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4.2 Codificação: elementos de frame e suas variáveis

5.1.1.3 Enquadramento do Trabalho

1. Grupo de 1960 - 15 notícias

para viver em sociedade, como as idéias de “integração”, “recuperação”, “reabilitação”, “re-adaptação” e “reeducação”. (60%);

- Solução: Está no trabalho, na produção, no emprego, no treinamento profissional ou na ainda na qualificação para vagas de alto nível. (53%);

- Solução: A solução está na educação, seja através de ensino especial, seja através de classes especiais no ensino comum, seja através de classes comuns no ensino regular, ou ainda através de ensino de excelência, que desenvolva as potencialidades da pessoa com deficiência. (53%);

- Causa: Foco no aspecto físico. O problema é visto como físico, corporal, a deficiência em si. Ou tecnológico, no sentido de falta de próteses, transplantes etc. A questão conti-nua sendo física, já que essas são tecnologias que são utilizadas como extensões do corpo. (47%);

- Termos: Técnicos ou oriundos da medicina. (40%);

- Termos: Que remetem à pessoa com deficiência como vítima, o que gera um sentimento de piedade. (40%);

- Termos: Adotados informalmente e preferidos pelas pessoas com deficiência. (40%); - Solução: Está na medicina, na área da saúde, através de cirurgias, próteses, transplantes ou então na ciência, através de pesquisa. (40%).

2. Grupo de 1968 - 20 notícias

- Termos: Técnicos ou oriundos da medicina. (65%);

- Solução: Está no trabalho, na produção, no emprego, no treinamento profissional ou na ainda na qualificação para vagas de alto nível. (50%);

- Causa: O problema é visto como de ordem profissional, dizendo respeito ao trabalho. (50%);

- Termos: Promovidos pelo campo da educação. (45%);

- Solução: A solução está na educação, seja através de ensino especial, seja através de classes especiais no ensino comum, seja através de classes comuns no ensino regular, ou ainda através de ensino de excelência, que desenvolva as potencialidades da pessoa com deficiência. (45%);

- Solução: Está na medicina, na área da saúde, através de cirurgias, próteses, transplantes ou então na ciência, através de pesquisa. (45%);

- Solução: Está nas mãos da pessoa com deficiência e de sua família, através do esforço, luta pessoal, tratamento psicológico ou mesmo aceitação da própria condição. (40%); - Slogans: Que indicam a necessidade ou a noção de preparação da pessoa com deficiência para viver em sociedade, como as idéias de “integração”, “recuperação”, “reabilitação”, “re-adaptação” e “reeducação”. (40%);

- Slogans: Que indicam a necessidade da pessoa com deficiência superar a deficiência. É quase uma busca incessante por cura, por ser normal, ou o mais próximo possível. (40%).

O enquadramento do trabalho foi encontrado em dois anos da amostra: 1960 e 1968. O grupo de 1960 tem 15 notícias, 17% das matérias do período. É preciso esclarecer aqui que a presença de soluções ligadas à educação e à medicina se deve ao mesmo motivo indicado para a presença de solução ligada à medicina no enquadramento educacional. Em ver-dade, aquelas instituições que mencionamos acima que ofereciam educação e atendimento médico, também possibilitavam aos seus frequentadores a participação em treinamentos profissionais. Por exemplo, são muitas as notícias que citam atividades ligadas à terapia ocupacional nestas entidades de apoio à pessoa com deficiência. A terapia ocupacional acaba que é um tratamento que focaliza no físico, na questão corpórea, mas muitas vezes envolve a preparação para uma atividade profissional. Inclusive, neste período, trabalho para a pessoa com deficiência se resumia a isso: atividades menos complexas, em que eles produziam ou artesanato ou montagem de determinados produtos ou mesmo serviços repetitivos, que, depois de treinados, eles davam conta de executar.

Ou seja, o slogan que marca este grupo tem relação com esta noção de trabalho que é empregada: a pessoa com deficiência era treinada, ou, passava por um processo de reabilitação, para que ela conseguisse desenvolver alguma atividade útil. Mas essa atividade, encarada como um trabalho profissional, na verdade, se resumia, muitas vezes, a oficinas protegidas, onde as pessoas com deficiência executavam tarefas não complexas. Em outras palavras, não havia um emprego formal e sim a atividade laborial, remunerada, mas que tinha como intuito apenas tornar aquelas pessoas úteis para a sociedade.

Como afirmamos acima, ainda que, no codebook final, as soluções ligadas ao trabalho tenham sido agrupadas (produção, emprego, treinamento profissional, qualificação para vagas de alto nível), nas codificações anteriores é possível identificar que, em 1960, a questão se resumia à produção e treinamento profissional. O trabalho executado por pessoas com deficiência que é mencionado nestas matérias é tido como uma atividade laborial com a finalidade de tornar essas pessoas úteis, apenas isso. O sentido é: vamos dar ocupação a elas, já que o indivíduo deve ser útil à sociedade. Ou seja, é uma noção bem restrita de trabalho.

Assim sendo, ainda que tenhamos a presença de solução ligada à educação e à área da saúde, o marcante neste grupo de notícias é justamente a atividade laborial ou o

treinamento profissional com vistas à reabilitação. É uma preparação da pessoa com deficiência para que ela possa viver como as outras pessoas: tendo atividade de trabalho e sendo útil à sociedade. Essas soluções periféricas neste grupo aparecem como outros tratamentos que a pessoa com deficiência também deve ter.

O problema aqui é visto como causado pela situação corpórea, porque o que muitas vezes impede a execução de uma atividade de trabalho é a própria limitação física. Daí que é preciso treinamento, terapia ocupacional, para que esses indivíduos consigam realizar as tarefas.

São utilizados diferentes tipos de termos e a presença dos termos oriundos da medicina reforça o que já dissemos com relação à educação. Nesta época, os dois grandes campos que tinham proeminência na definição dos sentidos atribuídos à deficiência era a educação e o campo médico ou da saúde. A presença dos termos que remetem à pessoa com deficiência como vítima, digna de pena, acaba que é reflexo da força, no período, do enquadramento dacaridade. Abaixo, trecho de notícia que tem grande parte das características definidoras deste grupo:

• EXEMPLO 6

Moderno estabelecimento para a reabilitação dos incapacitados

Está sendo construído na Tijuca o Centro de Recuperação e Reabilitação do Acidentado, anexo à Casa de Saúde Santa Teresinha

(O Globo, 25 de julho de 1960)

O desenvolvimento crescente e vertiginoso do país fêz despertar os nossos meios sociais e industriais para um problema de caráter humano e também econômico, relacionado com o crescimento e a grandeza de uma nação que, como a nossa não pode prescindir da capa-cidade realizadora de todos os seus cidadãos – a Reabilitação dos Incapacitados.

Mas, a reabilitação dos incapacitados exige estabelecimento próprio, equipado com apare-lhamento indispensável à aplicação da técnica cirúrgica e clínica, bem como terapêutica ocupacional, pessoal treinado e habilitado a lidar com o incapacitado para processar a sua readaptação ou reeducação, reabilitando-o e restituindo-o às atividades úteis da sociedade. [...]

Já no grupo de 1968, que tem 20 notícias, ou 40% das matérias do ano, a causa, diferentemente daquela reincidente no grupo de 1960, já deixa de ser majoritariamente a questão física e passa a ser efetivamente a questão profissional. Tem início, assim, uma visão de trabalho que excede um pouco aquela noção de retorno simplesmente às atividades úteis da sociedade. Já se inicia com mais força um encaminhamento a empregos formais, depois, claro, do processo de preparação para o trabalho a que são submetidas as pessoas com deficiência. Por isso, a reincidência da solução médica, já que muitas vezes esses treinamentos contam com sessões de fisioterapia etc.

Esse enquadramento apresenta um “valor organizatório” baixo, para utilizar um termo de Reese (2001), visto que são sugeridas várias soluções, o que, num primeiro momento aparenta uma certa contradição. Muitas matérias reúnem em um só texto vários tipos de tratamento e de solução para a questão. Muitas vezes, as três soluções, trabalho, educação e tratamento médico, aparecem juntas, mesmo quando o assunto principal é especificamente o trabalho, por exemplo.

A solução para o problema passa também a ser apontada como estando nas mãos da própria pessoa com deficiência e de sua família. Isso porque inicia-se uma ampliação do escopo de profissionais que passam a lidar com a questão. Antes, o foco passava muito pelo tratamento físico, seja para o restabelecimento corpóreo ou cura, ou mesmo para a preparação laborial. Ou ainda, pelo âmbito educacional. Agora, o lado psicológico da questão aflora. Começa-se uma tendência a perceber que o problema extrapola apenas o tripé educação/trabalho/saúde. A pessoa com deficiência sai também, nesse sentido, tanto de uma posição de vítima, digna de piedade. Ela também está envolvida no processo de restabelecimento. Por isso a indicação da necessidade de superação. Porém aqui, a superação não é das limitações, mas muitas vezes uma busca por cura mesmo. Superar no sentido de deixar para trás a deficiência. Abaixo, exemplo para ilustrar:

• EXEMPLO 7

Centro recupera quem é incapaz para o trabalho

(O Globo, 07 de agosto de 1968)

Com uma média de 365 atendimentos diários, o Centro de Reabilitação Profissional, da Secretaria de Bem-Estar, possibilita a recuperação de pessoas dadas como incapazes para a vida profissional, com o auxílio de aparelhagens, equipamentos e pessoal de primeira categoria. O Centro, anexo ao Ambulatório do INPS de São Francisco Xavier, recebe pa-cientes da Perícia Médica e da seção de Acidentes de Trabalho e os submete a um perfeito trabalho de recuperação.

O paciente recebe o tratamento adequado à sua deficiência e ao ser considerado apto é levado a fazer estágios em emprêsas para que possa voltar, em igualdade de condições, à vida profissional. Uma equipe de médicos, psiquiatras, assistentes sociais e outros especi-alistas, coordenada pelo Dr. Hugomar Pires Vieira, trabalha, diariamente, em dois turnos de atendimento.

Tratamento – Os pacientes enviados ao Centro de Reabilitação passam por um exame físico e psico-sócio-econômico, feito por um médico e um assistente social. Conhecido o resultado, o paciente é encaminhado aos setores de tratamento. De acôrdo com suas de-ficiências, passa pelos setores de Fisioterapia, Terapia-Ocupacional, Terapia da Palavra, Psicologia e Educação Básica. Durante o tratamento, o paciente recebe auxílio-transporte e medicamentos.

emprêgo apropriado para o paciente. Para tal existe uma Agência de Colocação de Em-prêgo, encarregada de estudos e pesquisas de trabalho e mão-de-obra, que utiliza recursos da comunidade para treinamento profissional. Um convênio assinado com emprêsas possi-bilita um estágio ao recuperado, que poderá ser efetivado, caso assim o deseje a firma que o instruiu. [...]