O Vale do Iguape é uma antiga região conhecida pelos historiadores, sobretudo pela presença maciça das populações negras, visto que nos idos tempos coloniais o territorial dispunha de condições mais que necessárias para a instalação de engenhos de cana-de-açúcar, ressaltada pela tipologia do solo: massapê, riquíssimo em nutrientes para consolidar tal empreitada de produção. Sabe-se que em virtude da instalação de engenhos se fez necessária mão-de-obra nas lavouras, nesse sentido, o tráfico negreiro direcionou africanos e africanas das diversas nações para região convergindo em descendentes das populações negras africanas, fruto da diáspora.
Uma das principais características e legados das populações negras desembarcadas no Recôncavo está no âmbito da Cultura e Religiosidades, para além das inovações tecnológicas trazidas e desenvolvidas. Marcas dos povos Jejês, Nagôs, etc se entrelaçam no cotidiano, respirados pelos povos do Recôncavo. Nesse ínterim, são destacadas as práticas devocionais dos moradores do Vale do Iguape, para quem festejar os santos, celebrá-los e homenageá-los em forma de devoção movimenta e mobiliza a região. A senhora Filinha narra sua prática devocional ao rememorar que:
Eu mesmo tenho devoção com Nossa Senhora da Conceição, não faço festa aqui em casa pra ela pra ela não, mas todos os anos eu vou pra missa, compro um pacote de vela e meia dúzia de foguete e levo no dia da missa. Só esse ano que passou eu não fui, tava um pouco ruimzinha, mas mandei comprar e mandei leva esse ano com fé nela eu vou, já tô boa...(Maria Francilina).
É notória a relação estabelecida entre a devota e a santa. A identificação com Nossa Senhora permite evidenciar o ponto de equilíbrio condicionado aos aspectos da religiosidade. Prática diversa emerge das memórias de Dona Miluzinha, que faz questão da festa em como sinal de sua devoção, buscando adequar as condições para sua realização. Ao narrar suas memórias a referida senhora conta que:
Eu dou caruru há mais de 40 anos no mês de setembro pra Cosme e no mês de Dezembro pra Santa Barbara . Teve um ano que dei no mês de Janeiro por que os sábados já tavam todo tomado por lugar pequeno, não pode dar dois três caruru no mesmo dia fica chato. Uma devoção que eu não deixo é a reza do dia 16 de agosto e a pipoca...essa porque era de mamãe tenho muito medo das coisa que ela contava, que já aconteceu voltar, disse que por aqui foi muita mortes, não foi brinquedo não, morria gente que parecendo brincadeira, de minha família mesmo... vixe! Disse que morreu e foi muita...(Almelinda de Jesus, conhecida como Dona Miluzunha)
A presença de devoções diversas revela o quão multifacetado são os elementos das religiosidades das populações negras, nota-se também que não existe uma exclusividade de crenças religiosas, nesse sentido, se agrega devoções. Destaca-se a importância creditada ao santo homenageado no mês de Agosto: São Roque, santo este que consegue congregar a maioria dos moradores do Vale do Iguape. É pertinente ressaltar as formas a qual a senhora Miluzinha homenageia o São Roque ofertando pipoca e a reza, além de dar os créditos iniciais da devoção a sua mãe, atentando para a necessidade de manter a tradição atuante e evitar possíveis sanções advindas de rupturas.
A tradição é construída a partir de uma memória que parte da experiência vivenciada, uma tradição que se reatualiza constantemente. Daí uma noção mais rica para cultura, que é a do fluxo, da fluidez, da dinâmica cambiante. E, ainda, a de que “o popular não é um monopólio dos populares”, como descreveu Abreu (1999).
Se por um lado a História representa fatos distantes, de outro a memória age sobre o que foi vivido. Nesse sentido, não seria possível trabalharmos a memória como documento histórico. Essa posição hoje é muito contestada. Montenegro
(2001) por exemplo, considera que apesar de haver uma distinção entre memória e História, essas são inseparáveis, pois se a História é uma construção que interpreta o passado do ponto de vista social, é também um processo que encontra paralelos em cada individuo por meio da memória.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As formas particulares e coletivas de celebrações as entidades e divindades religiosas transparecem o quão rico e vasto são os elementos culturais das populações negras do Recôncavo. O Vale do Iguape, como região pertencente ao Recôncavo Sul da Bahia não foge a essa lógica, sobretudo se levarmos em consideração os povos africanos desembarcados na Bahia via o tráfico negreiro.
Através dos depoimentos orais e amparada pelas memórias dos indivíduos que deixam transparecer impressões individuais e coletivas, foi possível refletir acerca de formas peculiares de louvores aos santos protetores, numa demonstração clara da vinculação das populações negras às religiosidades, onde sempre esteve presentes o respeito pela ancestralidade e valorização da oralidade.
Na comunidade estudada estão presentes as marcas da herança cultural africana, percebida nas devoções praticadas. Às missas e procissões somam-se as rezas aos santos de devoção, os carurus ofertados como agradecimento ou pedidos a vários santos e a principal manifestação religiosa que é a esmola cantada em homenagem a São Roque, que também é cultuado como Obaluaê na comunidade.
Na Esmola Cantada a prevalência é do entoar do samba, que traz em seus pedidos de proteção contra as doenças e de cura para os que já estão enfermos. O samba é marca inerente de uma ancestralidade africana que também atribui ao sobrenatural poder de cura para os males do corpo e da alma. As celebrações que manifestam a fé e devoção dos sujeitos que se reconhecem como comunidade quilombola são feitas como forma de garantir a proteção e benevolência dos santos e divindades africanas e indígenas cultuadas na localidade, refletindo uma percepção de que essas divindades têm poder para realizar tais feitos.
Ademais, é possível inferir que a memória é um campo de estudos históricos que vem buscando e conquistando espaço na produção científica. Vezes representando a metodologia abordada, vezes ofertando o suporte entendido como fontes históricas. Foi através dessas memórias e dos relatos orais que tornou-se possível enfatizar aspectos das religiosidades das comunidades remanescentes de quilombo, atentando para os sentidos e significados empreendidos nos atos devocionais.
FONTES ORAIS
Almelinda de Jesus, conhecida como dona Miluzinha, nascida em 09-04-1937 natural da comunidade Quilombola do Engenho da Praia zona rural da cidade de Cachoeira localizado no Recôncavo da Bahia. Exercia a atividade de Lavradora, aposentada, religião de matriz africana.
Carlos dos Santos nascido em 05-03-1950, na comunidade Quilombola do Kalembá, zona rural da cidade de Cachoeira localizado no Recôncavo da Bahia. Exercia a atividade de pescador, aposentado, religião de matriz africana.
Dulce Marlir Santos, nascida em 28-10-1952 na comunidade quilombola do Engenho da ponte zona rural da cidade de Cachoeira - Recôncavo da Bahia. Exercia a atividade de lavradora, aposentada, religião de matriz africana.
Edite dos Santos, apelido Judite do azeite, natural da Comunidade Quilombola do Kalembá zona rural da cidade de Cachoeira - Recôncavo da Bahia nascida em 05- 01-1945, devota ativa da festa de são Roque e praticante dos cultos de matriz africana onde tem uma devoção especial com Obaluaê.
Emilia da Cruz dos Santos nascida em 15-03-1955 na comunidade Quilombola de Santiago do Iguapé zona rural da cidade da Cachoeira - Recôncavo da Bahia marisqueira, aposentada, religião de matriz africana.
Julia Almeida Cardoso, nascida em 08-06-1924 natural da comunidade Quilombola do Engenho da Ponte zona rural da cidade de Cachoeira- Recôncavo da Bahia exercia a atividade de marisqueira, aposentada, religião de matriz africana.
João Abade Confessor, nascido em 12-07-1950 natural da comunidade Quilombola do Engenho da Ponte zona rural da cidade de Cachoeira - Recôncavo da Bahia exercia a atividade de pescador, aposentado, religião de matriz africana e cantador de esmola na comunidade.
Lucio Barbosa, nascido em 15-03-1955 natural da comunidade Quilombola do Engenho da Praia zona rural da cidade de cachoeira localizado no Recôncavo da Bahia exercia a atividade de pescador aposentado, religião católica.
Maria Fracelina de Jesus, nascida em 20-10-1931 na comunidade Quilombola do Engenho da Praia zona rural da cidade de Cachoeira localizado no Recôncavo da Bahia exercia a atividade de lavradora, aposentada, religião de matriz africana. Maria São Pedro Cardoso. Apelido dona Nega. Natural da comunidade Quilombola do Engenho da Ponte, zona rural da cidade de Cachoeira - Recôncavo da Bahia. Data de Nascimento: em 30 de outubro de 1918. Falecimento: Dezembro de 2014. Profissão: Lavradora.
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