2 UM OLHAR MULTIDIMENSIONAL PARA CUIDAR DA
2.1 Especificidades da Formação em Enfermagem
2.1.1 Enfermagem e Educação: A importância do Trato
A fragmentação do ensino, a dicotomia entre sujeito e objeto, a razão versus emoção, infelizmente provocam no contexto acadêmico um espaço voltado puramente à profissionalização do ser. Assim, nem sempre se percebe a construção de um cenário que reconheça a subjetividade, que conheça o sentimento e emoções dos sujeitos e favoreça uma reflexão sobre a complexidade do humano. Consequentemente, o resultado desta formação, restrita e excessivamente profissional, é a geração de seres humanos aversos à condição humana, uma vez que não vivenciam sua subjetividade, sentimentos, e que não fazem dos erros a base para aprendizado e crescimento (BARBOSA; FONSECA, 2012).
O preparo dos discentes para sua vida profissional traz inúmeros desafios, como o resgate da dimensão primordial do cuidado: a relação entre humanos. Sendo assim, evidencia-se que a didática e a prática de ensino compõe uma multidimensionalidade
em que o docente deve favorecer a boa interação com o discente, no intuito de promover a construção do conhecimento e a aquisição de saberes (CYRINO; TORALLES- PEREIRA, 2004).
Ressalta-se que o ensino em Enfermagem vem sofrendo transformações nas diretrizes curriculares dos cursos de graduação e novas propostas pedagógicas são discutidas a fim de atender as necessidades demandadas no mundo globalizado. Assim, o desafio atual na formação do profissional enfermeiro é transcender o que é fixado na Lei de Diretrizes e Bases – LDB, formando profissionais que ultrapassem a perspectiva teórico-prática que o mercado de trabalho impõe, a fim de viabilizar a inovação e transformação da realidade (NETO, et al., 2014). Além disso, para Faustino et al., (2003), as transformações científicas e tecnológicas também propiciam novas formas de construção do conhecimento, refletindo político, econômico e socialmente.
Ângelo (1994) considera que o currículo de Enfermagem deve oportunizar uma estrutura educacional para a possibilidade humana, ou seja, uma educação que favoreça a pessoa agir, pensar e buscar um melhor conhecimento, propiciando ao discente o desenvolvimento de pensamento crítico e diferentes formas de ver o mundo. Sendo assim, destaca-se que a aprendizagem também pode se materializar em ambientes fora do contexto de sala de aula, favorecendo uma diversidade de realidades e situações.
No contexto da Enfermagem, verifica-se que a humanização tem sido focada no âmbito da formação dos profissionais de saúde, com vistas ao cuidado integral e valorização da dimensão subjetiva e social do processo de saúde-adoecimento. Sendo assim, o cuidado com o outro se manifesta através da preservação do cuidar saudável e significa zelo, solicitude e atenção, que se materializa no contexto da vida em sociedade. Neste sentido, o cuidar em Enfermagem consiste em empregar esforços para com o outro, objetivando proteger, promover e preservar a humanidade (CASATE; CORRÊA, 2012). Nesta mesma perspectiva, Silva e colaboradores (2009) salientam que o cuidado às pessoas se manifesta com o cuidado em estar com o outro, favorecendo uma vida melhor e mais saudável.
Destacamos que no âmbito da Enfermagem, ao cuidar do outro, o enfermeiro, muitas vezes, se depara com sentimentos de tensão, sofrimento e até mesmo dor. Estes, por sua vez, refletem o ser humano que é cuidado e também aquele que cuida. Assim, o cuidado de si na enfermagem, perpassa pela forma como esses profissionais cuidam e se relacionam com as pessoas que estão sob seus cuidados (SILVA et al., 2013).
E quanto aos discentes, será que eles têm dispensado também atenção e cuidado para si? Para Siappo, Núñez e Cabral (2016), o ingresso na vida universitária provoca uma infinidade de transformações na vida do estudante que podem levar a efeitos nocivos à saúde. Além disso, a intensa rotina de estudos, não se alimentar, não relaxar, não dormir adequadamente para desempenhar seus deveres acadêmicos, são outras condições que favorecem o processo de esgotamento físico e mental. Desta forma, é interessante que o acadêmico se conscientize da necessidade de ter um estilo de vida saudável, no intuito de estar bem para cuidar de si e, por conseguinte, do outro. Porém, a maioria das universidades não fomentam questões acerca da saúde, não possibilitando capacidades para que o próprio cuidado do aluno favoreça a adesão de hábitos de vida mais saudáveis. Assim, podemos dizer que ainda hoje forma-se para cuidar dos outros, mas não para cuidar de si.
Logo, o cuidado exige conhecer e cuidar de si mesmo, para conhecer e cuidar do outro, proporcionando melhora da qualidade de vida e atendimento humanizado a partir do conhecimento de valores, crenças, deveres e limites que integram o cuidado holístico, sem reduzir o outro ou a si mesmo a condição de objetos (TARGINO, et al., 2013).
Apoiando a concepção supracitada, Boff (2013, p. 174) elucida que:
[...] Cuidar da nossa saúde significa manter nossa visão integral, buscando um equilíbrio sempre por construir entre o corpo, a mente e o espírito e convocar o médico (corpo), o terapeuta (mente) e o sacerdote (o espírito) para trabalharem juntos visando a totalidade do ser humano.
Diante disso, salientamos a necessidade de cuidado deste profissional e também dos acadêmicos, de olhar para si e cuidar de si, de forma a perceber e reconhecer suas fragilidades, necessidades e anseios. Ademais, conviver com situações e experiências conflituosas de harmonia/desarmonia, equilíbrio/desequilíbrio/, também faz parte da constituição do cuidado de si. No entanto, estes indivíduos que prestam assistência à vida, sofrem constantemente sobrecargas emocionais que muitas vezes são ignoradas (SILVA, et al., 2014). Neste sentido, compreendemos que mesmo sendo preparados e especializados para prestação de um cuidado holístico, percebemos que esta mesma atenção com sua saúde, com os aspectos bio-psico-sociais não se faz presente na mesma proporção.
[...] A pior aberração do cuidado é sua negação. Como consequência, o ser humano se entrega totalmente à lógica do modo-de-ser do trabalho depredador, à vontade de poder sem freios, à autoafirmação com exclusão dos outros e ao mau-trato das pessoas, da casa, da coisa pública e de si mesmo. Aqui deparamos com o encaramujamento do ser humano, do seu próprio horizonte que, ao negar a essência do seu ser-cuidado, torna-se cruel consigo mesmo. O resultado é um processo de desumanização e de embrutecimento das relações.
Nogueira e colaboradores (2017) ressaltam que o estresse vivenciado no ambiente de trabalho, as relações interpessoais, estrutura e funções favorecem o desenvolvimento de vários danos à saúde do enfermeiro, que podem impactar negativamente sobre os aspectos socioeconômicos, físicos e mentais, além de gerar baixa qualidade dos cuidados prestados.
Goleman (2012) destaca que os ânimos bons ou maus, tendem a se perenizar, levando à distorção de percepção, sentimentos e lembranças, ou seja, quando nos sentimos animados, conseguimos enxergar os aspectos positivos das situações, aflorando da nossa mente as lembranças boas que vivenciamos. Mas, quando nos sentimos mal, focamos nossa atenção nas desvantagens e dificuldades. Relacionando ao contexto de ensino e aprendizagem, em uma relação conturbada entre docente e discente, é possível se estabelecer uma convivência envolvida por estresse, causando opressão mental, desmotivação e, até mesmo, desinteresse.
O estresse não só prejudica as habilidades mentais, mas também reduz a inteligência emocional das pessoas. Quando nos aborrecemos, torna-se mais difícil perceber corretamente as emoções alheias - o que restringe nossa competência mais básica necessária para a empatia e, assim, solapa nossas habilidades sociais (GOLEMAN, 2012, p. 13).
Partindo para outra compreensão, salientamos que em relação às áreas de atuação da Enfermagem, esta profissão tem galgado novos espaços, dentre eles, as salas de aula, possibilitando novos desafios e perspectivas. No entanto, por se tratar de uma atividade primeiramente voltada à assistência à saúde, as mudanças sociais e a ausência de formação pedagógica, constituem-se também em dificuldades enfrentadas diariamente por estes profissionais (FONSECA; FERNANDES, 2017).
Diante disso, Braga (2015) explana que é primordial que haja na relação de convivência, seja do enfermo, equipe, docente e discente, a criação de espaços de cuidados consigo e para o outro, estabelecendo um contato dialógico, em que à medida
que se cuida do outro, há também um cuidado de si. Nesse caso, acompanhar e avaliar a saúde dos envolvidos no cuidar, bem como, o cuidado empregado a estes, possibilita reprimir o processo de adoecimento, melhorar a qualidade das atividades realizadas e transformar quem cuida e quem é cuidado.
Considerando esta problemática, faz-se necessário o desenvolvimento de estratégias que possibilitem a formação dos profissionais de modo integral, com vistas a contemplar as subjetividades do ser humano. Assim sendo, no próximo tópico trataremos sobre a Formação Humana, enfatizando a sua importância e necessidade perante a formação profissional e às práticas docentes, com base na concepção de multidimensionalidade do ser, defendida por Ferdinand Röhr.