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No interior da práxis social se inter-relacionam diversas formas de práxis, dentre as quais o trabalho, a arte, a política, a medicina, a educação etc. (MARTINS, PRADO; REIBNITZ, 2006). A partir desse entendimento, estes autores acrescentam a Enfermagem como práxis social específica, uma das formas de práxis situada no âmbito das práxis de saúde, as quais compõem um conjunto de ações no processo saúde- doença, voltadas a satisfazer determinadas necessidades humanas.

[...] as formas específicas de práxis nada mais são do que formas concretas, particulares, de uma práxis total humana, graças à qual o homem como ser social e consciente humaniza os objetos e se humaniza a si próprio (MARTINS, PRADO; REIBNITZ, 2006, p.16).

Martins, Prado e Reibnitz (2006) buscaram a compreensão da práxis de Enfermagem como práxis social específica, com origem no cuidado ao Ser humano, mas a que, em função dos avanços tecnológicos e científicos observados na sociedade contemporânea, foram sendo incorporadas outras características, entendidas como cuidado indireto.

A partir do questionamento das especificidades da Enfermagem que a tornam uma expressão particular dentre as práxis de saúde, como também da importância de conhecê-las, esses autores concluem que, diferentemente da práxis produtiva, que é uma relação do homem (como sujeito) com a natureza (como objeto), na práxis de enfermagem, o homem é o sujeito e o objeto da ação.

Se o ser humano na práxis social, por conseguinte na práxis de enfermagem, é sujeito e objeto, significa dizer que, na condição de objeto, pode envolver-se conscientemente no exercício da práxis - mesmo sem dominar os instrumentos da práxis - bem como, na condição de sujeito, ter a intenção de transformar certa realidade, tornando-a mais humana (MARTINS, PRADO; REIBNITZ, 2006 p 17).

Nesse contexto de práxis social, onde o homem, na condição de objeto, envolve-se conscientemente e, na condição de sujeito, tem a intenção de transformar certa realidade, objetivando torná-la mais humana, é que cabe inserir a proposta teórica de Paulo Freire, pois, mesmo tendo sido originalmente pensada como uma pedagogia ultrapassa os limites da disciplina e passa a ser entendida, também, como “uma forma de ler o mundo, refletir sobre a leitura e recontá-lo, transformando-o pela ação consciente” (SAUPE ETT AL, 1998, p. 249).

Na Enfermagem, como práxis específica, seus sujeitos precisam conhecer e exercer o que é específico na busca de contribuir com a totalidade da práxis transformadora, pois esta totalidade envolve vários elementos tais como: o sujeito, o objeto, os instrumentos, a finalidade e o produto, voltado para a realização de um significado comum a todas as formas de práxis.

O sujeito da práxis, ou agente, é um ser prático (teórico- prático), dotado de consciência, sensibilidade, vontade de

criar e produzir para satisfazer suas necessidades humanas, "do estômago à fantasia" (Marx, 1996). Este ser é, em razão, o ser humano; e sua "atividade propriamente humana só se verifica quando os atos dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal, ou finalidade, e terminam com um resultado ou produto efetivo, real (MARTINS, PRADO E REIBNITZ, 2006 p.17).

Refletindo sobre a atividade propriamente humana, que para Martins, Prado e Reibnitz (2006) parte de uma finalidade e se encerra com um resultado efetivo, me reporto às ideias-força de Freire (1980, 2006, 2007), quando atribui à integração do homem ao seu contexto a reflexão e o comprometimento; à capacidade de discernir a percepção da realidade, que por ser externa será sempre desafiadora; e à resposta aos desafios que se lhe apresentam a transformação da realidade.

Com a consolidação da ciência, através da instituição da sociedade moderna, a prática do cuidar se transformou em profissão institucionalizada, portanto a prática da enfermagem profissional passa a utilizar como instrumento o conhecimento científico, enquanto o cuidado comum, natural da vivência nos grupos sociais, permanece inerente ao ser humano.

... o conhecimento científico. Este, sem dúvida é um dos principais instrumentos que o sujeito da práxis usa para adequar suas finalidades e, portanto, o elemento constitutivo fundamental que possibilita galgar o mais elevado nível de práxis (MARTINS, PRADO E REIBNITZ, 2006 p. 19).

Nesse contexto, o cuidado de Enfermagem é definido como a necessidade humana a ser suprida pelos agentes que passam por um preparo formal, fundado no conhecimento científico e por isso supera a Enfermagem tradicional, leiga. Para tanto, Martins, Prado e Reibnitz (2006) sugerem que a formação profissional deva aliar o conhecimento científico à filosofia, como instrumento para o exercício do pensar e cultivar o pensamento complexo, objetivando ter consciência de que o conhecimento científico específico deve ser adequado a sua finalidade imediata, qual seja a satisfação das necessidades humanas de cuidado.

Nesse sentido, estando no limite entre teoria e filosofia da educação, o pensamente de Freire pode colaborar com a construção de uma educação reflexiva na enfermagem, incorporando formas de educar críticas, problematizadoras e dialógicas, entendendo o educador e o educando como sujeitos do mundo, valorizando seu modo de viver e pensar, buscando a consciência crítica através de um processo

“práxico”, ético e interdisciplinar (MIRANDA E BARROSO, 2004). Igualmente, a prática da enfermeira, mediada pelas ideias de Freire, oportuniza ao profissional no ato de cuidar, como atividade de educação em saúde, construir uma prática crítica, libertadora, de respeito e valorização ao ente que está sendo cuidado.

[...] a Enfermagem, [...], configura-se numa articulação teórico-prática, fundada no conhecimento científico; uma práxis social específica que se constitui pela relação entre diversos atores sociais envolvidos no processo prático. É dessa relação social que depende seu compromisso com a saúde do ser humano e da coletividade,..., com a preservação da vida; relação esta, historicamente determinada - embora também determinante - pelo processo de produção em saúde inserida numa relação mais ampla do respectivo modo de produção da vida em sociedade,..., principal determinante do processo saúde-doença (MARTINS, PRADO; REIBNITZ, 2006, p. 21).

CAPÍTULO V

PERCURSO METODOLÓGICO

Considero condição preliminar para a escolha de uma temática a ser estudada contatos anteriores com o objeto de estudo aliados à empatia com a realidade vivenciada. O método a ser empregado no trabalho significa condição fundamental à apreensão da realidade e à aproximação do pesquisador com seus objetivos.