-doença. Nessa relação, a doença normalmente é considerada o ponto positivo e a saúde o ponto negativo do processo de diferenciação. Consequentemente, a medicina como também os demais profissionais da saúde, se orientam com base na doença do indivíduo em que a comunicação socialmente relevante acaba sendo a doença e não o processo de viver saudável do indivíduo. (SCHROETER & ROSENTHAL, 2005; SCHROETER, 2006; BAUCH, 2005, 2006).
Os sistemas sociais funcionalmente diferenciados operam, a exemplo da medicina, mediante códigos específicos. Somente quando se tem a idéia de uma inverdade é que se pode falar da verdade, ou de um direito quando se tem a compreensão dos não direitos. (BAUCH, 2005, 2006). É somente mediante um código específico que se pode pensar na auto-referência e na autopoiese, isto é, em um sistema autônomo.
Para Luhmann (1990), os sistemas sociais são autônomos, mas não independentes do entorno. Em outras palavras, os sistemas sociais são sistemas operacionalmente fechados, mas capazes de processar por eles mesmos os seus próprios elementos internos. Mediante o acoplamento estrutural, o sistema cria e
5 Vale salientar que na Bielefeld Universität, onde este estudo foi aprofundado por ocasião do
Doutorado Sanduíche, a sociologia possui uma relação direta com a área da enfermagem. Vários sociólogos se especializam e intitulam como sociólogos do cuidado de enfermagem ou da saúde. E, dessa forma, possuem uma atuação direta nos cursos de enfermagem, bem como na produção do conhecimento específico para a área.
recria as suas comunicações em rede com os demais sistemas sociais.
Para ser autônomo, o sistema de enfermagem necessita, assim como os demais sistemas sociais funcionalmente diferenciados, demarcar os seus limites e garantir as suas operações por meio dos seus elementos internos. Significa dizer, que a função específica da enfermagem somente pode ser realizada pela enfermagem e por nenhum outro sistema, mesmo que o cuidado não seja uma função exclusiva da enfermagem. (BAUCH, 2005, 2006).
Sob esse enfoque, é possível pensar num código específico para a enfermagem, que não seja o código binário saúde-doença?
Já existem algumas razões para se pensar nesta hipótese. Em seus estudos, Hohm (2002, p. 141), discute alguns códigos que podem ser considerados pelo sistema de enfermagem. Um deles diz respeito ao “cuidado-descuidado”, outro à “necessidade de cuidado-não necessidade de cuidado” e um terceiro à “competência para o cuidado-não competência para o cuidado”. O autor opta, portanto, em suas discussões pelo código “competência para o cuidado-não competência para o cuidado”, visto que com esta diferenciação, o sistema se garante por si mesmo e, já para a relação “necessidade de cuidado-não necessidade de cuidado” o sistema de enfermagem teria que se orientar pelo seu entorno.
Nesse momento, contudo, não se pretende aprofundar e nem mesmo encontrar um código específico para a enfermagem – tema para uma nova tese. Basta dizer, que esta reflexão é necessária e pertinente para que a enfermagem se constitua num sistema autônomo, ou no mínimo, para que se torne capaz de desenvolver novos referenciais que tenham como foco a educação e a promoção da saúde do indivíduo em seu contexto social.
A partir da década de 90, alguns profissionais da área da enfermagem brasileira vem se destacando no estudo sobre sistema de cuidados de enfermagem, dentre estes, merecem destaque a tese de Erdmann (1995) que reflete "A complexidade no cotidiano de um sistema organizacional de cuidados de enfermagem hospitalar" e a tese de Creutzberg (2005) sobre "A instituição de longa permanência para idosos e sua relação com o sistema societal: uma análise na perspectiva da teoria de sistemas de Niklas Luhmann". Mostram-se pouco relevantes, no entanto, estudos que abordam a questão do cuidado de enfermagem como produto de interações sistêmicas.
Para os sociólogos, a enfermagem é uma prática social. Uma prática, todavia, que se desenvolveu tradicionalmente por meio do código saúde-doença e, consequentemente, sob o monopólio da medicina. Um saber que se desenvolveu por meio de práticas caritativas à “sombra da medicina”, num contexto, em que prevalece o enfoque – doença como o centro de interesses. (BAUCH, 2006, p. 145). Na mesma direção Schmitt (2004, p. 127) argumenta que nas instituições de saúde observa-se o "paciente reduzido à doença e o médico transformado em Deus Criador" o que demonstra, a predominância de um modelo divisível, ineficiente e unidimensional.
Pensar na enfermagem como um sistema funcionalmente diferenciado significa, na perspectiva luhmanniana, desenvolver competências profissionais específicas, capazes de fortalecer a prática social e, dessa forma, se “desprender do sistema social da medicina”. (SCHROETER, 2006, p. 40).
Pensar na autonomia da enfermagem, a partir do exposto, implica num processo de desconstrução do código tradicional saúde-doença, predominante e hegemônico até os dias atuais no sistema denominado - saúde. Implica na superação de um código médico em que predominou e predomina até hoje a doença e não o indivíduo como elemento central e como garantia de novas comunicações.
Apostar na enfermagem como um sistema funcionalmente diferenciado e autônomo implica, em suma, desenvolver um código específico para a enfermagem. Um código, que tenha como foco a geração de novas comunicações por meio da educação, promoção e proteção da saúde. Esse processo requer, no entanto, por parte do enfermeiro, inovação, criatividade, ousadia e a capacidade de protagonizar e visualizar novos espaços de atuação profissional, por meio do ensino, pesquisa e extensão. Requer, igualmente, uma mudança no modelo assistencial e relacional, isto é, o desenvolvimento de práticas de cuidado que vejam o indivíduo no contexto de suas relações e interações sociais, ou seja, práticas de cuidado que vejam o indivíduo a partir das suas necessidades reais.