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Fala-se hoje, com insistência, no professor pesquisador. No meu entender o que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O de que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador. Paulo Freire

Este trabalho de pesquisa lança um olhar mais cuidadoso sobre o papel das tarefas investigativas no processo de constituir-me professora de matemática. Foram consideradas como parte integrante desse processo minhas vivências enquanto pessoa, aluna, professora com postura reflexiva, pesquisadora de minha própria prática, produtora de narrativas escritas e integrante do Grupo de Sábado.

O diálogo com a literatura desempenhou papel fundamental nesse processo, por ter-me:

• apresentado às aulas investigativas e ao seu potencial no que diz respeito à aprendizagem dos alunos e à constituição profissional do professor de Matemática;

• ajudado a compreender as narrativas reflexivas escritas como forma de apresentação, organização e análise das informações mas também como objeto de análise deste trabalho de pesquisa;

• possibilitado o contato com as idéias e as experiências de diferentes e distantes interlocutores.

O Grupo de Sábado por sua vez foi o berço e vem sendo o esteio de uma professora em constante transformação, pois com ele estamos aprendendo a refletir em conjunto sobre nossas próprias práticas utilizando a narrativa reflexiva escrita como ferramenta para comunicar fatos, aprofundar, ampliar e compartilhar reflexões.

Como alternativa de apresentação dos fatos que constituirão a base documental de análise deste estudo, apresentarei, a seguir, em forma de narrativa reflexiva, alguns episódios, aparentemente dispersos, mas representativos do caminho percorrido por mim e que considero relevantes e significativos para a compreensão deste. Para tanto, retomei minha trajetória de aluna à professora e de professora à investigadora de minha própria prática31. Foquei meu olhar em uma situação de sala de aula na qual se evidencia

a construção de um cenário mais adequado para a realização de atividades investigativas32. Em seguida, situei o contexto no qual essa situação ocorreu,

não de forma minuciosa, mas cuidando para registrar e discutir os aspectos que considerei relevantes no decorrer do trabalho desenvolvido. Apresentei, então, um episódio ocorrido em um dos encontros do Grupo de Sábado, no qual, nós, professores, vivemos a experiência de realizar uma investigação matemática com a intenção de, posteriormente, planejar tarefas investigativas33, tendo

como referência além da literatura alguma experiência própria. Descrevi a experiência de elaboração34, em conjunto com o Grupo de Sábado, das tarefas

31 Capítulo de título: Senta que lá vem história.

32 Capítulo de título: Preparando o cenário e ensaiando.

33 Capítulo de título: Nesse grupo a gente aprende ou desaprende? 34 Capítulo de título: Mais ensaios

investigativas que seriam aplicadas por mim em sala de aula, em duplas, bem como a realização dessas tarefas pelos alunos35. A conclusão deste trabalho de

pesquisa foi feita procurando tecer, como os fios de minhas experiências, passadas e presentes envolvendo aulas investigativas, o emaranhado que constitui minha prática docente.

As informações necessárias à elaboração dessas narrativas foram obtidas a partir de registros escritos por mim36 durante ou após as aulas, de

gravações em áudio37 e das produções escritas dos alunos38.

Os registros escritos por mim foram, primeiramente, feitos em folhas avulsas e, depois, arquivadas. Nelas constam registros, nem sempre literais, de falas minhas e de alunos, descrições de episódios de sala de aula e reflexões sobre os mesmos.

As gravações em áudio foram realizadas nos momentos de preparação do Grupo de Sábado para o trabalho com aulas investigativas, sobretudo o planejamento das tarefas investigativas e também durante a atividade dos alunos na realização das tarefas investigativas planejadas.

As produções escritas dos alunos são relativas às atividades investigativas em classe e correspondem ao registro de suas estratégias de resolução, bem como às justificativas das decisões tomadas ao longo da exploração da tarefa.

35 Capítulos de títulos: O grande dia e Olhando para o que eu fiz e para o que eles fizeram ... 36 R.E.P. será a sigla utilizada quando eu estiver me referindo ou transcrevendo um registro escrito meu.

37 T.G.A. será a sigla utilizada quando eu estiver me referindo ou transcrevendo uma gravação em áudio

38 P.E.A. será a sigla utilizada quando eu estiver me referindo ou transcrevendo uma produção escrita de aluno.

As narrativas não representavam apenas uma forma de apresentação e de sistematização dos acontecimentos. Ao produzi-las, ocorria um primeiro afastamento e estranhamento entre eu e os fatos. Esse estranhamento dava origem a crises, pois, através da escrita, refletia sobre minha prática e tomava conhecimento das limitações de meu trabalho, de meus saberes e de minhas próprias idéias. Assim, ao refletir por escrito, criava condições para que outras reflexões e elaborações ocorressem a partir desses escritos. Esperava, com isso, produzir condições para análises mais profundas e conclusões mais consistentes.

Nas narrativas, as vozes dos integrantes do Grupo de Sábado nem sempre estão explícitas e muitas vezes confundem-se com minha voz, pois delas me apropriei visto que também eu sou integrante do Grupo de Sábado e muitas vezes fica impossível distinguir as reflexões que elaborei sozinha das que elaboramos de modo compartilhado no Grupo.

Neste grupo a gente aprende ou desaprende?